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terça-feira, 29 de junho de 2021

Como devia ser escrita a carta de alforria de um escravo a quem o proprietário concedia a liberdade

Escravos, de acordo com Thomas Ender (¹)

Um escravo podia conquistar a liberdade se, de algum modo, obtivesse recursos para isso, por conta própria ou com a ajuda de alguém; podia, também, vir a ser livre se seu proprietário decidisse alforriá-lo (²). Neste caso, era preciso lavrar uma carta de alforria, documento com valor legal que garantia o direito à liberdade para a pessoa anteriormente cativa.
Uma carta de alforria devia ser redigida aproximadamente assim:
"Por este por mim feito e abaixo assinado, declaro que sou senhor e possuidor de um [uma] escravo [escrava] de nome [nome do libertando], filho [filha] de minha escrava [fulana], ao qual [nome do escravo] de minha livre e espontânea vontade, e sem constrangimento de pessoa alguma, concedo desde já a liberdade; e de fato liberto fica de hoje para sempre, a fim de que desde já possa gozar de sua liberdade, como se fora de ventre livre, e como livre que é por virtude deste meu presente escrito, sem que ninguém o possa chamar jamais à escravidão, por qualquer pretexto que seja, pois que eu como senhor que sou do dito [nome do escravo], lhe concedo a mesma liberdade, sem cláusula ou condição, e quero que este meu escrito lhe sirva de prova, e lhe seja profícuo em todo o tempo. E para firmeza e segurança fiz este, que assino com a minha letra e sinal na presença de [testemunha 1] e [testemunha 2], testemunhas que assistiram (ou por não saber escrever pedi ao senhor [nome do escrivão] que este por mim escrevesse e assinasse em meu nome e para mais segurança assinaram também as duas testemunhas [1 e 2], que foram presentes a este ato da declaração de minha vontade, e eu [escrivão] que este fiz a rogo do Sr. [nome do proprietário], também por ele assino com as duas testemunhas acima declaradas).
Rio de Janeiro, ___ de _______ de 18__." (³)
Da análise desse documento decorrem algumas considerações:
  • Sendo, a partir de 1850, efetivamente proibido o tráfico de africanos para escravização, entende-se que, para declarar legítima a posse de um escravo, era preciso atestar seu nascimento no Brasil (e não que fora importado da África), de preferência como filho de uma escrava pertencente ao mesmo senhor.
  • Tinha muita importância a observação de que a alforria era irreversível, porque, no Século XIX, havendo falta de legislação específica do Brasil, era usual que se aplicassem, ainda, as Ordenações do Reino (⁴), nas quais se admitia, em alguns casos, a reversão da liberdade concedida a um cativo. Além disso, a declaração de irreversibilidade era relevante no caso do falecimento do antigo senhor, pela possibilidade de que algum herdeiro tentasse reaver a posse do escravo anteriormente liberto.
  • Finalmente, não devia ser nada incomum que o documento de alforria fosse escrito e assinado a pedido de um proprietário que não sabia escrever. A maior parte da população do Brasil, no Século XIX, passava a vida toda tão analfabeta quanto estreara no mundo, e mesmo no Rio de Janeiro, capital do Império, essa condição não era nenhuma raridade.

(1) O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) À medida que o Século XIX avançava, as alforrias por iniciativa de proprietários de escravos foram se tornando mais frequentes, em especial nas áreas urbanas. Estava claro que a escravidão não poderia subsistir por muito tempo, e ter escravos em casa passou, gradualmente, a ser considerado um sinal de atraso, que não convinha às pessoas de "boa sociedade".
(3) Adaptado de Conselheiro Fiel do Povo ou Coleção de Fórmulas 3ª ed., vol. I. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1860, pp. 118 e 119.
(4) Mesmo quando a Independência já havia ocorrido há décadas.


