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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Como D. Pedro I reagia a um sermão desagradável

D. Pedro I, de acordo com Debret (¹)
A intriga palaciana vem de C. Schlichthorst, um mercenário alemão que, entre 1824 e 1826, serviu como oficial no Segundo Batalhão de Granadeiros do Exército Imperial. A par do aspecto pitoresco, tem lá sua utilidade, se quisermos entender um pouco do clima político que reinava - oh, não, que imperava na Corte do Rio de Janeiro ao tempo do primeiro imperador.
D. Pedro, como se esperava do monarca de um país que tinha uma religião oficial, ostentava a devoção conveniente que o obrigava a comparecer às missas e outras cerimônias da Igreja, em especial em datas festivas, celebradas com solenidade. Seguimos com a descrição de Schlichthorst:
"O imperador senta-se no trono, ao pé do altar-mor. Junte dele, o bispo. Em frente, os cônegos da Capela Imperial. Se a imperatriz comparece, fica só ou em companhia da filha, a princesa Maria da Glória, na tribuna imperial. Uma ou duas damas da Corte ocupam uma tribuna maior ao lado." (²)
Engana-se, porém, quem imagina que, em tal situação, o imperador era, para seus leais súditos, um exemplo acabado de bom comportamento. Tudo dependia, como já veremos, do teor do sermão. "Se a prédica agrada ao imperador", escreveu C. Schlichthorst, "ele a ouve com a maior atenção. Se, porém, escapa ao orador uma expressão que desagrada a Sua Majestade, acabou-se a sua devoção. O imperador jamais esconde sua suscetibilidade e, nessas ocasiões, vira as costas para o pregador, pigarreia, brinca com o sabre e, por outros sinais inequívocos, demonstra seu aborrecimento." (³)
A despeito da imperial falta de compostura, os oradores sacros eram, com frequência, bastante destemidos, e sua audácia tinha imperial utilidade:
"Graças, no entanto, à franqueza e destemor do clero brasileiro, os pregadores lhe fazem ouvir coisas que, cercado por uma corte escravizada, só assim poderia saber." (⁴)
Ao tempo de Pedro I havia, no Rio de Janeiro, frades notáveis pela erudição e pelo talento na oratória. Portanto, não devia ser tanto a forma que caia mal aos ouvidos de Sua Imperial Majestade, e sim o conteúdo. Todos sabemos, porém, que não escasseavam os motivos para uns puxões (exclusivamente verbais) nas imperiais orelhas. Compreende-se, compreende-se...

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 114.
(3) Ibid., pp. 114 e 116.
(4) Ibid., p. 116.


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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Anjos de procissão

Anjo de procissão, de acordo com Debret (¹) 

O que pensaria um missionário protestante das  procissões típicas do catolicismo, em sua versão do Brasil Império? Temos a possibilidade de saber, já que Daniel P. Kidder, pastor e missionário metodista que residiu no Brasil durante os últimos anos do Período Regencial, deixou registros detalhados de suas impressões. Seus relatos, porém, são úteis não só pelos pontos de vista que expressavam, mas incluem, também, um carga de informações às quais, talvez, não teríamos acesso de outro modo. Não nos esqueçamos que Kidder escrevia tendo em mente os possíveis leitores em seu país de origem (Estados Unidos), de maneira que era cuidadoso em dar explicações para uma série de detalhes que, para um autor brasileiro da época, talvez fossem demasiado óbvios.
Assim, logo se percebe que, na capital do Império, durante o Século XIX, as procissões eram concorridas, delas participando, muitas vezes, pessoas de alta posição social - eram, pois, uma questão de status, principalmente quando revelavam o pertencimento a uma confraria de reputação elevada. Além disso, despertavam o interesse da população, que acorria, em grande número, para ver passar o cortejo.
Como o próprio Daniel P. Kidder revelou, sua estreia no universo das procissões ocorreu em uma quarta-feira de cinzas, no Rio de Janeiro:
"A primeira procissão que tive ocasião de observar foi a de quarta-feira de cinzas. Organizada pela Ordem Terceira de São Francisco, partiu da Capela da Misericórdia, percorreu as ruas principais da cidade e entrou no Convento de Santo Antônio. Cerca de vinte ou trinta andores, carregados ao ombro pelos homens, tomaram parte no cortejo. Alguns levavam imagens isoladas, outros transportavam grupos representando passagens das Escrituras ou da história da Igreja." (²)
Os andores eram muito pesados, de modo que exigiam um constante revezamento daqueles que os carregavam, dando ao olhar estrangeiro de Kidder a oportunidade de captar um aspecto pitoresco nas relações entre senhores e escravos:
"As ruas ficavam apinhadas de povo, notando-se numerosos escravos que pareciam se divertir vendo seus senhores empenhados em trabalhos pesados. De fato, estes se cansavam a ponto de correr o suor sobre seus rostos, como água." (³)
Lembremo-nos de que a solene procissão ocorria sob um sol escaldante de fevereiro!...
Adiante, porém, já que, agora, em seu depoimento, Daniel Kidder passa a descrever a presença de uma exótica figurinha, um "anjo de procissão":
"À frente de cada grupo de imagens ia um anjo conduzido por um padre e espalhando pétalas de flores pelo trajeto.
Como talvez o leitor deseje saber que espécie de anjos eram esses que tomavam parte nas festas, devemos explicar que constituíam eles uma classe especialmente criada para em tais ocasiões servir de guarda de honra aos santos.
Meninas de oito a dez anos eram geralmente escolhidas para saírem de anjo, sendo então paramentadas com indumentária fantástica. A ideia dessas roupas parecia ser a de imitar o corpo e as asas dos anjos, para o que as mangas levavam armações especiais [...]. Na cabeça levavam uma espécie de tiara. Os cabelos caíam em cachos, e o ar triunfal com que as crianças marchavam indicava que compreendiam perfeitamente  a honra de constituírem os principais objetos de admiração." (⁴)

Anjo de Procissão (⁵)
Devemos prosseguir, leitores (⁶). Como já disse, por ser estrangeiro, Daniel Kidder era capaz de perceber certas questões sociais que talvez passassem despercebidas à gente da terra, isso a despeito de, ele também, vir de um país no qual ainda havia escravidão. Sucede que cada "anjo", conduzido pela mão de um padre, tinha ainda um outro acompanhante:
"Contrastando com a pompa e o aparato desses anjos, caminhava ao lado o escravo servil, levando sobre a cabeça uma caixa ou cesta de flores para, de vez em quando, suprir a salva de prata de onde o anjo as tirava para espargir sobre o chão." (⁷)
Melancolicamente, pois, constatava-se que o brilho da festa popular era ofuscado pela maldita escravidão.

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 130.
(3) Ibid.
(4) Ibid., pp. 130 e 131.
(5) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(6) Não creio que anjos de procissão tenham deixado de existir. Em uma loja de artigos para festas, vi, não faz muito tempo, asas e outros acessórios. Perguntei, por curiosidade, do que se tratava, e a vendedora me informou que eram para crianças que se vestiam de anjos em um dado evento religioso.
(7) KIDDER, Daniel P. Op. cit. p. 131.


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domingo, 14 de abril de 2013

Simonia

"Que haja certas mercancias
não de coisas temporais
mas de outras espirituais,
que se chamam simonias:
que haja quem todos os dias
com modo tão peregrino
seja ladrão ao divino
com tão falsa narratória!
Boa história."

Gregório de Matos, A Musa Praguejadora


Em uma definição bem simples, simonia é o comércio de bens espirituais. Tal assunto já motivou querelas terríveis, há alguns séculos, e ultimamente tem andado na moda, outra vez. Aos que são cristãos, parece um absurdo que alguém, com dinheiro, imagine poder comprar coisas como  um lugar no céu, um tempo menos longo no purgatório, ou mesmo o consolo de um sacramento na hora da morte. No entanto, para lástima da humanidade, tem havido muita gente supostamente querendo vender os "bens espirituais", como há, quase sempre, quem esteja disposto a efetuar tal compra.
Saint-Hilaire encontrou dois desses "comerciantes" quando andou, no século XIX, pelo Rio Grande do Sul e território do atual Uruguai, e não economizou palavras para recriminá-los.
Em um tempo no qual simplesmente não havia hotéis pelo Brasil, Saint-Hilaire dependia, ao longo de suas viagens com o fim de estudar principalmente a flora do Brasil, de encontrar hospedagem em casas de particulares. É aí que entra a história do Padre Alexandre, que peremptoriamente recusou abrigo ao viajante:
"Convém salientar que os dois únicos homens que me recusaram hospitalidade durante minhas longas viagens foram um materialista e um padre, mas com a diferença de que fui bem recebido pelo materialista, quando este soube quem eu era, enquanto o padre se manteve irredutível. A reprovação que acabo de fazer não deve causar surpresa; um mau sacerdote é o pior de todos os ímpios, pois faz do sacrilégio um hábito cotidiano. Seria talvez injusto julgar o Padre Alexandre por apenas um ato, mas eu já sabia, pelo alferes, que esse homem fazia o tráfico dos sacramentos e que, tendo a permissão de batizar em sua fazenda, não o fazia por menos de oito mil-réis; entretanto foi cura de São Borja por muito tempo [...]." (¹)
Com isso, lá se foi o muito religioso Saint-Hilaire, amargando seu desgosto com o padre, ainda mais uma légua adiante, até uma estância onde, dessa vez, foi muito bem recebido.
Ainda na mesma viagem, encontraria outro caso de simonia, dessa vez absolutamente explícito:
"A Capela de Santa Maria depende, como disse, da Paróquia de Cachoeira, cujo vigário recebe de cada fiel meia pataca em confissão pascal. Os habitantes de Santa Maria se cotizam, estabelecendo um donativo ao seu capelão. Este recebeu do cura para ouvir confissões e seus penitentes lhe pagam meia pataca que ele envia ao cura. Seria de toda justiça que, em relação ao dinheiro, o cura pagasse ao capelão, como se faz em Minas; mas para ele, essa parte da paróquia é uma espécie de sinecura que ele recebe sem encargos, e seu tratamento com o capelão se reduz a isto: "Eu lhe permito exercer as funções de cura no Distrito de Santa Maria e de receber salários de meus paroquianos, mas com a condição de reservar o produto da venda das confissões pascais." Acho que é impossível levar mais longe a simonia." (²)
 
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Tenho já abordado neste blog, algumas vezes, o fato de que, pela extensão territorial do Brasil e pelas dificuldades de comunicações, era muito difícil assegurar o cumprimento das leis e a administração da justiça. Esses casos de simonia, relacionados mais à Igreja que à autoridade civil (embora, nesse tempo, não existisse no Brasil nada que se pudesse chamar de "Estado laico"), inscrevem-se no mesmo contexto. Era quase impraticável às autoridades eclesiásticas o exercício de uma fiscalização eficiente do que ocorria em paróquias muito distantes umas das outras, isso quando havia párocos para atender à população (embora todo mundo, para que houvesse assistência religiosa, pagasse os dízimos ao governo português), sendo perfeitamente possível que a alguns colonizadores transcorresse a vida toda sem que, nas localidades remotas em que se estabeleciam, vissem aparecer um único clérigo. Por outro lado, quase não têm conta os relatos de padres que gastavam seus dias caçando índios no sertão ou de monges que abandonavam suas Ordens para ir procurar ouro nas minas.
Tem-se, pois, que tais fatos são um bom termômetro do modo muitas vezes desordenado pelo qual se deu a colonização. Meus leitores sabem perfeitamente quais foram (e são...) as consequências disso.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 319 e 320.
(2) Ibid., p. 405.


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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma ornamentação bem brasileira em altares dos tempos coloniais

É bastante conhecido o fato de que as cores das penas das aves do Brasil encantaram os portugueses desde a chegada da esquadra de Cabral a Porto Seguro. Na carta destinada ao monarca Dom Manuel, Pero Vaz de Caminha relatou que haviam feito a troca, com os indígenas que encontraram, de alguns guizos  por aves coloridas e objetos confeccionados com penas de aves, que seriam todos enviados ao Reino, como amostra das coisas da terra à qual haviam chegado. "Resgataram", diz ele, "por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
Nem todo mundo sabe, porém, que as belas penas de aves do Brasil iriam acabar por constituir-se em exótico adorno para altares de igrejas! Ao menos, é o que se depreende do que escreveu Nuno Marques Pereira, no seu célebre Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra extremamente popular no Brasil do Século XVIII. Ao narrar a viagem da Bahia em direção às Minas, o peregrino chega a uma pequena igreja campestre, na qual entra para ouvir missa, não sem antes entabular com o sacerdote mais um de seus extensos diálogos, aliás, uma característica da obra. É na sacristia que observa os adornos para os altares que ora nos interessam:
"Entrei na sacristia, onde achei o sacristão preparando os ornamentos e o mais necessário para se dizer missa. E reparando, vi o grande asseio e alinho com que estava a sacristia tão bem adornada, assim pela limpeza do lavatório, como pela perfeição de um armário, em que estavam cálices e pedras de ara, e mui perfeitos ramalhetes, uns de penas de várias cores e outros de papel, que todos serviam para se porem nos altares nos dias festivos." (*)
É difícil determinar, meus leitores, o quanto o uso de penas e outros artigos próprios do artesanato dos povos indígenas era frequente nos tempos coloniais. Mas, de qualquer modo, a simples menção de seu uso no Peregrino da América nos dá uma pista de que, se é verdade que os missionários cristãos procuraram catequizar os nativos, também é fato que os indígenas, a seu modo, também exerceram uma "catequese", à medida que belas expressões de sua arte acabaram indo decorar nada menos que os altares de uma igreja, quer isoladamente, quer em conjunto com expressões mais convencionais, próprias da religiosidade europeia.

(*) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 404 e 405.


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