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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

A distribuição de terras promovida por Numa Pompílio, segundo rei de Roma

O território ocupado por Roma, em suas origens, era pequeno. Apesar disso, Plutarco (¹) atribuiu a Numa Pompílio, segundo rei de Roma (²), uma reforma agrária, porque esse monarca, que era um sujeito muito religioso, teria manifestado preocupação com os pobres da cidade, que viviam desocupados, já que não dispunham de terras em que trabalhar. As áreas públicas que não estavam sendo cultivadas foram repartidas entre eles. 
A principal preocupação de Numa seria garantir que, entretidos com as lides do campo, os romanos deixassem de lado o costume de querelar a qualquer pretexto, tanto entre si como com os vizinhos. De acordo com Plutarco, os resultados foram excelentes: redução da pobreza, da ociosidade e da violência. Mas, acima de tudo, uma mudança nos interesses de todos os romanos: "Desde então, os romanos passaram a praticar a agricultura [...], de modo que, por longo tempo, viveram em paz [...], aquilo que, para Numa, era o que havia de mais importante. [...]" (³). É de justiça admitir que, entre os romanos famosos, até os primeiros tempos da República, a maioria era composta por agricultores.
Numa Pompílio, porém, não se fiava, ao que parece, apenas nas supostas virtudes de sua gente. Era preciso haver quem fiscalizasse o trabalho, porque não se poderia esperar, sem algum controle, que houvesse mudança repentina naqueles que estavam acostumados a pouco ou nada fazer: "[...] para observar o que faziam os novos agricultores, Numa indicou pessoas que percorressem os lugares, para verificar o que e como se fazia, e, em certas ocasiões, ia ele mesmo inspecionar, dando atenção ao trabalho e como cada um exercia seu ofício" (⁴). 
Talvez Plutarco, ao apresentar Numa Pompílio como introdutor da distribuição de terras em Roma, estivesse apenas em busca de um pretexto para compará-lo a Licurgo, o legislador espartano, a quem atribuiu uma reforma agrária na Lacônia. Seja como for, mais tarde, em época já suficientemente documentada da história romana, a posse e distribuição de terras iria se tornar uma questão de muita importância, manipulada com habilidade por aqueles cujas ambições estavam voltadas não só para o controle da cidade, mas para o governo do mundo, tal qual o entendiam.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Numa Pompílio é um dos "reis lendários", nome dado devido à escassa informação confiável que sobre eles se tem.
(3) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias. 
(4) Ibid.


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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A participação dos deuses na escolha do segundo rei de Roma

Numa Pompílio é considerado o segundo rei de Roma. É um dos "reis lendários", assim chamados porque, sobre eles, não se tem muita documentação. É provável que esses reis tenham existido, mas os autores que escreveram sobre eles fizeram uso de fontes que nem de leve chegavam perto, em suas origens, ao tempo em que se supõe que tenham vivido.
Após esse preâmbulo, falemos de Numa e de como chegou a ser rei em Roma, apesar de ser sabino, e não romano. De acordo com Plutarco (¹), Rômulo morrera em condições suspeitas (²), e a desordem reinava naquela que seria, dentro de alguns séculos, a cidade mais importante do mundo mediterrânico. Naquele tempo, porém, não passava de uma aldeia à beira do caos. Tendo discutido quem deveria ser o novo mandatário, os cidadãos mais influentes teriam chegado a um acordo quanto a chamar Numa Pompílio para o cargo, por ser considerado pessoa religiosa, de boa índole e com muita afeição à filosofia, a cujo estudo se dedicava desde que enviuvara.
Lá se foram os representantes de Roma a chamá-lo. Viria? Como mandavam os bons modos, recusou, a princípio, mas acabou sendo convencido pelo pai idoso a aceitar o cargo. Sua chegada a Roma foi acompanhada de grandes festejos, mas, reunida toda a população em praça pública, Numa Pompílio recusou as insígnias reais, alegando que os deuses ainda não haviam manifestado aprovação para sua escolha como monarca.
Pode-se imaginar que tudo não passava de encenação para convencer os belicosos romanos. Porém, segundo Plutarco, os sacerdotes e adivinhos, gente que se supunha ter boa relação com os deuses, foram chamados para mostrar o que devia ser feito. Levaram Numa até o Capitólio e lá, com o cerimonial apropriado (Numa foi coberto com um véu, enquanto um dos sacerdotes conservava a mão sobre sua cabeça), pediram que, mediante o voo ou canto das aves, os deuses mostrassem se lhes agradava a escolha daquele rei. Lembrem-se leitores: havia, para os romanos, aves favoráveis e desfavoráveis, e o comparecimento de umas ou outras era visto como sinal enviado pelas divindades. Vamos ao que disse Plutarco:
"Fez-se grande silêncio [...], esperando que os deuses manifestassem um sinal favorável [...]. Estando todos com os olhos no céu, viram voar aves que indicavam aprovação à direita de Numa, ao que se declarou ser [sua escolha como rei] a vontade dos deuses, e com essa aprovação do céu a alegria foi ainda maior. Após essa manifestação [dos deuses], Numa aceitou as insígnias reais [...]." (³)
Desde então, Numa Pompílio passou a exercer o governo da cidade. Nas palavras de Tito Lívio (⁴), "tão logo começou a reinar, dedicou-se a edificar novamente, desde os alicerces, o direito, as leis e costumes daquela cidade que com força e armas se fundara" (⁵).
Não se pode afirmar, meus leitores, que tudo se passou exatamente assim. Talvez Plutarco, Tito Lívio e outros autores tenham romanceado um pouco a vida de Numa, incidindo em uma tentação que não é incomum, quando se trata de assuntos remotos. Um fato, todavia, salta aos olhos: era desse modo que os antigos romanos davam fim às suas dúvidas. Pediam um palpite aos deuses, a quem, afinal, podiam culpar, se os acontecimentos subsequentes não fossem tão bons quanto esperavam. 

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Cf. PLUTARCO. Vitae parallelae.
(3) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 59 a.C. - 17 d.C.
(5) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 19 de abril de 2018

O sumiço (definitivo) de Rômulo

Rômulo, segundo a tradição que se reputa lendária, teria, ao lado de seu irmão Remo, fundado em 753 a.C. a cidade de Roma. Já expliquei aqui no blog que, no estágio atual dos conhecimentos, entende-se que Roma, enquanto uma aldeia de pastores, existia muito antes disso (por volta do ano 1000 a.C.). Mas, se alguém de vocês, leitores, imagina que seja possível resolver o impasse na eventualidade de que alguma escavação arqueológica descubra o túmulo de Rômulo, será melhor esquecer a ideia: digo isso porque tal monumento (¹) jamais existiu, de acordo com registros feitos tanto por Tito Lívio (²) como por Aneu Floro (³). Passemos, portanto, às fontes.
Tito Lívio conta que Rômulo simplesmente desapareceu durante uma tempestade monstruosa e seu corpo jamais foi encontrado; a partir disso, "começaram a saudá-lo como um deus, nascido de um deus (Marte), rei e pai da cidade romana". (⁴) Quanto a Floro, vai além, explicando que "a tempestade repentina e o eclipse solar (⁵) constituíram uma espécie de  consagração" (⁶), para que Rômulo viesse a ser considerado uma divindade menor. 
Sucede, leitores, que nem Tito Lívio e nem Floro, que referiram a existência de Rômulo como uma personalidade real, parecem ter acreditado muito neste epílogo algo romântico, uma vez que ambos sugerem a hipótese de que os senadores de Roma teriam feito o suposto filho de Marte em pedaços, de modo que o sumiço durante a tempestade e posterior divinização seriam apenas a versão propalada para encobrir um crime horrendo. Floro teve ainda o cuidado de citar o motivo para o assassinato: Rômulo seria um sujeito de temperamento muito difícil, a quem os senadores já não suportavam mais. Afinal, tudo combina muito bem com a fama dos romanos de tão remotos dias.

