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domingo, 11 de agosto de 2013

Brincando de adivinhar

Quem de meus leitores será capaz de dizer, corretamente, qual o assunto da foto abaixo?


Não, não, senhores. Não se trata do degelo de um dos polos. É coisa bem diferente, asseguro-lhes!
É simplesmente um "detalhe" da poluição química aerada que cobria o rio Tietê na tarde do dia 17 de julho de 2013. Um observador desavisado, que olhasse a foto ao lado, mostrando o Tietê (em primeiro plano) e parte da cidade de Salto - SP, poderia até pensar que os extremos do inverno teriam feito o rio congelar...
Como o poluição do Tietê já foi alvo de várias postagens neste blog, parece-me desnecessário tecer maiores considerações. Basta apenas lembrar o quão hipócrita pode ser a sociedade contemporânea: faz-se um enorme barulho (quase sempre acertadamente) por causa de uma única árvore que eventualmente é cortada, e aceita-se, já quase sem estranheza, uma aberração dessas em um rio que atravessa quase todo o Estado de São Paulo. Os leitores devem conhecer outros exemplos.


Veja também:

quarta-feira, 6 de março de 2013

Cidadania, civismo, civilidade - Parte 2

Sobre o lixo lançado no rio Tietê, ou um retrato da estupidez da espécie humana


Quem percorre a SP 312 (ou Estrada-Parque, ou ainda Estrada dos Romeiros) pode até se encantar com a paisagem, mas não precisa viajar muitos quilômetros (no sentido Itu - Santana de Parnaíba) para dar-se conta de que os maus hábitos da humanidade não estão, de modo algum, ausentes. Basta chegar até a barragem de Itu.  
 

Ora, alguém dirá, o que há de errado aí? É simples, vem com a água:


Pode até parecer divertido tentar contar quantos tipos diferentes de embalagens, e outros objetos (até partes de um carrinho de bebê!) podem ser encontrados, mas a verdade é que isso não tem graça nenhuma.
Primeiro, é preciso lembrar que essa quantidade de porcarias é, em parte, resultado do consumo desenfreado, que não leva em conta o fato de que, mais algum tempo, e a humanidade estará instalada entre montanhas de lixo, os "aterros sanitários", "lixões", etc., como, a propósito, já acontece em alguns lugares.
Em segundo lugar, a maior parte desses objetos que "navegam" pelo Tietê deveria ter sido encaminhada para reciclagem. Mas, como todo mundo sabe, isso não faz parte do quotidiano da maioria das cidades brasileiras.
Além de tudo isso, é preciso assinalar que jamais o lixo deveria ser jogado, quer no próprio rio, quer em vias públicas. Neste último caso, irá acabar entupindo as galerias de águas pluviais, o que contribui muito para inundações em épocas de chuvas fortes (embora isso não explique, isoladamente, todo o problema, mas serve para lembrar que, às vezes, haverá gente afetada por enchentes que fez sua parte para que elas ocorressem, ainda que muitos cidadãos conscientes, que não lançam o lixo em qualquer lugar, também sofram pelos erros alheios). Das galerias, acabará indo para os rios - isso sem falar no que é lançado diretamente nos próprios cursos d'água.
Então, que os senhores cidadãos, quer governados, quer governantes, estejam cientes de suas responsabilidades, tanto na aplicação de políticas educativas sobre o consumo responsável, quanto no desenvolvimento de um programa efetivo de reciclagem, o que não dispensa ninguém da obrigação de nunca, nunca mesmo, espalhar lixo em local indevido.


Veja também:

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O lixo nas margens do rio Tietê e as sacolas plásticas de supermercado



