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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Fundibulários

Fundibulários, também chamados fundeiros, usavam fundas, com quase inacreditável pontaria, para arremessar pedras e outros objetos, não por esporte ou diversão, mas com propósitos bélicos. Eram, portanto, soldados especializados e, por isso, fizeram parte de muitos exércitos na Antiguidade. Tito, por exemplo, ao comandar a conquista e destruição de Jerusalém em 70 d.C., teve fundibulários em suas tropas e, no dizer de Flávio Josefo (¹), marchavam próximo dos lançadores de dardos.
Os projéteis usados por fundibulários não eram, como regra, inocentes pedrinhas de um ou dois centímetros de diâmetro. Aquelas que faziam cair sobre as forças inimigas eram pedras grandes, do tamanho das atuais bolas de golfe e até das de tênis. Como se isso fosse pouco, usavam também objetos pontiagudos e bolas de chumbo. Fode-se facilmente imaginar o estrago que causavam.
Não só na Antiguidade, porém, é que fundibulários tiveram ocupação. No Século XVI, Hernán Cortés e seus soldados, na luta pela conquista do México, provaram na própria carne quão eficientes podiam ser as fundas de guerreiros tlaxcaltecas e astecas. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, testemunha ocular que lutou ao lado de Cortés, dos tlaxcaltecas "ao passar enfrentamos grande perigo, porque eram bons flecheiros [...], e também as fundas e pedras que caíam como granizo eram muito más [...]" (²); e, quanto aos astecas, "[...] atiraram tanta vara e pedra com fundas e flechas, que nos feriram daquela vez quarenta e seis dos nossos, e doze morreram das feridas" (³). Quem gostaria de estar sob o efeito dessas chuvas?

(1) Cf. JOSEFO, Flávio. As Guerras Judaicas. Livro V, § 403.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Como Hernán Cortés e seus homens curaram os ferimentos recebidos em combate contra os tlaxcaltecas

Depois de deixar o litoral, onde ficaram alguns espanhóis com a finalidade de estabelecer uma povoação, Hernán Cortés e cerca de quatrocentos e cinquenta homens seguiram adiante, porque sua meta era chegar ao coração do império asteca. De caminho, encontraram os tlaxcaltecas, que de modo nenhum aceitaram fazer a paz com os recém-chegados. O confronto foi inevitável e, ao contrário do que ocorrera contra povos menos poderosos, dessa vez os europeus, ainda que não derrotados, tiveram perdas importantes, entre mortos e feridos. Enfrentaram, além disso, a falta dos recursos a que estavam acostumados para tratar ferimentos. 
Que fazer?
O depoimento cru de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados, explica, sem disfarces piedosos: "[...] com a gordura de um índio gordo que ali matamos, que se abriu, se curaram os feridos, porque não havia azeite [...]" (¹). Era costume usar azeite como emoliente para tratar ferimentos.
Não, leitores, não me façam perguntas quanto à eficácia do tratamento. Sabe-se, porém, que essa primeira batalha contra os tlaxcaltecas foi travada em 2 de setembro de 1519. Novo combate, três dias mais tarde, enfraqueceu a resistência da população local, que, a contragosto, foi tratando de negociar a paz. 
Enquanto isso, em seu acampamento, os espanhóis se ocupavam em curar os feridos. Como? Do mesmo modo que haviam feito após o primeiro confronto: "[...] se curaram todos os feridos com a gordura do índio, como já disse outras vezes" (²), informou Bernal Díaz, testemunha ocular.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.