terça-feira, 18 de setembro de 2018

A canjica dos indígenas de São Paulo

Canjica branca
Indígenas faziam canjica - foi o que disse Manoel da Fonseca, jesuíta do Século XVIII - explicando tratar-se de "guisado especial de São Paulo, e mui próprio de penitentes [sic!]. Consta de milho grosso de tal sorte quebrado em um pilão, que tirando-lhe a casca e o olho, fique o mais quase inteiro" (¹). E acrescentou:  "É manjar tão puro e simples que, além da água, em que se coze, nem sal se lhe mistura." (²)
Sob tal preparo é que a canjica era usada pelos índios como alimento, ainda de acordo com o padre Manoel da Fonseca: "É sustento próprio de pobres, pois só a pobreza dos índios e a falta do sal por aquelas partes podiam ser os inventores de tão saboroso manjar" (³). Deixando de lado o sarcasmo da explicação, cumpre notar que, para o jesuíta, o jeito certo de preparar canjica devia ser com adição de sal. Reajam como quiserem, leitores.
Canjica amarela
Mais tarde, os colonizadores se encarregariam de fazer canjica com leite e açúcar (⁴). Desse modo, chegou a ser muito apreciada. Hércules Florence, desenhista francês que passou por São Paulo com a Expedição Langsdorff em 1825, relatou: "A princípio achei esse manjar singular, mas com o correr dos tempos habituei-me tanto a ele como se fora natural do país" (⁵). Opinou, também: "Com açúcar e leite é coisa deliciosa." (⁶) 
Hoje há quem faça canjica adicionando leite condensado, leite de coco, coco ralado, canela, amendoim e outros ingredientes mais. A nomenclatura também varia um pouco, de acordo com a região. Não sei se deu para notar, mas não gosto muito de canjica. No entanto, este blog, como sabem, é um espaço democrático para debates e, por isso, fiquem os leitores à vontade para manifestar apreço ou desgosto por ela. Se estiverem no primeiro caso, podem até deixar as receitas favoritas nos comentários...

(1) FONSECA, Manoel da S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752 /Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo, p. 55.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) Em algumas regiões do Brasil há outros modos de preparo que remetem a tradições africanas, sugerindo, pois, um sincretismo culinário muito interessante.
(5) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 15.

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