segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Rapto das Sabinas

Comecemos, meus leitores, por dizer que o rapto das sabinas não foi só das sabinas. Mas disso trataremos mais adiante.
Rômulo, como se sabe, foi, ao lado de Remo, seu irmão, o herói lendário da fundação de Roma. A nova cidade tinha, no entanto, um gravíssimo problema: sua população era constituída exclusivamente por indivíduos do sexo masculino...
Pois bem, de acordo com Tito Lívio (¹), em Ab urbe condita libri, "por falta de mulheres, a grandeza da cidade [Roma, que Rômulo fundara], não duraria mais que a vida de um homem, pois não havia esperança de descendência." (²)
Alguém perguntará: E por que os romanos não se casavam? Aí exatamente é que residia o problema. Eles até queriam, mas os povos vizinhos não consentiam que suas filhas contraíssem casamento com romanos, porque a fama dos homens de Roma era ruim. Não, não era ruim, era péssima.
Foi então que Rômulo teve uma ideia que soou brilhante aos ouvidos romanos. Foram organizados jogos em honra do deus Netuno, e, para maior brilho da festa, os povos que viviam nos arredores de Roma foram também convidados. Segundo Tito Lívio, o convite não só foi aceito, como toda a gente da redondeza compareceu. Uma verdadeira multidão, portanto, e, no meio dela, muitas jovens solteiras - sabinas, entre elas, mas não só - o que deu aos romanos a ocasião para a perfídia, já que as senhoritas foram raptadas, a fim de dar descendentes aos arruaceiros de Roma.
Conta Tito Lívio:
"Com medo diante do espetáculo [do rapto], os pais das raptadas fugiram tristemente, lamentando a violação das leis da hospitalidade."
Naturalmente todos os ofendidos juraram vingança. Cada povo tratou de fazer guerra aos raptores, mas, um a um, todos os vizinhos foram derrotados. Finalmente vieram os sabinos, que, em um primeiro combate saíram vencedores. Em desespero de causa, Rômulo prometeu construir um templo em honra de Júpiter e, maravilha das maravilhas, nessa hora as mulheres sabinas que haviam sido raptadas apareceram, algumas já carregando bebês, e a guerra acabou, de modo que, ainda de acordo com Tito Lívio, os romanos e os sabinos vieram a ser um só povo. Tempos depois, Rômulo tratou de dividir "o povo em trinta cúrias, dando a cada uma o nome de uma mulher sabina".
Ora, ora, meus leitores, essa história tem uma coleção de incongruências. Vejamos:
  • Se os romanos eram gente tão ruim, por que os povos vizinhos aceitaram vir aos jogos organizados por Rômulo?
  • Os povos convidados não eram, em conjunto, muito mais numerosos que os romanos? Por que, então, não partiram para o ataque ali mesmo, a fim de libertar as mulheres raptadas e/ou vingar a afronta?
  • Supondo que fosse mesmo impossível uma luta imediata, por que cada povo foi, isoladamente, fazer guerra contra os romanos, quando seria mais provável a vitória se todos fossem juntos à desforra?
O fato é que a história do rapto das sabinas (e das moças dos outros povos) só foi escrita longo tempo depois da época em que se supunha ter acontecido, e, assim, é considerada por muitos como um episódio lendário, que explicaria, alegoricamente, como Roma foi, aos poucos, dominando os povos vizinhos. No entanto, levando em conta que na Antiguidade o rapto de mulheres não era nada incomum, não seria nenhum absurdo supor que algo possa ter acontecido, encarregando-se o passar do tempo de agregar adornos e detalhes romanescos que não estavam presentes na aventura original. A pose histórica ficou, é claro, aos cuidados da pena de Tito Lívio.

(1) Historiador romano que viveu entre a segunda metade do Século I a.C. e a primeira do Século I d.C.
(2) Todas as citações de Ab Urbe condita libri que ocorrem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.

2 comentários:

  1. A lista de incoerências é realmente grande mas, como refere, pode ser simples floreado literário do Tito Lívio. Neste momento, a China tem em mãos uma situação idêntica, já que a política do filho único fez dela uma nação de homens. Agora, não se raptam mas compram-se noivas no estrangeiro.
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. Governantes precisam aprender a pensar suas políticas numa visão de longo prazo, pesando muito bem as consequências...

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