terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quem Traz os Presentes de Natal? (Parte 1)

"Mas um vulto de criança surgiu na esquina, atravessou, a correr, um raio de luz e ela, mais com o coração do que com os olhos, reconheceu nele o filho.
Ainda ele vinha longe, e já a porta se abria.
Entrou esbaforido e, antes de qualquer explicação, disse arquejante:
—Olha o que eu achei na praia. Que havia de ser? nem mais, nem menos que um frangalho de sapato sem sola, com um resto de salto recomido das pedras.
—Para que trazes isto?
—Pois não sabes que, na noite do Natal, quando todos dormem, anjos descem do céu com presentes para as crianças? A gente põe um sapato perto do fogão, porque os anjos entram nas casas pela chaminé, e, de manhã, quando acorda, vai encontrá-lo cheio de presentes?  Como eu não tinha sapato saí por aí à procura de um e achei este. Está velho, mas é grande! Se os anjos o enchessem de dinheiro... nem sei!"
Coelho Neto, O Sapato do Natal in Vesperal


Engana-se quem pensa que, pelo menos no Brasil, sempre foi Papai Noel o encarregado, por ocasião do Natal, de trazer presentes às crianças. Na verdade, as referências mais antigas apontam para um aspecto bem popular da religiosidade, uma crença quase roceira, ainda que vivenciada também nas regiões urbanas, a de que, na Noite de Natal, vinha o próprio Menino Jesus deixar brinquedos e doces para os pequenos que pusessem seus sapatos do lado de fora das casas. No imaginário da gente simples, era como se Jesus, a cada Natal, se tornasse menino outra vez... Isso, entenda-se bem, somente até as primeiras décadas do século XX.
A título de demonstração, veja-se este breve trecho que apareceu na Revista Escolar, edição de 1º de fevereiro de 1926:
"Noite linda, que já lá se vai tão longe!...
Como é sublime a inocência! Oh! mães, zelai pela candura de vossos filhinhos. Castigai severamente o perverso que procure desvendar aos pequenitos os vícios e pecados deste mundo, não os deixando mais acreditar nos contos de fadas, nos castelos encantados, no menino Jesus que lhes põe doces e brinquedos nos sapatos..."
Fica subentendido, no entanto, que quem escreve coloca essa crença no Menino Jesus que traz presentes em pé de igualdade com fadas e castelos encantados, o que, naturalmente, não adiciona muito mérito religioso ao caso, mas isso já outro assunto.
Resta ainda saber se tal ideia, digamos, aparentemente ingênua, tinha algum uso comercial. Adivinhe! Pois veremos já um exemplo que, para mim, é verdadeiramente emblemático. Na edição de 11 de dezembro de 1914 de A Cigarra, apareceu um anúncio de página inteira, do qual extraí um parágrafo decisivo:
"Os presentes, com que Jesus costuma contemplar as suas inúmeras protegidas, encontram-nos os papás, como se vê no clichê abaixo, num riquíssimo sortimento da Casa Lebre, que as criancinhas poderão obter, se souberem convencê-los, com toda a ternura das suas almas meigas, a visitá-la."
Ora, dificilmente alguém verá propaganda mais explícita: Jesus traz presentes para as crianças que protege (às outras, subentende-se que não), desde que os pais façam a compra do brinquedo na loja citada - devendo os pequenos, para isso, usar toda a sua capacidade de convencimento. Já vi muita coisa neste mundo, mas tamanha falta de sutileza surpreende até a mim! E, se você ficou curioso para saber o que havia na loja, vai abaixo o citado clichê, exibindo o sortimento de brinquedos então disponível.



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