quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A implantação de ferrovias e o desenvolvimento da lavoura cafeeira em São Paulo

Que impacto exerceu a implantação de ferrovias no Estado de São Paulo? Segundo dados citados por Adolpho Augusto Pinto em História da Viação Pública em de São Paulo (¹), no ano em que foi inaugurado o primeiro trecho ferroviário na então Província de São Paulo, a situação era a seguinte:


Já na entrada do Século XX podia ser constatada uma mudança radical:


Muita coisa aconteceu nesses poucos anos. O Brasil, que era um Império, viera a ser uma República, de modo que a antiga Província agora recebia o nome de Estado de São Paulo. O trabalho escravo fora extinto e os trens vinham de Santos apinhados de imigrantes que jogavam todas as suas esperanças nas férteis terras do chamado Oeste Paulista (²). A virada econômica, para Adolpho Augusto Pinto, um entusiasta das ferrovias, era decorrente da implantação dos "caminhos de ferro":
"Pois bem, aparece o caminho de ferro, aperfeiçoa-se a viação pública, e o resultado é como se no organismo social se tivesse inoculado o seu princípio vital. [...]." (³)
Ora, leitores, seria ingenuidade supor que a simples implantação de ferrovias produziu essa mágica. As ferrovias - muito importantes, sim - foram estabelecidas porque havia uma demanda por transportes que justificava o investimento. Por outro lado, é forçoso considerar que, havendo ferrovias, era mais fácil exportar café e o produto chegava ao porto em melhores condições para satisfazer às exigências do mercado. Compensava, pois, expandir a lavoura, e isso se fez com tal exagero que, por superprodução, acarretou um decréscimo nos preços internacionais do café (embora essa não fosse a única causa).
Para produzir mais, nas condições vigentes no Brasil do Século XIX, em que predominava baixíssima mecanização da agricultura, era necessário mão de obra além da já existente no País, daí a ênfase na imigração, secundada pela situação política e econômica na Europa. Populações que se viam sem perspectivas favoráveis no país de origem vinham buscar novas oportunidades no Continente Americano.
No limiar do Século XX, São Paulo não era só café. Mas era principalmente café. As ferrovias foram, em parte, causa e consequência para esse cenário. 

(1) PINTO, Adolpho Augusto. História da Viação Pública de São Paulo. São Paulo: Typographia e Papelaria de Vanorden & Cia., 1903, p. 315.
(2) Que não correspondia ao Oeste geográfico do Estado de São Paulo.
(3) PINTO, Adolpho Augusto. Op. cit., p. 315.


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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Palas Atena

Como nasceu a deusa favorita dos atenienses


Imaginem, leitores, a mais terrível dor de cabeça. Pois saibam que, de acordo com a mitologia, Zeus teve uma dessas, e não foi no sentido figurado. Iria começar um "parto" estranhíssimo. É que da cabeça de Zeus, que tanto doía, saiu sua filha favorita, Palas Atena, retratada, entre os gregos, como a deusa do conhecimento, das decisões ponderadas, da perspicácia, mas que, a despeito disso, friamente pérfida, amava o som das batalhas, o tropel dos cavalos que corriam para a luta, o choque dos escudos dos combatentes, os gritos de comando, as demonstrações de bravura. 
Palas Atena era a deusa mais importante na cidade-Estado de Atenas. Não que os outros deuses não tivessem lá seu espaço, mas, usando uma linguagem de nossos dias, pode-se afirmar que ela era a padroeira. Teria a cidade se desenvolvido buscando ter, em si, as características da deusa ou, ao contrário, atribuía-se a Palas Atena aquilo que os atenienses valorizavam em si mesmos e em sua cidade? Afinal, Atenas foi, em seu máximo poderio, um centro de cultura absolutamente espetacular, mas era, também, imperialista, dominadora, escravocrata. Vejam, leitores, que, em uma ou outra hipótese, a cidade e sua deusa combinavam muito bem.
Tanta sabedoria - na deusa, bem entendido - estava, porém, condicionada à perpétua virgindade (*). Tudo tem seu preço, e nem mesmo para a queridinha de Zeus houve uma exceção.

(*) Essa é, portanto, a razão pela qual o templo consagrado à deusa em Atenas foi chamado Pártenon.