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terça-feira, 3 de julho de 2018

Embaúbas

Embaúbas (¹) podem ser encontradas em quase todo o Brasil e em outros pontos do Continente Americano. Por seu aspecto curioso, atraíram a atenção de viajantes estrangeiros que passaram pelo Brasil em diversos momentos do Século XIX. Thomas Ender, por exemplo, um pintor vienense que esteve no Brasil durante o governo joanino, esboçou-as assim:

Embaúbas, de acordo com Thomas Ender (²)

J. M. Rugendas, que esteve no Brasil durante a terceira década do Século XIX, incluiu uma embaúba nesta gravura, cujo título em Malerische Reise in Brasilien é "Encontro de índios com viajantes europeus". Observem, leitores, na parte superior à direita:

"Encontro de índios com viajantes europeus", de acordo com Rugendas (²)

Um pouco mais tarde, o príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Rio de Janeiro em 1842, anotou em suas recordações de viagem:
"Tinha um aspecto peculiar um grupo de embaúbas cujos troncos brancos, lisos e finos, enraizados numa colina ao lado do caminho, erguiam-se altos saindo do mato, e cuja pequena coroa era formada por grandes folhas recortadas pitorescamente, encostadas umas nas outras ou sobrepondo-se." (³)

Embaúba jovem, obra de Thomas Ender (²)

O tronco das embaúbas é oco. Alheias a todo o interesse de viajantes estrangeiros pelas espécies nativas da América, formigas fizeram e fazem residência confortável dentro dessas árvores. 

(1) Cecropia.
(2) Os originais pertencem à BNDigital. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog. 
(3) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 115.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tarefas diárias impostas aos escravos

Escravo descansando,
de acordo com Thomas Ender (²)
Escravos, como se sabe, não recebiam salários (¹) pelo trabalho que faziam e, como é óbvio, nunca seriam demitidos se não fossem eficientes. Portanto, proprietários de escravos adotavam algumas estratégias para extrair de seus cativos a maior quantidade de trabalho possível, evitando que a falta de estímulo pecuniário tornasse indolentes os trabalhadores. 
Tarefas mínimas que deviam ser cumpridas a cada dia, ou, em alguns casos, semanalmente, eram estipuladas, e os leitores não terão dificuldade em imaginar o que sucedia ao escravo que não realizasse o trabalho requerido - disso falaremos mais adiante. Nos engenhos açucareiros do Brasil Colonial, por exemplo, as tarefas eram impostas durante o corte da cana, e, segundo Antonil, os senhores acenavam aos escravos com a possibilidade de algum tempo livre, tão logo realizassem a quota diária:
"Consta o feixe de doze canas, e tem por obrigação cada escravo cortar em um dia sete mãos de dez feixes por cada dedo, que são trezentos e cinquenta feixes, e a escrava há de amarrar outros tantos com os olhos da mesma cana, e se lhes sobejar tempo, será para o gastarem livremente no que quiserem, o que não se concede na limpa da cana, cujo trabalho começa desde o sol nascido até o sol posto, como também em qualquer outra ocupação que se não dá por tarefa." (³)
Também nos engenhos havia tarefa para os escravos encarregados de cortar a lenha que mantinha em funcionamento as caldeiras e outros equipamentos:
"Tem obrigação cada escavo de cortar e arrumar cada dia uma medida de lenha alta sete palmos e larga oito, e esta é também a medida de um carro, e de oito carros consta a tarefa." (⁴)
O procedimento de impor a cada escravo uma quota a ser extraída vigorou, como regra, nas minas, tanto de ouro como de diamantes. O problema é que em jazidas muito ricas era facílimo obter o "jornal", ou seja, a tarefa diária, enquanto que em outros lugares, com baixo rendimento, os cativos tinham grande dificuldade em dar conta daquilo que se considerava sua "obrigação". Embora venha de pouco depois da independência, uma explicação de Hércules Florence, relativa ao Diamantino, pode perfeitamente ser estendida à maior parte das regiões mineradoras no Período Colonial:
"Ora, como em parte alguma pode-se furtar tão facilmente como em minas, ainda debaixo dos olhos do próprio dono, podem os pretos sonegar diamantes, donde resulta que os mineiros se veem forçados ou a empregarem um feitor que os engana ou fixarem aos escravos um tanto por dia que obrigatoriamente eles têm que dar. Quase sempre segue-se o segundo alvitre, isto é, impor ao negro a obrigação de dar por semana um diamante de 4$800, devendo ele sustentar-se e vestir-se com o excedente que achar. Se encontrar uma pedra de grande valor, tanto melhor para ele, coisa rara contudo hoje, acontecendo muito pelo contrário não conseguir no trabalho, nem sequer com o que pagar o tributo ao senhor." (⁵)
Já na cafeicultura praticada desde as primeiras décadas do Século XIX, o trabalho era dividido em duas partes, sendo a primeira relacionada à manutenção ordinária do cafezal e a segunda relativa aos dias de colheita.
Em geral os grandes cafeicultores entendiam que cada escravo devia ser plenamente capaz de cuidar de pelo menos mil cafeeiros, limpando o mato, removendo galhos secos, etc. Foi o que observou Saint-Hilaire, ao viajar, pouco antes da Independência, pelo Vale do Paraíba: 
"Calcula-se que um negro possa cuidar de mil cafeeiros [...]." (⁶)
Mas esses eram tempos em que, por assim dizer, a cafeicultura brasileira ainda engatinhava. O aumento das áreas cultivadas levaria os proprietários a exigir mais de seus escravos, que deviam cuidar dos cafezais e também de outros cultivos que a fazenda porventura tivesse, de acordo com a Arte da Cultura e Preparação do Café:
"Importa muito que os cafeeiros sejam divididos em quadrados de mil pés, número que um trabalhador pode tratar facilmente, e um bom trabalhador pode mesmo cultivar dois mil pés de café, sem lhe ser penoso à cultura da demais lavoura." (⁷)
Vinha, então, a época de safra, e era aí que a tarefa diária era imposta também nos cafezais, conforme explicação do segundo Barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck:
"A colheita varia conforme a abundância da fruta; se esta for rara ou desigual, um apanhador não pode às vezes dar mais do que um a três alqueires (⁸); porém se for abundante ou tornar-se toda madura, então deve a tarefa passar a cinco, seis e sete alqueires." (⁹)
Para o mesmo autor, era importantíssimo que, a cada dia, fosse verificado o cumprimento da "obrigação" de cada escravo, daí ter concluído:
"Às horas de medir, que deve ser ao entrar do sol, o administrador deve estar presente a fim de fazer castigar aqueles que não deram a tarefa, que se deve graduar conforme o estado do café e as forças do indivíduo." (¹⁰)

