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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Quanta cana um engenho real podia moer

Cana-de-açúcar (²)
De acordo com Antonil, um engenho real (com roda d'água) moía, semanalmente, as seguintes quantidades de cana-de-açúcar, no Século XVIII:
- Diariamente: 25 a 30 carros de cana;
- Semanalmente: até sete vezes a quantidade diária (o que significa que um engenho, nesse caso, funcionava os sete dias da semana, sem interrupções).
Explica o Padre Antonil (ou Andreoni...):
"No espaço de vinte e quatro horas é moída uma tarefa redonda de vinte e cinco até trinta carros de cana, e em uma semana das que chamam solteiras (que vêm a ser, sem dia santo), chegam a moer sete tarefas." (¹)
Era, para a capacidade do maquinário da época, uma quantidade enorme de cana, que resultava em lucros (grandes) para os senhores de engenho, para os que transportavam o açúcar até a Europa (lucros maiores) e para os que, depois de refinado o açúcar, vendiam-no nos mercados europeus (lucros muito maiores).
Essa quantidade de cana moída valia, como já disse, para os engenhos d'água, também chamados engenhos reais, que eram muito superiores em capacidade de moagem aos engenhos-trapiches, mais conhecidos como "engenhocas", e que eram, geralmente, movidos por animais (os muito pequenos usavam escravos para mover o maquinário). Mas havia, ao menos no Nordeste açucareiro, um grave problema em relação aos engenhos d'água: a falta exatamente dela, a água, quando, durante as longas estiagens, tão frequentes na região, os cursos d'água que moviam o maquinário chegavam a secar. Por isso, mesmo havendo cana para moer durante o ano todo, nem sempre isso acontecia - não por faltar a cana, e sim a água. Foi o que explicou o Padre Fernão Cardim, jesuíta, em carta ao Provincial de sua Ordem, datada dos anos oitenta do Século XVI:
"Tornando aos engenhos, cada um deles é uma máquina e fábrica incrível, uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quais moem mais e com menos gasto, outros não são d'água, mas moem com bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fábrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do ano, o que não têm os d'água, porque às vezes lhes falta." (³)

(1) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 53.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 83. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 54.


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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A alimentação dos escravos nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial

