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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

De Que se Alimentavam os Escravos no Brasil?

Se, ao acordar pela manhã, você está faminto, provavelmente irá abrir a geladeira e tirar de lá algo para "acalmar o estômago", enquanto prepara sua refeição, com o alimento que mais lhe agradar. Se, ao andar pela rua, sentir sede, talvez decida parar em uma lanchonete e tomar um suco. Mas, se você vivesse, por exemplo, no século XIX, e fosse escravo, a sua situação seria completamente diferente: a alimentação disponível para você seria apenas aquela indispensável para assegurar a sua sobrevivência em condições de trabalhar arduamente na lavoura, com propósitos meramente quantitativos, jamais levando em conta suas preferências. E, vale anotar, o escravo do século XIX era, a esse respeito, um afortunado, se compararmos sua subsistência com aquela destinada aos escravos dos séculos anteriores, quando o amplo tráfico de africanos fazia com que os senhores não tivessem quase nenhuma preocupação com a longevidade dos trabalhadores - a extinção do tráfico a partir de 1850 obrigou os proprietários de escravos a ter um mínimo de cuidado com seu "patrimônio", que já não podia ser tão facilmente reposto.
No rastro de uma frágil corrente de modernização, começaram a aparecer, ao longo do século XIX, publicações destinadas a orientar os fazendeiros do Brasil em suas práticas agrícolas. Algumas dessas publicações eram movidas por um certo idealismo político e econômico, enquanto outras podiam até ser patrocinadas por negócios relacionados à lavoura. E, dentre essas últimas, menciono aqui O Agricultor Brazileiro (no tempo em que o Brasil era Brazil), do qual provém o trecho seguinte, de um artigo cujo título era "Moléstias dos Escravos":
"O gênero de alimentação é também objeto que deve merecer muito particular solicitude dos fazendeiros, pelo muito que ela influi na conservação da saúde e da vida. Sobre este objeto não há entre nós um uso geral: a qualidade de alimentação é diversa em várias localidades, e consiste quase sempre na farinha de mandioca, ou de milho e vegetais. Só o feijão é geralmente usado, e pode-se considerar a base da alimentação em quase todos os lugares, conquanto no Maranhão seja substituído pelo arroz. Em grande número de fazendas, os escravos somente comem carne de animais que caçam, e isto é constante nas fazendas de serra-acima para onde é difícil e dispendiosa a condução da carne seca, e a pouca quantidade de gado que existe nas fazendas só permite este gênero de alimentação em alguns dias festivos do ano. Entretanto a falta deste alimento pode ser considerado (sic) como uma circunstância que concorre para o aparecimento de algumas enfermidades." (1)
Temos aqui pelo menos duas questões:
1) Não ocorre ao autor do artigo citado relacionar a má alimentação dos escravos ao fato de que o sistema de latifúndios voltados para a exportação praticamente eliminava o cultivo de gêneros diversificados de subsistência, e não apenas para os escravos, mas para a população em geral, o que incluía os senhores e suas famílias;
2) Menciona-se que nas fazendas há pouco gado, mas não se discute a razão disso. A verdade é que a maioria dos senhores fornecia como alimento apenas aquilo que mantivesse vivos os escravos, deixando que eles próprios, nas poucas folgas, fossem em busca de algum "suplemento", quer cultivando pequeninas hortas, ou mesmo caçando, como se menciona no texto citado. E, quando todo o foco era plantar café, café e mais café, gastar tempo, terras e dinheiro para criar gado, fosse lá com que propósito, era visto meramente como desperdício.
Havia, por suposto, quem procurasse incentivar a plantação de gêneros alimentícios diversos, mas, no melhor dos casos, esse cultivo era visto como uma atividade subsidiária, ainda que indispensável. Tratava-se de manter vivos os escravos - a nutrição, no entanto, não fazia parte, geralmente, do universo de preocupações de um latifundiário escravocrata. Veja-se, sobre isso, o que consta na famosa Memória Sobre a Fundação e Costeio de Uma Fazenda Na Província do Rio de Janeiro (fique tranquilo leitor, não errei na ortografia, o título é esse mesmo):
"As plantações de mantimentos e víveres devem ser feitas na proporção das necessidades da subsistência do pessoal, e dos animais, ou na da facilidade de vantajosa permuta.
Sobre este ponto convém que o lavrador ande atento, e que além da cultura do milho, feijão, arroz, favas e outras, tenha sempre largas plantações de mandioca, cujo paiol é a terra, que guarda-a por dois, três e mais anos, para acudir às necessidades do consumo, ou para qualquer emergência devida a uma má colheita de cereais." (2)
Entende-se que, na época, não havia refrigeração, e as técnicas de conservação de alimentos eram quase inteiramente restritas a salgar e defumar (técnicas, aliás, de origem medieval); todavia, ter como plano de emergência o consumo exclusivo de mandioca... Você aprovaria?
Estava, porém, o senhor de escravos amplamente respaldado em seu proceder. Lê-se em A Escravidão no Brasil - Ensaio Histórico-Jurídico-Social, edição de 1866, que "o senhor tem o direito de auferir do escravo todo o proveito possível, isto é, exigir os seus serviços gratuitamente pelo modo e maneira que mais lhe convenha. Em compensação, corre-lhe a obrigação de alimentar, vestir, curar do escravo, não se devendo jamais esquecer de que nele há um ente humano." (3)
Fica apenas a questão: como poderia um senhor lembrar-se de seu escravo como um "ente humano" se o Estado e a sociedade sancionavam, no próprio consentimento da existência da relação senhor-escravo, que deste último se arrancasse a mais óbvia característica de um ser humano, a liberdade?
 
 
BIBLIOGRAFIA
Conserva-se nesta bibliografia a ortografia original nos títulos das obras.
(1) "Moléstias dos Escravos" in
O Agricultor Brazileiro, vol. 1, nº 4
Rio de Janeiro: Fevereiro de 1854, p. 12
(2) WERNECK, L. P. de L. Memória Sobre a Fundação e Costeio de Uma Fazenda Na Província do Rio de Janeiro 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 18
(3) MALHEIRO, Agostinho M. P. A Escravidão no Brasil - Ensaio Histórico-Jurídico-Social 1ª Parte
Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1866, p. 67


 
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