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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Leis sobre a venda de pão e vinho não eram cumpridas em São Paulo no Século XVII

Legisladores de todas as épocas foram e/ou são conscientes de que dificilmente haverá pólvora mais eficaz para iniciar uma revolução do que um número elevado de estômagos vazios, em particular quando reunidos em uma área pouco espaçosa. Mesmo no tempo das monarquias absolutas, quando o rei era visto como "lei animada sobre a terra" (¹), era prudente garantir ao povo pelo menos um suprimento dos alimentos considerados básicos, para evitar que a coroa trepidasse na cabeça dos monarcas.
Como sabem os leitores, no Período Colonial vigoravam no Brasil as leis portuguesas, sempre que aplicáveis. Se dermos uma olhada no que determinavam as Ordenações do Reino (²) em relação ao fornecimento de víveres, será fácil constatar que havia grande preocupação de que alimentos nunca estivessem em falta na Corte: 
"E serão obrigados os regatães trazer à nossa Corte em qualquer lugar que nós estivermos, pão, vinho, carne, pescado e todos os outros mantimentos abastadamente, que necessários forem [...]." (³)
Duas breves explicações: "regatães" eram mercadores ou barqueiros que vinham fazer comércio de seus produtos; "nós" era apenas o rei que, como era mania entre os monarcas, falava de si mesmo usando o chamado plural majestático... 
Fora da Corte, a obrigação de fiscalizar o abastecimento competia aos vereadores de cada localidade (⁴); mesmo tendo eles autoridade para lançar alguns impostos sob os moradores de sua jurisdição, jamais poderiam taxar o pão, o vinho e o azeite, pelo óbvio motivo de que tal medida acarretaria elevação nos preços de artigos considerados de primeira necessidade - isso era de competência exclusiva do rei: 
"Porém não porão taxa no pão, vinho e azeite. E quando houver alguma necessidade evidente de pôr taxa nos ditos mantimentos, no-lo farão saber, alegando as razões que para isso houver, para provermos como for nosso serviço." (⁵)
Ainda no sentido de impedir abusos no comércio de artigos de primeira necessidade, havia uma prescrição segundo a qual a venda de pão e outros alimentos acima dos preços fixados era crime inafiançável: 
"Não se passarão isso mesmo alvarás de fiança às pessoas que forem culpadas por venderem pão, carne e outros mantimentos e coisas a maiores preços das taxas por mim feitas, ou pelas Câmaras [...], porque passarem-se os tais alvarás às ditas pessoas não seja causa de se não guardarem as ditas taxas, visto o muito prejuízo que disto se segue ao povo." (⁶)
Havia, porém, no Brasil, uma pequena povoação de serra-acima, somente acessível pelo dificílimo e malsinado Caminho do Mar, em que as leis do Reino se não guardavam... Ou só se guardavam quando aprazia aos moradores. De acordo com Affonso de E. Taunay, a gente de São Paulo, no Século XVII, sofria com os desmandos de padeiros que vendiam pães abaixo do peso estipulado:
"Exploravam [...] os padeiros a paciência do bom povo. Em dezembro de 1623, representava o Procurador Luís Furtado contra tais extorsões: "Havia muito trigo na terra" e, no entanto, "o pão que vendia a este povo nas vendagens era pequeno"." (⁷)
Também o vinho, informa o mesmo autor, era alvo de trapaças nas tabernas:
"Contra os tratantes bramava, em Câmara, a 14 de fevereiro de 1609, o solícito Procurador Antônio Camacho, a lembrar "que na vila havia muitas tabernas em as quais se vendia vinho muito ruim e muito caro por medidas muito ruins e pequenas".
[...].
Tabelas de preço? Nem sinal! Medidas? Eram as que queriam, de pau ou de barro sem vestígio da aferição municipal." (⁸)
Lembremo-nos de que as leis do Reino determinavam a aferição periódica dos pesos e medidas usados no comércio. Mas, na pequena São Paulo do Século XVII, o Reino era uma realidade muito distante e, com danos e prejuízos de um lado, lucro ilícito de outro, a vida dos colonizadores seguia seu rumo de sempre, com os mais fortes levando vantagem. Nesse cenário, quem tinha juízo, mas não tinha poder, fechava a boca e fazia vistas grossas. Melhor era conservar a cabeça em cima do pescoço que ir brigar por diferenças no peso do pão ou na quantidade e qualidade do vinho, e acabar sem pão, sem vinho e sem vida.

(1) Ordenações do Reino, Livro Terceiro, Título LXXV, § 1º, de acordo com a Edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
(2) Publicadas formalmente pela primeira vez no início do Século XVII, as Ordenações do Reino eram, em grande parte, uma compilação de leis que já existiam muito antes.
(3) Livro I, Título XVIII, § 1º.
(4) Cf. Livro I, Título XVIII, § 8.
(5) Livro I, Título XVIII, § 34.
(6) Regimento Novo dos Desembargadores do Paço, § 26, de 16 de setembro de 1586.
(7) TAUNAY, Affonso de E. História da Cidade de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 103.
(8) Ibid,. p. 117.