(1) O fato de que alguns proprietários de escravos, para estimular o trabalho, ofereciam eventualmente pequenos prêmios em dinheiro, não caracteriza, em hipótese alguma, trabalho assalariado.
(2) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 44.
(4) Ibid., p. 60.
(5) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 200 e 201.
(6) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 119.
(7) CUNHA, Augustinho Rodrigues. Arte da Cultura e Preparação do Café. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1844, p. 33.
(8) O alqueire era uma medida antiga de capacidade (havia alqueire também para a medida de áreas), com valor variável de um lugar para outro. O chamado alqueire paulista equivalia a 40 litros. 
(9) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 52 e 53.
(10) Ibid., p. 53.


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quarta-feira, 16 de março de 2016

Escravizados, mesmo após a Abolição

Assinada a Lei Áurea, no domingo, 13 de maio de 1888, a notícia correu com rapidez, primeiro na capital do Império, onde houve grandes festejos populares, e, depois, através de telégrafo, correio, jornais, dos trens que seguiam pelas ferrovias, alcançou pontos mais distantes - alguns no mesmo dia, outros, nos dias seguintes. 
A edição de 15 de maio de 1888 do jornal Correio Paulistano, após a publicação oficial da Lei, comentava: 
"Anteontem foi sancionada a lei que decreta a extinção da escravidão no Brasil.
O projeto, consignado na Fala do Trono, passou em ambas as casas do Parlamento, em menos de uma semana, no meio de ovações e debaixo de uma chuva de flores.
Acaba o País de presenciar a maior revolução social e econômica de que dão notícia os anais da História Pátria.
E essa revolução, ao invés do que se deu na antiguidade e nos tempos modernos, consumou-se sem derramar uma gota de sangue, sem arrancar uma lágrima de dor! (¹)
As lágrimas que correram foram lágrimas de bênçãos e redenção, a orvalharem a mão augusta que acaba de abrir de par em par as portas da posteridade, ao lavrar o decreto que declara que no Brasil só há homens livres e iguais."
Não estranhem os leitores o estilo empolado que era corrente no jornalismo da época, ainda que algo possa ser creditado ao entusiasmo do momento. O que por agora nos interessa é o fato de que a notícia da abolição correu o Brasil, e qualquer pequena localidade que quisesse estar à altura da ocasião organizava seus próprios festejos, com direito a discursos, bailes e outras manifestações. Curiosamente, em meio ao regozijo nacional, os recém-libertados acabaram, em alguns casos, quase esquecidos, de modo análogo ao que ocorrera na lei emancipadora, na qual sequer foram mencionados.
No entanto, anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, ainda havia gente escravizada. Pode soar incrível, mas foi exatamente o que aconteceu. De vez em quando a imprensa noticiava que, aqui ou ali, uma pessoa fora encontrada vivendo como se a abolição nunca houvesse acontecido. Dois trechos da obra jornalística de Machado de Assis servirão de exemplo, ambos publicados na Gazeta de Notícias, que circulava no Rio de Janeiro. Vamos ao primeiro deles, datado de 15 de maio de 1892:
Escrava, desenho
de Thomas Ender (²)
"A festa de Treze de Maio comemorava uma página da história, uma grande, nobre e pacífica revolução, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma casa de São Paulo. Após quatro anos de liberdade, é de se lhe tirar o chapéu. Epimênides também dormiu por longuíssimos anos, e quando acordou já corria outra moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravidão, não sabendo até ontem que estava livre; mas como o sono da escravidão só se prolonga com a dormideira do chicote, a preta Ana para não acordar e saber casualmente que a liberdade começara, bebia de quando em quando a miraculosa poção. O caso produziu imenso abalo; o telégrafo transmitiu a notícia e todos os nomes."
O segundo caso foi publicado menos de um ano mais tarde, em 1º de janeiro de 1893:
"Há o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho adágio inglês: "Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei". O rei não entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena, é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos."
Como explicar tal absurdo? 
É preciso admitir que, para as condições de comunicação existentes no Brasil da época, é perfeitamente possível que a notícia da abolição, malgrado toda a notoriedade, tenha demorado a alcançar pontos mais remotos do território (o que, por suposto, não incluiria nem São Paulo e nem Uberaba - MG). O mais provável é que um ou outro proprietário tenha, deliberadamente, agido de má-fé, mantendo o trabalhador na escravidão pela astúcia, escondendo a informação, sem excluir o uso da coerção física, método que, aliás, fora empregado com eficácia durante séculos. De que outro modo, afinal, a escravidão se sustentaria?

(1) O jornalista provavelmente tinha a intenção de  alfinetar a maneira pela qual se fizera a abolição nos Estados Unidos, desconsiderando o fato de que, a despeito de não ter demandado uma guerra civil, a luta contra o escravismo exigira, sim, sacrifício, dor e lágrimas também no Brasil, tanto dos envolvidos no movimento abolicionista como dos próprios escravos.
(2) Desenho de Thomas Ender, Século XIX. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Escravos domésticos

Portuguesa com escravos no Rio de Janeiro do Período Joanino,
de acordo com desenho de Thomas Ender (¹)

