domingo, 2 de junho de 2013

Quem Faz o Trabalho Doméstico?

Uma Pequena Reflexão Sobre Certas Semelhanças Entre as Primeiras Décadas dos Séculos XX e XXI

 

Anúncio de sabão para uso
doméstico geral (*)
Duas senhoras bastante idosas entram em uma loja, dessas que vendem - para decoração, por suposto - objetos semelhantes aos que podiam ser encontrados nas cozinhas de antigamente.
Diz uma:
- Olha, Fulana, latas de mantimento, como aquelas que a gente tinha!
A outra:
- E que a gente ficava areando, até brilhar...
Resmunga a primeira:
- Pensando bem, ô vida desgraçada que a gente levava, hein...
Meus leitores, essas veneráveis memórias de simpáticas vovós não podem deixar de suscitar algumas reflexões. Saído há pouco da escravidão, o Brasil das primeiras décadas do século XX, confrontado com as novas realidades do trabalho livre e da urbanização, viu redefinirem-se o espaço doméstico e toda a lista de cuidados necessários à boa ordem de uma casa. A cozinha ideal do século XIX, a da casa-grande, repleta da fumaça de um fogão a lenha, no qual se preparavam doces, bolos e comidas típicas de fazenda, tudo em tachos ou panelas enormes, foi sendo suplantada, urbanamente, por outra menor, com muito menos fumaça e, naturalmente, com outros padrões de asseio. Compreende-se: a mão de obra doméstica já não vinha das senzalas, e muitas vezes a dona da casa tinha, literalmente, que pôr a mão na massa, ao menos para comandar as tarefas diárias, o que não excluía a presença de trabalhadores (e principalmente trabalhadoras) assalariados: cozinheira, copeira, arrumadeira, faxineira, lavadeira, e por aí vai. A lista podia (e ainda pode) ser maior ou menor, diretamente proporcional às posses da família empregadora. É quase desnecessário lembrar que, nesses tempos, a ideia de que a população masculina da família pudesse participar das tarefas domésticas era, ao menos como regra geral, inexistente.
Anúncio de sabão em pó para a
lavagem de roupas (**)
Não obstante, fosse por arte da indústria nacional ou fruto de importações, uma série de novos equipamentos e produtos eram agora oferecidos para facilitar o trabalho de cuidar de uma casa. Curiosamente, a propaganda dessas coisas procurava introduzir a ideia de uma mãe de família zelosa, sempre limpa e bem vestida, prezando pelo bem-estar do marido e dos filhos, e por isso mesmo usando este sabão, aquela torradeira, ou fogão, ou mesmo as primeiras geladeiras, que começavam a ser comercializadas. Aspecto interessantíssimo esse, mediante o qual o trabalho que era considerado há poucas décadas como digno apenas de quem estava reduzido à condição de escravo, agora era visto como coisa de mãe e esposa exemplar... Uma reelaboração do papel feminino com amplos desdobramentos no âmbito da família,  mas também um triunfo da propaganda a serviço do incipiente capitalismo que se introduzia no país. Quem achar que estou exagerando pode, por si mesmo, estabelecer uma comparação entre esse novo "ideal feminino" com o ideal que se encontrava, por exemplo, nas obras literárias do Romantismo, lá por meados do século XIX.
Propaganda de cera para pisos (***)
E olhem, leitores, que cuidar de uma casa não era coisa fácil. Pensem no que era encerar o piso: sim, com aquela cera pastosa e de odor não exatamente agradável. Verdade é que, com a proliferação de eletrodomésticos, chegou a ser possível contar com a ajuda de uma enceradeira (uma relíquia do século XX), mas isso era somente para o polimento. A cera, propriamente, era muitas vezes espalhada com as mãos, usando-se para isso um tecido espesso e resistente. Antes da enceradeira, havia o escovão, feioso e pesadão (ai, que rima sem graça!), desses que, eventualmente, podem ser vistos em museus.
O que era então passar camisas e ternos de linho usando um ferro de brasa? Lavar e alvejar brancos lençóis bordados à mão? Paremos por aqui, para evitar pesadelos.
Anúncio de fogões a gás (****)
Pois bem, há alguns dias (2013, sim, senhores!), li uma notícia em que se dizia que, devido à nova legislação relativa aos direitos dos trabalhadores domésticos, várias empresas estavam dispostas a lançar no Brasil uma série de eletrodomésticos que, já existentes em outros países há muito tempo, poderiam ser úteis para facilitar as tarefas de cuidado da casa, presumindo-se que muitas famílias deixarão de ter "empregadas".
Pra quem quiser enxergar: tragédia ou farsa, o século XXI presencia, em certo sentido, a repetição do fenômeno ocorrido no início do século XX. Há cem anos era preciso acostumar-se com o fato de que já não se podia lançar mão da senzala para o trabalho da casa. Hoje... Concluam por si mesmos.


(*) Revista A Cigarra, nº 235, 1º de julho de 1924.
(**) Revista A Cigarra, nº 242, 1º de dezembro de 1924.
(***) Revista A Cigarra, nº 227, 1º de março de 1924.
(****) Revista Correio da Semana, 30 de novembro de 1914.
Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização.
Observação importante: É evidente que as senhoras às quais me referi no começo da postagem não são do início do Século XX. Encontrei-as há pouco tempo.


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