(1) No sentido latino do termo.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) Contemporâneo do imperador Adriano.
(4) Ab urbe condita libri.
(5) Ocorrido pouco depois do "sumiço".
(6) Epitome Rerum Romanarum; os trechos citados de Tito Lívio e Floro foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 23 de março de 2017

As virtudes dos sete reis de Roma

Como encontrar virtudes em quem não parece ostentar nenhuma delas? Pois foi exatamente isso que fez Aneu Floro, historiador contemporâneo do imperador Adriano (¹). 
Todo mundo sabe que os primeiros romanos estavam longe de ser gente muito recomendável; eram desordeiros que contribuíam para transtornar a vida de seus vizinhos na Península Itálica. Pouco se conhece quanto ao seu modo de vida, e, como afirma um antigo provérbio, "quando a História guarda silêncio, as fábulas começam a falar". Neste caso, as fábulas não só falam, mas tagarelam com notável loquacidade.
Existe certo consenso de que a povoação que deu origem a Roma deve ter começado como uma humilde aldeia de pastores, às margens do Tibre, em algum momento entre o ano 1000 e o ano 800 a.C.; a fundação "oficial" da cidade, porém, reconhecida pelos antigos romanos, teria acontecido em 753 a.C., por obra dos gêmeos Rômulo e Remo, aqueles que, jogados no rio quando bebês, não afundaram e foram alimentados por uma loba... Aí está, portanto, uma fábula falante. Rômulo teria sido o primeiro rei e, depois dele, vieram outros seis. Alguns fatos associados aos reis de tempos remotos são bastante duvidosos, mais parecendo lendas (²), já que quase nada existe sobre eles que mereça o nome de sólida documentação (todos os autores que fazem referência a seus respectivos governos viveram muito tempo depois). 
De qualquer maneira, os sete reis foram Rômulo (³), Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e, finalmente, Tarquínio, o Soberbo. E é aí que entra Aneu Floro (⁴), autor de Epitome rerum Romanarum, atribuindo uma grande virtude a cada um dos monarcas que teriam ajudado a lançar os fundamentos do que viria a ser o Império Romano:
  • Rômulo - Tinha espírito empreendedor, fundou a cidade;
  • Numa Pompílio - Muito religioso, conseguiu "domar" os ferozes romanos, ao instituir entre eles o respeito aos deuses;
  • Túlio Hostílio - Era um mestre na arte da guerra, disciplinou os romanos para o combate, estabelecendo as bases do exército;
  • Anco Márcio - Dedicou-se às construções necessárias à cidade;
  • Tarquínio Prisco - Criou símbolos, divisas e outros adereços (anéis, togas, etc.) para estabelecer a dignidade dos cargos públicos e do povo romano;
  • Sérvio Túlio - Fez realizar o primeiro censo e organizou estritamente a administração da cidade;
  • Tarquínio o Soberbo - Se devemos crer em autores como Tito Lívio e Floro, este rei foi um imprestável, que distribuiu ofensas abomináveis entre ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Onde estaria a virtude? Floro saiu-se com essa: "[...] O povo, ofendido por suas injúrias, moveu-se pelo desejo de liberdade." Ou seja: a opressão foi útil porque fez brotar um sentimento contrário ao governo exercido por um rei. 
Tarquínio foi deposto e exilado, Roma tornou-se uma República.

(1) Adriano governou entre 117 e 138; portanto, no Século II.
(2) Entende-se que os reis existiram, mas os atos de governo atribuídos a eles carecem ainda de certezas, embora pesquisas históricas e arqueológicas nesse sentido continuem a acontecer.
(3) Há quem afirme que, durante algum tempo, Rômulo teve um companheiro no comando de Roma (não era seu irmão Remo, que foi assassinado). Neste caso, seriam oito e não sete os reis de Roma.
(4) Nessas questões relativas aos tempos remotos de Roma, Floro se reporta aos escritos de Tito Lívio.


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