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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Em camisa e ceroulas

O vestuário doméstico usado por quem vivia no interior do Brasil na primeira metade do Século XIX


Quem andasse pelo interior do Brasil por volta da primeira metade do Século XIX esperando encontrar compostura, ainda que não formalidade, na recepção de visitas, provavelmente ficaria desapontado. É que o distanciamento dos centros urbanos, o pouco ou nenhum convívio social, faziam com que até mesmo os mais abastados não tivessem escrúpulos em aparecer diante das visitas em trajes sumários. Enviado à Província de Goiás pouco depois da Independência para organizar as forças militares da região, Raimundo José da Cunha Matos observou, quanto à gente que o hospedava ao longo do caminho (que, aliás, era longo mesmo, ainda mais naqueles tempos em que o meio terrestre de transporte mais rápido eram os cavalos): "A falta de educação urbana da gente do sertão induz a apresentarem-se os homens muitas vezes em presença de pessoas de respeito em trajes do interior das casas, em camisa e ceroulas; mas as mulheres pela  maior parte aparecem vestidas com decência, posto que estejam quase sempre sem meias, e com tamancos nos pés." (¹)
Mais tarde, já na Cidade de Goiás, capital da Província, Cunha Matos observou que as mulheres viviam quase reclusas, a não ser pelas idas à missa, e isso com um traje que, se não era a mantilha dos tempos coloniais, não deixava, para efeitos práticos, de ter a mesma finalidade: "As senhoras não saem fora de casa durante o dia senão em raríssimas ocasiões, mas nos dias santos e domingos vão à missa de madrugada, e então cobrem a cabeça com um lenço que forma uma espécie de elmo com babeira mas sem viseira, e por este modo só se lhes podem ver os olhos [...]." (²)
Uma viagem de inspeção de tropas deu ao mesmo autor a oportunidade de constatar que os hábitos quanto ao vestuário que havia presenciado não estavam restritos a uma pequena área, tampouco eram praticados somente por camadas mais baixas da população. Cunha Matos, que, ao lado de suas atribuições militares, aproveitava a ocasião para ir escrevendo as observações que hoje nos divertem, deixou-nos este registro em que, a despeito do transparente mau humor, descreve com precisão quase fotográfica o trajar diário de um indivíduo que, tendo-o hospedado, estava longe de pertencer à fração empobrecida da Província: "[...] O proprietário do engenho hospedou-me com a melhor vontade, e com tanta sem-cerimônia que sempre esteve em camisa e ceroulas, tamancos, e sem meias nas pernas. Tal é o estado de civilização destes sertões, ou a grosseria de alguns homens, ainda mesmo proprietários abastados." (³)

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 96.
(2) Ibid., pp. 138 e 139.
(3) Ibid. p. 188.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Esmolas para as almas do purgatório

François Biard, pintor francês que esteve no Brasil entre 1858 e 1859, fez registros interessantes que resultaram na publicação de um livro, Dois Anos no Brasil. A obra apresenta, às vezes, um tom sarcástico, mas tem lá sua importância por documentar aspectos do dia a dia da capital do Império e de outras localidades, que, parecendo "comuns" ou "normais" aos habitantes do Brasil, talvez não fossem preservados, a não ser pelo olhar de curiosidade desse visitante estrangeiro. Assim é que encontramos este relato:
"Entre as notas e esboços apanhados nessa época pelas ruas do Rio, encontro um gordo burguês que usa sobre sua impecável roupa preta uma opa de seda verde, e estende numa das mãos aos transeuntes uma bolsa encarnada. Que faria esse homem, assim encostado à esquina da casa que ficava fronteira ao meu hotel? Soube-o de sua própria boca: tirava esmolas e dizia invariavelmente aos que por perto passavam:
"Para as almas do purgatório, por amor de Deus!"" (¹)
No Século XIX havia muita gente que acreditava que, quando alguém morria, não sendo santo o bastante para que sua alma fosse para o céu e nem perverso ao extremo, a ponto de ir diretamente ao inferno, tinha de comparecer ao purgatório, de onde, depois de algum tempo, havendo se purificado de seus pecados, podia ir ao céu. Para quem adotava esse ponto de vista, era importante a celebração de missas por intenção das "almas do purgatório", na convicção de que isso ajudaria a libertá-las de seu inferno temporário. Portanto, as esmolas, que o burguês visto por Biard pedia, eram destinadas a custear a celebração de missas.

Coletores de esmolas para fins religiosos (²)

Se você, leitor, tem curiosidade em saber se muita gente contribuía, considere: quem de fato acreditava na existência do purgatório, tinha boas razões para doar, não fosse o caso de parentes e amigos terem de sofrer por longo tempo em virtude da negligência dos vivos; além disso, a ideia de que, ao morrer, o avarento que não fizera doações em favor dos mortos podia muito bem pagar por isso no purgatório ou até, de uma vez por todas, no inferno, devia funcionar como um estímulo poderoso para induzir à generosidade. Na dúvida, era melhor não arriscar...  

(1) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 121.
(2) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada digitalmente para facilitar a visualização neste blog. 


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