Já houve quem aventasse a ideia de que os escravos que trabalhavam nos engenhos de açúcar no Brasil Colonial tinham uma alimentação, sob certos aspectos, até melhor que a dos senhores que habitavam a casa-grande. Sucedia assim, afirmou-se, porque os escravos recebiam um pequeno pedaço de terra no qual podiam, nas horas de folga, cultivar para si gêneros alimentícios que complementavam a ração diária que recebiam; já os senhores de engenho e suas famílias, afeitos à comida de Portugal, alimentavam-se, rotineiramente, de conservas que recebiam do Reino, que chegavam ao Brasil em muito mal estado, depois de meses de travessia do Atlântico.
Entretanto, os escritos deixados por autores que presenciaram a escravidão nos engenhos de modo algum corroboram tal visão que, se tem algo de "romântica", talvez não corresponda à realidade. É bom lembrar que esses autores, como a maioria das pessoas de seu tempo, não eram contrários à escravidão (o que acrescenta confiabilidade ao seu testemunho), apenas condenavam os maus-tratos a que eram submetidos os cativos.
Uma escrava, de acordo com Thomas Ender (⁶)
Cabe, pois, antes de mais nada, perguntar qual era, afinal, o tempo livre que um escravo de engenho tinha para empreender algum cultivo próprio. Quem já leu, de André João Antonil, (¹) a célebre obra Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, sabe muito bem que os trabalhadores eram ocupados nos afazeres relacionados à produção de açúcar desde o nascer do sol até entrada a noite, ocorrendo, por vezes, na temporada de safra da cana, que um engenho funcionasse ininterruptamente, dia e noite. Além disso, como veremos em uma postagem que não tardará a aparecer neste blog, muitos senhores sequer faziam respeitar o direito dos escravos ao descanso nos domingos e feriados religiosos, como preconizava a Igreja. Não espanta, pois, que o Padre Antonil/Andreoni não medisse palavras em condenar às penas do inferno os senhores que, extraindo deles até a última gota de suor, abandonavam-nos à penúria absoluta quando se tratava de alimentação e vestuário:
"Porém não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem e querer que sirvam de sol a sol no partido, de dia, e de noite com pouco descanso no engenho: como se admitirá no Tribunal de Deus sem castigo? Se o negar a esmola a quem com grave necessidade a pede é negá-la a Cristo Senhor nosso, como ele o diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido a seu escravo? E que razão dará de si quem dá serafina e seda e outras galas às que são ocasião de sua perdição, e depois nega quatro ou cinco varas de algodão e outras poucas de pano da Serra a quem se derrete em suor para o servir, e apenas tem tempo para buscar uma raiz e um caranguejo para comer?" (²)
Além disso, no Compêndio Narrativo do Peregrino da América (³), provavelmente o primeiro bestseller em terras do Brasil, o autor, Nuno Marques Pereira, oferece a seguinte argumentação:
"Queixam-se muitos senhores, que lhes fogem os escravos, e lhes morrem, sendo que muitos escravos com maior razão se podiam queixar de seus senhores, pelos [sic] terem em suas casas tratando-os tão mal. [...] A fome e o frio metem a lebre a caminho. Como é possível viver um escravo em um lugar onde onde o matam à fome, e o deixam perecer ao frio, e sobre isso o fazem trabalhar?" (⁴)
E prossegue, comparando a situação dos escravos nos engenhos do Brasil à dos bois em Portugal:
"Os lavradores em Portugal, ainda aos bois com que trabalham, lhes dão o sustento necessário, e os recolhem do frio, porque se assim não o fizessem, trabalhariam um ano, porém para o outro haviam de ficar sem bois que os ajudassem. E eu vejo que muitos lavradores do Brasil tratam tão mal a seus escravos, que não só os fazem trabalhar de dia, senão ainda de noite, rotos, nus, e sem sustento. Pois com que razão se queixa um homem destes que assim obra, de que lhe fujam os escravos, e lhe morram, faltando-lhes ele com o necessário alimento para a vida?" (⁵)
Chegamos, pois, meus leitores, aos seguintes termos: Se os senhores, pela fúria de produzir o máximo possível de açúcar, descuidavam do cultivo de gêneros alimentícios até para si mesmos, como supor que teriam alguma preocupação com este assunto em relação a seus escravos? Não é difícil perceber que, nessas condições, é pouco provável que o escravos pudessem, em verdadeiro idílio, cultivar suas hortas, das quais, prodigiosamente, extrairiam melhor sustento do que o disponível para seus senhores. Os documentos acima citados são, nesse aspecto, bastante claros; eventuais exceções, quando as houvesse, eram apenas para confirmar a regra.
Por outro lado, é verdade que, em algumas situações, em tempos posteriores tornou-se comum entregar uma fração de terra aos escravos para que a cultivassem e dela dispusessem para uso próprio - isso não era de todo incomum em fazendas de café, no século XIX - mas, nesse caso, vê-se mais uma vez a perfídia da lógica escravista: se o escravo plantava um "extra" para sua alimentação, ficava o senhor dispensado, por assim dizer, dessa obrigação.
 
(1) Sobre a verdadeira identidade de André João Antonil, veja a postagem "Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar do Brasil Colonial".
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 26 e 27.
(4) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 160.
(5) Ibid., pp. 160 e 161.
(6) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os escravos mais infelizes em um engenho colonial de cana-de-açúcar

Na lavoura canavieira trabalhava-se sob a supervisão impiedosa de um ou mais feitores desde que o dia amanhecia até sol posto; nas moendas, o risco de mutilação era constante, até porque, em época de safra, a cana era triturada ininterruptamente, ou seja, durante as vinte e quatro horas do dia, o que significava longas jornadas de trabalho em péssimas condições de iluminação, com o uso de equipamentos muito perigosos; sobre a casa das fornalhas, podia-se bem dizer que era o inferno em miniatura. Seriam os escravos que trabalhavam nesses lugares os mais infelizes dentro de um engenho colonial de cana-de-açúcar?
Se acreditarmos em Antonil e no que escreveu em Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, a resposta é um categórico não. Disse ele, em referência ao escravo que tinha a incumbência de amassar o barro usado na casa de purgar e aos que abasteciam de lenha, continuamente, as fornalhas:
"... os outros escravos, que cortam e trazem e cana, e os que obram na moenda, nas caldeiras, nas tachas, na casa de purgar e nos balcões, sempre têm em que petiscar, e só este miserável e os que metem a lenha nas fornalhas passam em seco. E ainda que depois todos tenham sua parte na repartição da garapa, contudo sentem muito o trabalho sem este limitado alívio entre dia." (*) 
É verdade que, via de regra, distribuía-se garapa a todos os trabalhadores do engenho, escravos ou livres. Mas, no entender do jesuíta Antonil, para alguns escravos a jornada de trabalho era especialmente penosa, porque viviam sob a tortura de não terem um petisco aqui e ali para aliviar o cansaço, o que mostra-se ainda mais grave diante do fato de o próprio Antonil ter anotado que, em alguns engenhos, as condições de alimentação dos escravos eram muito precárias. Isso não impediu que,  em observação imediatamente posterior, registrasse um comovente exemplo de solidariedade, além de óbvia esperteza, mesmo sob os rigores da escravidão:
"Mas não faltam parceiros que se compadeçam da sua sorte, dando-lhes já uma cana, já um pouco de mel, ou de açúcar; e quando faltasse nos outros a compaixão, não faltaria a eles indústria, para buscarem seu remédio, tirando donde quer quanto podem." (*)

