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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A Revolta de Espártaco

Espártaco era um gladiador. Como ninguém nasce gladiador, parece-me necessário explicar que, na Roma Antiga, os espetáculos de gladiadores haviam começado como um divertimento para os soldados que, lutando, mantinham a forma quando não havia guerra. Posteriormente (¹), as lutas passaram a ser uma atividade profissional, se entendermos que os "profissionais" em questão eram escravos, quase sempre selecionados entre os prisioneiros de guerra que mais impressionavam pelo vigor físico (²). Era esse o caso de Espártaco, um trácio que integrara um corpo de auxiliares do exército romano, mas que desertara e fora capturado. O que aconteceu em seguida é relatado por Aneu Floro (³) em Epitome rerum Romanarum:
O último combate de Espártaco,
na visão de um cartunista do Século XIX (⁵)
"Espártaco, Criso e Enomaus, fugindo do lugar de treinamento de Lêntulo, com trinta outros homens de semelhante condição [gladiadores], espalharam-se por Cápua, chamando escravos em seu auxílio, e, em pouco tempo, eram já dez mil homens que, não satisfeitos com a fuga, queriam a liberdade." (⁴)
As fontes apresentam alguma divergência quanto ao número de adeptos que Espártaco conseguiu arrebanhar, mas é fato que, nos três anos seguintes (73 a 71 a.C.), a Península Itálica viveu um severo conflito, no qual o exército romano foi várias vezes derrotado por gladiadores e escravos que lutavam pela liberdade - talvez houvesse nisso um fator importante para o sucesso que inicialmente obtiveram.
Não era fácil, porém, controlar milhares de homens em fúria. Afinal, as forças romanas conseguiram vencer os revoltosos. Quanto a Espártaco, no dizer de Floro, "lutando com valentia na primeira fila [de combatentes], teve a morte de um grande comandante." (⁴)
Como explicar uma rebelião de proporções tão assinaladas? Além do já citado desejo de liberdade, deve-se considerar que:
  • Os escravos eram exageradamente numerosos em Roma, em consequência do cativeiro de inimigos derrotados em combate;
  • Muitos escravos, tendo pertencido ao exército de outros povos, haviam recebido treinamento militar e, mesmo não tendo armas adequadas, eram fortes e, conforme se verificou, capazes de fazer frente ao disciplinado exército romano;
  • A chamada "Revolta de Espártaco" não foi a primeira e nem a última rebelião envolvendo escravos nos domínios de Roma (na historiografia clássica é também conhecida como Terceira Guerra Servil).
Teriam os romanos consciência do problema que criavam para si mesmos com a multiplicação de braços cativos? As consequências eram demasiado óbvias para que passassem despercebidas. Foi também Floro quem perguntou: "Por que motivo os gladiadores se revoltaram contra seus treinadores, a não ser pelo fato de que se obtinha o favor da plebe com a realização de espetáculos, nos quais supliciar o oponente vencido tornou-se uma arte?" (⁴)

(1) É opinião corrente que isso teria ocorrido por volta do final da Primeira Guerra Púnica.
(2) Autores romanos, como Júlio César, por exemplo, destacaram o fato de que gauleses e germanos, muito mais altos e mais fortes que a média da população de Roma, eram temidos pelos soldados, que somente eram capazes de derrotá-los devido à disciplina e estratégia que as forças romanas apresentavam nas batalhas.
(3) Um contemporâneo do imperador Adriano.
(4) Os trechos citados de Epitome rerum Romanarum foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 281.



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quinta-feira, 23 de março de 2017

As virtudes dos sete reis de Roma

Como encontrar virtudes em quem não parece ostentar nenhuma delas? Pois foi exatamente isso que fez Aneu Floro, historiador contemporâneo do imperador Adriano (¹). 
Todo mundo sabe que os primeiros romanos estavam longe de ser gente muito recomendável; eram desordeiros que contribuíam para transtornar a vida de seus vizinhos na Península Itálica. Pouco se conhece quanto ao seu modo de vida, e, como afirma um antigo provérbio, "quando a História guarda silêncio, as fábulas começam a falar". Neste caso, as fábulas não só falam, mas tagarelam com notável loquacidade.
Existe certo consenso de que a povoação que deu origem a Roma deve ter começado como uma humilde aldeia de pastores, às margens do Tibre, em algum momento entre o ano 1000 e o ano 800 a.C.; a fundação "oficial" da cidade, porém, reconhecida pelos antigos romanos, teria acontecido em 753 a.C., por obra dos gêmeos Rômulo e Remo, aqueles que, jogados no rio quando bebês, não afundaram e foram alimentados por uma loba... Aí está, portanto, uma fábula falante. Rômulo teria sido o primeiro rei e, depois dele, vieram outros seis. Alguns fatos associados aos reis de tempos remotos são bastante duvidosos, mais parecendo lendas (²), já que quase nada existe sobre eles que mereça o nome de sólida documentação (todos os autores que fazem referência a seus respectivos governos viveram muito tempo depois). 
De qualquer maneira, os sete reis foram Rômulo (³), Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e, finalmente, Tarquínio, o Soberbo. E é aí que entra Aneu Floro (⁴), autor de Epitome rerum Romanarum, atribuindo uma grande virtude a cada um dos monarcas que teriam ajudado a lançar os fundamentos do que viria a ser o Império Romano:
  • Rômulo - Tinha espírito empreendedor, fundou a cidade;
  • Numa Pompílio - Muito religioso, conseguiu "domar" os ferozes romanos, ao instituir entre eles o respeito aos deuses;
  • Túlio Hostílio - Era um mestre na arte da guerra, disciplinou os romanos para o combate, estabelecendo as bases do exército;
  • Anco Márcio - Dedicou-se às construções necessárias à cidade;
  • Tarquínio Prisco - Criou símbolos, divisas e outros adereços (anéis, togas, etc.) para estabelecer a dignidade dos cargos públicos e do povo romano;
  • Sérvio Túlio - Fez realizar o primeiro censo e organizou estritamente a administração da cidade;
  • Tarquínio o Soberbo - Se devemos crer em autores como Tito Lívio e Floro, este rei foi um imprestável, que distribuiu ofensas abomináveis entre ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Onde estaria a virtude? Floro saiu-se com essa: "[...] O povo, ofendido por suas injúrias, moveu-se pelo desejo de liberdade." Ou seja: a opressão foi útil porque fez brotar um sentimento contrário ao governo exercido por um rei. 
Tarquínio foi deposto e exilado, Roma tornou-se uma República.

(1) Adriano governou entre 117 e 138; portanto, no Século II.
(2) Entende-se que os reis existiram, mas os atos de governo atribuídos a eles carecem ainda de certezas, embora pesquisas históricas e arqueológicas nesse sentido continuem a acontecer.
(3) Há quem afirme que, durante algum tempo, Rômulo teve um companheiro no comando de Roma (não era seu irmão Remo, que foi assassinado). Neste caso, seriam oito e não sete os reis de Roma.
(4) Nessas questões relativas aos tempos remotos de Roma, Floro se reporta aos escritos de Tito Lívio.


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