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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O "beija-mão"

O "beija-mão" na Corte do Rio de Janeiro ao tempo de D. João VI (¹)

O "beija-mão" era uma cerimônia que nós hoje consideraríamos ridícula, mas que já foi muito prezada no passado: nela, o monarca dava a mão a beijar a seus leais súditos, que para isso faziam fila e, conseguindo seu intento, tinham-se na conta de muito favorecidos.
Esqueçam o componente da brutal falta de higiene, que é preocupação nossa; antigamente quase ninguém dava muita importância para isso. Afinal, era mão do rei ou imperador... Está bem, havia gente que achava nojento, concordo, mas vamos adiante.
Segundo relato de Alexandre J. de Mello Moraes (²), D. João VI, durante sua estada no Rio de Janeiro (³), costumava realizar o beija-mão quase todos os dias, quando retornava ao Palácio de São Cristóvão, após seu passeio vespertino. Ao que parece, sempre que estava de bom humor, o rei demonstrava a maior complacência com o ritual, ainda que isso atrasasse um pouco a ceia, essa, sim, um acontecimento da maior importância em sua agenda. Quanto aos beijoqueiros, lá se iam, felizes da vida, a contar para meio mundo que haviam beijado a mão do rei. Em datas importantes o beija-mão era mais cerimonioso e acontecia no interior do palácio.
Com as devidas formalidades, o beija-mão prosseguiu no Brasil durante o governo de D. Pedro I, sendo a cerimônia restrita, em alguns casos, à gente da Corte, embora, em certos dias, fosse considerada geral, ou seja, para quem quisesse ou fosse admitido à presença de Sua Majestade. Um acontecimento nada desprezível, também referido por Mello Morais, é que, quando faleceu a imperatriz D. Leopoldina, houve beija-mão do cadáver, por parte dos filhos e da criadagem.
O Príncipe Adalberto da Prússia, que esteve no Brasil em 1842 e teve a oportunidade de presenciar um beija-mão na data comemorativa da Independência, quando o imperador era o jovem D. Pedro II, observou: "Vieram então os militares e civis por corporações para o beija-mão." (⁴) 
A ocasião era muito importante e, por isso, leitores, nada de esperar a quase informalidade do beija-mão ao pé da escada em São Cristóvão, como no "tempo do rei". Vê-se apenas que, malgrado o passar dos anos, a mania de oscular devotamente a mão do monarca continuava em vigor. Lembremo-nos de que, em 1842, Robert Koch nem havia nascido - só veio ao mundo no ano seguinte - mas faria, ao longo da vida, um trabalho notável para informar à humanidade a existência de coisas tão minúsculas que, mesmo não estando ao alcance da vista, tornavam o beija-mão muito pouco recomendável.

(1) A.P.D.G. Sketches of Portuguese Life London: Geo. B. Whittaker, 1826.
(2) MORAES, Alexandre José de Mello. Crônica Geral do Brasil vol. 2. Rio de Janeiro: Garnier, 1886, pp. 155 e 258.
(3) 1808 - 1821
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 58.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embarcações que navegavam nas águas do Mediterrâneo na Antiguidade

Birremes, trirremes, quadrirremes, quinquerremes...


Embarcação grega da Antiguidade (¹)

"Não deves jamais colocar todos os teus bens nos navios..."
                                              Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias

As embarcações que cruzavam o Mediterrâneo e adjacências na Antiguidade eram dotadas de velas, mas não era só o vento que as impulsionava - havia também a força dos músculos de muitos remadores - primeiro gente livre e, mais tarde, escravos.
Quando uma embarcação tinha duas filas de remos (os remadores eram dispostos em dois "andares"), recebia o nome de birreme; se tivesse três filas de remadores, era trirreme, se fossem quatro as fileiras, era quadrirreme e, se tivesse cinco, seria então quinquerreme. Estas duas últimas só eram usadas em batalhas navais, e não eram muito numerosas porque suas proporções tornavam as manobras mais difíceis. Ainda assim, eram úteis para impressionar adversários.
Se pensarmos no Mediterrâneo como um gigantesco lago de água salgada, cercado por diferentes povos que falavam uma variedade de línguas e que desenvolveram diversas e notáveis culturas, será fácil entender que o desenvolvimento da navegação e, por conseguinte, das embarcações, não foi obra de um único povo. Um invento aparecia em um lugar, logo era adotado em outro, recebia aperfeiçoamentos que, por sua vez, eram copiados pela vizinhança. Qual era o melhor formato para um navio mercante? E para um navio de guerra? Quantos deviam ser os remos, e de que comprimento? E se dois remadores manipulassem um único remo? Velas quadradas ou redondas? Vê-se que o mundo mediterrânico vivia em efervescência, e a arte náutica se beneficiava disso. Fenícios, cartagineses, gregos, romanos e outros povos da Península Itálica, todos deram sua contribuição, ainda que nem sempre voluntária, conforme veremos.
Atenienses, na batalha naval de Salamina (²), impuseram notável derrota aos persas, provando a eficiência das trirremes gregas contra as desajeitadas, ainda que numerosas, embarcações adversárias. Isso aconteceu depois que Temístocles, segundo conta Heródoto, conseguiu que seus concidadãos acreditassem que uma estranha profecia vinda de Delfos, segundo a qual os gregos venceriam se, para sua defesa, fizessem uma muralha de madeira, era referência ao uso de uma frota que barrasse a passagem dos comandados de Xerxes, rei dos persas.
Mas como é que Atenas tinha prontas tantas trirremes com que enfrentar a poderosa frota persa? Heródoto, em suas Histórias, explica:
"O tesouro de Atenas tinha grande quantidade de dinheiro para uso público, como resultado de terem explorado as minas de Láurion, e os atenienses julgavam que deviam reparti-lo entre si; porém Temístocles convenceu-os a [...] construir duzentos navios de guerra para lutar contra Egina. Embora as embarcações não tenham sido usadas para seu primeiro objetivo, foram a salvação dos gregos, ao fazer de Atenas uma grande força naval."
Ainda segundo Heródoto, não satisfeitos com a frota que já tinham, os cidadãos atenienses fizeram mais navios, converteram embarcações mercantes em vasos de guerra e convocaram a participação de outros gregos que quisessem juntar-se a eles na luta contra Xerxes, convencidos que estavam de que, assim fazendo, obedeciam à determinação de Apolo. Venceram!

Combate naval retratado em um vaso grego da Antiguidade (³)

Tito Lívio registrou, em Ab urbe condita libri, que, durante a Primeira Guerra Púnica (⁴), os romanos perceberam que era grande desvantagem não dispor de uma esquadra que fizesse frente aos hábeis marujos cartagineses. Foi então que caiu em poder dos romanos uma embarcação do tipo quinquerreme. Seguimos com Tito Lívio:
"Sobre aquele modelo os cônsules determinaram a construção de uma frota, na qual tanto empenho foi posto que, passados sessenta dias desde que se preparara a madeira, já havia de prontidão uma armada de cento e sessenta velas."
Exagero? Talvez, mas salta os olhos o fato de que a gente de Roma, ainda neófita em questões navais, tivesse a capacidade de, rapidamente, copiar uma nau inimiga. Esse pragmatismo, é bom lembrar, caracterizou a Roma Antiga. Se alguma coisa era útil, devia ser admitida, independente de sua origem.
Ocorre que os romanos, percebendo que era agora possível chegar perto das embarcações adversárias, tiveram a ideia de inventar um maquinismo que permitisse prender os navios inimigos aos seus. Estendia-se logo uma ponte, de tal modo que soldados de Roma, passando por ela, podiam travar combate corpo a corpo com os homens de Cartago. Nesse tipo de luta os romanos levavam, quase sempre, enorme vantagem.
Para concluir, será interessante considerar se os navios que os povos mediterrânicos usavam tão bem em águas "domésticas" seriam igualmente eficazes em outros mares. Poderiam navios como esses fazer longas viagens? Heródoto, por exemplo, falou de uma viagem que marinheiros fenícios teriam empreendido a serviço de um faraó, na qual, tendo partido do Mar Vermelho, retornaram ao Egito pelo Mediterrâneo, depois de costear a África. Não há provas definitivas de que essa viagem tenha mesmo acontecido, mas sabe-se que não era impossível.
Por outro lado, o tipo de embarcações que os romanos usavam com eficiência no Mediterrâneo mostrou-se inadequado quando, comandados por Germânico, tiveram de enfrentar as águas revoltas do Mar do Norte, em meio a uma tempestade. Muitos soldados romanos morreram, enquanto sobreviventes foram arremessados a terras distantes, algumas delas ainda desconhecidas para os habitantes da Península Itálica.
Políbio (⁵), em sua História, explicou: 
"Faz-se muito pouco uso do mar das Colunas de Hércules, porque são muito poucos os que comerciam com povos que vivem nos extremos da África e da Europa, e também porque o mar exterior é desconhecido para nós." (⁶) 
Parece que, ao menos em seus dias, viagens além do Mediterrâneo não eram usuais.