(*) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, 1711, pp. 81 e 82.


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terça-feira, 19 de julho de 2011

Os senhores que mantinham seus filhos como escravos

Nossa sociedade dá como certo e natural o vínculo de afeto entre pais e filhos. Olha-se com horror para casos de abandono de recém-nascidos ou de pais idosos, embora esses fatos lamentáveis estejam cada vez mais frequentes. Mas, nem sempre foi assim. Em muitas sociedades costumava-se deixar viver apenas os bebês saudáveis (oh, Esparta!) e entre diversos povos os idosos, que já não tinham como contribuir com a vida comunitária, eram abandonados em lugares ermos, para morrerem longe das vistas de seus parentes. O fato é que séculos e séculos de moral judaico-islâmico-cristã nos conduziram a pensar no cuidado de pequeninos e velhos como atos de amor, além de estrita obrigação.
Desvios desse comportamento, no entanto, sempre existiram. É o caso dos senhores de escravos no Brasil que, tendo filhos com suas escravas, conservavam cativa a prole resultante desses relacionamentos. É o que sugere Antonil em Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas (¹):
"E contudo eles e elas da mesma cor (²), ordinariamente levam no Brasil a melhor sorte, porque com aquela parte de sangue de brancos que têm nas veias e talvez de seus mesmos senhores, os enfeitiçam de tal maneira, que alguns tudo lhes sofrem, tudo lhes perdoam, e parece que se não atrevem a repreendê-los, antes todos os mimos são seus."
Faz, todavia, uma ressalva:
"... salvo quando por alguma desconfiança ou ciúme, o amor se muda em ódio, e sai armado de todo o gênero de crueldade e rigor."
Não cabe aqui, por hora, discutir eventual preconceito contido nessa asseveração do jesuíta Antonil. No século XIX Saint-Hilaire, naturalista francês, deparou-se com a mesma questão e registrou:
"É, pois, imperioso reconhecer que o número de mulatos cresceu, não somente pela união dos mestiços dos dois sexos, como, também, por um contingente de filhos de negras com brancos, pelo que se pode afirmar que existiam homens livres de nossa raça, de alma bastante cruel para deixar os próprios filhos sujeitos à escravidão." (³)
Ora, pensará o leitor, por que razão os todo-poderosos senhores de engenho não alforriavam os filhos provenientes dessas uniões com escravas? Maldade? Eventualmente, até podia ser, mas esse não era o único aspecto envolvido.
A lista de motivos para que a alforria não ocorresse incluía desde os ciúmes da esposa, passando por preconceito racial, constrangimento diante da sociedade (hipócrita o bastante para tolerar o adultério desses homens, o que às vezes podia incluir abusar sexualmente das escravas, mas incapaz de aceitar o reconhecimento dos filhos), receio de perturbar a "ordem" entre os escravos, (quase sempre submetidos a condições de vida extremamente degradantes), indo até à espinhosa questão do direito de herança, no contexto de uma sociedade absolutamente patriarcal, ao menos quanto ao princípio da autoridade.
Havia, porém, aqueles que, fosse por sentimento de humanidade, remorso ou, sabe-se lá, medo do inferno, deixavam em testamento o reconhecimento que não haviam ousado em vida, amparados no pressuposto de que aos mortos quase tudo se perdoa. Nesse caso, a tardia confissão vinha acompanhada de uma súplica aos descendentes no sentido de conceder alforria aos meios-irmãos, quase sempre sem qualquer obrigação, porém, de alguma outra providência. E isso não se restringia a filhos tidos com escravas africanas, mas passava também pelo caso de filhos provenientes de relações com índias escravizadas, como bem o demonstra a documentação do período colonial que ainda se conserva, principalmente no caso de São Paulo, onde os mamelucos (⁴) eram numerosos . Há testamentos nos quais simplesmente era ordenada a alforria, obviamente após a morte do testador, sem qualquer menção do motivo, o que poupava a família senhorial de maiores "constrangimentos", embora, sob essa situação, deva-se reconhecer que nem todos os casos incluíam problemas relativos à paternidade.

