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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Dois caminhos

O conceito de que há dois caminhos diante de qualquer pessoa que nasce neste mundo, um que leva ao mal, outro ao bem, ocorreu em várias culturas do passado. Os gregos, por exemplo, também refletiram sobre essa ideia, conforme se vê em Os Trabalhos e os Dias, obra atribuída a Hesíodo, poeta grego que teria vivido entre os Séculos VIII e VII a.C.:
"É fácil fazer o que é mau, porque o caminho para isso não só é curto como está perto de nós; para fazer o que é certo, o trabalho é grande, e até os deuses lutam para alcançá-lo. O caminho para a virtude é longo e cheio de obstáculos, mas, quando alguém se aproxima do cume, vai-se tornando mais fácil." (*)
Dilema ético altamente complicado para toda a humanidade, que ficará mais complicado ainda se for introduzido um grupo de questões inquietantes: O que se considera mau ou bom é o mesmo em qualquer cultura? E quanto à virtude? Quase certa de que você que lê terá respondido com um não, então, por que não? Existem valores absolutos, válidos para toda a humanidade? Fique, leitor ou leitora, com esses pensamentos. Boas ideias podem se tornar comentários logo abaixo, sim?

(*) HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Deuses gregos não gostavam de gente preguiçosa

Consequências da ociosidade entre povos antigos


Está em Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, poeta grego que, presume-se, viveu entre os séculos VIII e VII a.C.:
"Os desocupados são detestados tanto pelos deuses como pelos homens; são parecidos com os zangões que não têm ferrão, não trabalham e ainda se alimentam do produto do trabalho das abelhas. [...] Deuses e homens odeiam preguiçosos. É a ociosidade, e não o trabalho, que torna alguém vil." (*)
Convenhamos, leitores, que a opinião é compreensível, já que a ideia de Hesíodo era dar conselhos para que agricultores fossem bem-sucedidos em suas tarefas. Não sei, porém, se os deuses gregos teriam autoridade moral para censurar a preguiça (de que é, mesmo, que eles se ocupavam no Olimpo?); mas, antes de seguir em frente, será preciso fazer justiça aos zangões. É fato que não têm ferrão e que não são capazes de produzir mel e cera - sua principal função está relacionada à reprodução da espécie a que pertencem. Todavia, colaboram na defesa da colmeia, o que não é pouco. Finalmente, é justo reconhecer que os zangões são assim porque nascem assim, não escolheram ser desse modo - situação muito diferente, portanto, daquela dos humanos preguiçosos, que até poderiam ser outra coisa, mas não querem.
O que Hesíodo não tinha como prever é que, em diferentes civilizações, os seguidos triunfos militares, que acarretaram escravização em massa de inimigos vencidos, levariam o trabalho a ser visto, na mentalidade dominante, como algo reservado a cativos e, portanto, indigno de cidadãos livres. A ociosidade logo seria valorizada e, mais que isso, ambicionada. Ainda que esse fenômeno tenha ocorrido na Grécia, dificilmente haverá melhor exemplo que o de Roma Antiga.
Não é sem causa que vários autores dos séculos imperiais fizeram referências saudosas aos primeiros tempos da Cidade, quando mesmo os reis eram agricultores e, quer manejando a espada, quer o arado, eram sempre eficientes. A avalanche de escravos gerou ócio e desemprego, daí as revoltas sociais e a necessidade de políticas de entretenimento e de distribuição de trigo para os que não tinham ocupação. Em longo prazo, ainda que não isoladamente, esse grande erro resultou em declínio e queda do Império. Vejam, pois, que, seja no âmbito pessoal ou nas questões de Estado, preguiça e falta de ocupação nunca produziram coisa muito boa. Ainda que não devessem ser imitados, os deuses gregos tinham lá sua quota de razão.

