quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

De que se Alimentavam os Marinheiros e Soldados em uma Armada Portuguesa no Século XVII

Data de 1624 a tentativa de ocupação holandesa da região da Bahia - uma área considerada muito interessante não apenas por ser, na época, a capital do Brasil, mas principalmente pelos engenhos de açúcar que havia nas redondezas. Aliás, foi por causa do precioso açúcar, segundo Frei Vicente do Salvador, que Portugal resolveu enviar uma armada que pudesse prestar auxílio aos moradores da terra, na luta pela expulsão dos holandeses.
Para se ter uma ideia da importância da produção açucareira da Bahia nessa ocasião, deve-se levar em conta o número de engenhos que ali havia, comparando-se inclusive com o existente em outras áreas, ainda segundo Frei Vicente do Salvador:

Localidade                                                                  Número de Engenhos
Bahia ..................................................................................... 50
Rio de Janeiro ...................................................................... 40
Pernambuco ......................................................................... 100
Itamaracá (era capitania separada) .................................. 18 ou 20
Paraíba .................................................................................. 18 ou 20

Ora, diante desses dados, compreende-se porque é que, após o fracasso da tentativa de ocupação da Bahia, intentaram os holandeses, a partir de 1630, estabelecer-se em Pernambuco e adjacências.
Mas, retomando a questão da presença holandesa na Bahia, bem se pode entrever a opinião que os moradores daquela região tinham do socorro enviado desde a Europa, já que nosso padre historiador não deixou de salientar que toda a preocupação era com o eventual prejuízo que a falta do açúcar daria às alfândegas. Não nos esqueçamos: eram ainda os tempos da chamada "União Ibérica" (*) e um rei espanhol. Filipe III, governava Portugal.
A armada que veio ao Brasil precisava, naturalmente, trazer suprimentos que permitissem aos combatentes uma sobrevivência adequada. E, nesse sentido, Frei Vicente do Salvador deixou-nos um registro admirável, que nos permite saber, com precisão, de que se alimentavam os marujos e soldados. Observe-se, pois:
"... se carregaram para a campanha sete mil e quinhentos quintais (**) de biscoito, oitocentas e cinquenta e quatro pipas (***) de vinho, mil trezentas e sessenta e oito de água, quatro mil centro e noventa arrobas (****) de carne, três mil setecentas e trinta e nove de peixe, mil setecentas e oitenta e duas de arroz, cento e vinte e dois quartos (*****) de azeite, noventa e três pipas de vinagre, fora outro muito provimento de queijos, passas, figos, legumes, amêndoas, açúcar, doces, especiarias e sal (...)" (******)
A partir disso, podemos fazer algumas considerações:
a) Os alimentos trazidos eram aqueles que tinham condições minimamente satisfatórias de conservação, tanto para a longa viagem como para um período ainda indefinido de combate;
b) Os portugueses já tinham muita experiência nesse sentido, uma vez que estavam habituados a preparar a matalotagem de navegantes que ficavam longos períodos no mar;
c) Era necessário trazer água (que, a propósito, ficava imprestável na viagem), porque a armada poderia encontrar dificuldade para o desembarque de tropas e reabastecimento;
d) Independente da questão de conservação dos alimentos, não se pode deixar de notar que o carregamento refletia, também, as preferências e hábitos alimentares da maioria dos portugueses da época. Esses hábitos influenciaram bastante os costumes do Brasil Colonial, de modo que só gradualmente é que outras tradições culinárias - brasileiras, propriamente ditas - foram se estabelecendo.


(*) 1580 a 1640.
(**) Um quintal era medida equivale a quase 59 kg.
(***) Uma pipa correspondia a 420 litros.
(****) Uma arroba era correspondente a pouco mais de 14,6 kg.
(*****) Um quarto geralmente correspondia a meia pipa, portanto 210 litros.
(******) Frei Vicente do Salvador, História do Brasil. O autor foi testemunha ocular da ocupação holandesa da Bahia.


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