(1) Página 24 da edição original de 1711.
(2) Refere-se aos mestiços, no Brasil chamados mulatos.
(3) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília, Senado Federal, 2002, p. 224.
(4) Refere-se aos descendentes de brancos e índios.


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terça-feira, 14 de junho de 2011

O vestuário dos escravos no Brasil - Parte 1

Não é tarefa simples detalhar o que vestia a "gente comum" no período colonial, já que, sob muitos aspectos, há uma falta crônica de fontes documentais. Uma vez que a maioria das pessoas não sabia escrever, também não podia deixar anotações, diários e outros papéis que, de outro modo, seriam fontes preciosas de informação. Arquivos ainda existentes são, quase sempre, incompletos e tiveram, por muito tempo, conservação inadequada, o que significa dizer, bem claramente, que em muitos casos os documentos restantes são ilegíveis e, por isso mesmo, virtualmente inaproveitáveis. Em um cenário desses, entende-se que determinar o que vestiam os escravos não é muito fácil.
Temos, no entanto, alguns testemunhos que ajudam a iluminar a questão. Um deles vem de André João Antonil, padre jesuíta que repreende os senhores de engenho que não dão vestuário adequado a seus escravos:
"Se o negar esmola a quem com grave necessidade a pede, é negá-la a Cristo Senhor nosso, como ele diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido ao seu escravo? E que razão dará de si quem dá serafina e seda e outras galas às que são ocasião da sua perdição, e depois nega quatro ou cinco varas de algodão e outras poucas de pano da Serra a quem se derrete em suor para o servir, e apenas tem tempo para buscar uma raiz e um caranguejo para comer?" (¹)
Desse trecho extraímos algumas informações importantes, como o tipo de tecido de que se fazia a roupa de um escravo que tinha a "boa sorte" de ter um senhor que se preocupava com isso (algodão e pano da Serra, ou seja, tecidos de baixo preço) e a quantidade fornecida (quatro ou cinco varas, lembrando que uma vara corresponde a 1,10 m). Pelo mesmo trecho ficamos sabendo que no cenário colonial havia, eventualmente, outros tecidos disponíveis (seda e serafina, um tipo de tecido de lã estampada), bem mais sofisticados, mas seu destino, como Antonil sugere, era outro.
Acontece que há um outro lado a observar. Se é verdade que, a partir da obra de Antonil podemos deduzir que, pelo menos nos engenhos, havia escravos submetidos a andar maltrapilhos, sabe-se também que a indumentária da população colonial pobre não era, igualmente, das mais favoráveis - desse assunto teremos oportunidade de tratar futuramente, em outra postagem.
O livro de Antonil tem sua edição datada de 1811, no início do século XVIII. Já no século XIX, mais precisamente em 1º de maio de 1822, Saint-Hilaire (naturalista francês que percorreu boa parte do Brasil), anotou ter encontrado um grupo de "escravos novos", ou seja, aqueles recentemente chegados da África, em um rancho de tropeiros, a caminho de uma fazenda onde deveriam trabalhar. Diz ele:
"[...] No rancho ainda permanecia um lote de negros e negras novos que um feitor conduzia a uma fazenda vizinha de Resende.
Todos eles usavam roupa nova e as mulheres tinham para vestir-se uma coberta de pano azul. Trajavam camisa de algodão e saia de cor, os homens punham carapuça de lã vermelha, camisa e calção de algodão grosso. Ontem ao anoitecer estenderam esteiras no chão e deitaram-se uns ao lado dos outros, envoltos em cobertores." (²)
Percebe-se facilmente uma grande diferença entre o que deve ter visto Antonil nos engenhos de açúcar e o que registrou Saint-Hilaire. O que não se se sabe, nesse caso, é quanto tempo se esperava que essas roupas novas durassem. Afinal, Debret, em obra mais ou menos contemporânea, registrou tanto escravos com roupas rasgadas como outros até bem vestidos.  Não que a situação dos escravos houvesse melhorado muito, mas é fato que, gradualmente, alguns senhores começaram a achar constrangedor que seus escravos andassem em trapos. Prover roupas decentes não era, portanto, simplesmente uma questão de humanidade. Era a honra dos escravocratas que estava em jogo.