Fala-se muito sobre os escravizados que trabalhavam nos engenhos de cana-de-açúcar, na mineração ou nas fazendas de café. Mas havia, também, escravos que trabalhavam em casas de famílias das áreas urbanas, e estes tinham, naturalmente, um modo de vida algo diverso em relação àqueles que labutavam em atividades agrícolas ou extrativistas.
Pessoas abastadas adoravam ostentar uma grande escravatura - era um indício externo de riqueza e, por vezes, também de poder. O número de escravos variava, então, com as dimensões da casa e a fortuna dos moradores. C. Schlichthorst, militar alemão contratado como oficial do Segundo Batalhão de Granadeiros ao tempo de D. Pedro I, comparou o costume brasileiro de ter escravos domésticos ao dos europeus que ostentavam vasta criadagem, e observou que, como regra, famílias ricas urbanas (²) tinham entre dez e vinte escravos:
"É uma espécie de vaidade fazer-se servir por muitos, luxo que, como todo exagero, acaba se tornando incômodo. Nas casas ricas, empregam-se geralmente de dez a vinte. [...] Lisonjeia o orgulho do brasileiro ser acompanhado à missa ou aos passeios por longa filha de escravos e escravas, cuja ociosidade como que até causa prazer aos senhores. A mesma coisa ocorre não raras vezes na Europa." (³)
É difícil determinar o quanto trabalhavam os escravos domésticos, e se havia, de fato, alguma ociosidade entre eles, ao menos nos casos de famílias que tinham mais escravos do que o trabalho requeria. Sabemos, porém, que os escravos eram ocupados em uma grande variedade de tarefas: limpar a casa, cozinhar, costurar, bordar, amamentar bebês, cuidar de crianças, conduzir meninos à escola, cuidar de cavalos, conduzir pelas ruas o tílburi ou sege de propriedade da família, buscar água, descartar lixo e outros dejetos, cuidar dos jardins, levar recados, fazer compras, lavar e passar a roupa, carregar cadeirinhas de arruar ou liteiras - a lista poderia ir mais além, mas isto já é suficiente para os leitores que quiserem formar um juízo adequado da movimentação existente, no dia a dia, em uma casa de família de posição econômica elevada. Se havia muitos escravos, talvez o trabalho não fosse tão árduo, mas, com um número menor, as tarefas eram, sem dúvida, mais do que suficientes para garantir a ocupação de todos.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) No Rio de Janeiro, capital do Império.
(3) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1924 - 1926). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 149.


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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 4

O uso de carros de bois no transporte do açúcar até os portos


Carro de bois, de acordo com Thomas Ender (¹)

Quando, em um engenho de cana, o açúcar estava pronto, era colocado em caixas e levado a um porto, de onde seguia para ser comercializado na Europa. De acordo com Antonil, havia dois modos possíveis para o transporte do açúcar até o porto, dependendo da localização do engenho produtor.

a) Engenhos localizados nas proximidades do mar

"Nos engenhos à beira-mar, levam-se as caixas ao porto desta sorte: Com rolos e espeques passam uma atrás de outra da casa da caixaria para uma carreta, feita para isso mesmo mais baixa, e sobre esta se leva cada caixa até o porto, puxando pelas cordas os negros de quem a manda embarcar por sua conta." (²)
Vê-se que, nesse caso, era aos escravos que competia o enorme esforço físico necessário ao deslocamento das carretas com caixas de açúcar. Eis um aspecto do trabalho dos escravos nos engenhos que poucos conhecem, que pouco se menciona, mas que estava em perfeito acordo com toda a brutalidade da escravidão que sustentava a produção açucareira.

b) Engenhos localizados a alguma distância do mar

"Dos engenhos pela terra dentro, vem cada caixa sobre um carro com três ou quatro juntas de bois, conforme as lamas que hão de vencer, e nisto custa caro o descuido, porque por não as trazerem no tempo do verão, depois no inverno estafam-se e matam-se os bois." (³)
Entram em cena, aqui, novamente, os carros de bois, que já haviam trabalhado em levar a cana até os engenhos, e que agora são empregados em fazer o açúcar chegar ao porto. Nota-se, na fala de Antonil, o quão dificultoso podia ser o trajeto, em decorrência das péssimas estradas e trilhas, daí porque, usualmente, evitava-se a instalação de engenhos em pontos muito distantes do litoral.

(1) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 93.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Araucárias

Pinheiros, de acordo com desenho de Thomas Ender (³)

Chamada popularmente de "pinheiro-do-paraná", a Araucaria angustifolia, pelo que conhecemos através dos relatos de gente que andou pelo interior do Brasil antes do geral desmatamento do centro-sul, já foi uma espécie vegetal muito frequente em áreas dos atuais Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, sul de Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além, é claro, do Paraná, principalmente nas regiões de maior altitude. Chamava a atenção dos europeus que a observavam por ser um "pinheiro diferente" em sua aparência.
Saint-Hilaire, o naturalista francês, ao descrever a localização de uma casa em que se hospedava, no início da segunda década do século XIX, observou:
"Fica situada num vale, e em frente do declive de uma colina eleva-se, em anfiteatro, um bosque quase que inteiramente composto de araucárias.
Nesta viagem comecei a rever esta árvore nas margens do riacho Brumado, e encontrei-a perto da fazenda do Tanque e de Ibitipoca.
Cresce espontaneamente, em algumas das mais altas montanhas do Rio de Janeiro. Encontra-se novamente aqui, em terreno muito elevado, nos limites das matas e campos, constitui quase que exclusivamente a maioria dos capões nos arredores de Curitiba. Enfim, na capitania do Rio Grande desce até a borda do campo. Parece, pois, haver igualdade de temperatura entre esses diferentes pontos, e a araucária funciona como uma espécie de termômetro." (¹)
O povoamento e a exploração desordenada das matas nativas (²) tornaram as araucárias muito menos numerosas, mesmo em regiões onde essas belas coníferas eram quase onipresentes. É lamentável que esse processo ainda tenha prosseguimento Brasil afora, embora hoje as espécies ameaçadas sejam outras.

Araucárias na região de Poços de Caldas - MG

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 41.
(2) Pode parecer um absurdo para os padrões atuais, mas já houve tempo em que o contrato com uma empresa para a construção de uma ferrovia significava, para essa empresa, o direito a explorar livremente a madeira das florestas situadas ao longo do trajeto a ser construído.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 15 de abril de 2012

A visão da costa do Brasil, por viajantes de antigamente

"Neste dia", escreveu Pero Vaz de Caminha, referindo-se à data de 22 de abril do ano de 1500, "a horas de véspera, houvemos vista de terra. Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à Terra, a Terra de Vera Cruz". Embora seja perfeitamente possível que Cabral e seus companheiros de expedição não tenham sido os primeiros europeus, talvez sequer os primeiros portugueses que puseram os pés em terras brasileiras, é esse, no entanto, o primeiro relato formal que temos, ao que até agora se conhece, descrevendo o avistar do litoral brasileiro.
Da segunda metade do século XVII temos o registro feito pelo missionário Padre Simão de Vasconcelos, segundo o qual a impressão de navegadores e cosmógrafos a respeito do aspecto da costa do Brasil era esta:
"Quanto à vista exterior aos que vêm de mar em fora, depuseram aqueles capitães e cosmógrafos que não viram coisa igual no universo todo à perspectiva desta nova terra, porque ao longo parece uma glória o avultar dos montes e serranias, com tal compostura e altura que representam formar muito para ver, e sobem, parece, à região segunda do ar, levando consigo os olhos e os corações ao céu. À meia vista começa a aparecer o alegre dos bosques, campos e arvoredos, verdes sempre, e sempre aprazíveis. Mais ao perto, alvejam as praias formosas, e vão logo aparecendo nelas uma imensidade de portos, barras, enseadas, rios e ribeiras despenhadas, e com tão grande variedade, que é um espanto da natureza. De tudo disseram alguma coisa, que tudo não lhes era possível." (¹)
Infelizmente, há pouquíssimas imagens dos primeiros tempos coloniais, e o pouco que existe é grandemente devido aos artistas holandeses que andaram pelo Brasil à época do governo de Nassau. Somente no século XIX, quando a paisagem, ao menos na faixa litorânea, já havia sofrido importantes modificações, é que houve maior preocupação em fixar, através de desenhos, aquarelas ou gravuras, por exemplo, o que se via em terras do Brasil. Embora tardias, essas imagens são significativas por nos permitirem um estudo, por comparação, de transformações posteriores resultantes do processo de ocupação do território. Nas últimas décadas do século XIX os meios informativos tornaram-se mais abundantes, à medida que a fotografia passou a integrar o arsenal de  recursos disponíveis  para o registro de acontecimentos e lugares. Assim justapostos, desenhos, aquarelas e fotografias nos permitem analisar as graduais alterações na paisagem brasileira, principalmente em áreas de grande urbanização.
Para que se tenha ideia do que isso significa, estão a seguir três imagens, todas da primeira metade do século XIX (editadas para melhor visualização), conforme o registro por três diferentes artistas.

Vista do litoral da Bahia, por Rugendas (²)

Vista do alto do Corcovado, Rio de Janeiro, por Thomas Ender (³)

Vista da entrada da baía do Rio de Janeiro, por Debret (⁴)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 28 e 29.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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