Mostrando postagens com marcador Vasco da Gama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vasco da Gama. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de abril de 2020

Era uma vez um rei que mandava navegar

Era uma vez - por que não? - era uma vez um rei. O rei tinha uma porção de conselheiros, gente da nobreza, funcionários públicos e homens interessados em negócios, que davam palpites no governo, cuidando para fazer o monarca pensar sempre que eram próprias as ideias que favoreciam os interesses de outros. Assim, o rei achava que mandava, a gente da Corte jurava obedecer, como se as ordens reais viessem de Deus, e tudo ficava bem.
Pouco tempo antes, uma frota do reino fizera uma viagem muito longa, alcançando, finalmente, a meta que era perseguida há décadas e lançava gente corajosa em arriscadas aventuras marítimas. O empreendimento se provara lucrativo e era preciso consolidar a nova rota de comércio, além de causar melhor impressão no mandatário das terras distantes, que não ficara muito entusiasmado com a frota anterior que, para dizer a verdade, lhe parecera insignificante.
Dessa vez o rei queria fazer bonito e mandou para o mar uma bela expedição, com o que havia de melhor em navios, com muitos marinheiros, sob o comando de alguns dos melhores navegadores do reino. A festa de despedida dos que iam viajar para tão longe foi muito concorrida. O rei em pessoa compareceu. 
Já no mar, a frota dirigiu-se um pouco mais que o habitual para oeste, parou em um lugar aparentemente desconhecido e aproveitou para reabastecer as reservas de água, embora, naquele momento, não houvesse falta dela. Por ordem do comandante, um navio voltou ao reino para entregar notícias ao rei daquilo que até ali se fizera, enquanto os demais seguiram viagem, não sem trabalhos e perdas significativas. O rei mandara, seus fiéis servidores obedeciam, mesmo ao preço da vida.
Lição de casa para vocês, leitores: coloquem os nomes corretos em personagens e lugares, além de datas, nesta historinha. E vamos falar sério.
Vasco da Gama, que liderou a armada que chegou às Índias em 1498, completando a sonhada rota marítima ao Oriente, levava consigo uns cento e sessenta homens, entre marinheiros e soldados, em apenas quatro navios. Já a frota sob o comando de Cabral, que zarpou de Portugal em 9 de março de 1500, era composta por treze embarcações e levava mais de mil homens. A diferença era enorme.
Portanto, que fique entendido de uma vez por todas: a esplêndida frota comandada por Cabral foi aparelhada para ir às Índias, não para descobrir o Brasil, independentemente de ter o descobrimento ocorrido como um acidente de percurso ou de ser um objetivo secundário da empresa. A expectativa no Reino, ao enviar gente para repetir a viagem de Vasco da Gama,  era firmar relações sólidas de comércio no Oriente, possibilitando a remessa constante de especiarias - no sentido amplo - para a Europa, assim abrindo portas para lucros estratosféricos. Ninguém lançaria ao mar um conjunto de treze luzidos navios, com tantos marinheiros, entre os quais alguns dos mais distintos navegadores portugueses, para ir a um lugar que ninguém sabia o que era, se era, e onde era. Essa é a realidade em relação ao descobrimento do Brasil, por menos lisonjeira que pareça.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Lutero e o comércio de especiarias

Martinho Lutero é bem conhecido como um dos expoentes da Reforma Protestante do Século XVI. O que talvez poucos saibam é que, até mesmo em algumas de suas obras de caráter eminentemente religioso, costumava ele dar seus palpites sobre questões relacionadas à economia e à política - o que mostra, afinal, uma pessoa de interesses variados.
Assim, em Von den guten Werken (Sobre as Boas Obras), datado de 1520, aparece uma observação sobre o crescente comércio de especiarias do Oriente em terras alemãs.
Habituados à lógica da economia de nossos dias, na qual a Alemanha se destaca e, pelos menos nos últimos tempos, os países ibéricos enfrentam sérios problemas, talvez esse pequeno trecho escrito por Martinho Lutero nos pareça surpreendente. Vale lembrar, porém, que nas primeiras décadas do Século XVI Portugal era, em questões econômicas, o "dono da força", em decorrência, entre outros fatores, do lucrativo comércio de especiarias do Oriente. Comerciantes lusos tiveram lucros altíssimos, (ainda que efêmeros), despejando um mundo de temperos nas praças comerciais de países que não negociavam diretamente com os mercados fornecedores de especiarias.
Justamente por isso é que Lutero observou:
"Através de temperos, especiarias e coisas semelhantes, sem as quais os homens podem viver muito bem, não é pequena a perda de riqueza temporal que diariamente ocorre em nossas terras."
Vejam, leitores, que Lutero não estava discutindo o sabor das especiarias. O que questionava era o peso econômico que representavam para os alemães, desde que dar mais sabor à comida havia se tornado moda na Europa. Na lógica de Lutero, o comércio, a cada dia, drenava recursos da Europa do Norte para a Península Ibérica. Como os do Norte não tinham, naquele momento, nada equiparável às especiarias para oferecer, o dinheiro ia embora e não voltava mais. Portanto, os alemães ficavam mais pobres e os ibéricos, mais ricos. Notem, era tão somente a lógica do mercantilismo em ação.
Entende-se a fúria pelas especiarias. A comida na Idade Média era desgraçadamente sem sabor. Não havia muitas opções para quem ousasse tentar um prato mais sofisticado. As pessoas comiam sem nada daquilo que hoje chamamos de "boas maneiras", sem a menor compostura. Garfo e faca, de uso individual? Nem pensar, usavam-se as mãos, mesmo, para ir arrancando nacos de carne do animal que era servido...
Os cruzados que foram, em guerra, à chamada "Terra Santa", descobriram um sem-número de pequenos luxos entre os habitantes do Oriente. Como a vida ficava mais simpática com boas roupas, comidas saborosas, perfumes e outras coisinhas mais! Logo, nem era preciso criar um desejo de consumo - ele já existia.

Especiarias (canela, cravo e pimenta)
Antes das navegações pelo Atlântico e Índico, as especiarias vinham da Ásia à Europa por rota terrestre, sendo transportadas, pacientemente, nas costas de camelos e de outros animais de carga. Compreende-se que, nessas condições, a quantidade de especiarias disponível nos mercados europeus era pequena e seu preço, obviamente, muito elevado. Pouquíssimas pessoas tinham acesso a elas, e não chegavam, pois, a ser problema para a economia de nenhuma nação.
Dificilmente se poderá medir a importância da chegada de Vasco da Gama à Índia em maio de 1498. Teve, salvaguardadas as proporções possíveis à época, o impacto de uma verdadeira revolução. Nada mais de mesquinhas quantidades de especiarias. Os navios vinham carregados delas, os lucros dos que investiam nessas viagens podiam chegar a uns 3.000 % (isso mesmo, três mil) e, pela quantidade em que eram oferecidas, tornavam-se artigos disponíveis e cobiçados até pelas nascentes camadas médias urbanas da Europa. Ainda eram caras, mas era coisa de que todo mundo gostava e que desejava ostentar à mesa. Entende-se, pois, que a mentalidade monástica de Lutero visse nisso tudo um enorme desperdício. Era muito mais razoável, raciocinava ele, que os laboriosos alemães continuassem a viver frugalmente, poupando seu dinheiro, em lugar de fazer a alegria de comerciantes de especiarias que levavam embora o ouro dos países do norte da Europa.
Como se sabe, todavia, a festa das especiarias não iria durar eternamente. O dinheiro que elas trouxeram não foi empregado maciçamente em investimentos produtivos. Não demoraria muito e a economia lusitana ver-se-ia dependente da vigorosa industrialização britânica. Bem antes disso, porém, pelo menos para Portugal, o foco mudaria das Índias para o Brasil, fazendo com que, na colônia sul-americana, a procura por ouro e outras riquezas minerais virasse uma obsessão.


Veja também: