quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sobre a ditadura na Roma Antiga

Se podemos crer no que escreveu Dion Cássio (¹), a ditadura foi inventada em Roma (que pensar dessa ideia?...) em uma ocasião em que, na iminência de uma guerra contra os latinos, a multidão de plebeus, que era maioria no exército, demonstrava a máxima preguiça em pegar em armas, a menos que suas dívidas fossem devidamente perdoadas (²). A questão das dívidas foi, em tempos da República em Roma, um motor de conflitos entre patrícios e plebeus, ainda que não tenha sido o único. 
Como obrigar essa gente insatisfeita a lutar?
Ainda que odiassem a monarquia, os romanos decidiram criar um novo cargo, o de ditador, com poderes, até certo ponto, semelhantes aos dos monarcas na Antiguidade. A pessoa para isso escolhida tinha autoridade quase ilimitada e podia, inclusive, condenar à morte qualquer desobediente, fosse na cidade ou em campos de batalha. Suas decisões eram inapeláveis e nem mesmo os membros do Senado estavam isentos de prestar-lhe obediência. Restrições? Sim, havia: estava proibido de montar cavalo, a não ser que fosse para ir à guerra (cavalos eram armas poderosas naquele tempo) e somente lhe era permitido fazer gastos públicos que fossem votados e aprovados.
Com tanto poder, um homem talvez chegasse a se considerar rei. Para impedir tamanho pecado, o mandato de um ditador não deveria ir além de seis meses. Era, supunha-se, a garantia contra aventuras monárquicas. Houve, contudo, um sujeito que, em meio a tantas estripulias políticas e militares, ousou aceitar o título de "ditador vitalício". Sim, foi Júlio César, e vocês, leitores, apaixonados por História, sabem muito bem o que, afinal, aconteceu a ele. Nessa ocasião, porém, a República já desfalecia.

(1) Viveu entre o segundo e terceiro século d.C.
(2) História Romana, Livro IV.

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Multa para quem fugia da cadeia

Corria o ano de 1646, e a cadeia pública da vila de São Paulo, na Capitania de São Vicente, estava, literalmente, caindo aos pedaços. Na ata de vereação ocorrida em 31 de dezembro do mesmo ano, há esta menção honesta até demais: "pela cadeia estar como que está caindo". Nada lisonjeiro para um edifício público que deveria primar pela segurança. 
Ano após ano o mau estado da cadeia era assunto de debate na Câmara da vila. Mas a localidade, nesse tempo, era pobre, e quase não havia dinheiro amoedado em circulação (¹). Pouco mais de um mês antes, precisamente em 21 de novembro de 1646, o ouvidor-geral da Capitania de São Vicente, em correição efetuada como mandavam as leis da monarquia portuguesa, tivera uma ideia luminosa: multar quem fugisse da prisão. Sim, leitores, era exatamente o que rezava a Ata da Câmara:
"proveu mais o dito ouvidor-geral que toda a pessoa que fugir da cadeia será executada em quatro mil réis, sem mais citação nem apelação, aplicados para as obras da cadeia, e que nem por isso deixarão de se livrarem da culpa que cometem da fugida." (²)
Bem, quatro mil réis, em tempos em que quase não havia moeda oficial circulando, era um dinheirão. Mas, para cobrar a dita multa, seria necessário recapturar o fugitivo (³), reconduzi-lo à cadeia, na suposição de que não fugisse novamente. Isto, é claro, se tivesse com que pagar. Aí, sim, era mesmo outra história! 

Para reflexão e debate:


Leitores, estou introduzindo nesta postagem uma questão que gostaria de debater com vocês. A ideia é que escrevam o que pensam no espaço para comentários. Assim, podemos conversar um pouco. Que tal? A questão  é: O que poderia ter levado o ouvidor-geral a imaginar que uma multa para fugitivos seria eficaz em São Paulo?

(1) Nada muito diferente do que acontecia em quase todo o Brasil, pela mesma época.
(2) Ata transcrita na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) Lembrem-se, leitores, de que a vila de São Paulo ficava lá no alto do planalto paulista, longe das cidades "de verdade", não tinha nenhuma organização policial confiável e. portanto, não era difícil, nesse meio de mato, que um fugitivo pudesse muito bem se ocultar em alguma paragem a certa distância, até que as tempestades contra ele serenassem.

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quarta-feira, 25 de março de 2026

O trenzinho que transportava café

Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda
Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda (¹)

Carros de bois e carroções descem pela estradinha de chão batido. Sacas e mais sacas de café são descarregadas perto dos trilhos e, sem demora, carreiros tocam os animais no rumo contrário. Não há tempo para muita conversa, o trabalho não pode parar. 
Depois de uma safra muito boa - inverno ameno, nada de geada, chuvas na quantidade certa - o café havia recebido um beneficiamento rústico, a qualidade e tamanho dos grãos fora verificada e agora, depois de ensacado, é conduzido até a estação ferroviária pequenina que se construíra, há alguns anos, nos arredores da fazenda. Ali, cada saca de café é novamente pesada e conferida. Espera-se o trem, que, geralmente pontual, não deve tardar. 
Balança para pesagem do café (2)
Balança em que era conferido
o peso do café (²)
Ouve-se, ao longe, um apito, e outro. Os trabalhadores, cansados e suarentos, já sabem: lá vem a maria-fumaça. O café deve ser alocado nos vagões de carga. Vai para longe, e, depois de vencida a serra, ficará à espera em algum dos enormes depósitos junto ao porto, até que, em navios, atravesse o mar rumo a outras terras. 
Encarapitado na cerca da fazenda, um menino observa, à distância, toda a movimentação dos que trabalham. Que saberá, em seus oito ou nove anos, sobre cotação internacional do café, exportação ou concorrência estrangeira? Só tem olhos para a locomotiva que, tanto quanto os trabalhadores, parece ofegante. É o suor de tantas famílias de imigrantes, como a dele, que faz cada cafeeiro se tingir de frutinhos vermelhos que enriquecem o fazendeiro. Pezinhos descalços, tanto esse menino como seus irmãos, todos crianças, têm ajudado os pais e o avô na parte da lavoura que lhes cabe cultivar. A pouca idade nunca é motivo para descartá-los como mão de obra. Escola? Ah, sim, quem sabe no ano que vem...
Com o café nos vagões e mais lenha na locomotiva, o trem se espreguiça para partir. Um apito longo e lá se vai, lentamente, a princípio, e então ganha força. Apertando os olhos, o menino segue a maria-fumaça até que o trenzinho mergulha no horizonte de cafezais. Quando for grande, promete a si mesmo, vai ser maquinista. 

(1) Imagem gerada por inteligência artificial.
(2) Pertence ao acervo do Museu Ferroviário de Jaguariúna.


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre a origem da propriedade privada entre os antigos romanos

Não são poucas as controvérsias sobre as origens da propriedade privada neste planetinha em que nós, humanos, vivemos, sem outro lugar para escolher. Quem teria sido o primeiro a colocar um arremedo de cerca ao redor de uma pastagem ou de um terreno fértil para cultivo e dizer: "Isto é meu"? Ou quem teria se apropriado de parte de um rebanho de cabras ou ovelhas e alegado ser o único dono dos animais? 
Não sabemos. É mais provável que o fenômeno tenha ocorrido em diferentes localidades (quase) simultaneamente. Mais intrigante é que essa ideia ganhasse terreno (desculpem o trocadilho), e que a maioria dos sem propriedade engolisse a exclusividade para os poucos que se arrogavam donos de alguma coisa. Não se pode descartar o uso de argumentos relacionados à força física, acrescida de paus, pedras e uma prole numerosa, capaz de defender a autodeclarada propriedade particular de um patriarca. Mais sutil, e não menos persuasivo, poderia ser o argumento de que o direito ao uso exclusivo da terra, por exemplo, seria derivado da vontade dos deuses, em especial quando vindo de alguém que ostentava status sacerdotal e, portanto, capaz de estabelecer comunicação com supostas divindades. 
Quando Roma já era República há séculos, Cícero (¹), político, jurista e orador famoso (²), argumentou que, segundo a natureza, não existia absolutamente nada no mundo que merecesse o conceito de propriedade privada. Contudo, haveria, ainda de acordo com Cícero, algumas razões para explicar o direito de alguns (minoria), em detrimento de outros (quase sempre a maioria): antiguidade da ocupação por um grupo ou família de um campo anteriormente desocupado, ou a ocupação de terras mediante conquista em campo de batalha, além de leis que legitimavam a propriedade privada, dentre outros fatores (³). Cícero não devia desconhecer que, no passado, o patriciado romano fora muito eficiente em ostentar sua pretensa origem vinculada aos semideuses fundadores de Roma para justificar a posse de terras, que, por esse motivo, era negada aos plebeus. Nada surpreendente, portanto, que, em se tratando de Roma, a reforma agrária estivesse, quase sempre, na pauta dos que, em um momento ou outro, por ambições políticas, pretenderam obter apoio popular para dominar a cidade e o mundo. 

(1) Marco Túlio Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
(2) Também devotado à filosofia, em particular aquela que provinha da Grécia. 
(3) Cf. De Officiis, Livro I. 

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O povo queria pão

Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é? 
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca. 
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)
Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:

1. Por que faltava trigo
 
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.

2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço

Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).

3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo

Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.

4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila

Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.

(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Senhores de engenho no inferno

A casa das fornalhas, instalação existente nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial, foi frequentemente comparada ao inferno, conforme se pode ver pelos escritos de vários autores da época - Antonil, entre eles. Antes, porém, que Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas fosse publicado em 1711, outro autor colonial teve a ideia de comparar as fornalhas ao que, na imaginação popular, deveria ser o inferno:
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)
Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época. 
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²) 
Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴) 
Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.  

(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.  
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Pastores de ovelhas na Antiguidade

Pastores cuidando do rebanho à noite (*)
A música suave que brota de uma flauta espalha-se pelas colinas. A melodia é acentuada pelo bater de mãos e pés dos ouvintes. Uma pausa, e pode-se ouvir a pouca distância o ruído das águas de um riacho. 
Na noite de verão, as ovelhas, deitadas aqui e ali, ou ainda mastigando tufos de relva (bichos insaciáveis!), não saem das vistas dos pastores que, jovens como são, sabem que é preciso cuidado, predadores podem estar à espreita. 
Algumas vezes, pastores andam solitários, mas, se possível e por segurança, em grupos. O isolamento é matéria-prima para sonhos e projetos que, provavelmente, não irão além da imaginação. Cuidar de ovelhas e cabras alheias é, afinal, coisa para gente simples, de poucos recursos, ganhando o suficiente para viver e nada mais. Mas quem disse que sonhar não é para os pobres?
A música recomeça. Nestas solidões quase desabitadas, o céu, à noite, é estonteante. Pontinhos luminosos incontáveis parecem recordar formas conhecidas e favorecem a fantasia. Há quem diga que estão perto, outros pensam que estão muito, muito longe. Que haverá por lá? 

(*) Imagem gerada por inteligência artificial. O texto, como sempre, é completamente humano. 

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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Desembarque do tesouro inca em Sevilha

Há quem afirme que os atos e a cultura de quem viveu no passado não devem ser julgados pelos valores que temos na atualidade. Existe, por certo, algo de verdade nisso: estamos sob circunstâncias muito diferentes das enfrentadas por pessoas de outros tempos. Como negar, porém, que há coisas que transcendem as eras? É de causar espanto, e mesmo horror, o modo como alguns autores contemporâneos às invasões de impérios da América no Século XVI interpretaram as ações de que chegaram a participar ou que, ao menos, presenciaram. 
Se você leitor, der uma olhada na postagem anterior deste blog, verá que abordei a questão do ideário que norteou as invasões de europeus em áreas do Continente Americano nos Séculos XV e XVI, comumente chamadas de "conquista da América". Pois bem, voltemos ao assunto, considerando que Francisco Pizarro, à frente de um bando reduzido de soldados, depois de desembarcar em território inca, acabou, astutamente, por aprisionar o imperador Atahualpa, com mostras, no entanto, de sutil amabilidade. Ora, Atahualpa, talvez em desespero por não compreender a extensão do que lhe ocorrera, prometeu a Pizarro um cômodo inteiro da casa em que estava repleto de ouro e prata, se, com isso, fosse libertado. Essa declaração, talvez figurada, foi entendida literalmente por Pizarro, porque era aquilo que mais desejava ouvir. 
Em consequência, ouro e prata começaram a afluir de diferentes partes do Império Inca. Pretenderia Pizarro, contudo, libertar Atahualpa, sabendo que, possivelmente, lideraria uma força numerosíssima contra os invasores, que, aliás, eram mesmo poucos, embora dispusessem de alguns cavalos e de uma ousadia que surpreende até hoje? 
Não, isso estava fora de questão. Valendo-se de ter ouvido que o ilustre prisioneiro tramava, secretamente, um ataque aos espanhóis, Pizarro fez condenar Atahualpa à morte. Devia ser queimado vivo. Diante da perspectiva horrorosa, o pobre homem aceitou uma conversão forçada ao catolicismo, que resultou em morrer de modo mais suave - por afogamento. Era julho de 1533. 
Metodicamente, Pizarro fez transformar em folhas e barras quase toda a enorme quantidade de metal precioso que recebera, pagando a cada soldado que o acompanhara a quantia correspondente a seu papel e posição de autoridade. Tratava-se, agora, de remeter ao monarca espanhol (¹) o que lhe cabia. Quanto a isso, o secretário de Pizarro, Francisco de Xerez, escreveu, ao relatar o desembarque do tesouro inca em Sevilha:
"Este tesouro foi descarregado na doca e levado à Casa da Contratação, sendo os vasos carregados e o restante em vinte e sete caixas, de modo que cada junta de bois levava duas caixas por carreta." (²)
Isso ocorreu em 1534. Sucintamente, o secretário Xerez concluiu: "a Dios gracias".

(1) Na época, Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império.
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534. 
O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Em nome dos reis que queriam ouro

Invasores europeus no Continente Americano na perspectiva do Mercantilismo


Eram tempos de Mercantilismo, ao menos para alguns reinos na Europa. Mercantilismo - talvez a explicação soe um pouco simplista - foi doutrina e prática econômica que, entre outras ideias, defendia o metalismo, o conceito de que um Estado seria tanto mais forte e poderoso quanto maior fosse sua reserva de metais preciosos, obtidos por meio de uma balança comercial favorável. Mas não só, conforme já veremos.
Os autoproclamados conquistadores, que invadiram e dominaram impérios no Continente Americano, corriam risco, matavam e morriam por si mesmos, com vistas à aquisição de riqueza pessoal. Mas iam também em nome do monarca, fosse rei ou imperador, sob cuja autoridade, em última instância, se encontravam. Era aos monarcas de nações europeias que muito interessava também a "conquista", da qual decorria o envio de embarcações abarrotadas de metais preciosos. O preceito mercantilista era seguido à risca.
Contudo, os "conquistadores" não se arriscavam apenas por riqueza pessoal ou pela prosperidade econômica de reis e imperadores que estavam muito longe, e a quem, em quase todos os casos, jamais veriam. Acreditavam piamente que a conquista era um serviço a Deus. Não pensem, leitores, que todo suposto conquistador era um hipócrita, que invocava perversamente o nome de Deus para justificar atos de suprema crueldade. Se é fato que havia gente pérfida a tal ponto, é igualmente certo que nem todos se enquadravam nessa categoria. A mentalidade cruzadística não se havia, ainda, evaporado por completo (¹).
Um exemplo prático ajudará a esclarecer essa questão. Publicou-se em Sevilha, no ano de 1534, uma obra escrita por Francisco de Xerez, que foi, nem mais e nem menos, que o secretário de Francisco Pizarro, famoso por invadir e atacar o Império Inca. Pois bem, nessa obra, ao relatar um confronto preliminar entre espanhóis e indígenas, Xerez escreveu, com uma candura de arrepiar os cabelos:
"[...] como Nosso Senhor favorece e socorre nas necessidades aos que estão a seu serviço, os índios foram desbaratados e fugiram, e os que estavam a cavalo foram atrás deles, ferindo e matando alguns [...]." (²)
Posteriormente, Pizarro mandou tropas a perseguir os indígenas que haviam escapado, e, tendo aprisionado àqueles que supunha líderes, entendeu-se com eles do modo que já ia se tornando frequente, sempre que invasores atacavam quem dispunha de alguma quantidade daquilo que acima de tudo desejavam, prata e ouro:
"[...] Destes fez justiça o governador, queimando a alguns e cortando a cabeça a outros." (³)
Se, na Europa, cristãos que divergiam dos pontos de vista religiosos dominantes eram queimados vivos, por que invasores espanhóis considerariam estranho o ato de decapitar ou queimar pessoas de cujas terras e riquezas pretendiam se apropriar, em nome de Deus e do rei (⁴)?

(1) Quem ousaria dizer, mesmo em nossos dias, que já desapareceu de todo?
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.
(4) Na época, Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império.


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quarta-feira, 18 de junho de 2025

Multa para quem não vinha às celebrações de Corpus Christi

Em ata da vereação de 12 de junho de 1632, na Câmara da vila de São Paulo, o escrivão Ambrósio Pereira registrou um requerimento do procurador para que se "condenassem os moradores que não vieram à vila dia do corpo de deus [sic], o que visto pelos ditos oficiais houveram todos por condenados em cento e sessenta [sic] cada um dos que não vieram nem enramaram suas ruas [...]" (*).
O escrivão omitiu no documento a unidade monetária em que os faltosos seriam multados. Diz apenas "cento e sessenta", mas, considerando-se o dinheiro que então circulava, é provável que fossem cento e sessenta réis. Não podia ser muita coisa, porque pouco era o dinheiro amoedado em circulação no Brasil Colonial. Mas, justamente por isso, a multa devia pesar. Se já havia tão pouco, a perda de algumas moedas significava muito.
Quem, então, ousaria correr o risco, não vindo à procissão e não "enramando" as ruas?
Lembrem-se, meus leitores, esses eram tempos do "cuius regio, eius religio". Não se cogitavam liberdades individuais em assunto de religião - isso é coisa do mundo pós-Iluminismo, pós-Revolução Francesa. Portanto, a participação nas festas religiosas não era apenas uma obrigação social, era tratada também como um dever civil, daí a imposição de multa a quem se abstinha.
Quanto aos motivos para ausências em Corpus Christi, podemos apenas fazer conjecturas. A maior parte da população de São Paulo vivia, então, em fazendas a alguma distância da vila, disso resultando que eventuais fenômenos meteorológicos um tanto exagerados podiam fazer com que moradores não ousassem sair de casa. O documento, porém, não refere quanto a tempestades ou inundações. Em um caso desses é provável que ata posterior contivesse um pedido de isenção da multa, com a devida explicação para a ausência. Isso, porém, não aconteceu. Alguém poderia estar doente, incapaz de enfrentar estrada ou deslocamento por rio para chegar à vila, mas também não há qualquer referência nesse sentido. Havia, é certo, os que estavam, contra todas as proibições, em expedições sertão adentro, estimulados pela ideia de capturar indígenas para escravização, e, nessa hipótese, ninguém seria tão atrevido a ponto de alegar o real motivo do não comparecimento.
Finalmente, podemos supor que as ausências ocorressem por razões de ordem religiosa. O Estado lusitano somente admitia uma religião, mas dizia-se, na época, que a vila de São Paulo estaria infestada de gente que, de catolicismo, só tinha a fachada - seria melhor pagar a multa e permanecer em silêncio.
Podemos apenas imaginar o que de fato ocorreu naquele Corpus Christi de 1632. Mas esse é, certamente, o lado divertido de um documento como este que hoje investigamos, para bisbilhotar algum aspecto da vida colonial, com sua simplicidade e contratempos.

(*) O documento citado foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.


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quarta-feira, 21 de maio de 2025

Contenda por um banco de igreja

Um banco na igreja foi motivo de discórdia entre população e vereadores em São Paulo no Século XVII


Embora pareça estranho para nós, que vivemos no Século XXI, é fato que, até bem adiantado o Século XIX, a maioria das igrejas no Brasil não tinha bancos em que pudessem sentar-se os que compareciam aos serviços religiosos.
Desconfortável? Sim, e pior para os fiéis do sexo masculino, que deviam ouvir missa em pé. Quanto às mulheres, era uso que permanecessem sentadas em almofadas que traziam de casa (ou que alguém, geralmente um escravo, era encarregado de trazer para a respectiva senhora). A dama que não levasse almofada acabava por sentar-se no chão. Por essa razão, mulheres se acomodavam perto do altar; homens, mais ao fundo da igreja.
Pois bem, sabendo que era esse o costume, vamos a um caso um tanto cômico ocorrido em São Paulo. Era o ano de 1632. Em ata da vereação de 10 de janeiro, pode-se ler:
"[...] pelo procurador foi dito que o banco que estava no meio da igreja em que se assentavam os oficiais era grande prejuízo e escândalo deste povo por se tratarem mal as mulheres, que lhes requeria outrossim, o que visto pelos ditos oficiais mandaram que se tirasse o dito banco [...]." (*)
No pressuposto do contexto da época, pode-se conjecturar: Será que o tal banco fora posto na igreja para melhor acomodar os senhores camaristas durante as celebrações religiosas ligadas ao Natal? Como, anteriormente, o livro de atas da Câmara de São Paulo não fazia qualquer referência ao descontentamento com o banco, é provável que não estivesse na igreja há muito tempo. Se admitirmos essa possibilidade, pode-se indagar se o banco fora lá "esquecido", talvez até intencionalmente. Não sabemos, mas nada nos custa imaginar os sussurros de indignação das mulheres de São Paulo, apontando o banco em que os que detinham o mando na vila podiam estar sentados com um grau de conforto que ninguém mais tinha. Desaforo! Abuso! Indecência!...
A fofoca devia grassar livremente, e talvez já fosse do conhecimento dos camaristas. Só restava, mesmo, dar ordem para que o banco fosse posto fora da igreja.

(*) O trecho da ata aqui citado foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

O cultivo de café no Século XIX e o esgotamento do solo

Práticas equivocadas no cultivo do café levavam ao rápido esgotamento do solo e a mudanças das plantações para novas áreas.


Muitos fazendeiros de café do Século XIX, a despeito do lucro que obtinham com o cultivo, não tinham a menor ideia de que era preciso adotar técnicas de preservação do solo, bem como da necessidade do emprego regular de algum tipo de fertilizante. Nesse tempo a química aplicada à agricultura ainda engatinhava, e não seriam os fazendeiros brasileiros que teriam um amplo conhecimento desse assunto. Sob outros aspectos, o atraso era também quase geral, e muitos fazendeiros preferiam investir em mais escravos do que ousar adquirindo maquinário que pudesse substituir ferramentas tão modernas quanto as enxadas. Até arados eram pouco ou nada empregados em algumas áreas.
O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, disse, ao dar orientações ao filho, um fazendeiro ainda jovem e um tanto inexperiente, que seria útil pensar no cultivo de chá, "vista a próxima ruína com que se acha ameaçada a cultura do café pela escassez de matas virgens [sic] e não dar ele senão em terras novas [...]" (¹). Portanto, os fazendeiros viviam em um ciclo mais ou menos contínuo que envolvia explorar uma área até esgotá-la e, então, ir em busca de outra, cujo cultivo inadequado também acabaria por arruinar. É de surpreender que afirmassem que somente "terras novas" eram boas para um cafezal?
A primeira edição da obra de Lacerda Werneck foi publicada em 1847. Décadas antes, mais exatamente em 1822, o cientista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao passar por Areias - SP, observou que assim se fazia o estabelecimento de um cafezal:
"Tiram-se as mudas dos velhos cafezais. Começam elas a produzir aos três anos e estão em pleno vigor aos quatro. Quando o pé ainda é novo capina-se a terra duas ou três vezes, mas não se dá mais de uma carpa quando as árvores já estão vigorosas. [...] Não se podam as árvores, contentam-se os lavradores em descoroá-las para impedir que cresçam muito.
[...] Quando o arbusto principia a envelhecer, cortam-no e ele dá brotos que frutificam novamente." (²)
Seria razoável esperar que, com o correr dos anos, as técnicas de cultivo progredissem. Mas não foi o caso, se considerarmos o relato do casal Agassiz, que esteve no Brasil entre 1865 e 1866, no qual está presente nova menção ao abandono de uma área de cultivo, tão logo a produção começava a declinar:
"Planta-se primeiro um viveiro, onde a plantinha se desenvolve durante um ano. Passado esse lapso de tempo, arrancam-na com precaução e transportam-na para o lugar que vai definitivamente ocupar. Com três anos, o novo cafeeiro principia a dar frutos, mas a primeira colheita é mínima. Desde então, [...] continua a produzir, dando às vezes duas colheitas por ano, e mesmo mais, pelo prazo de trinta anos. Ao cabo deste período, o arbusto e o solo estão igualmente esgotados. É hábito então do fazendeiro abandonar completamente o velho cafezal, sem cuidar no entanto de restituir ao terreno seu valor e fertilidade. Derruba-se uma nova porção da floresta e refaz-se uma nova plantação. [...]" (³).
Árvores tombavam, florestas desapareciam, muitas vezes mediante queimadas (⁴), e novos cafezais eram plantados. Depois de alguns anos, a tragédia recomeçava, mas em outro lugar.

_________________________


À medida que leis que restringiam o trabalho escravo foram aprovadas, muitos fazendeiros perceberam que, de algum modo, suas fazendas deveriam ser cultivadas por mão de obra livre. Na foto abaixo (⁵), colonos estrangeiros são vistos colhendo café em uma propriedade agrícola no interior de São Paulo.


(1) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 74.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 117.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 129.
(4) Conhecidas como coivara.
(5) VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909.

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Leques para manter as fogueiras acesas

Vários autores que estiveram no Brasil nos Séculos XVI e XVII observaram que, mesmo quando fazia calor, indígenas acendiam fogueiras em suas habitações, perto da rede onde cada um deveria dormir. Por quê?
As redes tinham pelo menos dois propósitos: afastavam insetos incômodos e funcionavam como proteção contra animais maiores, que poderiam, sorrateiramente, entrar em uma moradia coletiva de indígenas enquanto todos dormiam. Sabe-se lá, então, o que poderia acontecer, se fosse o caso de uma onça, por exemplo, chegar sem ser percebida. E, é claro, em noites frias, uma fogueira servia para manter o ambiente aquecido.
Jean de Léry (*), que participou da fracassada tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro conhecida como França Antártica - chegou ao Brasil em 10 de março de 1557 e ficou menos de um ano - notou que indígenas usavam um pequeno objeto destinado a abanar o fogo para mantê-lo aceso, e que lhe pareceu guardar certa semelhança com os leques usados por mulheres europeias. Seu nome indígena? Na maneira como Léry o entendia, era tatapecuá.

(*) Calvinista francês, depois de ter estado no Brasil, voltou à Europa e se tornou pastor protestante. Escreveu e publicou suas memórias com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil.

