terça-feira, 8 de agosto de 2017

Uma Cerimônia Feudal na Selva da América do Sul

A homenagem era uma cerimônia típica do feudalismo. Por meio dela é que formalmente eram reconhecidos os laços de suserania e vassalagem. Envolvia, de um lado, a obrigação de proteção (por parte do suserano) e, de outro, vários deveres, dentre os quais, o do serviço militar (por parte daquele que se reconhecia como vassalo). Não é difícil perceber que a homenagem fazia sentido dentro da sociedade medieval, em que as guerras eram frequentes e os exércitos, constituídos por gente da nobreza, não eram e nem podiam ser muito numerosos.
Agora, leitores, respirem fundo: é que iremos encontrar uma autêntica cerimônia de homenagem no ano de 1659, não na Europa, mas no Brasil. O autor da ideia foi ninguém menos que o padre Antônio Vieira - sim, o jesuíta famoso por seus sermões. Está na hora de uma explicação.
Antônio Vieira, que exercia funções diplomáticas para o monarca português, um dia entalou na cabeça que queria vir ao Brasil para trabalhar na catequese de indígenas. Veio, e logo percebeu que seu maior obstáculo eram os colonizadores, que tinham, sim, grande interesse nos índios, mas para escravizá-los. O jesuíta não perdeu tempo, e obteve do rei uma ordem pela qual, ao menos oficialmente, o trabalho compulsório de indígenas ficaria restrito àqueles capturados em "guerra justa". Os demais deviam ser catequizados pelos missionários, sob as ordens do próprio Vieira.
Sucede que, há tempos, portugueses e vários grupos indígenas conhecidos como nheengaíbas viviam às turras, fazendo estragos de parte a parte, sempre que era possível. Pôs-se o padre Vieira a negociar a paz, e, surpreendentemente, os indígenas confiaram nele e concordaram em depor as armas. 
Mas era preciso dar um aspecto oficial ao acordo. Vieira achava que os índios, atribuindo grande importância às cerimônias pomposas, seriam mais fiéis à palavra empenhada se um juramento fosse feito de forma solene. Que fazer? Organizou-se uma homenagem, com tanto luxo quanto as circunstâncias permitiam, na presença de chefes indígenas já catequizados, de portugueses e dos chefes dos nheengaíbas. O melhor é deixar que o próprio Antônio Vieira conte o que aconteceu, tendo por cenário uma pequena igreja construída pelos índios:
"Ao lado direito da igreja estavam os principais (¹) das nações cristãs com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas que as suas espadas. Da outra parte estavam os principais gentios (²) despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mãos; e entre uns e outros os portugueses. Logo disse missa o padre Antônio Vieira, em um altar ricamente ornado (...), à qual (...) assistiam os gentios de joelhos (...)." (³)
Depois da missa, o mesmo Vieira perguntou aos nheengaíbas se era de sua vontade que viessem a ser vassalos do rei de Portugal. A pergunta foi respondida afirmativamente, e, ato contínuo, cada chefe, ajoelhado e pondo as mãos entre as do padre, proferiu o seguinte juramento:
"Eu Fulano, principal de tal nação, em meu nome e de todos os meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a El-Rei de Portugal a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de ser (como já sou de hoje em diante) vassalo de Sua Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos os seus amigos e inimigo de todos os seus inimigos, e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre." (⁴)
Feito o juramento, cada chefe beijava a mão ao padre e era por ele abençoado. Desnecessário é dizer que tudo se fazia com a assistência de intérpretes. Abraços e festas completaram o evento.
Convenhamos, leitores, que a cena descrita por Vieira é digna de um exercício de imaginação. Tentem, portanto, visualizar toda essa pantomima medieval em meio à selva amazônica. O rei, a quem se acrescentavam tantos vassalos, de tudo foi informado por carta datada de 11 de fevereiro de 1660.

(1) Caciques ou chefes indígenas.
(2) Chefes dos nheengaíbas.
(3) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 34 e 35
(4) Ibid., p. 37

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