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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Por que foi tão difícil derrotar Canudos e o Conselheiro

"De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem consigo milhares de fanáticos. Também eu o disse aqui, há dois ou três anos, quando eles não passavam de mil ou mil e tantos. Se na última batalha é certo haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de tal apóstolo, é que algum vínculo moral e fortíssimo os prende até a morte. Que vínculo é esse?"
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 31 de janeiro de 1897

O chamado Movimento de Canudos, na última década do Século XIX, foi, certamente, muito mais complexo do que, à época, se acreditou. Os rebeldes eram pintados como um bando de desordeiros, sem nenhuma organização, acostumados à pilhagem do que achavam nas propriedades vizinhas - motivo pelo qual deviam ser rápida e facilmente derrotados.
Os primeiros enfrentamentos, contra forças policiais, depois contra homens do Exército, logo demonstraram o quanto essa visão simplista estava equivocada.
Os "jagunços" (assim eram chamados os seguidores de Antônio Conselheiro) conheciam muito bem o terreno no qual lutavam. Os militares mandados ao sertão da Bahia, por sua vez, estavam obrigados a lutar em terreno que lhes era completamente desconhecido, com fardamento inadequado e, graças à imprevidência do comando, submetidos à mais absurda falta de suprimentos, inclusive para alimentação.
Cada derrota das forças governamentais era duplamente proveitosa aos homens do Conselheiro. Primeiro, caía-lhes nas unhas todo o armamento que os soldados, em fuga, deixavam para trás. Depois, crescia no imaginário da soldadesca a superstição de que Canudos jamais cairia e, portanto, era inútil lutar. Assim desmoralizadas, as tropas estavam mentalmente incapacitadas para a luta. Um autêntico desastre. Quem quiser conhecer o assunto em detalhes, pode ler Os Sertões (de Euclides da Cunha), em sua terceira e última parte.
Enquanto isso, a imprensa, nas maiores cidades do Sudeste, esperava avidamente por notícias sensacionais do teatro de guerra. Não tardou que houvesse gente insensata o bastante para sugerir que monarquistas de peso apoiavam a revolta. Mais ainda, talvez houvesse interesse do governo argentino em favorecer a gente do Conselheiro para desestabilizar o governo do Brasil... Chegou-se a supor que os jagunços eram abastecidos com armamento embarcado em Buenos Aires!...
Que ninguém duvide: os boatos, às vezes, vão longe demais e podem até ocasionar catástrofes.
Por seu turno, o Ministério da Guerra parecia nunca chegar à consciência exata do que deveria fazer. Uma boa noção do que era a falta de entendimento quanto às condições da guerra no sertão é dada pela famosa Quarta Expedição (comandada pelo General Artur Oscar), que intentou conduzir pela caatinga um canhão que pesava nada menos que 1700 kg, transportado, sob sol escaldante, por vinte juntas de bois. Os bois (infelizes!...) foram depois carneados, já que os soldados estavam, ainda esta vez, sem ter o que comer. O maior lucro desse empreendimento foi fazer crescer, entre os sertanejos, a ideia de que era preciso destruir a "matadeira", nome que deram ao canhão.
As táticas europeias de guerra, que o comando insistia em utilizar, mostraram-se uma estupidez diante de opositores que atuavam isoladamente ou em pequenos grupos, valendo-se do conhecimento excelente que tinham do terreno. Não foi de um dia para outro que os estrategistas da Capital vieram a compreender que, em Canudos, não havia dois exércitos formais, lutando frente a frente. Como os acontecimentos demonstraram, o arraial foi derrotado em combate sangrento, nada convencional, que incluiu cortar, aos jagunços, o acesso a qualquer suprimento de água. E cortar a garganta, também, aos que caíam prisioneiros. Sabia-se que os seguidores do Conselheiro, que não temiam morrer lutando por seu líder, tinham, no entanto, verdadeiro horror à ideia de que seriam degolados, em virtude de algumas superstições que, entre eles, eram correntes.
Antônio Conselheiro, o líder místico, morreu em 22 de agosto de 1897. Esse fato, no entanto, não pôs fim à Guerra. A luta somente chegou a termo na tarde do dia 5 de outubro de 1897. Isso é evidência de que a liderança "militar" e a "religiosa" em Canudos estavam sob distintas mãos.
Sem, nem de longe, pretender esgotar o assunto, resta considerar a atração que Antônio Conselheiro exercia sobre as multidões de flagelados pela seca. Havia em suas pregações místicas vestígios de sebastianismo (sim!) e ideias de oposição à República, mas sua ascendência sobre a gente do sertão não teria a mesma intensidade se não fossem as condições da miséria mais torturante a que estavam submetidos os camponeses, em paralelo à geral falta de instrução entre eles. O sertão era, para as autoridades republicanas, uma realidade distante. O movimento de Canudos acordou os governantes, ao menos momentaneamente, para o drama dos retirantes e da seca.


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domingo, 9 de setembro de 2012

Reflexões sobre a figura de Antônio Conselheiro, o místico de Canudos

Antônio Conselheiro, nascido Antônio Vicente Mendes Maciel, o líder do movimento de Canudos, é dessas figuras que têm cativado o interesse de uma multidão de especialistas, das mais diversas áreas do conhecimento. Como é que um sujeito simples, sem, aparentemente, nada de especial, pode ter-se tornado o líder de sertanejos desesperançados, diante da miséria e da seca? - eis um motivo para debate, sem que, talvez, nunca se chegue a uma conclusão que abarque toda a problemática que se impõe.
Dele, escreveu Euclides da Cunha em Os Sertões:
"Da mesma forma que o geólogo, interpretando a inclinação e a orientação dos estratos truncados de antigas formações, esboça o perfil de uma montanha extinta, o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou. Isolado, ele se perde na turba dos nevróticos vulgares. [...] Mas, posto em função do meio, assombra. [...] Por isto o infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o hospício."
São muitas as questões que poderiam ser levantadas: Antônio Vicente Mendes Maciel seria Antônio Conselheiro não fora a miséria da população do semiárido, brutalmente agravada pela seca, pela ignorância, pela superstição de natureza religiosa? Seria ele Antônio Conselheiro ainda em nossos dias?
Enquanto o leitor faz suas próprias reflexões, considere ainda que, em fins do Império, já se sabendo que andava a fazer peregrinações sertão afora, solicitou-se, para ele, uma vaga para internação no hospício de alienados no Rio de Janeiro - é o próprio Euclides da Cunha quem o afirma. Entretanto a solicitação foi negada, sob o argumento de que não havia vaga disponível. Ora, o que teria ocorrido se, por hipótese, tivessem capturado o homem, de modo que acabasse recluso em um manicômio? Podemos apenas conjecturar que, possivelmente, Canudos não teria ocorrido, que nunca mais se ouviria falar de Antônio Conselheiro, que talvez nem ficássemos sabendo de sua existência. A certeza, no entanto, é de que as condições miseráveis em que viviam os camponeses nas regiões flageladas pela seca em fins do século XIX, essas, sim, seriam rigorosamente as mesmas.
Fato interessante é que, em tempos passados, a religiosidade estava quase sempre presente em casos de comportamentos, digamos, algo anômalos. Hoje, ao menos nesse aspecto, as coisas seriam diferentes, face à mudança de valores na sociedade.


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