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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Caixas para a exportação de açúcar

Os senhores de engenho frequentaram, durante bastante tempo, o topo da pirâmide social no Brasil, mas não foram os únicos a lucrar com a produção e exportação de açúcar. Havia uma série de outras atividades, relacionadas à produção açucareira, que podiam ser bastante lucrativas. Dentre elas, estavam o cultivo de cana-de-açúcar, empreendido pelos chamados "lavradores" que vendiam a safra para algum engenho, a construção de barcos destinados ao transporte fluvial do açúcar até os portos e a fabricação de caixas, nas quais o açúcar era acondicionado para exportação. Sobre essa última atividade, os Diálogos das Grandezas do Brasil (¹) nos informam que:
  • Havia gente especializada em vender as ditas caixas aos senhores de engenho;
  • As caixas eram fabricadas mediante trabalho escravo;
  • A madeira usada para as caixas devia ser mole e fácil de cortar.
Vejamos, então, o que diz o Diálogo Terceiro, quando Alviano interroga Brandônio:
"E os próprios moradores são porventura os que lavram e serram essas madeiras?" (²)
A resposta de Brandônio é bastante reveladora sobre as condições sociais no Brasil do começo do Século XVII:
"Não, porque a gente do Brasil é mais afidalgada do que imaginais; antes a fazem serrar por seus escravos, e há homem que faz serrar em cada ano mil e dois mil caixões de açúcar, que vendem aos senhores de engenho [...]." (³)
Volta a falar Alviano:
"E de que paus se lavram essas madeiras para caixões?" (⁴) 
Brandônio explica:
"Os caixões se fazem de [...] mongubas, buraremas, visgueiro, pau-de-gamela, e um pau que chamam de-alho, e outro branco; e dos tais há diversas castas, porque para caixões se busca madeira mole, por ser mais fácil de serrar." (⁵)
Não era, portanto, apenas na lavoura de cana-de-açúcar ou nas moendas e demais instalações dos engenhos que o sangue e o suor dos escravos faziam funcionar a economia colonial. Também no manejo das serras para corte das árvores e fabricação das caixas, bem como em muitas outras tarefas, era a força de trabalho dos cativos, quer indígenas, quer de origem africana, que, em grande parte, ainda que não exclusivamente, movia a máquina colonial, da qual resultaria o Brasil que hoje conhecemos.

(1) A autoria é atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão, que teria escrito os Diálogos no começo do Século XVII.
(2) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 186.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O que aconteceu ao "rei do Brasil"

Não só a Grande História tem episódios notáveis. Podem acreditar, leitores: a História miúda também os tem, com mais sabor e encanto (às vezes) e um acento de tragédia (também eventualmente). O caso de que trataremos hoje foi contado por Antônio de Santa Maria Jaboatão, que, mesmo não impondo data estrita ao acontecimento, fez menção dele no contexto do estabelecimento de povoações de colonizadores e do confronto com povos indígenas no Nordeste brasileiro. Refere-se a um curioso indivíduo, autoproclamado "rei do Brasil".
Chamava-se Sebastião de Pontes, era português e tinha dois engenhos na Bahia. Queria mais, e foi tratar do estabelecimento de um terceiro engenho, para o qual projetou contar com o trabalho de indígenas escravizados. "[...] fabricou o terceiro engenho", escreveu Jaboatão, "domesticando [sic] muitos dos naturais tapuias ao seu mando e serviço, fazendo-se na terra, sobre poderoso, insolente". (¹)
Os empreendimentos iam bem, tão bem que o sujeito começou, em suas gabolices, a se dizer rei das terras em que pisava. Podia ser apenas bazófia, mas, nesse tempo, mesmo uma brincadeira de tal espécie era perigosa (²). Não tardou para que o tagarela fosse denunciado e, por essa razão, conduzido ao Reino, onde o hospedaram na mais famosa das prisões, da qual não sairia senão após exalar o último suspiro. Continua o relato de Antônio de Santa Maria Jaboatão: "[...] foi acusado na Corte e entre os crimes que imputaram os ofendidos, foi nomearem-no por rei ou régulo do Brasil, pelo qual foi levado ao Reino e, do Limoeiro, sem se falar mais nele, depois de muitos anos foi levado à sepultura, com o custo só de um tostão [...]" (³). Final melancólico, sem dúvida, para o reizinho inconsequente.

