quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Bem-te-vi!

Bem-te-vis, entre outras aves, em ilustração do final
do Século XIX, com desenhos de Ernesto Lohse (³)
Bem-te-vi é uma avezinha nativa do Continente Americano, cujo canto pode parecer alegre, até divertido, ou extremamente irritante - tudo depende do estado de espírito de quem o ouve. 
Nuno Marques Pereira, autor do primeiro best-seller brasileiro, o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, devia, pois, estar profundamente feliz quando escreveu:

"Despertando o pitauá,
Com impulsos de rigor, 
Disse logo: bem te vi,
Deste lugar em que estou."
(¹)

Outro que se lembrou das façanhas do cantar do bem-te-vi foi Castro Alves (²), poeta cuja obra está bastante ligada às questões abolicionistas. Estes versos pertencem ao poema A Cachoeira de Paulo Afonso:

"Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!"

Já Lima Barreto, desta vez em prosa, escreveu, em O Triste Fim de Policarpo Quaresma:

"O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi!"

Resta observar que a impressão de que o pássaro seja algo dado à intriga e à fofoca é coisa de humanos, não de aves - só diz "bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi", porque assim nos parece ou queremos entender. Podia ser outra palavra ou expressão que soasse, aos nossos ouvidos, como coisa conhecida. Afinal, bem-te-vis não falam português.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 48.
(2) Castro Alves morreu muito jovem, coisa que em seu tempo não era incomum. Nascido em 1847, faleceu em 1871. Envolvido com a campanha abolicionista, acabou conhecido como "o poeta dos escravos". 
(3) GOELDI, Emílio A. (org.). Álbum de Aves Amazônicas. Rio de Janeiro: Livraria Clássica de Alves e Cie., 1900, p. 34.


Veja também:

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Casamentos em reduções jesuíticas na América do Sul

Indígenas que aceitavam a condição de catecúmenos e iam viver em reduções administradas por jesuítas na América do Sul eram levados a um modo de vida muito diferente daquele que haviam aprendido de seus ancestrais. Era assim, por exemplo, em relação aos costumes quanto ao casamento e ao estabelecimento de novos vínculos familiares. De acordo com o cônego João Pedro Gay, que estudou o assunto e escreveu sobre ele no Século XIX, em quase todos os casos competia aos padres a decisão quanto a quem se casaria com quem. Em seguida, em uma única data, as uniões eram formalizadas segundo as regras da Igreja: 
"Para celebrar os matrimônios parece que os jesuítas tinham tempo determinado, que era depois da Quaresma (¹). Então se mandava vir a lista dos moços e moças, viúvos e viúvas do povo em estado de casar, e os chamavam à porta da igreja. Indagavam deles se tinham tratado casamento, e aqueles que não tinham tratado, que eram todos ou quase todos, aí mesmo se lhes fazia escolher mulher, ou os padres mesmo as indicavam, e tratando logo de cumprir os pregões, os casavam todos em um dia, que pelo costume era o domingo antes da missa paroquial, para que se fizessem com maior solenidade. [...]." (²)
A partir daí, não era grande a mudança na vida dos recém-casados:
"[...] Os recém-casados passavam à jurisdição do seu chefe competente [...]; os homens trabalhavam do seu ofício se o tinham; se não, seguiam os trabalhos da comunidade (³), e as mulheres recebiam tarefas (⁴), e se ocupavam como as outras nos serviços da comunidade." (⁵). 
Não havia, portanto, muito espaço para devaneios românticos nesses casamentos. Era característica essencial da catequese jesuítica que os neófitos abandonassem todas as práticas que parecessem contrárias àquelas que os padres idealizavam para as comunidades em formação, daí a insistência no controle de todos os aspectos da vida. O casamento era apenas um deles, mas, nem de longe, o menos importante, particularmente quando a intenção era suprimir qualquer vestígio de poligamia.

(1) No tempo em que as reduções jesuíticas existiam, a Quaresma era celebrada com todo o rigor, e, portanto, expressões festivas ligadas a casamentos não eram toleradas. 
(2) GAY, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. de Domingos Luiz dos Santos, 1863, pp. 211 e 212.
(3) Geralmente trabalho na agricultura.
(4) Fiar algodão, por exemplo.
(5). GAY, João Pedro. Op. cit., p. 212.


Veja também:

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Mercadores no Brasil Colonial

Esta postagem é para quem acha que só senhores de engenho é que enriqueciam no Brasil Colonial. Não, eles não eram os únicos endinheirados (¹). Mercadores, ligados de alguma forma à economia açucareira, também se saíam muito bem, com a vantagem de que, graças à atividade que exerciam, ainda conseguiam juntar dinheiro amoedado, coisa rara no Brasil da época.
Mas, indo direto ao assunto, havia, como regra geral, dois tipos principais de mercadores, os que compravam e vendiam em comércio internacional e os que abriam lojas nas povoações maiores. Disso sabemos pelo que se lê em Diálogos das Grandezas do Brasil (²), obra escrita no começo do Século XVII. Primeiro, vejamos o caso dos mercadores que faziam comércio em larga escala:
"Muitos homens têm adquirido grande quantidade de dinheiro amoedado e de fazenda no Brasil, posto que os que mais se avantajam nela são os mercadores que vêm do Reino para esse efeito, os quais comerciam por dois modos, de que um deles é que vêm de ida por vinda, e assim depois de venderem as suas mercadorias fazem o seu emprego em açúcares, algodões e ainda âmbar muito bom e gris, e se tornam para o Reino nas mesmas naus em que vieram ou noutras. [...]" (³)
Agora, o segundo tipo de mercadores, aqueles que se estabeleciam no Brasil para atender à procura por artigos de luxo entre a elite colonial:
"[...] O segundo modo de mercadores são os que estão assistentes na terra com loja aberta, colmadas de mercadorias de muito preço, como são toda sorte de louçaria, sedas riquíssimas, panos finíssimos, brocados maravilhosos, que tudo se gasta em grande cópia na terra, com deixar grande proveito aos mercadores que os vendem." (⁴) 
Talvez, prudentemente, devamos admitir algum exagero por parte do autor dos Diálogos, mas sabe-se que em Pernambuco e na Bahia a gente próspera fazia questão de ostentar a riqueza que tinha, sempre que havia oportunidade para isso. 
Além desses dois grupos principais, havia um terceiro grupo de mercadores, que fazia comércio em menor escala, tendo por costume a prática de preços elevadíssimos. As vendas ocorriam, não em lojas estabelecidas, mas indo o mercador aos lugares no interior em que houvesse gente interessada em comprar, e não é difícil imaginar a brusca mudança na rotina da casa-grande de um engenho quando um desses mascates fazia súbita aparição. Lê-se, ainda em Diálogos das Grandezas do Brasil:
"Há muitas pessoas que vivem somente como se fossem riquíssimas, comprando estas fazendas (⁵) aos mercadores assistentes nas vilas ou cidades, e tornando a vender pelos engenhos e fazendas (⁶) que estão dali distantes, ganhando muitas vezes nelas mais de cem por cento. [...]" (⁷) 
Portanto, se estavam dispostos a pagar, os senhores de engenho não tinham motivo para queixa quanto aos preços aberrantes praticados pelos mascates. Concordam, leitores?

(1) Ainda que dinheiro amoedado, mesmo, houvesse muito pouco em circulação, e, pelo que se lê no texto acima, é fácil deduzir pelo menos uma das razões para essa carência.
(2) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(3) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 170.
(4) Ibid. 
(5) Neste caso a expressão se refere a mercadorias em geral, e não a grandes extensões de terra.
(6) Propriedades agrícolas.
(7) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Op. cit., p. 171.


Veja também:

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Quatro ventos

Vocês, leitores, já devem ter ouvido dizer, alguma vez, que alguém espalhou notícias (ou fofocas) "aos quatro ventos". Isso não quer dizer, apenas, que as notícias foram espalhadas com a velocidade do vento. A expressão, de fato, é recorrente em escritos da Antiguidade, quando se imaginava que o mundo fosse dividido em quatro regiões distintas e que, a cada uma delas, corresponderia um vento.
Plínio (¹), almirante romano e um dos maiores estudiosos da natureza na Antiguidade, afirmou: "Os antigos assinalavam a existência de quatro ventos ao todo, correspondentes aos quatro quadrantes do mundo [...]." (²)
Marujo experiente, Plínio devia saber muito bem como eram os ventos que ocorriam em seu tão conhecido "lago romano", o Mediterrâneo. Deve-se entender, portanto, que o próprio Plínio via a referência aos quatro ventos como uma expressão que designava a totalidade do mundo - o "mundo habitado", como então se dizia.

(1) 23 - 79 d.C. Trata-se, aqui, de Plínio, o Velho.
(2) Naturalis historia, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Proibição da pesca com timbó em época de desova de peixes no Século XVII

Mesmo em áreas em que a pesca é permitida no Brasil, há certa época do ano em que essa permissão é suspensa, para garantir a reprodução dos peixes. Em consequência, não são de todo incomuns as notícias de apreensão de material de pesca usado na hora errada por alguns teimosos. É medida correta, não há dúvida, e não apenas por preocupações ecológicas: prudentemente, e no interesse dos próprios pescadores, assegura-se que, mais adiante no ano, os peixes continuem a existir. 
Mas voltemos a 1626, para saber como a Câmara da vila de São Paulo lidava com a mesma questão. A ata é de 23 de maio, e nela encontramos este trecho muito interessante:
"[...] se ajuntaram em câmara os oficiais dela [...] e estando todos juntos puseram em prática as coisas do bem comum e pelo procurador foi dito que requeria a eles ditos oficiais mandassem por um quartel que nenhuma pessoa use de timbó (¹) nem ponha tresmalho (²) em tempo que o peixe sai a desovar, o que visto pelos ditos oficiais foi mandado que se pusesse quartel do acima dito, com pena de mil réis e dos tresmalhos perdidos [...]." (³)
A proclamação pública era necessária porque, nesse tempo, não havia jornal impresso à disposição de moradores e camaristas; os leitores que sabem quanto paulistas do Século XVII eram persistentes em ignorar as leis em vigor não terão dificuldade em compreender que a imposição de multa era indispensável para dar força ao mandado, particularmente naquela época em que dinheiro amoedado era muito raro no Brasil. O fato de ainda viverem hoje os descendentes dos peixes do Século XVII é prova de que a medida foi, em algum grau, obedecida. 