A vista acima é bem bonita, não? Foi fotografada em janeiro deste ano, e mostra o rio Tietê como é visto por quem passa pela rodovia SP 312, também chamada Estrada-Parque (ou ainda Estrada dos Romeiros). A paisagem parece perfeita, com a serenidade do rio neste trecho emoldurada pela floresta. Entretanto, a realidade, observada, digamos, com lente de aumento, é muito diversa. Quem, na ocasião examinasse o lugar com cuidado, logo veria, agarrados às raízes das árvores, milhares e milhares de saquinhos plásticos, as famosas "sacolinhas de supermercado", cujo uso, desde o dia 25 de janeiro de 2012, se pretende oficialmente abolido no Estado de São Paulo.
Neste detalhe da primeira foto,
os pontos brancos 
junto à margem
são sacolas plásticas.
Ora, como é que esses sacos plásticos chegaram a uma área  escassamente habitada? Resposta simples: foram trazidos com as águas das chuvas abundantes nessa época do ano. Mãos absolutamente descuidadas e inconsequentes devem tê-los deixado em vias públicas, fazendo a enxurrada o restante do trabalho.
Discute-se ainda se a supressão dos saquinhos em supermercados resolverá o problema, já que eles ainda continuarão em uso em outros setores do comércio. Argumenta-se, também, que a decisão de não fornecer embalagens plásticas nos supermercados irá acarretar desemprego no setor de produção desses saquinhos. Por isso, não sabemos ainda se estamos ou não diante de uma solução para o problema, que, por outro lado, nem existiria, se um pouco de civilidade e educação ambiental convencesse os maus usuários a mudar de postura, minimizando o uso de saquinhos plásticos e, em nenhuma hipótese, deixando-os em qualquer lugar. De qualquer modo, houve prazo mais do que suficiente para uma adaptação, e só o tempo poderá mostrar os verdadeiros resultados.

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No ano passado, durante o feriado de Corpus Christi, passei por uma pequena cidade do interior de São Paulo, na qual a população estava dando os últimos retoques nos tapetes de rua para a procissão. Estacionei, desci e fui percorrer algumas quadras, para ver o trabalho que se fazia - é manifestação popular interessante, variando a qualidade do trabalho de acordo com a habilidade de quem executa a tarefa. Pois bem, em meio a uma longa extensão de tapetes de temática sempre religiosa e sem grandes novidades, encontrei este aqui, diferente, é verdade, mas não despropositado:


Achou que eu havia mudado de assunto? De jeito nenhum! O fato é que os artistas anônimos desse tapete deram seu recado: Afinal, que qualidade de vida queremos para este nosso mundo? Por mais que se diga que só temos este planeta para habitar, a degradação ambiental persiste, tanto por parte de indivíduos como por grandes conglomerados industriais e, embora isso não seja nenhuma novidade no Brasil (*), chega a ser surpreendente que se fale tanto no assunto e, ao mesmo tempo, se trate as implicações práticas a ele relacionadas com tanto descaso. A questão dos saquinhos plásticos é apenas uma parte, até bem pequena, do problema. Os resultados, no entanto, são catastróficos. Basta olhar para as margens do Tietê.

domingo, 31 de julho de 2011

O rio Tietê que os viajantes do Século XIX não viram

No início deste ano tratei, em duas postagens, dos viajantes europeus que, no século XIX, passaram pelo Salto do Tietê, também chamado, naqueles tempos, Salto  de Itu, embora hoje faça parte do município de Salto. A beleza do lugar e a força das águas encantavam os viajantes, que se ocuparam, vários deles, em registrar, por palavras ou desenhos, aquilo que viram.
Pois bem, em uma dessas postagens convidei os leitores a contrastarem o salto segundo o registro de Hércules Florence e segundo o que se vê atualmente. Já na outra postagem fiz observações sobre a quantidade de lixo que andava a infestar as águas do Tietê (principalmente garrafas pet e outros objetos de plástico e/ou metal). A quantidade de lixo era tanta que, na ocasião, o assunto chegou a figurar como tema na grande imprensa nacional. Deu-se, para o "fenômeno", a desculpa de que, sendo aquela uma época de chuvas intensas, a enxurrada havia arrastado o entulho das margens para dentro das águas que, em seu incessante movimento, encarregaram-se de espalhar os pródigos detritos da sociedade de consumo ao longo do curso do rio.
Mancha de óleo no rio Tietê
(Porto Feliz, 13 de julho de 2011)
Um fato que salta aos olhos de quem analisa a obra dos viajantes europeus que percorreram o Brasil no século XIX é que há, entre eles, quase absoluta unanimidade no extasiar-se com a beleza natural do país, em flagrante contraste com o atraso cultural da população que, em sua maioria, vivia em crasso analfabetismo  e imersa em superstições ridículas, obtendo a subsistência mediante práticas agrícolas primitivas e, por isso mesmo, de baixíssimo rendimento, quando as condições de clima e solo bem podiam propiciar um quadro de grande prosperidade. (*)
Ocorre que, ao longo dos anos, sempre se arranjou uma explicação para esse panorama nada lisonjeiro: era a exploração colonial, ou o jogo infame dos partidos políticos do Império, ou ainda a corrupção reinante na República Velha. Qualquer que fosse a justificativa, vinha ela acompanhada da ideia de que, "graças a tais problemas do passado", não havia muito o que esperar do presente. Sim, no fim das contas era um conceito muito conveniente, tanto para os dirigentes (que não se viam na obrigação de qualquer iniciativa séria para solucionar as grandes questões nacionais), como para os governados (que não julgavam ser seu dever exigir dos governantes o cumprimento das funções de seus respectivos cargos).
Agora, leitor, após essa breve digressão, vou finalmente contar o que é que os viajantes do século XIX não viram no rio Tietê (para sorte deles), mas que hoje está à disposição de quem quiser ver (eu vi há poucos dias). Para sorte deles, repito, não viram o rio cheio de manchas de óleo (no exato ponto de onde, no século XVIII, partiam as monções), ou repleto de poluentes que, a despeito da aparência, nada têm a ver com as fugidias "espumas flutuantes" de Castro Alves, sendo antes um indesejável subproduto de  atividade industrial que precisa, com urgência, ter seus processos reavaliados, se é que se pretende ainda, seriamente, salvar o rio e todo o seu entorno. Digo seriamente porque, remetendo mais uma vez às observações dos viajantes do século XIX, esse não era o método usual de tratar problemas no Brasil. Sempre há, porém, uma possibilidade de mudar, de fazer as coisas diversamente, e precisamos acreditar e trabalhar nesse sentido. Vale acrescentar que, sendo determinado poluente lançado em um dado ponto do rio, irá afetar regiões às vezes muito distantes de onde foi produzido, o que é lamentável.

Poluentes flutuantes sobre as águas do rio Tietê
(Salto, 13 de julho de 2011)
Quando criança (lá pelo início do Período Neolítico...), vi Santana de Parnaíba coberta de massas da tal espuma que, pelo exagero da quantidade, deixavam o rio e, impelidas pelo vento, chegavam às ruas da cidade. Quase inacreditável é ver o rio, ainda hoje, coberto de poluente análogo. Está, portanto, na hora de parar de inventar explicações que nada resolvem, passando-se a adotar, com responsabilidade, medidas de caráter eminentemente prático. Ah, e para contrariar ainda mais o "jeitinho brasileiro", que as providências sejam imediatas. De preferência, para hoje. Para já. O Tietê não pode esperar.

(*) Está claro que a análise negativa podia, eventualmente, ser fruto de certo preconceito ou mesmo de uma interpretação deficiente da realidade, mas o fato de que esse tipo de observação fosse quase unanimidade não deixa de ser muito significativo.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Viajantes estrangeiros no Brasil do Século XIX - O salto do Tietê (Parte 2)

Escultura às margens do Tietê representando
os viajantes que percorreram a região.
Hoje, leitor, as palavras serão poucas (as imagens dirão muito por si mesmas). Na postagem anterior referi-me aos viajantes estrangeiros que, ao longo do século XIX, percorreram o Brasil. Pois bem, há, na cidade de Salto (S.P.) um belíssimo monumento celebrando a passagem desses viajantes pelo lugar. É parte de um conjunto de seis esculturas (Índio, Bandeirante, Jesuíta, Viajante, Pescador e Operária), de autoria do artista plástico Murilo Sá Toledo, que pretende retratar personagens de destaque para a História local. Estão instaladas às margens do Rio Tietê, nas proximidades da grande queda d'água retratada por H. Florence (veja a postagem anterior), fazendo parte do Memorial que celebra o rio e sua importância para o Estado de São Paulo e para o Brasil. É um lugar que vale a pena visitar.
Entretanto, não sendo a primeira vez que passava por ali, notei recentemente um fato de arrepiar os cabelos. Sendo época de chuvas e, portanto, de elevação do nível das águas, constatei nas margens do rio uma quantidade enorme de lixo de todo tipo, havendo, em particular, garrafas e outros objetos de plástico, que a correnteza arrastou. Ora, isso tem que parar. O que ocorre com o Tietê acontece similarmente com a maioria dos rios no Sudeste.


Durante muito tempo acreditou-se, na maior parte do mundo ocidental, que a industrialização era, necessariamente, sinônimo de "progresso", ainda que a um preço absurdamente alto, o da destruição irresponsável dos recursos de que a humanidade necessita para sobreviver. Sabemos, agora, que não é assim, mas fugimos a todo custo de qualquer tentativa séria de reverter a situação, desconfiando de que venha a significar a redução de algum suposto conforto. Até quando? Desconheço a resposta, leitor, mas posso antever as consequências...