Mercado de escravos do Valongo, de acordo com Debret (³).
Observe o vestuário dos escravos: a imagem é mais poderosa que quaisquer palavras!

(1) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, pp. 26 e 27 na edição original de 1711.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 125.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique ao Brésil Tomo 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O trabalho das escravas nos engenhos de açúcar: Parte 5 - Conclusão

A fome me tem já mudo, 
que é muda a boca esfaimada,
mas se a frota não traz nada,
por que razão leva tudo?
que o povo por ser sisudo
largue o ouro, e largue a prata,
a uma frota patarata,
que entrando co'a vela cheia,
o lastro que traz de areia,
por lastro de açúcar troca!
          (Gregório de Matos)


O autor que serviu de base para nosso pequeno estudo, André João Antonil, enumerou em sua obra (¹) uma série de razões pelas quais resolveu escrever o que havia observado nos engenhos, mencionando, entre elas, "...para que os que não sabem o que custa a doçura do açúcar a quem o lavra, o conheçam, e sintam menos dar por ele o preço que vale...". E, ainda mais , referindo-se ao caldo obtido da cana no preparo do açúcar, disse: "...e desta sorte nem um só pingo se perde daquele doce licor, que bastante suor, sangue e lágrimas custa para se ajuntar." (²)
Saltava aos olhos dos observadores atentos que, sendo o açúcar a mais importante riqueza produzida no Brasil durante muitas décadas, havia por parte do governo metropolitano o máximo interesse em bem conservar a produção, no interesse da saúde financeira da Coroa.
Um dos que ousaram escancarar essa questão foi Frei Vicente do Salvador, contemporâneo da tentativa holandesa de ocupação da Bahia (1624), que relatou a preocupação do monarca reinante, Filipe III de Portugal (e IV de Espanha, em tempos da União Ibérica, que durou de 1580 a 1640), no sentido de retomar o controle da região:
"...mandou com muita brevidade aprestar suas armadas, e que entretanto se mandasse de Lisboa todo o socorro possível, não só à Bahia, mas às outras partes do Brasil, para que os rebeldes não tomassem pé no Estado, nem ainda o lançassem fora dos limites da cidade que tinham tomada, porque nisso podiam perigar as fazendas dos engenhos de açúcar que estão no Recôncavo, de que tanto proveito recebem as suas alfândegas."(³)
Não é necessário frisar o que se encontra nas últimas linhas. Quanto aos senhores de engenho, é verdade que, por esse tempo, constituíam a elite colonial, embora sua situação econômica nem sempre fosse das mais favoráveis, daí as palavras mais que explícitas de Gregório de Matos, no sentido de ressaltar o fato de que não era ao Brasil e à sua população que, em última instância, cabiam os maiores lucros do açúcar.
Embalado em caixas de madeira, o açúcar era conduzido aos portos, e daí, via Portugal, para outros lugares:
"E com isto temos levado o açúcar do canavial, aonde nasce, até os portos do Brasil, donde navega para Portugal, para se repartir por muitas cidades da Europa." (⁴)
Na primeira postagem desta série mencionei o fato de que muitas publicações de caráter didático trazem representações dos engenhos nas quais há apenas homens trabalhando. Se, ao final de nosso estudo, estiver bem claro o fato de que havia muitas escravas ocupadas em todo o processo de produção do açúcar, havendo etapas em que elas chegavam a ser a maioria, pode-se considerar que o objetivo foi alcançado.

(1) Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas.
(2) p. 69 da edição original de 1711.
(3) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil.
(4) Cultura e Opulência..., p. 94.


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terça-feira, 17 de maio de 2011

O trabalho das escravas nos engenhos de açúcar: Parte 1 - Na lavoura canavieira

A julgar pelas ilustrações que podem ser vistas em alguns livros didáticos, os engenhos de açúcar do Brasil colonial eram um território essencialmente masculino. Escravas? Sim, mas dentro da casa-grande, nos trabalhos domésticos. No entanto, essa é uma visão intrinsecamente equivocada. Na pequena série que inicio com esta postagem veremos, a partir da obra de Antonil (¹), quais eram, de fato, os trabalhos entregues às escravas. Testemunha ocular do que se passava nos maiores engenhos do Nordeste, esse notável jesuíta deixou um relato muito diferente daquele que poderia ser sugerido pelas representações convencionais.
"As mulheres usam de foice e de enxada, como os homens, porém nos matos somente os escravos usam de machado."(²)
E, no corte da cana, homens e mulheres trabalhavam, ainda que, segundo Antonil, houvesse uso frequente de uma divisão de tarefas:
"Assim os escravos como as escravas se ocupam no corte da cana, porém comumente os escravos cortam e as escravas amarram os feixes. Consta o feixe de doze canas e tem por obrigação cada escravo cortar em um dia sete mãos de dez feixes por cada dedo, que são trezentos e cinquenta feixes, e a escrava há de amarrar outros tantos com os olhos da mesma cana; e se lhes sobejar tempo, será para o gastarem livremente no que quiserem, o que não se concede na limpa da cana, cujo trabalho começa desde o sol nascido até o sol posto, como também em qualquer outra ocupação que se não dá por tarefa." (³)
A citação precedente nos dá uma ideia nítida do que era a condição de um escravo - e de uma escrava - na lavoura canavieira. Não chega a ser surpreendente, pois, que alguns autores entendam que, na média, a expectativa de vida dos escravos, a partir do momento em que chegavam ao engenho, não ultrapassava os dez anos, tal o grau de exaustão a que eram submetidos ("desde o sol nascido até o sol posto..."). Mas, para os senhores, isso não era um grande problema, já que o tráfico de africanos, nesse tempo, encarregava-se rapidamente da substituição da "peça", como então se dizia. Os lucros do açúcar compensavam plenamente a despesa.

(1) Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas. Para ler sobre a verdadeira identidade de André João Antonil, acesse: Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar no Brasil Colonial.
(2) Na edição original, de 1711, que foi proibida e confiscada, esse trecho está na página 23.
(3) Também na edição original, p. 44. 


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quinta-feira, 17 de março de 2011

Escravos que resistiam à escravidão - Parte 3

"Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate'.
Queste parole di colore oscuro
vid'io scritte al sommo d'una porta."
Dante Alighieri, La Divina Commedia


O Padre Andreoni (ou Antonil) não era, como já disse em outra postagem, contrário à escravidão. Nem por isso tinha os olhos fechados para as aberrações que se cometiam no tratamento dos cativos que trabalhavam nos engenhos de açúcar. Por essa razão, aconselhou aos senhores de engenho que porventura viessem a ter contato com sua obra (¹):
"E bem é, que saibam que isto lhes há de valer: porque de outra sorte, fugirão por uma vez para algum mocambo no mato; e se forem apanhados, poderá ser que se matem a si mesmos, antes que o senhor chegue a açoitá-los, ou que algum seu parente tome à sua conta a vingança, ou com feitiço, ou com veneno."
Valem aqui algumas observações:
1) O medo de uma vingança por parte dos escravos, em particular por envenenamento, era quase uma paranoia entre os membros da camada senhorial (sobre isso, veja minha postagem anterior, Escravos que Resistiam à Escravidão - Parte 2);
2) Antonil publicou seu livro em 1711. Mais tarde, já independente, o Império do Brasil incluiria o envenenamento em seu Código Criminal como agravante em um crime de assassinato ou tentativa de assassinato;
3) Para o africano escravizado, a possibilidade de retornar à África era praticamente nula, daí ser a fuga para o interior e a vida em algum quilombo talvez a única maneira de escapar à brutal exploração de sua força de trabalho;
4) Atentos ao risco que as fugas e a formação de quilombos representavam ao sistema, os senhores eram zelosos em empreender a captura e a punição exemplar dos fugitivos;
Escravos recebendo castigo público, segundo Rugendas (²)
5) Se capturado, um escravo fugitivo muitas vezes preferia morrer a enfrentar a tortura, o que, no final das contas, acabava sendo um dano ao "proprietário", já que o "investimento" feito na compra desse escravo perdia-se completamente - o escravo vingava-se, é verdade, mas ao custo da própria vida. Não creio, no entanto, que a maioria dos escravos que cometia suicídio o fizesse para, deliberadamente, vingar-se do "dono". Era a total desesperança que os levava por esse caminho. Não, leitor, Dante nunca conheceu um engenho de açúcar ou fazenda de café (viveu muito antes disso), mas penso que não teria dúvidas em identificar esses lugares!
As fugas persistiram durante toda a vigência do regime escravista e, em alguns lugares, chegaram a ser mais frequentes à medida que o sistema de trabalho compulsório ruía. O caso é que os suicídios de escravos também continuaram a ocorrer. Concluo mencionando este, ocorrido em Santa Catarina no ano de 1866:
"Em Santa Catarina um preto escravo suicidou-se singularmente. Encheu a boca de pólvora e fê-la incendiar-se. A explosão fez com que ficasse espalhada no pavimento toda a massa cerebral contida no crânio do infeliz." (³)

(1) ANTONIL, A. J. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Folhinha de Modinhas Para o Anno Bissexto de 1868. Rio de Janeiro: Antônio Gonçalves Guimarães e Comp., p 158.


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domingo, 13 de março de 2011

Escravos que resistiam à escravidão - Parte 1

Quer os governantes, os religiosos e os senhores de engenho quisessem ou não admitir, os escravos eram seres humanos. Como seres humanos, tinham sentimentos, tinham também um limite à capacidade de suportar maus-tratos, excesso de trabalho e humilhações. Como todos os seres humanos, havia também entre os escravos os mais corajosos, assim como os mais conformados. Por isso, a maneira como cada um reagia à escravidão era característica de sua individualidade, ainda que individualidade fosse algo a que os senhores, teimosamente, tivessem o indesejável costume de negar reconhecimento, quando se tratava de qualquer um que, de algum modo, estivesse subordinado a eles, o que valia não apenas para os trabalhadores compulsórios, mas estendia-se a trabalhadores assalariados, fornecedores de cana e membros da família.
Feitor castigando um escravo, segundo Debret (³)
A reação dos escravizados à sua condição era, por suposto, muito diversificada. Havia, por exemplo, escravas que procuravam abortar, se sabiam que haviam engravidado, para não trazer à existência novos escravos. Antonil (¹) escreveu, a esse respeito: "Pelo contrário, algumas escravas procuram de propósito aborto, só para que não cheguem os filhos de suas entranhas a padecer o que elas padecem."
É interessante notar que, na América Espanhola, há relatos de que o mesmo expediente era por vezes usado por mulheres indígenas reduzidas a alguma forma de trabalho compulsório, sendo também relativamente comum, entre elas, a abstinência sexual para evitar a procriação. Isso, leitor, pressupõe, em qualquer dos casos (Brasil ou América Espanhola), um alto grau de consciência entre os escravizados quando à injustiça de seu estado e um padrão de resistência difícil de compreender face à escala de degradação a que estavam submetidos. E, para que não fique dúvidas quanto ao que se passava no dia a dia de um engenho no Brasil, torno a citar Antonil, que, aliás, nem se posicionava exatamente contra a escravidão, mas que não hesitava em recriminar o tratamento brutal a que os escravos eram submetidos. Diz ele, ao referir-se aos limites que os senhores deveriam impor à ação dos feitores, até a bem de seu próprio "patrimônio":
"Aos feitores de nenhuma maneira se deve consentir o dar coices, principalmente nas barrigas das mulheres que andam pejadas (²), nem dar com pau nos escravos; porque na cólera não se medem os golpes e pode-se ferir mortalmente na cabeça a um escravo de muito préstimo, que vale muito dinheiro, e perdê-lo."
Não creio que Antonil fosse dar-se ao trabalho de condenar alguma coisa que nunca ocorresse. Ao contrário, é mais provável que isso fosse frequente nas áreas de cultura canavieira. Em outros lugares, as relações entre senhores e escravos podiam eventualmente ser diferentes, mas escravidão sempre é escravidão.
Paramos aqui, ao menos por hoje. Continuarei a tratar do assunto na próxima postagem.

(1) ANTONIL, A. J. Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas. Para saber mais sobre esse autor e obra, acesse: Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar no Brasil Colonial.
(2) Isto é, grávidas.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique ao Brésil, vol 2. O original pertence à Brasiliana-USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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