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domingo, 19 de janeiro de 2025

Uma capivara roeu a árvore da eternidade

Colonizadores em geral, e missionários em particular, tinham predileção por afirmar que indígenas do Brasil não manifestavam nenhuma forma de religião. Deviam estar pensando em religião institucionalizada, como os europeus conheciam. Mas é fato que cada povo da América do Sul, e não só do Brasil, tinha lá suas crenças, algumas muito elaboradas, a que poderíamos chamar até de religião de Estado, como acontecia entre os incas, outras bastante simples, ligadas aos fenômenos da existência como nascimento e morte. É o que se vê nesta lenda indígena muito simpática, que, segundo o cônego João Pedro Gay (¹), era contada com certo humor pela tribo dos mocobis, para explicar por que as almas dos mortos não podiam mais chegar ao céu.
Houve um tempo - diz a lenda - em que uma grande árvore ligava a terra ao céu. Quem morria escalava a árvore e ia viver em um lugar maravilhoso, com lagos e rios repletos de peixes excelentes para pescar. Sim, meus leitores, não só os mocobis, como muitos outros povos, mundo afora, imaginavam uma vida após a morte que era apenas uma versão repaginada da vida na terra.
Continuemos, dando a palavra ao cônego João Pedro Gay:
"[...] um dia que a alma de uma velha nada pôde pescar e que se lhe negou uma esmola para seu sustento (²), o céu se irritou tanto contra a nação mocobi, que transfigurada em capivara a velha, teve que roer o tronco da árvore (³) por onde se subia ao céu até cair, cujo acontecimento causou um dano irreparável a toda a nação." (⁴)
É certo que uma lenda como essa revela muito sobre a visão de mundo do povo que a gerou, assim como retrata seu relacionamento com elementos da natureza com os quais convivia. Era, por outro lado, e a seu modo, um reflexo da desesperança que, afinal, em culturas as mais diversas, com diferentes graus de complexidade, pode ser encontrada neste mundo, com todas as incertezas que o cercam.



(1) Cônego em São Borja - RS no Século XIX e estudioso das missões jesuíticas na América do Sul.
(2) Vê-se que essa versão do céu não exigia que as almas fossem de gente pura e livre de pecados. A pouca caridade continuava por lá...
(3) Não lhe deram peixe, virou capivara e, como fazem as capivaras, pôs-se a roer o que achou, já que estava faminta.
(4) GAY, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. de Domingos Luiz dos Santos, 1863, p. 107.


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Observação importante!

As imagens que ilustram esta postagem foram geradas por inteligência artificial. Sim, eu posso explicar, amigos leitores. Onde é que eu iria encontrar uma imagem de capivara roendo árvore? Dito isto, comecei a bulir em um aplicativo de IA, e vocês podem ver o resultado. Não resisti à tentação de publicar. Espero que não considerem um pecado muito grave. Quanto ao texto, é 100% humano, como são e sempre serão os textos deste blog.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Blog História & Outras Histórias completa quinze anos

Amigos leitores, chegamos, afinal, aos quinze anos deste blog. Quando postei o primeiro texto, em 25 de dezembro de 2009, não imaginava que continuaria este projeto por tanto tempo. Mas aconteceu.
Agora, depois de mais de mil e setecentas postagens, a maior parte delas de interesse permanente, surge a questão: Vale a pena continuar?
Tenho pensado muito nisto ao longo de 2024. A ideia, no começo do ano, era encerrar o blog assim que chegasse ao décimo quinto aniversário. Contudo, não sinto que esteja pronta para o ponto final. Por outro lado, os leitores que me conhecem “na vida real”, sabem o quanto está difícil encontrar tempo para escrever novos textos. Assim, ao menos por enquanto, decido continuar, mas sem periodicidade definida. Ou seja, o blog terá novas postagens sempre que for possível.
Agradeço o apoio dos leitores habituais e eventuais, porque não seria muito útil gastar tempo na manutenção de um blog que ninguém lê. Continuem a ler e comentar.
A todos, desejo que este dia de Natal seja muito feliz, e vamos a 2025, para descobrir o que o novo ano nos trará.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Escravos africanos trazidos ao Brasil entre 1842 e 1852

Escravos novos em viagem para o local de trabalho,
 de acordo com M. Rugendas (¹)

Alguns números podem ser muito úteis quando se quer entender o impacto da Lei Eusébio de Queirós para o fim do tráfico de africanos escravizados no Brasil. De acordo com Osório Duque-Estrada (²), que a incluiu em A Abolição, a estatística foi levantada por Pereira Pinto, e mostra quantos africanos entraram no Brasil entre 1842 e 1852. Recordem-se, leitores, de que a Lei Eusébio de Queirós entrou em vigor em 1850:
"1842 ........ 17.435
1843 ........ 19.095
1844 ........ 22.249
1845 ........ 19.453
1846 ........ 50.324
1847 ........ 56.172
1848 ........ 60.000
1849 ........ 54.000
1850 ........ 23.000
1851 ........ 3.287
1852 ........ 700" (³)
A inegável eficácia da Lei Eusébio de Queirós na supressão do tráfico de africanos fica, portanto, devidamente comprovada. Por que funcionou, se já havia legislação anterior proibindo o maldito comércio de seres humanos, sem, contudo, a correspondente obediência? Além de fatores internacionais, que passaram a dificultar o tráfico, é fato que a Lei de 1850 teve a virtude de impor medidas drásticas cerceando o desembarque e punindo os traficantes. O crescimento gradual da pressão interna pela abolição completa e definitiva da escravidão reforçou as medidas legais e ajudou a mover a opinião pública nessa que foi, de longe, a questão social mais debatida no Brasil durante o Século XIX.

(1) Cf. RUGENDAS, Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann, 1827. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) 1870 - 1927.
(3) DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição. Brasília: Ed. Senado Federal, 2005, p. 32.


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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Traje de mulheres abastadas nos bailes e teatros durante o Primeiro Reinado

Já não era o "tempo do rei". Formalmente independente, o Brasil tinha D. Pedro I como imperador, e ia, aos poucos, mudando os velhos e sisudos costumes dos dias coloniais por outros, que, na moda, sofriam forte influência francesa. É verdade que, nas ruas, ainda eram vistas, eventualmente, mulheres usando as famosas e pesadas mantilhas, cuja finalidade era ocultar todo o corpo, deixando apenas o rosto, ou parte dele, à mostra. Mas entre gente abastada, que frequentava festas luxuosas, bailes e teatros, o trajar feminino tinha outro aspecto. Observador, o mercenário alemão C. Schlichthorst, que esteve na capital do Império entre 1824 e 1826, escreveu:
"No teatro e nos bailes, [as mulheres] aparecem com vestidos [...] cobertos de inúmeras flores e laçarotes de fitas, saiotes de cetim, corpete igual, bordado a ouro ou prata, rico diadema, flores e plumas nos cabelos em agradável combinação. As meias e os sapatos são sempre de seda. Neste ponto, o luxo excede a qualquer expectativa." (¹) 
O traje das damas que frequentavam a corte imperial era semelhante, porém com mais luxo: 
"O traje de corte se assemelha a este (²), leve e transparente como o ar sob um céu abençoado. Um manto de veludo ricamente bordado em ouro e prata, um barrete com flutuantes penas de avestruz e um adorno de brilhante dão-lhe uma dignidade fantástica e imponente. [...]" (³) 
Quem vive no Século XXI pode achar tal moda muito estranha, mais condizente com uma fantasia de carnaval que com roupa de gente séria em ocasiões que requeriam traje de gala. Mudanças viriam, com certeza, e muito frequentemente, ao longo do Século XIX, quando as publicações francesas voltadas ao público feminino passassem a ser aguardadas com ansiedade. A "última moda em Paris" seria anunciada pelos lojistas que vendiam artigos de vestuário para mulheres que tinham recursos de sobra para tanto. 
Contudo, nos dias do Primeiro Reinado, a extravagância estava em pauta, embora, quanto às joias das madames da Corte, Schlichthorst tivesse uma ressalva a fazer: 
"[...] nem tudo que ao esplendor das velas lança raios multicores é diamante verdadeiro, porque em nenhuma parte do mundo nesse país dos diamantes se usam tantas pedras falsas" (⁴).
______________________

Traje de uma família brasileira no governo joanino (⁵)




(1) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826), trad. Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Brasília: Senado Federal: 2000, p. 92.
(2) Ou seja, o traje na corte era semelhante ao usado nos teatros.
(3) SCHLICHTHORST, C. Op. cit., p. 92.
(4) Ibid. 
(5) Cf. CHAMBERLAIN, Tenente. Vistas e Costumes da Cidade e Arredores do Rio de Janeiro em 1819 - 1820. Rio de Janeiro / São Paulo: Livraria Kosmos Editora, 1943, p. 38.  A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venda de frutas na capital do Império

Escravo vendedor (²)
No final do Século XVII, se devemos crer nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, as frutas, verduras e flores eram escassas na cidade do Rio de Janeiro, que ainda não era capital, apenas uma cidade tentando resistir aos frequentes ataques e tentativas de invasão de piratas e corsários: 
"As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram, além das do país? Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores, juro-o, porque havia senhoras." (¹)
O correr dos anos, o crescimento e fortalecimento da cidade, a vinda temporária da Corte portuguesa ao Brasil, a Independência, trouxeram modificações significativas, tanto que Daniel P. Kidder, missionário metodista americano (³) que esteve no Rio de Janeiro durante o Período Regencial, pôde afirmar:
"[...] as frutas indígenas são muito variadas e saborosas. Além das laranjas, limas, cocos e abacaxis que são bastante conhecidos entre nós, há mangas, bananas, romãs, mamões, goiabas, jambos, araçás, mangabas e muitas outras espécies, cada uma das quais tem sabor e perfume peculiares.
Dispondo-se de tão grande variedade de frutas para atender os caprichos ou as necessidades da vida, por certo ninguém tem de que se queixar. Esses artigos são encontrados em profusão nos mercados e apregoados pelas ruas da cidade e dos subúrbios por escravos e negros libertos que os levam geralmente em balaios na cabeça. [...]" (⁴)
O olhar do estrangeiro que procurava pelas singularidades do país que visitava não deixou escapar o modo como os vendedores ambulantes de frutas atraíam seus fregueses:
"[...] Os vendedores ambulantes passam constantemente pelas ruas apregoando em altas vozes a natureza e a excelência de suas mercadorias ou emitindo algum som indeterminado, apenas para atrair a atenção do público. [...]" (⁵) 
As condições de transporte no Brasil daquela época eram precárias, e frutas, como todo mundo sabe, têm uma vida útil bem curta. Deviam portanto, ser de produção local ou, no máximo, de pouca distância da capital do Império, para que pudessem chegar aos compradores em estado satisfatório para consumo. 

_______________________

Vendedor de frutas no Rio de Janeiro, depois do fim da escravidão e da Proclamação da República (⁶) 




(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Cf. BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 110. Desenho de E. Riou, sobre esboços de F. Biard. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Daniel P. Kidder esteve no Brasil entre 1837 e 1840.
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 89.
(5) Ibid.
(6) Cf. VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Fome em Roma quando Nero era imperador

Nero (¹)
Em 52 d.C., quando Cláudio era imperador, houve uma falta terrível de alimentos em Roma. A chegada de trigo vindo do Egito, porém, salvou a cidade. Episódios assim, contudo, não eram raros, porque, cada vez mais, os romanos se descuidavam de seus labores agrícolas e se faziam dependentes das importações de cereais. 
Nova falta de víveres ocorreu nos dias de Nero, que àquela altura, já era odiado até pelas pedras que havia nas ruas, em razão dos desmandos que fazia e por cuidar antes dos espetáculos que do sustento da gente romana. Novamente um navio vindo de Alexandria chegou ao porto, mas... Deixemos que Suetônio conte o incidente:
"Um acontecimento ao acaso contribuiu para aumentar o ódio contra ele [Nero], em momento no qual a população passava fome. Um navio chegou ao porto vindo de Alexandria, mas não trazia trigo, e sim areia para os gladiadores da corte." (²)
A areia era usada para cobrir o sangue de animais e homens que lutavam em espetáculos públicos. Esperava-se trigo, contudo, já que o Egito era o grande celeiro do mundo romano. A amarga decepção, ao ver frustradas as esperanças por pão quando o navio entrou no porto, fez aflorar a ira das massas contra o jovem imperador, mais preocupado com lutas que com o estômago dos famintos romanos, que até gostavam muito de espetáculos, quando estivessem devidamente alimentados.

(1) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 182. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SUETÔNIO, De vita Caesarum, Livro VI. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Como a notícia do descobrimento do Brasil foi recebida em Portugal

Dom Manuel, rei de Portugal (³)
Oficialmente, são conhecidas duas comunicações do descobrimento do Brasil enviadas ao rei de Portugal, D. Manuel, aquele que, não por acaso, foi chamado de "venturoso", embora, ao contrário do que se imagina, nem tudo em seu reinado tenha sido propriamente um sucesso, ou, se preferirem, uma ventura. Mas não é disso que trataremos, agora, amigos leitores. Pergunto: alguém de vocês já teve a curiosidade de saber como a notícia do descobrimento - ou achamento - foi recebida pelo rei?
Embora haja pouca informação a respeito, no primeiro dos Diálogos das Grandezas do Brasil (¹), obra do começo do Século XVII (²), Brandônio explica a Alviano, seu interlocutor, que, de um fidalgo, ouvira informações muito interessantes:
"Esta província do Brasil é conhecida no mundo com o nome de América, que com mais razão houvera de ser pela terra de Santa Cruz, por ser assim chamada primeiramente de Pedro Álvares Cabral, que a descobriu [...], na segunda armada que el-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, mandava à Índia, e acaso topou com esta grande terra não vista nem conhecida até então no mundo, e por lhe parecer o descobrimento notável, despediu logo uma caravela ao Reino com as novas do que achara, e sobre isso me disse um fidalgo velho, bem conhecido em Portugal, algumas coisas de muita consideração." (⁴) 
Note-se que Brandônio assumia a tese do descobrimento não intencional, mas isso não tem lá grande importância. Já mordido pela curiosidade, Alviano retruca:
"E que é que vos disse esse fidalgo?" (⁵)
A resposta, expresse ou não a realidade do que ocorreu em Portugal diante da chegada da notícia do descobrimento, revela muito sobre os costumes da época, quando se desejava avaliar uma novidade como favorável ou infausta:
"Dizia-me ele que ouvira dizer a seu pai, como coisa indubitável, de que a nova de tão grande descobrimento foi festejada muito do magnânimo rei e que um astrólogo, que naquele tempo no nosso Portugal havia de muito nome, por esse respeito levantara uma figura, fazendo computação do tempo e hora em que se descobriu esta terra por Pedro Álvares Cabral, e outrossim do tempo e hora em que teve el-Rei aviso de seu descobrimento, e que achara que a terra novamente descoberta havia de ser uma opulenta província, refúgio e abrigo da gente portuguesa [...]." (⁶)
Não quero roubar a graça  das conclusões que vocês, leitores, poderiam já ir tirando, mas é preciso dizer que até hoje há controvérsias quanto ao verdadeiro dia em que a esquadra de Cabral chegou ao Brasil, mesmo havendo relato razoavelmente detalhado na Carta de Caminha. Mas, pondo de lado essa preocupação, considerem a última observação de Brandônio, quanto à suposta "profecia" relativa ao futuro do Brasil, e notem o horror que transparece nas palavras de Alviano:
"Não permita Deus que padeça a nação portuguesa tantos danos que venha o Brasil a ser o seu refúgio e amparo [...]." (⁷) 
Não, senhor Alviano, Portugal não precisou e não precisa de amparo. Mas, quanto a refúgio, certamente o Brasil o foi, ao menos para a realeza que aportou no Rio de Janeiro em 1808, bem como para a multidão de imigrantes que chegou aos portos brasileiros nos Séculos XIX e XX, provenientes não só de Portugal, mas de quase todo canto deste mundo. E continuam eles, os imigrantes, a vir para aqui, de outras terras que não aquelas do passado, porque este planeta, afinal, vive em ebulição, e a gente que nele habita precisa, às vezes, mudar de endereço. 

(1) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(2) Os Diálogos foram escritos, portanto, mais de um século após o descobrimento "oficial" em abril de 1500.
(3) Cf. BRITO, Frei Bernardo. Elogios dos Reis de Portugal com os Mais Verdadeiros Retratos que se Puderam Achar. Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1603. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(4) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 57.
(5) Ibid., p. 58.
(6) Ibid.
(7) Ibid. 


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