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quarta-feira, 22 de abril de 2015

O primeiro contato entre portugueses e indígenas, sob a ótica de Pero Vaz de Caminha

Um modo muito proveitoso de estudar o que aconteceu em um tempo diferente daquele em que vivemos é a comparação de escritos da época, nos quais são expressos diferentes pontos de vista. Sobre a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 e os primeiros contatos entre europeus e indígenas, porém, não podemos, infelizmente, realizar esse tipo de estudo. A razão para isso é que os nativos do Brasil não usavam nenhum sistema de escrita e, portanto, não deixaram documentos que pudéssemos comparar, por exemplo, à Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, de acordo com Caminha, foi assim que, pela primeira vez, os portugueses viram ameríndios:
"E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel."
Veio, em seguida, o primeiro contato "oficial":
"E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos, e eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio."
Quebrando o mar na costa ou não, Nicolau Coelho e sua gente não teriam mesmo qualquer "entendimento que aproveitasse", já que ninguém conhecia o falar dos indígenas. Outra coisa que salta aos olhos é que a aproximação não foi assim tão próxima, uma vez que Nicolau Coelho arremessou o barrete, a carapuça e o sombreiro, e o mesmo fez o ameríndio com o cocar de penas. Ora, arremessar é atirar a alguma distância... Devia haver temor de ambas as partes.
Mais tarde, com a ajuda forçada dos dois condenados a degredo que vinham com Cabral (e que ficaram no Brasil), portugueses e índios chegaram a ganhar maior confiança. Jovens da terra foram à embarcação onde estava Cabral, experimentaram a comida dos navegadores e até dormiram. Sabe-se que, nas duas missas relatadas por Caminha, indígenas estavam entre a assistência.
É verdade que Caminha também relatou a existência de um índio que se opunha à aproximação, mas parece, ao menos dessa vez, ter sido um caso isolado:
"Andava lá um que falava muito aos outros que se afastassem (¹), mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que assim os andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e contas pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho."
Como terá sido a despedida? Sabe-se que os dois condenados ficaram em terra contra a vontade, extremamente chorosos, receando nunca mais voltar a Portugal (²). Terão os navegadores acenado, quem sabe com lenços, à medida que as embarcações se afastavam rumo ao alto mar? Teriam os índios tentado acompanhar com os olhos, até que a última nau desapareceu?
Não sabemos. Se ao menos tivéssemos um relato indígena...


***

Ainda sobre o Descobrimento, muitos anos depois, por obra de um cartunista, na edição de 1º de maio de 1921, Ano VIII, nº 159, da revista paulistana A Cigarra:


Diz a legenda:
Pedro Álvares Cabral - Então que é isso? Ainda se encontram nesse estado?
O Cacique-guaçu - Não estranhe: nós somos nacionalistas.

(1) Provavelmente o gestual é que deve ter levado Caminha a concluir que o índio pintado de vermelho queria afastar os demais do contato com os navegadores.
(2) Há relatos que dizem que um deles, pelo menos, chegou a voltar ao Reino.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Tomé de Sousa não era dado a brincadeiras

Como um livro didático do Século XIX demonstrou a severidade do primeiro governador-geral do Brasil


Após a Independência, surgiu a necessidade de livros destinados ao ensino de História do Brasil em escolas públicas e particulares. Logo havia, pois, alguns títulos à disposição de professores e estudantes. Um deles veio a público em 1843 e foi escrito por José Inácio de Abreu e Lima, um militar brasileiro de vida algo aventurosa. Filho de um padre executado por envolvimento com a Revolução Pernambucana de 1817, Abreu e Lima deixou o Brasil e, ao lado de ninguém menos que Simón Bolívar, lutou pela independência das colônias espanholas na América.
De volta ao país de origem, publicou seu Compêndio de História do Brasil, dedicado ao Imperador D. Pedro II. Embora a proposta da obra fosse servir como recurso didático em salas de aula, o autor entreteceu, ao longo do texto, alguns episódios interessantes, que hoje dificilmente apareceriam em livros escolares, justamente porque não seriam considerados politicamente corretos. Veremos um deles, útil para demonstrar que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil, não era um tipo com o qual se devia brincar.
Lá vai. Foi durante a construção da primeira capital do Brasil, Salvador, então chamada Cidade da Bahia. Um colono português foi morto por um índio. Tomé de Sousa, por certo na intenção de evitar novos incidentes, não tardou em mostrar autoridade - no melhor estilo da época:
"Infelizmente um dos colonos foi morto por um tupinambá, a oito léguas distante da cidade; o governador, para prevenir o mau exemplo, exigiu que o homicida lhe fosse entregue, e mandando-o atar à boca de uma peça (¹), foi feito em pedaços. Não havia execução menos dolorosa para o culpado [sic], nem mais horrorosa para os espectadores; o terror se espalhou entre os tupinambás e os colonos que receberam também uma lição terrível se abstiveram de ir imprudentemente meter-se em meio dos selvagens." (²)
Que tal, senhores leitores? Bom discurso para instruir crianças? (³)
Esse acontecimento ilustra com perfeição o trato que, em última análise, era dado aos indígenas que reagiam desfavoravelmente à colonização. Estava, no entanto, de acordo com os costumes do Século XVI. Não seria nenhuma surpresa se, em outra circunstância, o governador-geral mandasse executar do mesmo modo um português.
Entretanto, será interessante não nos esquecermos de que, publicado em 1843, o livrinho de Abreu e Lima aparecia em uma época na qual, saído o País há pouco do Período Regencial, enfrentava ainda as consequências de uma série de revoltas. Talvez a intenção do autor, acostumado a comandar e disciplinar tropas nas lutas pela independência da América do Sul, fosse ensinar à molecada das escolas brasileiras que atos de insubordinação não eram, afinal, uma boa ideia, ainda que, em meados do Século XIX, já não fosse costume atar um infrator à boca de um canhão para, em seguida, reduzi-lo a pó.

