quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cigarras do Brasil

Quem dentre os leitores gosta de ouvir o canto (*) das cigarras? Há bastante tempo alguém me falou de uma senhora que  tinha ódio a elas, pois julgava que o tal canto repetia-lhe o nome continuamente... É fato que cada um ouve, por assim dizer, aquilo que quer, nos sons da natureza, e, nesse caso não era diferente.
Acho que também Machado de Assis não era um apaixonado pelo canto desses insetos. Vai aqui um trecho de uma coluna que escreveu para a Gazeta de Notícias, publicada em 7 de janeiro de 1894:
"Entra o galo e faz com a cigarra um concerto de vozes, que me acorda inteiramente. (...)
Pássaros, galo, cigarra, entoam a sinfonia matutina, até que salto da cama e abro a janela.
(...)
Ir-me-á cantar, todo o verão, esta cigarra estrídula? Canta, e que eu te ouça, amiga minha; é sinal de que não haverei entrado no obituário do mesmo verão, que já sobe a cinquenta pessoas diárias. Disseram-mo; eu não me dou ao trabalho de contar os mortos."
Entre as cigarras a espécie mais comum na faixa leste do Brasil é a Carineta fasciculata, mas não pensem que elas são exclusivas do Brasil. Há, no mundo, mais de mil e quinhentas espécies conhecidas e, na década de quarenta do Século XIX, uma delas deve ter atormentado os ouvidos  do príncipe Adalberto da Prússia, que, em suas andanças pelo Rio de Janeiro, registrou: "...já estava escuro, e as cigarras já começavam a cantar quando chegamos à chácara das Mangueiras. O som que estas cantoras brasileiras emitem fere os ouvidos; só posso compará-lo, é claro que em miniatura, ao desagradável apito de uma locomotiva." (**) 
Vejam, então, os senhores leitores que, havendo cigarras pelo mundo afora, as do Brasil cantavam demais, ao menos para os ouvidos sensíveis do príncipe prussiano.
Já ouvi comentários e li algumas observações de que as cigarras de São Paulo cantam de modo diferente do que pode ser encontrado em todas as outras regiões do Brasil. Ora, não sei se é verdade, mas observei que, quando começa o berreiro, parece haver uma vibração algo particular. Serão de alguma espécie diferente? Não sei, não sou especialista em cantorias de cigarras. Apenas tenho delas as melhores recordações de uma travessura dos tempos de universidade que, por suposto, não seria apropriado contar aqui.

Zi - Zi - Zi - Zi - Zi - Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih
(é uma cigarra paulista)
(*) Apenas os machos emitem o ruído característico das cigarras que, aliás, não provém da boca.
(**) ADALBERTO, Príncipe da Prússia Brasil: Amazônia - Xingu
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 32

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