Mostrando postagens com marcador Origem de Roma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Origem de Roma. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Dia em que os antigos romanos não sacrificavam animais

A fundação lendária de Roma, aquela que teria sido obra dos gêmeos Rômulo e Remo no ano 753 a.C., era celebrada no dia 21 de abril, que no calendário romano se chamava o dia onze antes das calendas de maio. A mesma data, dita de modo diferente.
Nesse dia, ao fazer cerimônias nos templos, o povo romano tinha o cuidado de não matar animais porque, no dizer de Plutarco, "estavam certos de que naquele dia, por ser consagrado ao nascimento de Roma, não seria correto derramar sangue, e, por isso os sacrifícios deviam ser feitos com toda a pureza, sem a morte de qualquer criatura" (*).
Para a maioria dos povos da Antiguidade, sacrifícios de animais eram destinados a agradar aos deuses, ou para acalmá-los, quando se supunha que estavam furiosos. No caso dos romanos, assim como no de alguns outros povos, sacrifícios também eram ocasião para que sacerdotes examinassem as vísceras dos animais, a fim de descobrir supostas profecias. Não parece estranho que justamente Roma, que tanto valorizava as virtudes bélicas, e para quem derramar sangue de inimigos derrotados nunca foi um problema, decidisse não abater animais em sacrifício justamente no dia em que a fundação da cidade era celebrada?
É possível que, quanto a isso, houvesse ainda alguma influência remota das ideias do pacífico e religioso segundo rei lendário de Roma, Numa Pompílio, que teria instituído práticas de honra aos deuses que servissem para moderar a fúria dos primitivos romanos. Com o passar do tempo, os costumes mudaram, mas as tradições de aniversário de Roma devem ter permanecido, embora já não refletissem quem, de fato, os romanos se tornaram.

(*) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias. 


Veja também:

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A participação dos deuses na escolha do segundo rei de Roma

Numa Pompílio é considerado o segundo rei de Roma. É um dos "reis lendários", assim chamados porque, sobre eles, não se tem muita documentação. É provável que esses reis tenham existido, mas os autores que escreveram sobre eles fizeram uso de fontes que nem de leve chegavam perto, em suas origens, ao tempo em que se supõe que tenham vivido.
Após esse preâmbulo, falemos de Numa e de como chegou a ser rei em Roma, apesar de ser sabino, e não romano. De acordo com Plutarco (¹), Rômulo morrera em condições suspeitas (²), e a desordem reinava naquela que seria, dentro de alguns séculos, a cidade mais importante do mundo mediterrânico. Naquele tempo, porém, não passava de uma aldeia à beira do caos. Tendo discutido quem deveria ser o novo mandatário, os cidadãos mais influentes teriam chegado a um acordo quanto a chamar Numa Pompílio para o cargo, por ser considerado pessoa religiosa, de boa índole e com muita afeição à filosofia, a cujo estudo se dedicava desde que enviuvara.
Lá se foram os representantes de Roma a chamá-lo. Viria? Como mandavam os bons modos, recusou, a princípio, mas acabou sendo convencido pelo pai idoso a aceitar o cargo. Sua chegada a Roma foi acompanhada de grandes festejos, mas, reunida toda a população em praça pública, Numa Pompílio recusou as insígnias reais, alegando que os deuses ainda não haviam manifestado aprovação para sua escolha como monarca.
Pode-se imaginar que tudo não passava de encenação para convencer os belicosos romanos. Porém, segundo Plutarco, os sacerdotes e adivinhos, gente que se supunha ter boa relação com os deuses, foram chamados para mostrar o que devia ser feito. Levaram Numa até o Capitólio e lá, com o cerimonial apropriado (Numa foi coberto com um véu, enquanto um dos sacerdotes conservava a mão sobre sua cabeça), pediram que, mediante o voo ou canto das aves, os deuses mostrassem se lhes agradava a escolha daquele rei. Lembrem-se leitores: havia, para os romanos, aves favoráveis e desfavoráveis, e o comparecimento de umas ou outras era visto como sinal enviado pelas divindades. Vamos ao que disse Plutarco:
"Fez-se grande silêncio [...], esperando que os deuses manifestassem um sinal favorável [...]. Estando todos com os olhos no céu, viram voar aves que indicavam aprovação à direita de Numa, ao que se declarou ser [sua escolha como rei] a vontade dos deuses, e com essa aprovação do céu a alegria foi ainda maior. Após essa manifestação [dos deuses], Numa aceitou as insígnias reais [...]." (³)
Desde então, Numa Pompílio passou a exercer o governo da cidade. Nas palavras de Tito Lívio (⁴), "tão logo começou a reinar, dedicou-se a edificar novamente, desde os alicerces, o direito, as leis e costumes daquela cidade que com força e armas se fundara" (⁵).
Não se pode afirmar, meus leitores, que tudo se passou exatamente assim. Talvez Plutarco, Tito Lívio e outros autores tenham romanceado um pouco a vida de Numa, incidindo em uma tentação que não é incomum, quando se trata de assuntos remotos. Um fato, todavia, salta aos olhos: era desse modo que os antigos romanos davam fim às suas dúvidas. Pediam um palpite aos deuses, a quem, afinal, podiam culpar, se os acontecimentos subsequentes não fossem tão bons quanto esperavam. 

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Cf. PLUTARCO. Vitae parallelae.
(3) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 59 a.C. - 17 d.C.
(5) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Beijos romanos

Os antigos romanos, quando encontravam alguém a quem eram particularmente afeiçoados, usavam como cumprimento um beijo na testa. 
Circulavam na Antiguidade muitos relatos - lendas, talvez - afirmando que as origens de Roma estariam ligadas a um grupo de pessoas que escapulira do incêndio de Troia, no final da famosa guerra contra os gregos. Tantas e tão numerosas eram as lendas nesse sentido que é quase impossível não haver, ainda que remotamente, algo de verdade nelas. O que é que isso tem a ver com beijos? É o que já veremos.
A história é um tanto bizarra. Segundo Plutarco (¹), depois de muito navegar, fugitivos de Troia chegaram à Península Itálica. Tinham, ao que parece, a intenção de continuar a viagem em busca de um novo lar. Ao menos era assim em relação aos homens. As mulheres, porém, estavam já cansadas dos longos dias no mar e, assim que puseram os pés em terra para algum descanso, decidiram, sem conhecimento dos maridos, incendiar as embarcações. Fugiam de um incêndio e começavam outro!
Descobrindo o que ocorrera, os homens tiveram um acesso de fúria. Foram, porém, acalmados por beijos e carícias das mulheres, chamando-os à razão. A terra parecia boa e, de qualquer modo, agora somente restava aos cansados troianos uma possibilidade: ficar. Teriam, portanto, segundo essa versão, iniciado o povoamento que, mais tarde, daria origem a Roma.
Agora, fala Plutarco:
"[...] Desde essa época vigora em Roma o costume, depois espalhado por toda a Itália, de que aqueles que têm entre si muita amizade, tanto homens como mulheres, se beijem na fronte quando se encontram, como demonstração de amor e paz." (²)
A explicação está dada. Uma tradição, mais uma entre muitas, das que havia entre os antigos romanos.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Vitae Parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 5 de abril de 2018