(*) O trecho citado de Os Trabalhos e os Dias é tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Arados, foices e o ciclo agrícola anual dos povos da Antiguidade

Agricultores egípcios do Antigo Império usando o arado (¹)

Egípcios, hebreus, assírios, babilônios, gregos, romanos - enfim, povos dedicados à agricultura - precisavam, ao longo do ano, dar atenção à tarefa apropriada a cada estação. Antes que as sementes pudessem ser postas no solo, era preciso preparar o terreno. Arados simples eram conhecidos já na Antiguidade. Eram feitos de madeira e, como regra, eram puxados por bois. Para que funcionassem bem, deviam ter ao menos três partes, ou seja, algum tipo de suporte para as mãos do agricultor que controlava a direção a ser seguida, um lugar ao qual eram presos os bois e uma parte pontiaguda que tocava o solo para que fosse revolvido e nele se abrisse um sulco.
Concluída a aradura do terreno, era hora de semear. As sementes eram postas nos sulcos abertos pelo arado e, de imediato, cobertas com terra (²). Agora era preciso esperar que nascessem e crescessem. Seria boa a safra? Cultivava-se trigo, cevada, centeio. No Egito também se plantava linho, para a confecção de tecidos indispensáveis para a nobreza, para os trajes dos sacerdotes e para enfaixar os corpos mumificados.
Os meses seguintes eram de expectativa, mas não de indolência. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, aconselhou: "Sendo o tempo de lavrar a terra, vai com teus trabalhadores logo cedo, quer o solo esteja úmido, quer seco, e isso fará produtiva tua lavoura. Deves semear quando a terra está leve devido à estiagem, e limpar o terreno na primavera, para não ser difícil cultivá-lo outra vez quando chegar o verão." (³)
 Em algumas regiões as chuvas eram vitais para que a lavoura prosperasse, enquanto que em outras era preciso irrigar o terreno com a água de um rio. Segundo Heródoto, para cultivar trigo os assírios não podiam contar apenas com as chuvas, que eram escassas:
"Sendo pouca a chuva nos campos dos assírios, é suficiente apenas para fazer o trigo nascer e criar raízes; a terra é regada com a água do rio, mas como não há inundações anuais como no Egito, usa-se a força de homens e de noras (⁴)." (⁵)

Agricultores egípcios trabalhando na colheita (⁶)

Se tudo corresse bem, se não houvesse um ataque maciço de gafanhotos, se invasores nômades não pilhassem os campos, se a lavoura não fosse arruinada por uma guerra, a safra era tempo de festa. Para a colheita dos cereais era comum o uso de foices, instrumentos simples, às vezes feitos de madeira, já que nem todos os povos dominavam a metalurgia. No devido tempo, colhiam-se também uvas e azeitonas. Com os celeiros abarrotados, celebravam-se festivais em honra dos deuses relacionados à agricultura, cuja proteção, acreditava-se, iria assegurar, para o ano seguinte, suficiência de pão, azeite e vinho. Uma safra generosa de cevada era também recebida com satisfação, visto que garantia a abastança de certa bebida apreciadíssima desde priscas eras... 

(1) ERMAN, Adolf. Life in Ancient Egypt. London: Macmillan & Co., 1894, p. 427.
(2) Para evitar que se transformassem em uma farta refeição para bandos de aves.
(3) As citações de Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo e de Histórias de Heródoto que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nora era um equipamento primitivo usado para retirar água de um rio.
(5) Heródoto. Histórias, Livro I.
(6) ERMAN, Adolf. Op. cit., p. 52.


