História, preservação do patrimônio histórico e debate de questões atuais
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quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Sobre a ditadura na Roma Antiga
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Multa para quem fugia da cadeia
Ano após ano o mau estado da cadeia era assunto de debate na Câmara da vila. Mas a localidade, nesse tempo, era pobre, e quase não havia dinheiro amoedado em circulação (¹). Pouco mais de um mês antes, precisamente em 21 de novembro de 1646, o ouvidor-geral da Capitania de São Vicente, em correição efetuada como mandavam as leis da monarquia portuguesa, tivera uma ideia luminosa: multar quem fugisse da prisão. Sim, leitores, era exatamente o que rezava a Ata da Câmara:
"proveu mais o dito ouvidor-geral que toda a pessoa que fugir da cadeia será executada em quatro mil réis, sem mais citação nem apelação, aplicados para as obras da cadeia, e que nem por isso deixarão de se livrarem da culpa que cometem da fugida." (²)Bem, quatro mil réis, em tempos em que quase não havia moeda oficial circulando, era um dinheirão. Mas, para cobrar a dita multa, seria necessário recapturar o fugitivo (³), reconduzi-lo à cadeia, na suposição de que não fugisse novamente. Isto, é claro, se tivesse com que pagar. Aí, sim, era mesmo outra história!
Para reflexão e debate:
(1) Nada muito diferente do que acontecia em quase todo o Brasil, pela mesma época.
(2) Ata transcrita na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) Lembrem-se, leitores, de que a vila de São Paulo ficava lá no alto do planalto paulista, longe das cidades "de verdade", não tinha nenhuma organização policial confiável e. portanto, não era difícil, nesse meio de mato, que um fugitivo pudesse muito bem se ocultar em alguma paragem a certa distância, até que as tempestades contra ele serenassem.
quarta-feira, 25 de março de 2026
O trenzinho que transportava café
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| Balança em que era conferido o peso do café (²) |
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Sobre a origem da propriedade privada entre os antigos romanos
Não sabemos. É mais provável que o fenômeno tenha ocorrido em diferentes localidades (quase) simultaneamente. Mais intrigante é que essa ideia ganhasse terreno (desculpem o trocadilho), e que a maioria dos sem propriedade engolisse a exclusividade para os poucos que se arrogavam donos de alguma coisa. Não se pode descartar o uso de argumentos relacionados à força física, acrescida de paus, pedras e uma prole numerosa, capaz de defender a autodeclarada propriedade particular de um patriarca. Mais sutil, e não menos persuasivo, poderia ser o argumento de que o direito ao uso exclusivo da terra, por exemplo, seria derivado da vontade dos deuses, em especial quando vindo de alguém que ostentava status sacerdotal e, portanto, capaz de estabelecer comunicação com supostas divindades.
Quando Roma já era República há séculos, Cícero (¹), político, jurista e orador famoso (²), argumentou que, segundo a natureza, não existia absolutamente nada no mundo que merecesse o conceito de propriedade privada. Contudo, haveria, ainda de acordo com Cícero, algumas razões para explicar o direito de alguns (minoria), em detrimento de outros (quase sempre a maioria): antiguidade da ocupação por um grupo ou família de um campo anteriormente desocupado, ou a ocupação de terras mediante conquista em campo de batalha, além de leis que legitimavam a propriedade privada, dentre outros fatores (³). Cícero não devia desconhecer que, no passado, o patriciado romano fora muito eficiente em ostentar sua pretensa origem vinculada aos semideuses fundadores de Roma para justificar a posse de terras, que, por esse motivo, era negada aos plebeus. Nada surpreendente, portanto, que, em se tratando de Roma, a reforma agrária estivesse, quase sempre, na pauta dos que, em um momento ou outro, por ambições políticas, pretenderam obter apoio popular para dominar a cidade e o mundo.
(1) Marco Túlio Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
(2) Também devotado à filosofia, em particular aquela que provinha da Grécia.
(3) Cf. De Officiis, Livro I.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O povo queria pão
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca.
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:
2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço
Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).
3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo
Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.
4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila
Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.
(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Senhores de engenho no inferno
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época.
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²)Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴)Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.
(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Pastores de ovelhas na Antiguidade
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| Pastores cuidando do rebanho à noite (*) |
Algumas vezes, pastores andam solitários, mas, se possível e por segurança, em grupos. O isolamento é matéria-prima para sonhos e projetos que, provavelmente, não irão além da imaginação. Cuidar de ovelhas e cabras alheias é, afinal, coisa para gente simples, de poucos recursos, ganhando o suficiente para viver e nada mais. Mas quem disse que sonhar não é para os pobres?
A música recomeça. Nestas solidões quase desabitadas, o céu, à noite, é estonteante. Pontinhos luminosos incontáveis parecem recordar formas conhecidas e favorecem a fantasia. Há quem diga que estão perto, outros pensam que estão muito, muito longe. Que haverá por lá?
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Desembarque do tesouro inca em Sevilha
Se você leitor, der uma olhada na postagem anterior deste blog, verá que abordei a questão do ideário que norteou as invasões de europeus em áreas do Continente Americano nos Séculos XV e XVI, comumente chamadas de "conquista da América". Pois bem, voltemos ao assunto, considerando que Francisco Pizarro, à frente de um bando reduzido de soldados, depois de desembarcar em território inca, acabou, astutamente, por aprisionar o imperador Atahualpa, com mostras, no entanto, de sutil amabilidade. Ora, Atahualpa, talvez em desespero por não compreender a extensão do que lhe ocorrera, prometeu a Pizarro um cômodo inteiro da casa em que estava repleto de ouro e prata, se, com isso, fosse libertado. Essa declaração, talvez figurada, foi entendida literalmente por Pizarro, porque era aquilo que mais desejava ouvir.
Em consequência, ouro e prata começaram a afluir de diferentes partes do Império Inca. Pretenderia Pizarro, contudo, libertar Atahualpa, sabendo que, possivelmente, lideraria uma força numerosíssima contra os invasores, que, aliás, eram mesmo poucos, embora dispusessem de alguns cavalos e de uma ousadia que surpreende até hoje?
Não, isso estava fora de questão. Valendo-se de ter ouvido que o ilustre prisioneiro tramava, secretamente, um ataque aos espanhóis, Pizarro fez condenar Atahualpa à morte. Devia ser queimado vivo. Diante da perspectiva horrorosa, o pobre homem aceitou uma conversão forçada ao catolicismo, que resultou em morrer de modo mais suave - por afogamento. Era julho de 1533.
Metodicamente, Pizarro fez transformar em folhas e barras quase toda a enorme quantidade de metal precioso que recebera, pagando a cada soldado que o acompanhara a quantia correspondente a seu papel e posição de autoridade. Tratava-se, agora, de remeter ao monarca espanhol (¹) o que lhe cabia. Quanto a isso, o secretário de Pizarro, Francisco de Xerez, escreveu, ao relatar o desembarque do tesouro inca em Sevilha:
"Este tesouro foi descarregado na doca e levado à Casa da Contratação, sendo os vasos carregados e o restante em vinte e sete caixas, de modo que cada junta de bois levava duas caixas por carreta." (²)Isso ocorreu em 1534. Sucintamente, o secretário Xerez concluiu: "a Dios gracias".
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534.
O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Em nome dos reis que queriam ouro
Invasores europeus no Continente Americano na perspectiva do Mercantilismo
"[...] como Nosso Senhor favorece e socorre nas necessidades aos que estão a seu serviço, os índios foram desbaratados e fugiram, e os que estavam a cavalo foram atrás deles, ferindo e matando alguns [...]." (²)
"[...] Destes fez justiça o governador, queimando a alguns e cortando a cabeça a outros." (³)
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Multa para quem não vinha às celebrações de Corpus Christi
quarta-feira, 21 de maio de 2025
Contenda por um banco de igreja
Um banco na igreja foi motivo de discórdia entre população e vereadores em São Paulo no Século XVII
"[...] pelo procurador foi dito que o banco que estava no meio da igreja em que se assentavam os oficiais era grande prejuízo e escândalo deste povo por se tratarem mal as mulheres, que lhes requeria outrossim, o que visto pelos ditos oficiais mandaram que se tirasse o dito banco [...]." (*)
quarta-feira, 2 de abril de 2025
O cultivo de café no Século XIX e o esgotamento do solo
Práticas equivocadas no cultivo do café levavam ao rápido esgotamento do solo e a mudanças das plantações para novas áreas.
"Tiram-se as mudas dos velhos cafezais. Começam elas a produzir aos três anos e estão em pleno vigor aos quatro. Quando o pé ainda é novo capina-se a terra duas ou três vezes, mas não se dá mais de uma carpa quando as árvores já estão vigorosas. [...] Não se podam as árvores, contentam-se os lavradores em descoroá-las para impedir que cresçam muito.[...] Quando o arbusto principia a envelhecer, cortam-no e ele dá brotos que frutificam novamente." (²)
"Planta-se primeiro um viveiro, onde a plantinha se desenvolve durante um ano. Passado esse lapso de tempo, arrancam-na com precaução e transportam-na para o lugar que vai definitivamente ocupar. Com três anos, o novo cafeeiro principia a dar frutos, mas a primeira colheita é mínima. Desde então, [...] continua a produzir, dando às vezes duas colheitas por ano, e mesmo mais, pelo prazo de trinta anos. Ao cabo deste período, o arbusto e o solo estão igualmente esgotados. É hábito então do fazendeiro abandonar completamente o velho cafezal, sem cuidar no entanto de restituir ao terreno seu valor e fertilidade. Derruba-se uma nova porção da floresta e refaz-se uma nova plantação. [...]" (³).
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
Leques para manter as fogueiras acesas
Veja também:
domingo, 19 de janeiro de 2025
Uma capivara roeu a árvore da eternidade
"[...] um dia que a alma de uma velha nada pôde pescar e que se lhe negou uma esmola para seu sustento (²), o céu se irritou tanto contra a nação mocobi, que transfigurada em capivara a velha, teve que roer o tronco da árvore (³) por onde se subia ao céu até cair, cujo acontecimento causou um dano irreparável a toda a nação." (⁴)
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Blog História & Outras Histórias completa quinze anos
Amigos
leitores, chegamos, afinal, aos quinze anos deste blog. Quando postei o
primeiro texto, em 25 de dezembro de 2009, não imaginava que continuaria este
projeto por tanto tempo. Mas aconteceu.
Agora,
depois de mais de mil e setecentas postagens, a maior parte delas de interesse
permanente, surge a questão: Vale a pena continuar?
Tenho
pensado muito nisto ao longo de 2024. A ideia, no começo do ano, era encerrar o
blog assim que chegasse ao décimo quinto aniversário. Contudo, não sinto que
esteja pronta para o ponto final. Por outro lado, os leitores que me conhecem
“na vida real”, sabem o quanto está difícil encontrar tempo para escrever novos
textos. Assim, ao menos por enquanto, decido continuar, mas sem periodicidade
definida. Ou seja, o blog terá novas postagens sempre que for possível.
Agradeço
o apoio dos leitores habituais e eventuais, porque não seria muito útil gastar
tempo na manutenção de um blog que ninguém lê. Continuem a ler e comentar.
A
todos, desejo que este dia de Natal seja muito feliz, e vamos a 2025, para
descobrir o que o novo ano nos trará.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
Escravos africanos trazidos ao Brasil entre 1842 e 1852
"1842 ........ 17.435
1843 ........ 19.095
1844 ........ 22.249
1845 ........ 19.453
1846 ........ 50.324
1847 ........ 56.172
1848 ........ 60.000
1849 ........ 54.000
1850 ........ 23.000
1851 ........ 3.287
1852 ........ 700" (³)
(3) DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição. Brasília: Ed. Senado Federal, 2005, p. 32.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
Traje de mulheres abastadas nos bailes e teatros durante o Primeiro Reinado
"No teatro e nos bailes, [as mulheres] aparecem com vestidos [...] cobertos de inúmeras flores e laçarotes de fitas, saiotes de cetim, corpete igual, bordado a ouro ou prata, rico diadema, flores e plumas nos cabelos em agradável combinação. As meias e os sapatos são sempre de seda. Neste ponto, o luxo excede a qualquer expectativa." (¹)O traje das damas que frequentavam a corte imperial era semelhante, porém com mais luxo:
"O traje de corte se assemelha a este (²), leve e transparente como o ar sob um céu abençoado. Um manto de veludo ricamente bordado em ouro e prata, um barrete com flutuantes penas de avestruz e um adorno de brilhante dão-lhe uma dignidade fantástica e imponente. [...]" (³)Quem vive no Século XXI pode achar tal moda muito estranha, mais condizente com uma fantasia de carnaval que com roupa de gente séria em ocasiões que requeriam traje de gala. Mudanças viriam, com certeza, e muito frequentemente, ao longo do Século XIX, quando as publicações francesas voltadas ao público feminino passassem a ser aguardadas com ansiedade. A "última moda em Paris" seria anunciada pelos lojistas que vendiam artigos de vestuário para mulheres que tinham recursos de sobra para tanto.
Contudo, nos dias do Primeiro Reinado, a extravagância estava em pauta, embora, quanto às joias das madames da Corte, Schlichthorst tivesse uma ressalva a fazer:
"[...] nem tudo que ao esplendor das velas lança raios multicores é diamante verdadeiro, porque em nenhuma parte do mundo nesse país dos diamantes se usam tantas pedras falsas" (⁴).
Traje de uma família brasileira no governo joanino (⁵)
(3) SCHLICHTHORST, C. Op. cit., p. 92.
(4) Ibid.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Venda de frutas na capital do Império
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| Escravo vendedor (²) |
"As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram, além das do país? Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores, juro-o, porque havia senhoras." (¹)O correr dos anos, o crescimento e fortalecimento da cidade, a vinda temporária da Corte portuguesa ao Brasil, a Independência, trouxeram modificações significativas, tanto que Daniel P. Kidder, missionário metodista americano (³) que esteve no Rio de Janeiro durante o Período Regencial, pôde afirmar:
"[...] as frutas indígenas são muito variadas e saborosas. Além das laranjas, limas, cocos e abacaxis que são bastante conhecidos entre nós, há mangas, bananas, romãs, mamões, goiabas, jambos, araçás, mangabas e muitas outras espécies, cada uma das quais tem sabor e perfume peculiares.O olhar do estrangeiro que procurava pelas singularidades do país que visitava não deixou escapar o modo como os vendedores ambulantes de frutas atraíam seus fregueses:
Dispondo-se de tão grande variedade de frutas para atender os caprichos ou as necessidades da vida, por certo ninguém tem de que se queixar. Esses artigos são encontrados em profusão nos mercados e apregoados pelas ruas da cidade e dos subúrbios por escravos e negros libertos que os levam geralmente em balaios na cabeça. [...]" (⁴)
"[...] Os vendedores ambulantes passam constantemente pelas ruas apregoando em altas vozes a natureza e a excelência de suas mercadorias ou emitindo algum som indeterminado, apenas para atrair a atenção do público. [...]" (⁵)As condições de transporte no Brasil daquela época eram precárias, e frutas, como todo mundo sabe, têm uma vida útil bem curta. Deviam portanto, ser de produção local ou, no máximo, de pouca distância da capital do Império, para que pudessem chegar aos compradores em estado satisfatório para consumo.
Vendedor de frutas no Rio de Janeiro, depois do fim da escravidão e da Proclamação da República (⁶)
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 89.
(5) Ibid.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
Fome em Roma quando Nero era imperador
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| Nero (¹) |
Nova falta de víveres ocorreu nos dias de Nero, que àquela altura, já era odiado até pelas pedras que havia nas ruas, em razão dos desmandos que fazia e por cuidar antes dos espetáculos que do sustento da gente romana. Novamente um navio vindo de Alexandria chegou ao porto, mas... Deixemos que Suetônio conte o incidente:
"Um acontecimento ao acaso contribuiu para aumentar o ódio contra ele [Nero], em momento no qual a população passava fome. Um navio chegou ao porto vindo de Alexandria, mas não trazia trigo, e sim areia para os gladiadores da corte." (²)A areia era usada para cobrir o sangue de animais e homens que lutavam em espetáculos públicos. Esperava-se trigo, contudo, já que o Egito era o grande celeiro do mundo romano. A amarga decepção, ao ver frustradas as esperanças por pão quando o navio entrou no porto, fez aflorar a ira das massas contra o jovem imperador, mais preocupado com lutas que com o estômago dos famintos romanos, que até gostavam muito de espetáculos, quando estivessem devidamente alimentados.
(2) SUETÔNIO, De vita Caesarum, Livro VI. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
Como a notícia do descobrimento do Brasil foi recebida em Portugal
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| Dom Manuel, rei de Portugal (³) |
Embora haja pouca informação a respeito, no primeiro dos Diálogos das Grandezas do Brasil (¹), obra do começo do Século XVII (²), Brandônio explica a Alviano, seu interlocutor, que, de um fidalgo, ouvira informações muito interessantes:
"Esta província do Brasil é conhecida no mundo com o nome de América, que com mais razão houvera de ser pela terra de Santa Cruz, por ser assim chamada primeiramente de Pedro Álvares Cabral, que a descobriu [...], na segunda armada que el-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, mandava à Índia, e acaso topou com esta grande terra não vista nem conhecida até então no mundo, e por lhe parecer o descobrimento notável, despediu logo uma caravela ao Reino com as novas do que achara, e sobre isso me disse um fidalgo velho, bem conhecido em Portugal, algumas coisas de muita consideração." (⁴)Note-se que Brandônio assumia a tese do descobrimento não intencional, mas isso não tem lá grande importância. Já mordido pela curiosidade, Alviano retruca:
"E que é que vos disse esse fidalgo?" (⁵)A resposta, expresse ou não a realidade do que ocorreu em Portugal diante da chegada da notícia do descobrimento, revela muito sobre os costumes da época, quando se desejava avaliar uma novidade como favorável ou infausta:
"Dizia-me ele que ouvira dizer a seu pai, como coisa indubitável, de que a nova de tão grande descobrimento foi festejada muito do magnânimo rei e que um astrólogo, que naquele tempo no nosso Portugal havia de muito nome, por esse respeito levantara uma figura, fazendo computação do tempo e hora em que se descobriu esta terra por Pedro Álvares Cabral, e outrossim do tempo e hora em que teve el-Rei aviso de seu descobrimento, e que achara que a terra novamente descoberta havia de ser uma opulenta província, refúgio e abrigo da gente portuguesa [...]." (⁶)Não quero roubar a graça das conclusões que vocês, leitores, poderiam já ir tirando, mas é preciso dizer que até hoje há controvérsias quanto ao verdadeiro dia em que a esquadra de Cabral chegou ao Brasil, mesmo havendo relato razoavelmente detalhado na Carta de Caminha. Mas, pondo de lado essa preocupação, considerem a última observação de Brandônio, quanto à suposta "profecia" relativa ao futuro do Brasil, e notem o horror que transparece nas palavras de Alviano:
"Não permita Deus que padeça a nação portuguesa tantos danos que venha o Brasil a ser o seu refúgio e amparo [...]." (⁷)Não, senhor Alviano, Portugal não precisou e não precisa de amparo. Mas, quanto a refúgio, certamente o Brasil o foi, ao menos para a realeza que aportou no Rio de Janeiro em 1808, bem como para a multidão de imigrantes que chegou aos portos brasileiros nos Séculos XIX e XX, provenientes não só de Portugal, mas de quase todo canto deste mundo. E continuam eles, os imigrantes, a vir para aqui, de outras terras que não aquelas do passado, porque este planeta, afinal, vive em ebulição, e a gente que nele habita precisa, às vezes, mudar de endereço.
(1) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(2) Os Diálogos foram escritos, portanto, mais de um século após o descobrimento "oficial" em abril de 1500.
(4) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 57.
(5) Ibid., p. 58.
(6) Ibid.
(7) Ibid.