As vestais e a origem lendária de Roma

Alba Longa, uma povoação na Península Itálica (¹), vivia dias tenebrosos. A disputa pelo poder - sempre isso! - produzira resultados sangrentos. Conta Tito Lívio, em Ab urbe condita libri:
"Amúlio, para não deixar descendência a seu irmão [Numitor], matou todos os seus filhos do sexo masculino, e, a pretexto de conferir uma honraria à sua filha Rea Silvia, fez com que fosse eleita vestal, obrigando-a a um voto de virgindade perpétua." (²)
A concorrência familiar ao poder de Amúlio parecia, assim, descartada. Porém... Verificou-se, posteriormente que Rea Silvia, a jovem vestal, estava grávida! Como explicar tal fenômeno? Voltemos a Tito Lívio:
"Havendo a vestal [Rea Silvia] dado à luz gêmeos, disse que Marte era o pai dos meninos, fosse porque de fato acreditava nisso, fosse porque entendia que era melhor atribuir a um deus a responsabilidade por sua culpa [ao descumprir o voto de virgindade]." (²)
Logo adiante, leitores, vocês descobrirão o motivo que tornava a situação tão perigosa para a jovem mãe e vestal. O que nos interessa, neste momento, é que Roma, uma aldeia de pastores que deve ter vindo à existência talvez por volta do ano 1000 a.C., remontava sua origem lendária aos gêmeos Rômulo e Remo, filhos de Rea Silvia (com Marte, deus da guerra!), que, lançados no Tibre, teriam sido salvos e amamentados pela loba mais famosa de todos os tempos e, mais tarde, criados por Fáustulo, um pastor de ovelhas, e sua mulher. Os dois irmãos, já adultos, iriam fundar a cidade de Roma. Para completar a hecatombe, Rômulo se encarregaria de assassinar Remo, sob a alegação de que ultrapassara os limites sagrados, estabelecidos na fundação da cidade em 21 de abril de 753 a.C.
É difícil separar a lenda da realidade nessa história, que tem proporcionado assunto para muito debate erudito ao longo dos séculos. Acontecimentos esporádicos, em que crianças perdidas em florestas sobrevivem ao conviver com animais, mostram que não seria de todo impossível que dois meninos, lançados ao Tibre em um cesto que foi ter à margem do rio, chegassem a ser aquecidos por uma loba. Daí a fazê-la ama de leite dos bebês... É pedir demais da credulidade humana, não acham? Mas as pesquisas continuam, e, se temos razões para suspeitar do caráter lendário da origem de Rômulo e Remo, reconhecemos que essa história está ancorada em muito do que era o estilo de vida dos habitantes da Península Itálica nesses dias já distantes. 

A loba com os gêmeos Rômulo e Remo, caricatura do Século XIX (³)
E quanto às vestais, quem eram elas?
A lenda-história de Rômulo e Remo assevera que havia vestais em Alba Longa, e que a mãe dos meninos, Rea Silvia, era uma vestal. Por sua vez, a tradição romana afirma que, na cidade fundada pelos gêmeos, a construção de um templo em honra de Vesta ocorreu no reinado do segundo rei, Numa Pompílio. Nesse templo, cujo acesso era totalmente vedado a indivíduos do sexo masculino, as vestais, sacerdotisas virgens, eram responsáveis pela manutenção do fogo sagrado da deusa Vesta. As vestais, pois, existiram mesmo, e sempre foram tratadas com toda a deferência, até durante o Império, quando os antigos e severos costumes saíram de moda. Por um lado, as famílias romanas tinham orgulho de que uma de suas filhas integrasse o colégio das vestais (⁴); por outro, a regra da virgindade perpétua impunha a alguma eventual infratora um castigo terrível: ser enterrada viva. Assumindo que em Alba Longa houvesse idêntico regulamento, não surpreenderá a nenhum dos leitores, suponho, que a pobre Rea Silvia tenha atribuído a Marte a paternidade de seus meninos. De qualquer modo, o tempo se encarregou de justificar a "hereditariedade", se assim podemos dizer: em sua índole, Roma viria a ser uma digníssima representante do deus da guerra.

(1) A localização de Alba Longa, suposta uma povoação real e não apenas lendária, é ainda incerta.
(2) Tito Lívio viveu entre 59 a.C. e 17 d.C.; os trechos citados de Ab  urbe condita libri foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Respeitadas as diferenças, lembra um pouco o orgulho das famílias religiosas, em tempos mais recentes, quando um de seus filhos se tornava padre.


Veja também:

quinta-feira, 23 de março de 2017

As virtudes dos sete reis de Roma

Como encontrar virtudes em quem não parece ostentar nenhuma delas? Pois foi exatamente isso que fez Aneu Floro, historiador contemporâneo do imperador Adriano (¹). 
Todo mundo sabe que os primeiros romanos estavam longe de ser gente muito recomendável; eram desordeiros que contribuíam para transtornar a vida de seus vizinhos na Península Itálica. Pouco se conhece quanto ao seu modo de vida, e, como afirma um antigo provérbio, "quando a História guarda silêncio, as fábulas começam a falar". Neste caso, as fábulas não só falam, mas tagarelam com notável loquacidade.
Existe certo consenso de que a povoação que deu origem a Roma deve ter começado como uma humilde aldeia de pastores, às margens do Tibre, em algum momento entre o ano 1000 e o ano 800 a.C.; a fundação "oficial" da cidade, porém, reconhecida pelos antigos romanos, teria acontecido em 753 a.C., por obra dos gêmeos Rômulo e Remo, aqueles que, jogados no rio quando bebês, não afundaram e foram alimentados por uma loba... Aí está, portanto, uma fábula falante. Rômulo teria sido o primeiro rei e, depois dele, vieram outros seis. Alguns fatos associados aos reis de tempos remotos são bastante duvidosos, mais parecendo lendas (²), já que quase nada existe sobre eles que mereça o nome de sólida documentação (todos os autores que fazem referência a seus respectivos governos viveram muito tempo depois). 
De qualquer maneira, os sete reis foram Rômulo (³), Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e, finalmente, Tarquínio, o Soberbo. E é aí que entra Aneu Floro (⁴), autor de Epitome rerum Romanarum, atribuindo uma grande virtude a cada um dos monarcas que teriam ajudado a lançar os fundamentos do que viria a ser o Império Romano:
  • Rômulo - Tinha espírito empreendedor, fundou a cidade;
  • Numa Pompílio - Muito religioso, conseguiu "domar" os ferozes romanos, ao instituir entre eles o respeito aos deuses;
  • Túlio Hostílio - Era um mestre na arte da guerra, disciplinou os romanos para o combate, estabelecendo as bases do exército;
  • Anco Márcio - Dedicou-se às construções necessárias à cidade;
  • Tarquínio Prisco - Criou símbolos, divisas e outros adereços (anéis, togas, etc.) para estabelecer a dignidade dos cargos públicos e do povo romano;
  • Sérvio Túlio - Fez realizar o primeiro censo e organizou estritamente a administração da cidade;
  • Tarquínio o Soberbo - Se devemos crer em autores como Tito Lívio e Floro, este rei foi um imprestável, que distribuiu ofensas abomináveis entre ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Onde estaria a virtude? Floro saiu-se com essa: "[...] O povo, ofendido por suas injúrias, moveu-se pelo desejo de liberdade." Ou seja: a opressão foi útil porque fez brotar um sentimento contrário ao governo exercido por um rei. 
Tarquínio foi deposto e exilado, Roma tornou-se uma República.

(1) Adriano governou entre 117 e 138; portanto, no Século II.
(2) Entende-se que os reis existiram, mas os atos de governo atribuídos a eles carecem ainda de certezas, embora pesquisas históricas e arqueológicas nesse sentido continuem a acontecer.
(3) Há quem afirme que, durante algum tempo, Rômulo teve um companheiro no comando de Roma (não era seu irmão Remo, que foi assassinado). Neste caso, seriam oito e não sete os reis de Roma.
(4) Nessas questões relativas aos tempos remotos de Roma, Floro se reporta aos escritos de Tito Lívio.


Veja também: