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terça-feira, 14 de abril de 2020

Ciclistas entregavam telegramas no final do Século XIX

No final do Século XIX o mundo parecia estar ficando mais rápido, não no giro do planeta, é claro, mas no modo de vida dos seus habitantes. Composições ferroviárias e automóveis, por exemplo, permitiram deslocamento mas rápido e, por isso mesmo, mais frequente de pessoas, sem falar no desenvolvimento do transporte de cargas. Foi aí que alguém teve a ideia de acelerar a entrega de telegramas no Rio de Janeiro usando bicicletas. A notícia apareceu no jornal especializado Semana Sportiva, edição de 8 de setembro de 1900:
"Começou no dia 1º do corrente o serviço de estafetas ciclistas da repartição telegráfica da Estrada de Ferro Central do Brasil, sob a direção do Sr. Luiz Rouanet. 
Corretamente uniformizados, dispondo de excelentes máquinas e sujeitos a um regulamento severo, os novos estafetas provarão à evidência, a importância desse grande melhoramento para o público, que receberá com presteza os telegramas que lhe forem dirigidos.
No meio da indiferença geral dos poderes públicos para com o ciclismo, esse fato é digno de ser registrado como confissão de que a bicicleta está apta a desempenhar papel proeminente, além de simples esporte, o que tem aliás acontecido nos principais países da Europa e da América, tendo sido mesmo adotada em vários exércitos, com excelentes resultados.
Vimos anteontem na redação d'A Notícia um estafeta ciclista que lhe levou da Central um despacho em três minutos!" (¹)
Era rápido e, para os padrões da época, muito eficiente. Não dependia de nenhum combustível (²). Como é que ninguém pensou nisso antes?

(1) SEMANA SPORTIVA, nº 401, 8 de setembro de 1900.
(2) Bastava o suor dos ciclistas que entregavam telegramas e a manutenção regular das bicicletas.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Um lugar para o treinamento de ciclistas no final do Século XIX

"Ponho de lado igualmente as corridas de bicicletas e velocípedes, por serem recentes, o que não quer dizer que não tenham graça."
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 29 de março de 1896

Em parte por influência estrangeira, em  fins do Século XIX crescia o interesse por esportes no Brasil. Havia controvérsias, no entanto, não faltando quem achasse que exercícios atléticos, qualquer que fosse a modalidade, não passavam de um modismo ou perda de tempo para desviar a juventude, e mesmo os de mais idade, de ocupações reputadas, então, mais nobres e cerebrais. O partido oposto se desdobrava em argumentos a favor dos esportes como promotores da saúde e do desenvolvimento físico, qualidades desejáveis em bons cidadãos para a República que o Brasil, há pouco, se tornara.
Com tal cenário, não é difícil imaginar que os apaixonados por algum esporte enfrentavam problemas para encontrar lugar adequado às suas atividades. Ciclistas, por exemplo: onde treinar, sem atrapalhar o trânsito ou colocar em risco a segurança dos pacatos caminhantes? Parece-me que, nesse tempo, a maioria das pessoas olhava para as bicyclettes, mais ou menos menos como nós olharíamos, hoje, na hipótese da aparição de alguma bike voadora...
De acordo com o jornal Semana Sportiva, na edição de 18 de novembro de 1899 (¹), ciclistas do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, que gostavam de pedalar na Praça da República, enfrentavam restrições quanto ao horário para suas práticas. Dizia o jornal: 
Na edição de 18 de novembro de 1899,
o jornal Semana Sportiva protestava
contra as restrições aos ciclistas (²)
"Ainda está vigorando o edital mandando que seja permitido o ingresso de ciclistas no jardim da praça da República somente das 11 horas da manhã às 4 da tarde.
Reconhecido o inconveniente dessa ordem, expedida em virtude de abusos cometidos por alguns ciclistas sem critério, estamos certos de que o ilustre diretor geral dos jardins públicos, Sr. Dr. Júlio Furtado, espírito culto e cordato como é, a revogará, pois é sabido que o parque da praça da República é hoje o único ponto do centro desta capital onde se pode fazer o salutar e higiênico exercício do pedal, tão preconizado e aceito em todo o mundo civilizado." (³)
Não era implicância a recusa do horário oferecido (ainda que, como já visto, o jornal reconhecesse que havia alguns ciclistas de comportamento inadequado). É que das 11 às 16 horas os atletas amadores estavam, com toda certeza, cada um em seu respectivo local de trabalho ou estudo, conforme a Semana Sportiva iria ainda lembrar: "A limitação, como está feita, equivale quase a uma interdição, pois das 11 às 4 horas só os desocupados poderão aproveitar-se da licença, e é considerável o número de cavalheiros distintos que usam a bicyclette e têm ocupações nesse interregno."
Observem, leitores, que as palavras do jornal mostram que bicicletas, nesse tempo, não eram ainda vistas como um meio de transporte, e, ao que parece, não passaria pela cabeça de quase ninguém a ideia de ir ao trabalho pedalando. O correr do tempo se encarregaria de trazer mudanças: hoje é sugerido o uso de bicicletas para desafogar o trânsito caótico gerado por automóveis nas cidades.

(1) Ano XI, nº 360.
(2) O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Essa afirmação é facilmente compreensível no contexto do Brasil que se desejava na época. Na prática, o recado seria este: se queremos ser civilizados, precisamos admitir as bicicletas. Está dada a licença para o riso, leitores!


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Bicicletas faziam muito sucesso em fins do Século XIX

Aperfeiçoadas ao longo do Século XIX (¹), as bicicletas começaram a fazer muito sucesso desde que a elas foram adicionados pedais. Hoje eles podem parecer óbvios, mas os primeiros veículos de duas rodas não tinham esses acessórios. 
Pois bem, pelos fins do Século XIX as bicicletas eram moda no Brasil, tanto para passeio como para competições, que atraíam os mais arrojados. E, para que os interessados tivessem bicicletas, devia haver quem as vendesse. Vejam este anúncio, publicado no jornal carioca Semana Sportiva (²) em 1899: 


Notem, leitores, que o veículo era referido pelo nome em francês, uma mania do Brasil na época. Mais intrigante, porém, é o traje da dama ao lado da bicicleta: tenho dificuldade em imaginar como era possível pedalar com um vestido desses. É que no Brasil as roupas longas (e dispendiosas) ainda eram usuais, a despeito  do clima, que insistia em recomendar outra coisa. A influência americana nesse sentido demoraria um pouco a pegar (³).
Já este outro anúncio, publicado no mesmo jornal (²), oferecia não só serviços de manutenção para aqueles que tivessem bicyclettes (coisa necessária, reconheçamos), como alugava algumas por hora e por dia, solução conveniente para quem não pudesse ou não quisesse comprar uma delas: 



(2) SEMANA SPORTIVA, Ano X, nº 355, 14 de outubro de 1899. O original pertence à BNDigital; as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Mas pegou, principalmente a partir do advento do cinema. As modas lançadas por atores e atrizes logo passaram a ditar comportamentos, em lugar dos velhos costumes supostamente atrelados à moral e/ou à tradição, em detrimento da higiene e da saúde.


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uniformes esportivos no início do Século XX - Parte 2

Vamos prosseguir com o tema iniciado na postagem anterior, o dos uniformes esportivos que eram usados nas primeiras décadas do século XX. Portanto, quem não leu a Parte 1 deveria fazê-lo, pois nela já tratamos do vestuário para futebol, remo e canoagem, esgrima e hipismo. Continuaremos, a seguir, com outras modalidades:

5. Ciclismo - As bicicletas, tidas inicialmente como brinquedos de crianças, logo provaram seu valor como meio de transporte e para atividades esportivas. A foto abaixo nos mostra que muitos atletas já se preocupavam em usar alguma proteção para a cabeça e que as próprias bicicletas de competição já tinham, em seu design, alguma semelhança com as atuais. O detalhe pitoresco fica por conta do fato de que, nessa prova, houve, paralelamente, uma corrida de motocicletas.

Imagens de uma prova ciclística (¹)

6. Corrida Pedestre - Virtualmente tão antigas quanto a humanidade, as corridas sempre tiveram muitos adeptos, não só pelas vantagens no que se refere ao condicionamento físico como pela facilidade da prática que não requer muitos equipamentos especializados - havia até competidores que preferiam correr descalços.

Chegada de uma corrida pedestre (²)

7. Tênis - Já com muitos praticantes no Brasil do início do século XX, o tênis daquela época impressionaria os atletas de hoje pelos trajes que vestiam em quadra os tenistas do passado. Na primeira foto, dois rapazes; na segunda, homens e mulheres disputando um campeonato.

Os dois rapazes de paletó escuro são tenistas, após a disputa de uma partida (³)

Imagens de um campeonato de tênis disputado no Velódromo Paulista (⁴)

(1) A CIGARRA, 1º de abril de 1919.
(2) A CIGARRA, segundo número de março de 1920.
(3) A CIGARRA, 9 de novembro de 1916.
(4) VIDA MODERNA, 23 de abril de 1914.



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