(1) Peça de artilharia. Um canhão ou outra coisa similar.
(2) LIMA, José Inácio de Abreu e. Compêndio de História do Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1843, pp. 40 e 41.
(3) O mesmo episódio é contado por vários outros autores. O que chama a atenção, aqui, é sua inclusão em uma obra com propósitos educacionais.


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quinta-feira, 27 de março de 2014

O primeiro português que (oficialmente) pisou em terra do Brasil

Não, senhores leitores, não foi Pedro Álvares Cabral o primeiro português que pisou em terra do Brasil. O comandante da esquadra lusa era bastante esperto para não correr riscos desnecessários, que pudessem, em última instância, trazer algum dano à sua gloriosa pessoa. Tinha, também, toda a autoridade para mandar alguém em seu lugar.
E o escolhido foi...
Segundo a carta escrita por Pero Vaz de Caminha, o eleito para a tarefa de ser o primeiro português a desembarcar, oficialmente, em solo brasileiro, atendia pelo nome de Nicolau Coelho. Deixemos falar Caminha:
"O capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens, aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte."
Esse Nicolau Coelho deve ter passado uns maus instantes. Os indígenas que o viram chegar foram em sua direção já com flechas a postos em seus arcos, para alguma eventual emergência. No entanto, Nicolau Coelho lhes fez sinal para que abaixassem as armas, e - ufa! - foi atendido.

Armas indígenas, de acordo com Debret (*)

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 24 de março de 2013

O primeiro contato dos índios com a comida dos portugueses

Se há alguma coisa que pode ser classificada como definidora de uma dada cultura é, sem dúvida, a comida. Sim, vestuário, estrutura familiar, organização social e do trabalho, tudo isso também faz parte, mas os costumes quanto à alimentação são, por vezes, tão particulares a um determinado grupo humano que, aquilo que para uns pode ser uma delícia, um verdadeiro manjar dos deuses, para outros não passa de coisa nojenta. O primeiro contato dos índios do Brasil com a alimentação dos portugueses da esquadra de Pedro Álvares Cabral ilustra perfeitamente esse ponto.
Conta-nos o escrivão Pero Vaz de Caminha que, tentando mostrar amizade para com índios que foram à embarcação do comandante, os portugueses ofereceram-lhes comida:
"Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada, e alguma coisa, se a provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho por uma taça, puseram assim a boca tão mal e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais."
Ora, aqui ficamos nós imaginando a cena: os portugueses tentando oferecer aos seus visitantes o melhor que tinham, e estes sequer suportando provar tal comida. Sim, é verdade que depois de várias semanas no mar, o alimento dos lusos talvez não estivesse lá muito bem conservado, mas que dizer do vinho? É curiosa a reação dos nativos do Brasil, que, aliás, eram grandes apreciadores de bebidas fermentadas, que fabricavam segundo um número bastante significativo de técnicas distintas (*).
Nos contatos subsequentes, ainda com os homens da esquadra de Cabral, jovens índios acabariam experimentando, com mais gosto, a comida dos navegantes.
Conta ainda a carta que os portugueses provaram comida dos índios, que é descrita como inhame - talvez fosse mandioca, ou aipim.
E, como comida é, ao menos em parte, uma questão de hábito, logo estavam os índios a acostumar-se com a alimentação dos portugueses, conforme registrou Caminha:
"Comiam conosco do que lhes dávamos e bebiam alguns deles vinho, e outros não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem que o beberão de boa vontade."

(*) Veja, sobre isso, a postagem: "Cajus e cajueiros - Parte 4: O "vinho" de caju dos indígenas"


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