segunda-feira, 17 de junho de 2024

Sobre o nome da Patagônia

O guanaco (Lama guanicoe) é um mamífero da América do Sul e, conforme já veremos, está na origem do nome "Patagônia". Como?
Era o ano de 1520, e os cinco navios da expedição espanhola liderada por Fernão de Magalhães (¹) viajavam em direção ao extremo sul do Continente Americano, à procura de uma passagem que pudesse conduzi-los, dando a volta ao mundo, às famosas "ilhas das especiarias", as Molucas. Mas chegava o terrível inverno austral, e Magalhães e seus homens tiveram de aceitar o fato de que passariam os meses de frio insano por lá mesmo. 
Quando se preparavam para enfrentar os dias curtíssimos e as longas noites, ainda buscando a tão desejada passagem que os levaria ao outro lado da América do Sul, avistaram indígenas e travaram contato com eles. Eram altos, muito fortes e, como proteção contra o frio, usavam roupas rudimentares feitas com a pele de um animal nativo, o guanaco. Entre os duzentos e trinta e sete homens da expedição, e um dos dezoito que chegou ao final dela, estava Antonio Pigafetta, italiano, que escreveu uma espécie de diário, no qual se lê: "Este animal [o guanaco] tem cabeça e orelhas semelhantes às da mula, tem corpo de camelo, patas como as do cervo e cauda de cavalo, e relincha como ele" (²). Assim descrito, o guanaco até parece a montagem de um quebra-cabeça animal - mas não é. 
Ora, os indígenas do extremo sul do Continente, como já disse, vestiam-se com peles de guanaco, cobrindo inclusive os pés, que, desse modo, pareciam enormes, assemelhando-se às patas de urso, e, por essa razão, os espanhóis começaram a referir-se a eles como patagones. O nome pegou, logo o estreito por onde navegaram recebeu o nome informal de estreito dos patagones (³) e, daí para Patagônia, como nome do lugar como um todo, foi um passo para o qual não é preciso muita imaginação. Os guanacos e suas peles são, portanto, responsáveis involuntários por tudo isso.

Guanaco (Lama guanicoe)

(1) Fernão de Magalhães era português, assim como vários homens de sua confiança que participaram da expedição. 
(2) O trecho citado do diário de Pigafetta foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Hoje, Estreito de Magalhães


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sexta-feira, 14 de junho de 2024

Estradas romanas

Todas as estradas levam a Roma? Certamente não, mas quem vivia nos dias de Augusto e seus sucessores pode ter pensado que sim. Sendo a capital do Império, para Roma convergiam muitas estradas. Não eram, porém, grande coisa, até que Augusto decidiu que era hora de dar a elas um aspecto decente. Lê-se em De vita Caesarum, de Suetônio:
"Para que o acesso a Roma se tornasse mais fácil a partir de qualquer lugar, Augusto chamou a si a responsabilidade de restaurar a Via Flamínia [...] e ordenou aos generais que haviam sido homenageados com um triunfo que, fazendo uso do saque capturado aos povos vencidos, cuidassem de calçar as demais." (¹)
Eis um exemplo perfeito de civismo forçado! Se os generais repararam as estradas de boa ou má vontade, não importa. O fato é que a decisão de Augusto teve resultado brilhante. Com melhores estradas, os soldados iam e vinham com facilidade, assegurando a defesa e a paz no império (²); o comércio ampliou-se, fazendo afluir a Roma mercadorias provenientes de regiões distantes, com impacto favorável na economia; o envio de correspondência tornou-se mais confiável; as viagens passaram a ser mais seguras; finalmente, ideias, conhecimentos e artes - cultura em geral - circulavam por toda parte, indo, com uma velocidade sem precedentes (³), a todas as regiões do mundo romano. Consequências excelentes para uma medida que até pode ter sido antipática para alguns, mas com alcance notável para a maioria dos que viviam sob as asas das águias de Roma.

(1) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Pax romana, cerca de duzentos anos, a partir do principado de Augusto. 
(3) Para os padrões da época.