(1) De origem vegetal, o timbó era usado para deixar os peixes lentos e facilitar a pesca.
(2) Espécie de rede tripla usada na pesca. 
(3) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.


Veja também:

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Como colonizadores podiam enriquecer no Brasil

Muitos colonizadores que vieram ao Brasil nos Séculos XVI e XVII apenas pensavam em enriquecer e voltar ao Reino tão rápido quanto possível. Pelas acusações vindas de alguns autores seus contemporâneos, sabe-se que tal gente não tinha qualquer cuidado em preservar o que havia nas terras coloniais, e muito menos em construir algo sólido que pudesse, de fato, ser fundamento para as gerações futuras. 
Mas como, afinal, era possível enriquecer no Brasil desse tempo já distante?
De acordo com o autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil (¹), havia pelo menos seis ramos de atividade que favoreciam o enriquecimento, dentre os quais o mais notável era, sem dúvida, a "lavoura dos açúcares":
"{...] digo que as riquezas do Brasil consistem em seis coisas, com as quais seus povoadores se fazem ricos, que são estas: a primeira a lavoura do açúcar, a segunda a mercancia, a terceira o pau a que chamam do Brasil, a quarta os algodões e madeiras, a quinta a lavoura de mantimentos, a sexta e última a criação de gados." (²)
Embora o próprio Ambrósio Fernandes Brandão, autor presumível dos Diálogos, fosse um dos que criticavam a conduta predatória dos colonizadores - ele conhecia apenas algumas Capitanias do Norte e, por isso, não tinha muito a dizer sobre as do Sul, como a de São Vicente, por exemplo - pode-se objetar que algumas atividades econômicas por ele listadas não se prestavam a uma produção rápida para breve retorno ao Reino. Era o caso, por exemplo, daqueles que investiam capital considerável na implantação de um engenho açucareiro, que somente chegava a dar lucro depois de alguns anos em funcionamento. Não obstante, houve proprietários de engenho que acabaram deixando alguém, parente ou contratado, para cuidar do empreendimento, possibilitando-lhes, assim, a volta a Portugal, onde cuidavam em negociar o melhor que podiam a produção distante, desfrutando a riqueza dela proveniente. Não era o caso dos lavradores que se dedicavam ao cultivo de mantimentos, cuja produção, prioritariamente, atendia às necessidades locais, e nem de leve oferecia o mesmo lucro e o mesmo status social que se podia obter com a produção açucareira, ao menos em sua fase de maior rendimento. Dos mercadores falaremos outro dia. 

(1) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(2) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil, Diálogo Terceiro. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 155.


Veja também:

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Jogos Agonais

Os romanos atribuíam a Numa Pompílio, o lendário segundo rei de Roma e homem de sabedoria notável, a criação dos Jogos Agonais, que deveriam ser celebrados em honra de Jano (¹) três vezes a cada ano, ou seja, nos meses de janeiro, maio e dezembro.
Ora, alguém perguntará, para que tantos jogos? 
No dizer de Floro, contemporâneo do imperador Adriano, Numa Pompílio "soube dominar aquele povo feroz [os romanos], no qual imperavam a vilania e a injúria, de modo que a religião e a justiça passaram a governar" (²). Que bela descrição da gente romana dos primeiros tempos da cidade!... A instituição dos jogos, portanto, deve ser entendida nesse cenário tão brilhante: O sábio rei pretendia que os turbulentos romanos, pondo de lado a mania de brigar entre si, gastassem as energias em jogos que teriam, ainda, um segundo proveito, como exercício para o combate, caso Roma tivesse de enfrentar alguma guerra. Como se sabe, isso aconteceu com bastante frequência.
Supõe-se que os Jogos Agonais, seriam, remotamente, a origem dos espetáculos de gladiadores que, mais tarde, vieram a ser uma das diversões favoritas em Roma. Mas há uma diferença notável, que nunca deveria ser esquecida: os jogos de Numa seriam destinados a homens livres, que serviam como soldados em defesa da cidade. Gladiadores, contudo, eram, em esmagadora maioria, escravos, que lutavam até a morte para proporcionar um entretenimento brutal aos romanos que, desocupados, apenas esperavam, do Estado, pão e circo. Mudanças vêm com o passar do tempo, meus leitores, e nem sempre tornam o mundo melhor. 

Gladiadores romanos, de acordo com desenho em uma parede em Pompeia (³)

(1) Um dos deuses menores de Roma, representado tradicionalmente com duas faces, olhando em direções opostas. 
(2) Aneu Floro, Rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Cf. SAMPSON, Henry.  A History of Advertising. London: Chatto and Windus, 1874.


Veja também: