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quinta-feira, 17 de março de 2022

O dia em que uma mulher falou no senado romano

Mulher romana desconhecida (¹)
Uma dama romana foi acusada de um pequeno delito. Devia, portanto, comparecer diante do senado para dar explicações - não em pessoa, mas por meio de um advogado, necessariamente do sexo masculino, conforme mandava a tradição reinante. 
A dita senhora, porém, foi peremptória na recusa em constituir representante. Foi ao senado - espanto geral - para se defender, e o fez muito bem, em um arrazoado irrefutável. Os sisudos patres familias assistiam de olhos arregalados e boca aberta. O que seria aquilo?
Os romanos supunham que, em público, as mulheres deveriam sempre permanecer em silêncio, em tudo obedientes, jamais fazendo sombra ao marido, pai ou outro homem que, legalmente, estivesse em posição de autoridade. Portanto, no dizer de Plutarco (²), o espanto foi tão grande, que se decidiu, imediatamente, fazer uma consulta aos oráculos que falavam pelos deuses (³): "[...] O senado mandou consultar os oráculos quanto ao significado daquele prodígio, por uma mulher ter ousado falar por si mesma, estando convencidos [os senadores] de que esse fato inédito e inimaginável era prenúncio de algum evento que, em pouco tempo, afetaria Roma" (⁴). Entenda-se que prodígio, no conceito romano, era qualquer fenômeno espantoso e considerado de caráter preditivo quanto a acontecimentos importantes. Eram prodígios, por exemplo, o aparecimento de algum cometa ou o nascimento de um animal com duas cabeças. Mulheres falantes no senado, portanto, entravam na mesma categoria.

(1) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 206.
(2) c. 45 - 125 d.C.
(3) Plutarco referiu esse incidente ao traçar a biografia de Numa Pompílio.
(4) PLUTARCO. Vitae paralellae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

De que se ocupavam as sabinas raptadas para o casamento com romanos

O rapto das sabinas é episódio (talvez) lendário ou (talvez) semilendário, contado para explicar de onde teriam vindo as mulheres que se casaram com os primeiros romanos, aqueles que foram contemporâneos de Rômulo e Remo, heróis (talvez) lendários, ligados às origens e fundação de Roma.
Com tanta lenda, é útil considerar este assunto? Sim, se levarmos em conta o que pode ser extraído dele, não pelo que se dizia, mas pelo que não era dito. 
Plutarco (¹), grego de nascimento, é famoso pelas biografias comparadas que escreveu, as Vitae parallelae. Ao tratar de Rômulo, abordou a questão do rapto das sabinas, referindo que, para que se fizessem as pazes entre os raptores e as famílias das mulheres raptadas (que seriam mais de oitocentas), foi firmado um acordo que determinava o modo como cada uma delas seria tratada, não só pelo respectivo marido, como pelos romanos em geral, quando estivessem em lugares públicos. Vejam, leitores, é interessante: "Deviam ser tratadas com respeito quando andavam pelas ruas, concedendo-se a elas a preferência no caminho; nenhuma palavra obscena devia ser dita em sua presença e nenhum homem devia mostrar a elas descoberta alguma parte do corpo, exceto aquelas que podem ser expostas com decência [...]" (²). Os filhos das sabinas com romanos seriam, pelo acordo, distinguidos, na infância, com adornos especiais, que atestariam diante de todos sua posição de destaque na sociedade.
Outro aspecto, contudo, chama a atenção na lista de direitos das sabinas, um que justifica a análise do caso, porque revela algo importante em relação às ocupações das mulheres romanas na Antiguidade: é que, conforme Plutarco, havia para elas uma só obrigação, que era trabalhar com a lã. Isso devia incluir tarefas como fiar e tecer. Era relevante, pois consta que os primitivos romanos eram pastores de ovelhas e criadores de gado. Era também relevante porque os primitivos romanos, constituindo um povo rústico, não eram dados a muito luxo no viver quotidiano e, portanto, era necessário ter em casa quem soubesse fazer roupas, não só para os dias cálidos do verão, mas também para as épocas invernais. Então, meus leitores, lenda ou realidade, a história das sabinas nos conta um pouco do que devia ser a vida e ocupação das mulheres nos primórdios de Roma, quando os escravos não eram ainda numerosos. O fato de que se supunha que os pais sabinos haviam imposto aos maridos romanos que não explorassem a força de trabalho das mulheres que haviam raptado mostra, por oposição, que, como regra, provavelmente competia a elas uma profusão de tarefas, incluindo cozinhar, cuidar dos filhos pequenos, consertar roupas e até ajudar na agricultura. Não devia ser pouco, como, afinal, não era, em muitos outros povos. 

(1) Nascido em Queroneia, viveu entre c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Augusto, imperador romano, tinha hábitos simples quanto ao vestuário

César Augusto é considerado o primeiro imperador romano. A despeito do alto cargo que ocupava, foi descrito como um homem de hábitos simples. Suetônio, um autor que viveu entre os Séculos I e II e teve acesso à documentação escrita do Império, assim se referiu aos costumes de Augusto em relação ao vestir-se: "Seu vestuário habitual era o de uso doméstico, feito pela irmã, mulher, filha ou netas; usava as togas nem demasiadamente presas, nem muito soltas, com uma faixa de púrpura de largura média, e, quanto ao sapato, usava um que o fizesse mais alto do que era." (¹)
A primeira consideração que extraímos, leitores, é que Augusto não devia ser um homem de estatura elevada. Além disso, mesmo sabendo que o modo de adquirir mercadorias era muito diferente na Antiguidade daquilo que costumamos fazer hoje, pode parecer estranho que a roupa do grande Augusto fosse feita pelas mulheres de sua família. Mas não se surpreendam: de acordo com uma antiga tradição, decorrente do rapto das sabinas, os romanos haviam prometido que o único trabalho que delas seria esperado era o de fiar e tecer. Portanto, ao usar as roupas feitas em casa, César Augusto estava, implicitamente, praticando um costume tradicional da Antiga Roma, que, sob o ponto de vista político, era muito importante evidenciar que respeitava.
Ainda por informação de Suetônio, sabemos que, por ter a saúde frágil, Augusto não suportava a exposição ao sol (²), razão pela qual preferia viajar à noite. Pelo mesmo motivo, quando queria dar um passeio ao ar livre, usava sempre um chapéu de abas largas. Mas, como governante romano que era, a preferência por roupas de uso doméstico eventualmente precisava ser posta de lado, se algum acontecimento o chamava, repentinamente, à vida pública. Por isso, no dizer de Suetônio, "considerando que podia haver imprevistos, tinha sempre prontos em casa uma roupa apropriada para ir à rua e um par de sapatos" (³). Na cidade que se considerava a capital do mundo as emergências não deviam ser poucas.

(1) SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Talvez desconhecesse os benefícios de uma exposição moderada à luz solar diariamente.
(3) SUETÔNIO, Op. cit., Livro II. 


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