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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Gelosias no Rio de Janeiro

Rótulas e gelosias foram usuais em casas do Brasil Colonial. Para que serviam? Na expressão de Joaquim Manuel de Macedo, "[...] rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas; mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas" (¹). 
Desde o Século XVIII, autoridades vinham se implicando com as rótulas e gelosias e tramando contra elas. No Século XIX, foram proibidas no Rio de Janeiro. São palavras também de Macedo:
"[...] logo em 1809 (²) a rua do Ouvidor, como todas as outras da cidade, melhorou muito o aspecto de suas casas, obedecendo ao edital de 11 de junho, mandado afixar pelo intendente-geral da polícia, o conselheiro Paulo Fernandes Viana, ordenando a abolição das rótulas e gelosias dos sobrados." (³)
Quem imagina, porém, que foi pronta a obediência, incorre em engano. Voltando ao que escreveu Joaquim Manuel de Macedo, somos informados de que "[...] muitas casas resistiram à reforma decretada pela civilização, somente aos poucos foram despedaçando suas rótulas e gelosias, e ainda hoje se conservam, anacrônicos, mas agora curiosíssimos exemplares daquelas casas antigas, por exemplo, em frente à porta principal da alfândega" (⁴). Conservavam-se, é claro, nos dias de Macedo. É bom que se diga que Memórias da Rua do Ouvidor teve sua primeira publicação em 1878.

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Portanto, já estando a Corte no Rio de Janeiro, desde que a família real chegara ao Brasil em 1808.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit.
(4) Ibid. 


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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Batalha do Riachuelo

À data de 11 de junho de 1865 corresponde a batalha do Riachuelo, no contexto do conflito que, no Brasil, é chamado Guerra do Paraguai (¹). Essa batalha foi assim descrita pelo Barão de Tefé (²), que comandava a canhoneira Araguary:
"Uma pequena esquadra brasileira de nove navios de madeira - lançada a centenas de léguas da pátria para operar em um rio crivado de escolhos perigosos e dominado pelo inimigo - bateu-se de sol a sol, e derrotou por completo a esquadra inimiga, composta de quatorze unidades.
Ao escurecer, o combate cessou por falta de combatentes.
O Brasil perdera totalmente um navio e trezentos homens, mas o Paraguai ficara sem a sua esquadra e perdera dois mil homens." (³)
Mas essa foi apenas uma batalha. A guerra, propriamente, estava apenas começando. Nela, os soldados enfrentariam as dificuldades naturais do ambiente em que tinham de lutar, as doenças, a falta de suprimentos. Ao Brasil, foi ocasião para tomar conhecimento de si mesmo: muitos lugares por onde as tropas precisaram se deslocar eram quase desconhecidos, e não havia deles mapa algum. Em tais condições, estabelecer uma rota para entrega regular de suprimentos e armas era quase impossível. 
As perdas foram enormes, dos dois lados, mas, certamente, maiores do lado paraguaio, porque os países envolvidos eram desiguais em recursos. Para o Brasil, o fim da guerra trouxe novidades no panorama interno. Militares, até então pouco expressivos na vida política, ganharam espaço e passaram a ser vistos com mais respeito, como veteranos de guerra que eram. Muitos ex-escravos lutaram entre as forças brasileiras no conflito. Seu retorno do cenário de guerra para a vida civil acendeu com mais força o debate sobre o fim da escravidão, um tema que se arrastava há muito tempo e que, já tarde, precisava ser resolvido. Finalmente, os anos da guerra foram marcados por reflexões quanto à capacidade do Império em lidar com os problemas do Brasil. Quem mais, no Continente Americano, era monarquia? Não deveria o Brasil, também, ser uma República, como todos os seus vizinhos? 
As décadas seguintes veriam esses debates em crescimento. A escravidão chegou formalmente ao fim em 13 de maio de 1888; proclamou-se a República em 15 de novembro de 1889. 

(1) 1864 - 1870.
(2) Antônio Luís von Hoonholtz.
(3) HOONHOLTZ, Antônio Luís von. A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 147.


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sexta-feira, 7 de junho de 2024

Falta de suprimentos na guerra contra os holandeses em Pernambuco

Ração escassa para os soldados


O tempo de permanência de holandeses em Pernambuco, e consequentemente de luta da população de origem lusitana para expulsá-los, foi de 1630 a 1654. O que agora se dirá, quanto à absoluta falta de víveres para os soldados, é referente à fase inicial da guerra, por volta de 1630. De acordo com Duarte de Albuquerque Coelho, testemunha ocular de muitos acontecimentos que descreveu, a situação era esta:
"Não tratava o general (¹) só de fazer guerra com as armas, mas de sustentar quem a fazia, não sendo esta a menor e a que mais se ia sentindo. Muitas vezes se deu de ração uma espiga de milho, por não haver outra coisa. Mandou plantar alimentos, como mandioca, milho e vários legumes para o que viria à frente. [...]" (²) 
O fato de que se pensasse em plantar alimentos que demorariam algum tempo até que estivessem prontos para a colheita demonstra que havia alguma perspectiva de que a guerra não seria rápida. E foi, mesmo, muito longa, muito mais até do que se supunha.

Falta de munições


"[...] A falta de pólvora e munições era grandíssima, e se o provedor da Real Fazenda, André de Almeida, não houvesse conseguido salvar alguns barris dela quando a vila se perdeu, já não haveria com que lutar. Chegou-se a tanta falta de balas de arcabuz e de mosquete, que o general precisou fazer com que se retirasse chumbo das redes dos pescadores. [...]" (³)
Havia, por esse tempo, muitos proprietários de engenho que pensavam que, se fosse possível produzir açúcar e lucrar com ele, talvez não importasse tanto se os senhores da terra seriam os portugueses ou os holandeses. Foi somente quando a Companhia das Índias Ocidentais decidiu fazer a cobrança e execução das dívidas que os produtores de açúcar haviam com ela contraído que a guerra tomou outro rumo, sem muita ajuda do Reino, ou apesar do pouco que ela significou.

Moradias de holandeses no Brasil (⁴)

(1) Referência a Matias de Albuquerque, irmão de Duarte de Albuquerque Coelho.
(2) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memorias Diarias de la Guerra del Brasil. Madrid: Diego Diaz de la Carrera, Impressor del Reyno, 1654. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 
(4) Cf. DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 5 de junho de 2024

O Brasil, depois que Tomé de Sousa voltou a Portugal

                                                                                "Qual homem pode haver tão paciente, 
                                                                                Que, vendo o triste estado da Bahia 
                                                                                Não chore, não suspire e não lamente?"
                                                                                                                   (Gregório de Matos)

Muitos dentre os primeiros colonizadores do Brasil não eram gente de costumes propriamente exemplares, e menos ainda o eram alguns dos clérigos que aportaram em terras portuguesas na América durante o Século XVI (¹). Em uma carta escrita pelo missionário jesuíta Manuel da Nóbrega, tendo Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, como destinatário, pode ser lido este relatório bem pouco edificante:
"E assim está agora a terra nestes termos, que se contarem todas as coisas desta terra, todas acharão cheias de pecados mortais, cheias de adultérios, cheias de fornicações, excessos e abominações em tanto, que [...] escassamente se oferece um ou dois que guardem bem seu estado, ao menos sem pecado público. Pois dos outros pecados que direi, não há paz, mas tudo ódio, murmurações, roubos e rapinas, enganos e mentiras; não há segurança, nem se guarda um só mandamento de Deus, e muito menos os da Igreja." (²) 
A carta foi escrita por Nóbrega em 5 de junho de 1559, depois que Tomé de Sousa, cumprido seu tempo de governo no Brasil, havia retornado a Portugal. Portanto, a ideia seria expor como andavam os colonizadores, em particular na Bahia, onde fora fundada a primeira capital do Brasil. Já estava concluído, também, o segundo governo-geral, de Duarte da Costa, e, quanto ao terceiro, de Mem de Sá, começara há cerca de ano e meio. 
Fica evidente que o padre Manuel da Nóbrega conservava certa amizade com o primeiro governador-geral, e era pessimista, não apenas quanto à religiosidade dos colonizadores, mas até quanto à decência no convívio e ordem pública. Não seria fácil, para nenhum governador, impor regras de conduta a uma população que se via, ao pisar no Brasil, na liberdade decorrente de um vasto território, onde escasso seria o controle que autoridades civis e eclesiásticas poderiam exercer. 

(1) As acusações eram numerosas contra padres que vieram ao Brasil em companhia do primeiro bispo, Pedro Fernandes Sardinha. Eram destinados, não à catequese de indígenas, mas ao atendimento dos colonizadores portugueses.
(2) Citado em: LISBOA, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 68.


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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Escravos deviam falar português

Para o estrangeiro que chegava ao Brasil no Século XIX, era fácil perceber certos fatos que, para a população local, talvez passassem despercebidos. Proprietários de escravos impunham à sua "propriedade" o uso do português. Por quê?
Adalberto, príncipe da Prússia que chegou ao Brasil em 1842 - portanto, quando o imperador D. Pedro II era ainda um adolescente, mas já coroado - observou:
"[...] É mesmo proibido aos escravos pelos senhores falarem entre si outra língua que não a portuguesa; em parte para aprenderem mais depressa a língua do país e em parte também para que não possam empregar qualquer língua secreta na sua presença. [...]" (*) 
Era um modo de obrigar o escravo a assumir a cultura local, abandonando os costumes de sua terra de origem, principalmente se, em uma determinada propriedade, havia muitos cativos com procedência e cultura semelhantes. Mas era, também, um modo de controle, para evitar que, sob o uso de um idioma desconhecido, uma rebelião fosse tramada. Senhores exploravam os escravizados. Mas tinham medo. 

(*) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu, trad. Eduardo de Lima e Castro. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 67.


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