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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O poder dos faraós no Egito Antigo

No Egito Antigo vigorava uma monarquia hereditária, absoluta e teocrática. Isso quer dizer que, salvo os inúmeros golpes, assassinatos, revoltas e mesmo invasões estrangeiras, o sucessor de um faraó seria seu filho mais velho. O poder de um faraó era, teoricamente, absoluto, ou seja, sua vontade era lei, e ele próprio não estava sujeito a responsabilidade alguma. Por quê? Simplesmente porque era visto como uma figura divina, que governava pela vontade dos deuses ou, quando seu poder chegava ao auge, porque era considerado, ele próprio, uma divindade.
De onde vinha tanto poder? Heródoto, que, como grego, tinha uma visão sobre o exercício do governo muito diferente daquela que predominava no Egito, observou, em suas Histórias, que os habitantes da região do Nilo diziam que, num passado remoto, os deuses é que reinavam no Egito, em perfeito intercâmbio com os mortais, que eram por eles governados... Percebe-se então que, com uma crença assim, era relativamente simples fazer constar à mentalidade popular que o faraó era um legítimo descendente dos deuses. Isso explica, ao menos em parte, a importância da camada sacerdotal e as regalias que ela desfrutava: seu papel era decisivo em perpetuar as crenças que sustentavam a "teocracia"; explica, além disso, o motivo para as querelas nada incomuns entre monarcas e sacerdotes, bem como mortes aparentemente misteriosas de faraós que ousavam desafiar o establishment sacerdotal.
Ramsés II (²)
Por seu turno, escribas também tinham um papel relevante em garantir a estabilidade do trono. Como dominavam a arte de escrever (¹), competia a eles registrar os acontecimentos, dando destaque, naturalmente, às façanhas dos reis. Por essa razão é que as crônicas descambavam, não raro, em desbragados encômios. Essa prática tem resultado em muita dor de cabeça para pesquisadores de nosso tempo, já que nem sempre é fácil separar aquilo que é autêntico da bajulação que garantia o emprego dos escribas. Sabe-se, por exemplo, que Ramsés II (Século XIII a.C.) liderou o exército egípcio contra as forças hititas na batalha de Kadesh. Ora, durante longo tempo pareceu que o combate resultara altamente favorável ao monarca do Nilo, tal a quantidade de elogios à sua conduta que foram encontrados. De acordo com um deles, em face do combate teria sido esta a declaração de Ramsés II:
"Como sou amado por Rá e protegido por Amon, e como meu nariz cresce e vive poderosamente cada vez mais, eu irei por este caminho. Se vocês quiserem, podem ir por outro caminho; senão, sigam-me!"
Até parece que sua majestade iria à luta sozinho!... Hoje sabemos que tanta bazófia tinha por finalidade impressionar a população de camponeses e outros trabalhadores que, não tendo ido à guerra, ficava suando ao sol do Egito para sustentar as camadas superiores. A batalha de Kadesh, em termos práticos, não apresentou resultados decisivos, nem para egípcios e nem para hititas.
Vale notar que, por muitos séculos, o Egito permaneceu no topo do poder em relação a seus vizinhos da região mediterrânica. À medida, porém, que outros grandes impérios se desenvolveram e passaram a ter condições de enfrentá-lo, mudanças vieram. Não chega a ser surpreendente que, quando conquistadores pisaram em terras da milenar civilização do Nilo, passaram logo a humilhar faraós derrotados, solapando na base a lógica de poder que sustentava o trono. 

(1) Com a escrita hieroglífica era arte mesmo...
(2) RAWLINSON, George. Ancient Egypt. London: T. Fisher Unwin Ltd., 1887, p. 251. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Cambises - O que acontece quando um governante imagina que seu poder é ilimitado

Ciro, rei dos persas, é famoso por ter liderado a conquista da riquíssima Babilônia em 539 a.C., mas é também conhecido por ter adotado uma política mais suave, em relação aos povos dominados, do que a praticada habitualmente em seus dias. O sucessor de Ciro foi seu filho Cambises, e, se devemos dar crédito ao que disse Heródoto, não poderíamos, em relação a ele, usar o dito de que "tal pai, tal filho".
Na corte persa o cargo de copeiro era de alta responsabilidade - afinal, era esse funcionário que devia provar a bebida servida ao rei, assegurando, portanto, que não estava envenenada. Pois bem, segundo Heródoto, Cambises estava em um dia qualquer a conversar com seu copeiro, a quem, supostamente, muito estimava, quando teve a ideia de lhe perguntar qual era, no seu entender, a opinião que dele tinha o povo persa. Muito honestamente, o copeiro respondeu que o rei era bastante estimado pelo povo, a não ser por um pequeno detalhe, o de ser muito afeiçoado às bebidas alcoólicas.
Imaginem, leitores, qual foi a reação de Cambises. Agradeceu a observação e tratou de ser mais comedido? Nem pensem em tal coisa. Enfurecido com a resposta de seu oficial, resolveu provar que não estava de modo algum alcoolizado, fazendo uma demonstração convincente da mais perfeita sobriedade. Pegou seu arco e avisou que, se cravasse uma flecha no coração do jovem filho do copeiro que não estava longe dali, ficaria claro que a fama que dele circulava entre o povo persa era um equívoco. Se, no entanto, falhasse, seria a prova do acerto de seus críticos.
Não houve quem ousasse detê-lo. O rapaz, atingido, caiu ali mesmo. Para que ficasse fora de dúvida a precisão do tiro, Cambises ordenou que se abrisse o peito do cadáver, a fim de mostrar que a seta atravessara o coração, tudo isso diante do estarrecido pai-copeiro. Tamanho desatino (ainda de acordo com Heródoto) foi acompanhado de uma gargalhada e da observação de que, afinal, os persas jamais deveriam ter seu rei na conta de um bêbado. 
É óbvio, leitores, que não podemos ter certeza absoluta de que as coisas aconteceram assim mesmo, embora vários autores da Antiguidade refiram o episódio com pequenas variações. É possível, no entanto, que tenham se inspirado em Heródoto. Sabemos, porém, que atos de crueldade extrema não eram raros em monarcas da Antiguidade - não eram eles considerados deuses ou seus representantes? Não podiam, por consequência, fazer o que bem entendessem? 
Por outro lado, jamais deveríamos supor que atos de brutalidade por parte de detentores do poder eram fenômenos restritos à Antiguidade. Excessos estarão sempre à mão, onde quer que haja governantes reconhecidos como vitalícios (ou que assim se imaginam), munidos de poderes quase ilimitados, contando com o apoio de uma horda de bajuladores, cuja moralidade demasiado elástica é sempre pautada pela conveniência. 
Era assim no passado. Quem ousaria dizer que, nesse sentido, os tempos mudaram?


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