terça-feira, 7 de julho de 2020

Um réptil no jantar de alguns bandeirantes paulistas

Nem as cobras escapavam de virar refeição, quando faltava aos bandeirantes comida melhor


Em suas empreitadas de apresamento de indígenas, bandeirantes paulistas levavam uma provisão de farinha de mandioca e de milho, feijão e alguns outros alimentos que se conservassem bem por algum tempo. Além disso, como não eram nem veganos e nem vegetarianos, comiam quanta caça lhes caísse nas unhas. Frutas silvestres, palmito e, em circunstâncias de extrema penúria, até raízes, eram mastigados para acalmar o estômago.
Aqueles dentre os sertanistas que tomavam o rumo das missões jesuíticas de Guairá, pretendendo capturar índios já catequizados e instruídos em um ofício, podiam contar, para alimentação, com fartura de pinhões, que encontravam pelo caminho. Disse Simão de Vasconcelos, jesuíta e escritor do Século XVII, em Vida do Padre João de Almeida, ao tratar das sementes da Araucaria angustifolia:
"[...] É comum mantimento dos bárbaros (¹) e de exércitos inteiros de índios e brancos, que hoje talam aquelas campanhas cada dia, a fazer guerra ao gentio, que habita junto ao Paraguai, terra dos castelhanos, e detendo-se os tais exércitos anos inteiros por estes sertões, bastam só os pinhões para sustento deles. É mantimento doce mais que castanha de Europa, e come-se da mesma maneira que esta, ou cru, ou assado ou cozido. [...]." (²)
Cabe explicar que "exércitos", neste caso, era o modo de Simão de Vasconcelos indicar bandos de homens armados que iam ao sertão, alguns por ordem de administradores coloniais, partindo do "lado espanhol", supostamente para "pacificar" indígenas, mas a maioria formada por gente que saía de São Paulo, e, em um e outro caso, para efeitos práticos, o objetivo era o mesmo: escravizar quantos ameríndios fossem capazes de capturar.
Tentem agora, leitores, usar a imaginação para pintar, mentalmente, a cena: bandeirantes e indígenas que os acompanham, já cansados de um longo dia de caminhada, procuram um lugar conveniente para passar a noite. Aí, depois de armadas as redes, fazem fogo e põem a cozinhar o feijão, que servirá, com a farinha, para a refeição da noite e para o dia seguinte. Alguns, tentando algo mais para o jantar, vão à caça. Coloquem na cena, agora, estas palavras, ainda de Simão de Vasconcelos, em referência às cobras que havia nos sertões:
"[...] se criam cobras tão monstruosas em grandeza, que se conta por certo que da carne de uma só delas, comeu um exército inteiro, e não parece grande o espanto aos que sabem a disforme grandeza daquelas [...] a que chamam jiboias vulgarmente." (³)
Bem, se fosse, não uma jiboia, mas uma sucuri... Ou se o tal exército não fosse muito numeroso... Simão de Vasconcelos talvez quisesse provocar espanto em seus leitores que viviam no Velho Mundo. Uma coisa é certa, porém: não parecia absurdo que sertanistas andassem pelo mato a devorar cobras, se não houvesse nada mais interessante para o jantar.


Jiboia vista em um córrego no interior do Estado de São Paulo

(1) Por "bárbaros", Simão de Vasconcelos fazia referência aos indígenas da região.
(2) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 54.
(3) Ibid., p. 55.


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