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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os druidas gauleses

Os druidas tinham lugar de destaque entre os gauleses - foi César quem o afirmou, em De Bello Gallico. Eram uma espécie de camada sacerdotal, mas com vastas atribuições jurídicas.
Antes de mais nada, para ser druida, era preciso estudar, e estudar muito. Um verdadeiro druida passava, às vezes, mais de vinte anos na escola, e devia saber tudo de memória (César achava que isso atendia a dois propósitos: esconder seu conhecimento dos que não eram iniciados em suas artes mágicas e exercitar a memória da juventude). Apesar disso, não eram poucos os que buscavam essa ocupação, havendo quem a queria de livre escolha e quem era, pela família, encaminhado a ela.
Um aspecto curioso relacionado à formação dos druidas é que muitos deles (segundo César!) iam à Bretanha para ampliar seus conhecimentos. E o que é que ensinavam?
Sempre de acordo com o que César relatou, os druidas criam que as almas, sendo imortais, passavam de um corpo a outro, fato que incentivava os soldados à valentia no combate, já que, ao menos teoricamente, não deviam ter medo de morrer. Era tradição entre os druidas que as noites precediam os dias, de modo que seu calendário era regulado pelo número de noites e não de dias, e os meses e outros períodos sempre tinham início ao anoitecer. Investigavam e ensinavam sobre suas divindades, sobre geografia, sobre aves e animais, sobre os corpos celestes e seu movimento no espaço. À semelhança de muitos outros povos do passado, a nascente investigação científica dos gauleses vinha acompanhada de uma procissão de superstições.
Sendo muito respeitados, os druidas eram também reconhecidos como juízes em questões civis, de modo que anualmente, reuniam-se em lugar considerado sagrado, para mediar disputas de fronteiras, questões relacionadas à repartição de heranças, e mesmo quanto às sentenças na eventualidade de crimes, como assassinatos, por exemplo. Era tamanha a autoridade dos druidas que, aquele que se recusasse a obedecer às suas ordens, era virtualmente excluído da sociedade.
Naturalmente, para evitar porfias entre os próprios druidas (seria um terrível escândalo...), um deles era considerado líder supremo, sendo, quando morria, substituído por outro cuja autoridade e conhecimento fossem reconhecidos por todos. Senão... Senão, as informações de Júlio César nos dão conta de que a escolha podia ser feita por uma votação. Se, ainda assim, o caso não se resolvesse, a disputa podia chegar ao uso da força. Parece, no entanto, que isso não era frequente.
Além do respeito que tinham do povo das Gálias, os druidas, por seu caráter sacerdotal, alcançavam uma série de vantagens. Dentre elas, mencione-se que estavam isentos de impostos e desobrigados do serviço militar. Não era pouco.
A função de druida envolveria um aspecto terrível de suas crenças religiosas - sacrifícios humanos. César observou que, quando os gauleses pediam aos deuses a cura de uma pessoa doente ou ferida em combate, supunham que somente seriam atendidos se sacrificassem um outro ser humano. Ou seja, era uma vida pela outra. Criminosos eram sempre candidatos a esses sacrifícios, mas, na falta deles, uma pessoa em absoluto inocente podia ser "eleita" para morrer. Eventualmente, várias pessoas, colocadas dentro de representações ocas de deuses (feitas de juncos ou algo parecido) eram queimadas vivas. Ufa!...
A título de complemento, animais capturados nas guerras também eram sacrificados aos deuses.
Júlio César, enquanto comandou tropas romanas na Gália, teve oportunidade de conviver com líderes gauleses, de modo que, até certo ponto, pode-se confiar nas informações que deixou. Era, porém, um romano, e como romano é que interpretava o que observava. Estabeleceu, por exemplo, uma correspondência entre os clássicos deuses greco-romanos e as divindades gaulesas: Mercúrio seria o guia dos viajantes, Apolo responsável por curas, Minerva a padroeira dos artesãos, e assim por diante.
Não se pode menosprezar o fato de que algumas de suas opiniões eram filtradas pelos conceitos religiosos que ele mesmo tinha. Mandava cartas ao Senado romano, a fim de expor o andamento da guerra. Tinha todo o interesse em valorizar o inimigo, já que as vitórias soariam maiores aos distantes ouvidos senatoriais. César, afinal, era César, um político hábil e matreiro. Não devemos desconsiderar esses fatos quanto lemos os escritos que deixou. Se não fossem eles, todavia, saberíamos muito menos sobre a gente que, no primeiro século antes de Cristo, habitava as nevoentas florestas das Gálias.


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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Gauleses novidadeiros

Novidadeiros e novidadeiras de plantão: leiam isto e vejam como se comportavam seus equivalentes da Antiguidade!
"É costume entre os gauleses obrigar a todo viajante, quer ele queira, quer não, a parar entre eles para relatar as novidades; fazem o mesmo aos mercadores quando chegam às suas povoações, já que o povo os cerca e passa a interrogá-los insistentemente para que digam de que região vieram e o que sabem de lá. Ocorre, por vezes, que apenas com base nesses rumores, decidem assuntos muito relevantes, o que os leva, logo, a que se arrependam, já que, apenas para não desagradá-los, os viajantes lhes respondem alguma coisa." (*)
Foi ninguém menos que Júlio César - o romano do Primeiro Triunvirato - quem escreveu o trecho acima, em De Bello Gallico, explicando o quanto os gauleses, por amor às novidades, chegavam a ser importunos, cada vez que um viajante se aproximava. Porém, se não queremos ser injustos com os habitantes das Gálias no primeiro século antes de Cristo, devemos assumir que, naquele tempo, eram poucas as pessoas que viajavam e, portanto, poucas também as oportunidades para que populações sedentárias ou mesmo seminômades se pusessem bem informadas. É certo que a visita de um mercador, que corria o mundo comprando em um lugar para vender em outro, não podia de modo algum ser desperdiçada. Salvo alguma (tenebrosa) exceção, coisa semelhante devia ocorrer com muitos outros povos e culturas da Antiguidade, quando se desejava saber um pouquinho do que acontecia em lugares remotos.

(*) CÉSAR, Caio Júlio. De Bello Gallico. Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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