quinta-feira, 16 de junho de 2022

Procissão de Corpus Christi em São Paulo no ano de 1822

Era o ano da independência do Brasil, mas, sendo ainda junho, ninguém sabia disso, embora houvesse gente trabalhando para que a separação de Portugal acontecesse, mais cedo ou mais tarde. 
Pois bem, era junho de 1822, o dia de Corpus Christi se aproximava, e a Câmara de São Paulo devia tomar providências para que a tradicional procissão religiosa ocorresse dentro das normas do decoro. Nesse tempo, meus leitores, o projeto de um Estado laico não passava pela cabeça de quase ninguém, e somente iria vingar após a proclamação da República em 1889. Quanto a São Paulo, era uma cidadezinha provinciana, com poucas vias calçadas, para gaudio das formigas que estabeleciam residência nas ruas de terra batida e, dali, só de raro em raro eram removidas. Pontes, com frequência, ameaçavam ruir, e até porcos circulavam à vontade em algumas paragens. Por isso, em relação à vereança de 4 de junho de 1822, registrou-se na ata da Câmara: "Nesta determinaram [vereadores e juiz de fora] ao atual procurador que mande limpar os meios das ruas por onde passa a procissão do Corpo de Deus onde elas estiverem imundas e indecentes [sic!]."
Alguns dias antes, em 11 de maio de 1822, a mesma Câmara havia decidido: "Na mesma [vereança] se determinou ao atual procurador que mande fazer timbales para a festividade de Corpus Christi, visto que este Senado não tem para a mesma festividade; que sempre anda esta Câmara emprestando; bem como dois clarins, mandando vir do Rio por ser mais em conta, e no entanto que empreste para o presente ano. [...]" (*). Esse registro é mais que suficiente para elucidar qualquer dúvida quanto à realidade econômica da Província de São Paulo e de sua capital há duzentos anos.
Semanas mais tarde, os vereadores, cientes de que o príncipe regente Dom Pedro tencionava vir a São Paulo, começaram a dar ordens para que a população limpasse as ruas, removesse os formigueiros, caiasse a fachada das casas e recolhesse porcos e outros animais. Não parecia bem que Sua Alteza Real visse tais coisas ao passar pela cidade. Dom Pedro veio, de fato, e, com certa ajuda do acaso, sua passagem por São Paulo contribuiu para mudar definitivamente a condição política do Brasil. 

(*) Os trechos citados da Ata da Câmara de São Paulo foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável.


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quinta-feira, 9 de junho de 2022

De que se ocupavam os homens espartanos

A atividade econômica mais importante (e quase a única) em Esparta era a agricultura. Mas não pensem, leitores, que esparciatas punham "a mão na massa". Competia aos hilotas o trabalho na terra, segundo Plutarco (¹), autor de uma biografia de Licurgo (²): "Quanto à agricultura, os escravos [dos espartanos] é que se ocupavam de lavrar o solo e fazer as colheitas. A produção equivalente ao que cabia a cada esparciata era posteriormente entre eles distribuída" (³).
Os hilotas, designados como escravos porque estavam sujeitos a trabalho compulsório, não constituíam, porém, mercadoria que se pudesse comprar ou vender. Talvez a designação de servos fosse mais adequada, porque estavam ligados à terra. Eram descendentes de antigos habitantes da Lacônia - de acordo com Tucídides, descendiam dos aqueus, mais precisamente. Sua condição de vida era péssima, e os espartanos não perdiam oportunidade de torná-la ainda mais miserável.
Não se pode, então, evitar uma pergunta: se a economia de Esparta estava fundamentada na agricultura, e se eram os hilotas que cultivavam o solo, o que é que faziam os homens adultos livres, também chamados esparciatas?
A guerra era o sumo propósito da vida de um esparciata. Portanto, de conformidade com Plutarco, "quando não estavam na guerra, [os homens espartanos] usavam o tempo se exercitando. Para cuidar do corpo, corriam e saltavam. Também praticavam a caça e se reuniam para deliberações, mantendo sempre um comportamento sisudo e respeitoso" (⁴). 
A entrada na vida política da cidade-Estado se fazia quando o jovem guerreiro, tendo demonstrado sua capacidade nos combates, completava trinta anos: "Quanto aos jovens, não lhes era permitido vir ao local de deliberações e conversar em público. Nem mesmo podiam comparecer às assembleias de cidadãos com os homens mais velhos, a não ser que já tivessem trinta anos" (⁵).

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Legislador espartano semilendário.
(3) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


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quinta-feira, 2 de junho de 2022

A Cruzada das Crianças

"Cruzados", desenho de Lee Woodward Zeigler (*)
Era o ano de 1212. O fracasso das Cruzadas formais fez nascer a convicção, apenas compreensível pela mística predominante naqueles dias, de que um exército composto por crianças seria capaz de reconquistar Jerusalém. Na presumível inocência dos pequenos imaginava-se haver alguma probabilidade de êxito, contrapondo-se ao fracasso das expedições formadas por guerreiros experientes que buscavam, na luta pelo controle de Jerusalém, expiar um arsenal completo de pecados. 
A ideia alastrou-se com certa facilidade e, pouco depois, um número considerável de meninos e meninas, a maioria de origem alemã e francesa, punha-se a caminho da chamada Terra Santa, sob o comando, afirma-se, de um camponezinho chamado Étienne. Os relatos da época - isso é inegável - são um tanto desencontrados quanto a detalhes, mas não se pode descartar a ocorrência, nesse tempo, de bandos de crianças em marcha para o sul da Europa, supondo que, de algum modo, seriam miraculosamente conduzidos à Palestina. 
Mas, se adultos fortes e devidamente alimentados, com boas armas e cavalos, fracassavam, como acreditar que, seguindo a pé e dependendo da caridade popular para alimentação, esses grupos de crianças e adolescentes poderiam reconquistar Jerusalém? Muitos ficaram pelo caminho, morrendo de frio, fome e exaustão, e uns poucos chegaram a voltar para casa. Aqueles que, havendo superado o longo trajeto, chegaram diante do Mediterrâneo, foram agraciados com uma proposta aparentemente generosa de proprietários de embarcações que se dispunham a transportá-los. Ingenuamente, aceitaram a oferta. Era uma armadilha, que os colocaria nas mãos de comerciantes de escravos.
Estranho paradoxo, esse, no modo como a mentalidade medieval via e tratava as crianças: somente elas, em sua pureza, poderiam reconquistar Jerusalém; por outro lado, nenhum respeito ou consideração para com aquelas que, alvo da mais pérfida astúcia, foram capturadas e vendidas para o trabalho escravo e para prostíbulos.

(*) THE YEAR'S ART. New York, Harry C. Jones, 1893, p. 266. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 26 de maio de 2022

Buriti foi alimento para soldados brasileiros na Guerra do Paraguai

Buritizeiros com cachos de frutos
Uma das grandes dificuldades enfrentadas por tropas brasileiras durante a Guerra do Paraguai foi a falta de suprimentos indispensáveis - alimentos, por exemplo. Não havia mapas acurados para orientar o comando, tampouco havia estradas para uma remessa fácil de víveres. Em um processo penoso, a guerra forçou o Brasil a tomar conhecimento de si mesmo. Na ausência da ração habitual (ou que deveria ser habitual), soldados recorreriam à caça e coleta de frutos. Pães de jatobá, por exemplo, foram frequentes na campanha de Mato Grosso.
O buriti (¹), comum no Centro-Oeste, foi também utilizado. Alfredo de Escragnolle Taunay, um jovem oficial na época da guerra, explicou: "Do buriti extrai-se um suco sacarino, usado, depois da fermentação, como bebida e do qual se pode tirar excelente açúcar, como o fez um oficial das forças. Os frutos dão em compridos cachos; são ovoides, com casca rija, amarelo avermelhada, escura e brilho metálico, todos cobertos por escamas romboides, que encobrem uma polpa pouco saborosa, ainda quando preparada com açúcar." (²)
Os soldados não eram muito exigentes quanto ao sabor daquilo que conseguiam encontrar para comer, ainda que, ante a expectativa de morrer de fome, chegassem, de acordo com Taunay, a causar transtornos para a dieta rotineira das araras: "[...] Em épocas de fome, de muito serviram aos soldados que procuravam não só os cocos [de buriti], em concorrência com as araras, como em razão do miolo que chupavam com grande gosto" (³).
Havia gado pastando à solta na região, mas a insuficiência de cavalos tornava difícil a captura de algum animal para abate. Às vezes, porém, uma pontaria feliz resultava em um churrasco preparado toscamente, do qual, como se pode facilmente deduzir, em pouco tempo nada restava.

(1) Fruto de uma palmeira, o buritizeiro (Mauritia flexuosa).
(2) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Cenas de ViagemRio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, p. 152.
(3) Ibid., pp. 152 e 153.


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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Costumes dos romanos quanto ao banho

Pela época do Império, os romanos, que foram um povo rústico nos primeiros tempos, haviam adquirido alguns hábitos sofisticados. Entre eles estava o costume de um banho, diariamente, em locais públicos construídos com esse propósito, embora pessoas de alta posição também tivessem recintos para banho em casa.
Sucede, porém, que banhar-se veio a ser, em Roma, muito mais que um hábito de higiene. Era evento social. Os banhos públicos tinham áreas destinadas a homens e a mulheres em separado, com água em várias temperaturas, além de escravos encarregados de massagear e perfumar os frequentadores com óleos e outros cosméticos. A hora do banho era considerada por muitos romanos como especialmente favorável para uma boa conversa com amigos - havia até políticos que preferiam debater assuntos de Estado enquanto mergulhados em água agradavelmente tépida. 
Quando romanos saíam do banho, tinham, geralmente, oportunidade para algumas atividades atléticas, em áreas anexas para isso projetadas. Para os que preferiam exercitar o cérebro, em algumas termas até mesmo uma biblioteca estava disponível. 
Vê-se, pois, que o banho ganhara contornos de ritual. A que horas acontecia? Ao que parece, a maioria dos romanos preferia banhar-se no meio da tarde, antes, portanto, da refeição que acontecia perto do anoitecer e que, em Roma, costumava ser a mais importante do dia. Outros, em menor número, talvez preferissem um bom mergulho em horários de pouco movimento. 
Espalhando seu estilo de vida por regiões conquistadas, os romanos levaram a elas, também, o hábito do banho. Foi o que aconteceu, por exemplo, em Corinto, que, depois de conquistada pelos romanos, tornou-se uma colônia:  "Os coríntios", escreveu Pausânias (¹) em sua Descrição da Grécia, "têm banhos em vários pontos da cidade, e alguns são mantidos às expensas públicas" (²). Coisa semelhante aconteceu em muitas outras localidades onde os costumes romanos se impuseram.

(1) c. 115 - 180 d.C.
(2) PAUSÂNIAS, Descrição da Grécia, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 12 de maio de 2022

Como era a alimentação dos escravos no Distrito Diamantino

As áreas promissoras de extração aurífera eram, no Brasil Colonial, entregues à exploração daqueles que tinham escravos suficientes para ocupar na mineração. Já a extração de diamantes era monopólio da Coroa, mas era feita também por escravos, que eram alugados, de modo que seus senhores recebiam um pagamento pelos dias de trabalho dos cativos que legalmente lhes pertenciam. 
Dito isto, passemos à questão de como eram alimentados os escravos que procuravam diamantes. Como regra, a cada dia havia três refeições: almoço, jantar e ceia, como era costume nos tempos coloniais, tanto para os escravos como para os livres. Portanto, a primeira refeição era chamada almoço, na qual se gastava cerca de meia hora. Foi assim descrita pelo barão de Eschwege (¹):
"Ao almoço, servem, em grandes caldeirões, angu, isto é, uma mistura [...] de fubá, água e sal. Para essa refeição se lhes concede meia hora de descanso. Cada um devora sua ração, sozinha ou acompanhada daquilo que tenha comprado, caçado ou ganho de seu senhor [...]. Assim, um come uma banana ou qualquer outro fruto silvestre, outro um peixe ou uma ave assada em espeto de pau, enquanto um terceiro devora um pedaço de carne-seca, ou, menos feliz, o angu puro." (²)
Ao meio-dia era servido o jantar:
"Para a segunda refeição os escravos dispõem de duas horas de descanso. Assim, a boia deve estar pronta ao meio-dia em ponto. A esta hora, as bolotas de angu já estão empilhadas umas sobre as outras, ao lado do enorme caldeirão, cheio de feijão preto misturado a um caldo grosso e negro [...].
[...]
Como o alimento que recebem é desprovido de gorduras, a maior parte recebe dos donos um pouco de toucinho, destinado a tornar mais substanciosa a magra refeição.
Deve-se reconhecer em alguns deles sentimentos bons, pois os que recebem toucinho dos senhores ou podem comprá-lo, dividem-no com os companheiros menos felizes. Outros porém, sentam-se à distância, colocam sua panela no fogo para frigir a gordura e comem tudo, sem lembrar dos outros." (³)
A ceia, última refeição do dia, era bastante simples:
"Para a ceia recebem canjica, a que os gulosos misturam melado ou rapadura." (⁴)
Façamos, agora, algumas rápidas ponderações:
  • No Brasil, a alimentação oferecida aos escravos tinha as características de cada região. No caso do Distrito Diamantino, não era diferente.
  • A alimentação que os escravos recebiam era destinada a mantê-los trabalhando, nem mais e nem menos. Referindo-se à quantidade destinada a cada trabalhador, Eschwege observou: "[...] O alimento [...] é suficiente, pois dá para encher a barriga de cada um. Nunca varia de qualidade, porém, [...] não agradando ao paladar" (⁵).
  • Não é impossível que outros itens aparecessem eventualmente no cardápio, ainda que Eschwege tenha assegurado que, como regra, a comida era invariável: "Ano após ano, esses homens não recebem dos administradores senão milho, fubá, feijão-preto e um punhado de sal, a que acrescentam, uma vez por semana, um palmo de fumo de rolo para o cachimbo, ou rapé" (⁶).
  • Alguns senhores complementavam a alimentação para os escravos de sua propriedade porque, afinal, queriam preservar seus interesses econômicos. Ninguém precisava de muita esperteza para saber que o escravo que tivesse uma alimentação melhor poderia viver mais e, portanto, seria mais lucrativo a quem pagara por ele.
  • Havia escravos que tinham algum dinheiro para comprar alimento extra porque eram premiados quando encontravam diamantes bons (⁷) ou porque trabalhavam nas horas vagas, plantando alguma coisa que podiam consumir ou vender, a despeito das severas restrições que imperavam no Distrito Diamantino.
Nos domingos e em outros feriados religiosos não se devia exigir trabalho dos escravos. Apesar disso, o barão de Eschwege notou que, nesses dias, havia uma novidade na alimentação: tanto o feijão (do jantar) como a canjica (da ceia) eram cozidos com tutano (⁸). 

(1) Especialista em minas, esteve no Brasil a convite do governo joanino, para estudar o que poderia ser feito para reativar a exploração aurífera.
(2) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 485.
(3) Ibid., p. 486.
(4) Ibid.
(5) Ibid., p. 485.
(6) Ibid.
(7) Segundo Eschwege, o escravo que encontrava um diamante superior a 17,5 quilates era libertado (Op. cit., p. 495). Para diamantes menores que isso, mas bastante valiosos, eram oferecidas pequenas recompensas.
(8) Cf. ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Op, cit., p. 486.


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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Poetas gregos viviam na corte de governantes da Antiguidade

Anacreonte (²) 
A poesia, enquanto arte, tem e sempre teve muitos apreciadores, embora não se possa afirmar, com idêntica certeza, que sempre andou na moda. Entre os antigos gregos, era muito valorizada. Havia até competições públicas para poetas, os textos em verso eram ouvidos nos anfiteatros e quem escrevia poemas com maestria era tão importante quanto um atleta consagrado nos jogos olímpicos.
Apesar disso, uma questão se impunha naquele tempo: de que viveriam os poetas? Por suposto, não havia editoras, e a circulação de obras escritas não se fazia do mesmo modo que hoje. Na Descrição da Grécia, de Pausânias, autor grego do Século II, somos informados de que muitos poetas achavam acolhida na corte dos governantes. Teria sido o caso, por exemplo, de Anacreonte (¹), patrocinado por Polícrates, tirano de Samos, enquanto Ésquilo (³), nascido em Elêusis, viveu durante algum tempo em Siracusa (⁴). 
Mas... Mas havia, ao que parece, quem preferisse fugir à conveniência do apoio de um mandatário, para preservar a independência ou para evitar viagens.
Homero (⁸)
Esse teria sido o caso, ainda de acordo com Pausânias, de Hesíodo (⁵), autor, entre outras obras, da famosa Teogonia, e de Homero (⁶), a quem são atribuídas a Ilíada e a Odisseia. Sim, são atribuídas, porque desde a Antiguidade houve quem questionasse essa autoria. Os dois poemas, compostos e repetidos oralmente, teriam sido fruto do trabalho de muitos autores, todos anônimos. Sêneca, em
De brevitate vitae, afirmou que "[...] os gregos tinham a mania de questionar quantos remadores tinha Ulisses, se foi escrita primeiro a Ilíada ou a Odisseia e se os livros foram obra de um único autor [...]" (⁷).
Como explicar, porém, a coerência interna que perpassa praticamente toda a Ilíada? Letras não se juntam por conta própria, formando palavras ordenadamente, para compor, ainda por si mesmas, uma obra dessa extensão (aliás, de extensão nenhuma). Alguém tem de ter criado o cerne desse épico, embora não seja absurdo admitir acréscimos e supressões no poema original, fruto da repetição oral e escrita ao longo dos séculos. Seja como for, sabendo tão pouco como se sabe sobre o Hesíodo e o Homero "de verdade", como argumentar que o primeiro detestava viajar, enquanto o segundo preferia o apoio popular e a independência, e, por isso, dispensaram a subvenção de algum monarca de seu tempo? Em casos assim, na ausência de um documento confiável, o melhor que se pode dizer é que não sabemos. Conjecturas são aceitáveis, desde que não percam o caráter de possibilidades que merecem ser investigadas, devido ao desconhecimento de fatos solidamente embasados.

(1) c. 570 a.C. - 495 a.C.
(2) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 6.
(3) c. 525 a.C. - 456 a.C.
(4) Cf. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, Livro I.
(5) É geralmente aceito que teria vivido entre os Séculos VIII e VII a.C.
(6) Teria vivido, talvez, entre os Séculos X e IX a.C., embora haja quem suponha ter sido muito antes. 
(7) SÊNECA. De brevitate vitae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) HEKLER, Anton. Op. cit., p. 8.


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