quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Moda no Vestuário em São Paulo no Final do Século XVI e Início do Século XVII

A postagem do dia 24 de abril  de 2012 tratou da Companhia de Soldados Descalços que Martim de Sá, capitão-mor no Rio de Janeiro, constituiu para a defesa da terra, uma vez que muitos colonos não tinham calçados com que apresentar-se às suas obrigações militares. Ocorre que não só os colonos do Rio de Janeiro tinham recursos escassos para o trajar habitual, como também, vivendo entre os indígenas, adotavam, até por uma questão de sobrevivência, muitos de seus hábitos. Fenômeno semelhante ocorria na Capitania de São Vicente, como se pode concluir da leitura desse trechinho escrito por Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, ao referir-se à população da vila de São Paulo em fins do século XVI e início do século XVII, por ocasião da presença do Governador Dom Francisco de Sousa naquela localidade, com o fim de procurar jazidas de metais preciosos:
"... o Governador se foi de São Vicente à Vila de São Paulo, que é mais chegada às minas, onde até então os homens e mulheres se vestiam de pano de algodão tinto, e se havia alguma capa de baeta e manto de sarja se emprestava aos noivos e noivas para irem à porta da igreja; porém depois que chegou Dom Francisco de Sousa, e viram suas galas, e de seus criados e criadas, houve logo tantas librés, tantos periquitos e mantos de soprilhos, que já parecia outra coisa (...)." (*)
Eis, simplesmente, o que acontecia: antes da chegada do pomposo governador, os paulistas, eles e elas, vestiam-se de modestos trajes de algodão, fibra vegetal cujo cultivo e uso a população indígena dominava, e que os moradores do planalto paulista, mestiços em sua maioria, adotavam para sua indumentária, não vendo nada de errado nisso. Logo, logo, tudo iria mudar, fazendo com que essa boa gente viesse a sentir-se tal qual Adão e Eva no Paraíso, após comerem do malfadado fruto proibido...
A chegada de Dom Francisco de Sousa teve, como efeito colateral nada desprezível, a capacidade de provocar uma revolução no vestuário dos colonos, ao menos no caso dos que tinham recursos para isso. E, em benefício dos leitores mais jovens deste blog, que talvez não estejam habituados à linguagem dos documentos históricos, vão, a seguir, algumas explicações sobre o significado tanto da antiga quanto da nova moda:
Sarja e baeta, que usavam os noivos e noivas em suas núpcias, eram tecidos rústicos, o mais das vezes feitos de lã trançada; libré era o nome dado ao uniforme que vestia a criadagem da nobreza; periquitos eram nós ou laços feitos, provavelmente, a título de enfeites e, finalmente, soprilho vem a ser um tipo de seda finíssima, quase transparente.
Quem pode negar, pois, que os costumes efetivamente mudaram?

(*) SALVADOR, Frei Vicente do História do Brasil, c. 1627


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