domingo, 3 de julho de 2011

Os Esportes no Brasil do Século XIX e Início do Século XX - Parte 2

"Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal. Declaro em defesa prévia que não acabo de fazer censura, nem epigrama. Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica."
                                                                                                   Joaquim Manuel de Macedo, Memórias da Rua do Ouvidor

"Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração generoso, caráter sério, inteligência regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço e também o mais forte e bem apessoado. Tinha excelente educação física, adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento perfeito da esgrima e jogos de exercício; destreza na montaria e plena confiança nos seus músculos."
                                                                                                                                    Aluísio Azevedo, Livro de Uma Sogra


A ginástica, ainda que com um aspecto quase militar (isso soa a algo conhecido?), esteve entre as primeiras atividades físicas que conseguiram estabelecer-se no currículo de algumas escolas brasileiras ao longo do século XIX, devido à influência de práticas adotadas na Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. Sabemos, por exemplo, os nomes de alguns professores que a lecionavam no Imperial Colégio Pedro II, segundo nos conta Joaquim Manuel de Macedo:
"Têm ensinado ginástica os Srs. Guilherme Luís de Taube, Frederico Hoppe, Antônio Francisco da Gama e Pedro Guilherme Mayer; e dança, os srs. João José da Rocha, que a ensina ainda no internato, e Júlio Toussain, que a ensina no externato." (*)
Quem é que não se recorda daquele trecho absolutamente legendário de O Ateneu, no qual Raul Pompeia descreve a "Festa da Ginástica"? Transcrevo apenas uma parte, que ilustra muito bem o papel importante que essa atividade ganhou na educação de rapazes ao longo do século XIX:
Demonstração de Ginástica Rítmica
para moças, Rio de Janeiro, 1923. (***)
"Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar ideia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade." (**)
Gradualmente, com muitas precauções e, sem dúvida, com um pouco de discórdia, foram introduzidas aulas de ginástica também para moças. Não os mesmos exercícios dos rapazes, já que a prática da época era fugir de qualquer semelhança na educação de meninos e meninas, mas outros compatíveis com a suposta "fragilidade" das educandas. Aos poucos, a resistência foi sendo vencida e até o glorioso Barão Pierre de Coubertin teve de engolir mulheres nas suas amadas Olimpíadas. Ainda que tardiamente, as meninas brasileiras puderam ter aulas de Educação Física menos entediantes. Mas demorou!

(*) MACEDO, Joaquim Manuel de Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro
(**) A "Regente" a que o texto se refere é, naturalmente, a Princesa Isabel.
(***) Revista Para Todos, edição de 24 de novembro de 1923.

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