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os homens da idade de ferro

Os gregos, segundo conta Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias, diziam que deuses e homens teriam vindo à existência pela mesma época. Os primeiros homens, pertencentes à Idade de Ouro, tinham uma vida maravilhosa, seus trabalhos agrícolas eram produtivos, faziam grandes festas, não sofriam com o envelhecimento e, na hora de morrer, simplesmente morriam - de acordo com Hesíodo, "como se tivessem dormido"
Essa geração excelente, porém, não durou para sempre. Veio, depois dela, a Idade de Prata, cujos homens eram inferiores à geração precedente, tanto no físico como no intelecto, e, entre muitos outros defeitos, ostentavam o péssimo hábito (para ira de Zeus, filho de Cronos), de não dar grande importância aos deuses e nem de oferecer sacrifícios em sua honra. Não admira que também tenham desaparecido (foram absorvidos por Zeus, segundo o relato de Hesíodo).
Então chegou a vez dos homens da Idade de Bronze. Eram uns grandes encrenqueiros, viviam a perpetrar ofensas, eram muito fortes e, nas palavras de Hesíodo, "como eram capazes de trabalhar o bronze, tinham armas [...] de bronze, porque não se conhecia ainda o negro ferro".
Nesse ponto é que teriam aparecido os semideuses ou heróis, valentes, hábeis na guerra, como foram, por exemplo, os que lutaram contra Troia por causa do rapto de Helena, ou os que diante de Tebas porfiavam pelos rebanhos de Édipo.
Finalmente veio a geração da Idade de Ferro, à qual Hesíodo, mesmo lamentando, admitia pertencer. Atormentados pelos deuses, os homens viviam/vivem cheios de aborrecimentos e não tinham/têm tranquilidade, quer nas horas do dia, quer nas da noite. Afirmando que no futuro essa gente ótima também acabaria destruída por Zeus, Hesíodo explicou:
"Filhos perversos não terão qualquer respeito pelos pais idosos, e sem qualquer temor à vigilância dos deuses, insultarão àqueles que os geraram. [...] Uma cidade saqueará a outra, homens violentos terão preeminência, a piedade, os atos justos e as ações meritórias desaparecerão [...], prevalecerão o engano e o perjúrio." (*)
Vejam, leitores, que Hesíodo era mesmo um sujeito cheio de imaginação. Onde é que já se viu supor a existência de uma geração de homens assim?

(*) As citações de Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Superstições dos gregos da Antiguidade

Se devemos crer naquilo que Hesíodo escreveu, provavelmente entre os Séculos VIII e VII a.C., os gregos de seu tempo eram gente muito supersticiosa, sem disso excluir o próprio Hesíodo. 
Como chegamos a esta conclusão?
Simplesmente correndo os olhos por Os Trabalhos e os Dias, obra na qual encontramos uma grande quantidade de conselhos destinados a tornar próspero o labor de agricultores e navegantes. Ocorre que qualquer pessoa sensata que leia as ditas orientações logo perceberá que, entre elas, há algumas coisas que não passam de lorotas, no melhor dos casos. Mas isso é o que pensamos nós, que vivemos depois de milênios de desenvolvimento científico. Os gregos dos dias de Hesíodo deviam crer que suas superstições correspondiam à realidade, ou não haveria qualquer razão para que fossem repetidas e até registradas por escrito.
Sei perfeitamente que aqueles dentre meus leitores que chegaram até aqui estarão, agora, quase a dizer: mas, afinal, que superstições eram essas?
Já verão, senhores leitores, pois vem a seguir um boa seleção. Podem ler e reler, tentando descobrir se há algum fundamento para elas.
  • É preciso lavar as mãos antes de atravessar um rio, pois os deuses detestam e fazem vir desgraças àquele que o faz com mãos impuras.
  • Para evitar infortúnios, ninguém deve comer ou lavar-se em recipientes que não tenham sido antes consagrados aos deuses.
  • É de mau agouro ter relações sexuais após voltar de um sepultamento, sendo porém apropriado fazê-lo com a intenção de procriar quando se regressa de um banquete em honra aos deuses.
  • Não se deve colocar sobre móveis sagrados um menino de doze dias, pois isto o tornará um homem incapaz de gerar filhos. Vale o mesmo para um menino de doze meses.
  • Um indivíduo do sexo masculino jamais deve lavar-se onde se banham as mulheres, se quer evitar que venha sobre si uma grande maldição.
Outras recomendações incluíam não lançar semente à terra no décimo terceiro dia do mês e não plantar árvores no décimo sexto. O décimo dia seria bom para quem queria gerar um filho do sexo masculino, enquanto que, para quem queria ter uma filha, o dia favorável seria o décimo quarto do mês. 
Estão cansados, leitores? Já termino. A melhor data para um casamento seria no quarto dia do mês, "desde que se consultassem os prognósticos das aves". No entanto, era preciso grande cuidado com o quinto dia, considerado o mais desfavorável a um matrimônio. 
Chega!
Achamos graça em tantas tolices. Será prudente, todavia, aquele que se abstiver de rir dos antigos gregos, não seja o caso de andar em perfeita obediência a alguma das superstições que ainda correm mundo, mesmo no Século XXI. Como é mesmo aquela história de passar embaixo de uma escada?


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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Conselhos de Hesíodo para camponeses e navegadores gregos da Antiguidade

Sátira da colheita da uva, de acordo com uma ânfora grega (¹)

Hesíodo, o poeta grego, viveu por volta do Século VIII e/ou VII a.C.,  de modo que, em seus dias, a maioria das pessoas passava quase toda a existência em tarefas relacionadas à agricultura e pastoreio. Não chega, pois, a ser nenhuma surpresa que a mais famosa de suas obras, Os Trabalhos e os Dias (ao lado da Teogonia), trate exatamente das ocasiões mais favoráveis, ao longo do ano, para as atividades agropastoris, que, devidamente executadas, podiam garantir o sustento da população, em tempos nos quais prover alimento, particularmente durante o inverno, podia ser um problema sério.
Portanto, Os Trabalhos e os Dias apresenta conselhos para os camponeses gregos, daquela época que o próprio Hesíodo acreditava ser uma "Idade de Ferro":
"Quando as Plêiades, filhas de Atlas, aparecem, é hora de dar início à colheita; quando, porém, desaparecem, chegou a hora de cultivar a terra." (²)
"Trabalho protelado não abastece celeiro."
"Não procure a sombra, nem permaneça na cama pela manhã, ao tempo em que o calor de Hélios faz secar o suor."
Acontece que, em parte devido às características naturais do território que ocupavam, com litoral bastante recortado, os gregos vieram a ser bons navegadores, tendo em vista a realização de empreendimentos comerciais. Era simples: um eventual excedente na produção podia (e até devia) ser vendido em condições vantajosas. Navegar tinha seus riscos, mas trazia lucros e proporcionava uma certa variedade nos artigos disponíveis para consumo.
Para isso, também, Hesíodo tinha lá seus palpites, ainda que demonstrasse não ser um grande adepto dos riscos inerentes às viagens marítimas:
"Para os mortais, a época favorável à navegação tem início cinquenta dias após a conversão de Hélios (³), quando se aproxima o final do verão de muitos trabalhos. Nessa ocasião nenhum barco se quebrará, nem homem algum morrerá no mar, a não ser por intervenção de Poseidon, que faz tremer a terra, ou de Zeus, rei dos deuses, que decidem se virá o sucesso ou o mal." (⁴)
Era também possível navegar na primavera:
"A primavera também é favorável a quem navega; o mar pode ser percorrido quando, na figueira, brotam as primeiras folhas [...]."
Entretanto, era prudente, segundo Hesíodo, não brincar com o humor dos deuses. Quem navegava devia, tanto quanto possível, retornar cedo, não fosse o caso de alguma infelicidade alcançar o ambicioso navegador e comerciante:
"Volta logo para casa, sem esperar pelo vinho novo, pelas chuvas de outono ou pela chegada do inverno [...], quando a navegação se faz impossível."

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 144. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Todas as citações de Os Trabalhos e os Dias aqui apresentadas são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) O solstício de verão no Hemisfério Norte.
(4) Para os antigos gregos, o destino dos homens estava submetido aos caprichos dos deuses do Olimpo.


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