(1) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil,  Primeira Parte, Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 94.
(2) Muito mais juízo que Sebastião de Pontes teve Amador Bueno, a quem, no Século XVII, tentaram fazer rei em São Paulo. Percebendo o problema em que poderia ser envolvido, recusou peremptoriamente a "aclamação".
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Op. cit., p. 94.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Senhora de engenho

Engenhos coloniais eram comandados por homens, seus proprietários, conhecidos como senhores de engenho. Os Séculos XVI e XVII, com predominância deste último, foram tempo em que tais personagens mandavam e desmandavam, retendo, em suas mãos, o poder decisório que jorrava da força econômica. É inegável que, neste cenário, as mulheres tinham pouca oportunidade para protagonismo: viviam, como regra, trancafiadas em casa, saíam às ruas cobertas por mantilha e apenas para poucas atividades (como ir às igrejas, por exemplo), isso quando não eram mandadas pelos pais para algum convento ou retiro (¹). Distinções sociais também significavam distinções no modo de vida das mulheres, embora nunca significassem ampla liberdade e igualdade de direitos em relação aos homens.
Mas havia exceções. Uma delas, apenas para citar um exemplo, foi Leonor Soares, senhora de engenho na Bahia, de quem Gabriel Soares de Sousa escreveu: "À mão direita deste engenho de Sua Majestade está outro de dona Leonor Soares, mulher que foi de Simão da Gama de Andrade, o qual mói com uma ribeira de água (²) com grande aferida [...]." (³) 
Notem, leitores, que desse documento se infere que Leonor Soares somente se tornara senhora de engenho em razão do falecimento do marido. O fato de que agora fosse a proprietária talvez indique que não tinha filhos do sexo masculino em idade suficiente para o comando dos negócios da família. É pouco provável, porém, que no dia a dia, a vida dessa senhora fosse muito diferente da que tinham as mulheres de sua idade e condição social.

(1) Chegou a haver uma lei que proibia o envio de moças brasileiras para conventos em Portugal, porque se entendia que a terra tinha poucos colonizadores e era preciso que as jovens se casassem e tivessem filhos no Brasil, para aumentar a população. 
(2) Gabriel Soares foi senhor de engenho na Bahia por dezessete anos. Portanto, sabia reconhecer um bom engenho, como parece ser o caso desse, um engenho real, já que moía com a força da água.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 132.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Quantas embarcações um engenho colonial devia ter

Não bastava a um engenho colonial produzir açúcar de boa qualidade. Para que o senhor de engenho pudesse comemorar os lucros, era preciso que a mercadoria, acondicionada em caixas de madeira, fosse vendida e levada ao porto, de onde, em navios, partiria para a Europa. 
No Brasil colonial quase não havia estradas. No melhor dos casos, havia caminhos cheios de buracos ou, em época de chuvas intensas, cheios de lama. Por causa disso, considerava-se que o melhor lugar para a instalação de um engenho era bem perto do mar, se possível; não sendo assim, devia, ao menos, não estar longe de um rio que possibilitasse acesso ao Atlântico. Em carros de bois, as caixas de açúcar eram levadas a um pequeno cais ou à margem do rio e, em embarcações apropriadas, conduzidas, então, ao porto que recebia navios capazes de cruzar o oceano.
Sendo assim, quantas embarcações um engenho deveria ter, a fim de garantir a remessa, sem atrasos, do açúcar produzido? Na segunda metade do Século XVI, de acordo com Gabriel Soares (ele próprio um senhor de engenho), deviam ser quatro, no mínimo:
"E são tantas as embarcações na Bahia, porque se servem todas as fazendas por mar;  e não há pessoa que não tenha seu barco ou canoa pelo menos, e não há engenho que não tenha de quatro embarcações para cima; e ainda com elas não são bem servidos." (*)
Esse era o padrão no Século XVI, mas é presumível que posteriormente os engenhos, com mais trabalhadores cativos e maiores áreas de cultivo, e, portanto, com maior produção, passassem a necessitar de mais embarcações. 
Bahia e Pernambuco, em fins do Século XVI e primeira metade do Século XVII, eram os maiores produtores de açúcar, ainda que os empreendimentos açucareiros fossem também significativos no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Sempre em áreas litorâneas, já se nota, uma vez que o foco de quase toda a produção de açúcar estava na exportação; a fabricação de aguardente de cana, ainda que em parte destinada ao consumo interno, era também voltada ao infame comércio de seres humanos para a escravização, que se fazia na costa da África. 
Notem, leitores, que há, aqui, um jogo sinistro na lógica de produção e troca: africanos escravizados e trazidos ao Brasil trabalhavam na lavoura de cana, nos engenhos em que se fabricava a cachaça e nas plantações de tabaco, cujo produto era destinado, em parte, à compra de outros escravos. Mais uma dessas tragédias de que a história da humanidade está repleta.

(*) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 151.


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