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 142.
(2) Em 480 a.C., durante as chamadas Guerras Médicas.
(3) KNOWLTON, Daniel C. Illustrated Topics for Ancient History. Philadelphia: McKinley Publishing Company, 1913.
(4) As Guerras Púnicas foram guerras entre Roma e Cartago, travadas, com intervalos, entre 264 a.C. e 146 a.C.. Recebem esse nome porque os romanos chamavam punos aos cartagineses. 
(5) Políbio de Megalópolis (c. 203 - 120 a.C.) foi um grego que passou a maior parte da vida entre romanos; escreveu, entre outros assuntos, sobre as Guerras Púnicas.
(6) As citações de Hesíodo, Heródoto, Tito Lívio e Políbio que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lá se foram as lâmpadas incandescentes

Propaganda de lâmpada
incandescente, 1923 (²)
Tácito, historiador romano que viveu entre os Séculos I e II, escreveu: "Todas as coisas que agora achamos velhíssimas, já foram novas." (¹)
Duvida, leitor? Olhe para aquilo que, em seu conceito, é o máximo de tecnologia que está à sua mão. Tenha certeza de uma coisa: algum dia esse seu motivo de orgulho tecnológico terá o status de velharia, e, para tanto, nem será preciso muito tempo, se o ritmo atual de inovação for mantido.
No Brasil do começo do Século XX quase todas as casas, assim que anoitecia, precisavam de velas, lampiões ou lamparinas para que houvesse alguma luz - afinal, humanos não têm olhos de coruja. O máximo do luxo, só disponível em umas poucas localidades, era ter iluminação residencial a gás. Mas aí veio o uso da eletricidade e, com ela, as lâmpadas incandescentes entraram em cena. 
Agora que as lâmpadas incandescentes foram embora, substituídas por outras mais econômicas, como negar que o velho Tácito tinha razão?

(1) Annales, Livro XI
(2) O MALHO, 17 de março de 1923. O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Utopia (não muito utópica) de Thomas Morus

Utopia, hoje, é uma palavra geralmente usada para descrever um sonho ou projeto impossível ou, pelo menos, muito difícil de ser concretizado. A palavra surgiu, porém, como título de uma obra que falava de uma ilha imaginária, na qual existia uma civilização ideal. Apareceu quando era, ainda, a época dos grandes descobrimentos, e a possibilidade da existência de civilizações avançadas e até então desconhecidas passava pela cabeça de muitos europeus, mais ou menos como se discute, agora, se há vida inteligente em planetas distantes.
Ocorre, entretanto, que a "civilização perfeita" da ficção política escrita no Século XVI por Sir Thomas Morus, tinha muitos dos valores típicos do tempo em que viveu seu autor, ou mesmo elementos bem conhecidos de civilizações do passado, e, sob esse aspecto, não poderia ser classificada como um arroubo de originalidade. Querem ver, meus leitores?
  • À semelhança de alguns povos da Antiguidade, como os hebreus e os gregos de Esparta e Atenas, por exemplo, os utopianos tinham um legislador-fundador, cujo nome era Utopus e que, depois de civilizar a população selvagem da ilha, formulara a legislação que a regia;
  • Um príncipe, com mandato vitalício, era o governante supremo da Utopia, o que comprova que Morus não conseguia caminhar muito longe da ideia de monarquia então corrente na Europa;
  • Para auxiliar o príncipe vitalício havia um conselho de anciãos ou senado (lembram-se do senado romano?);
  • Questões de interesse público somente podiam ser debatidas no âmbito do senado e/ou das assembleias populares, atribuindo-se pena de morte para os desobedientes - apesar de supostamente impedir que decisões fossem tomadas às escondidas, pode-se questionar que havia, afinal, um tipo de censura ou restrição à liberdade de expressão dos cidadãos comuns da Utopia, cuja finalidade prática era evitar qualquer questionamento franco das regras estabelecidas;
  • Com exceção da agricultura, praticada tanto por homens como por mulheres, os demais ofícios eram divididos por sexo;
  • Filhos, como regra, aprendiam o ofício de seus pais (como nas corporações de ofício medievais), embora isso não fosse estritamente obrigatório;
  • O pai era a maior autoridade da família e cada grande grupo familiar (a que nós talvez déssemos o nome de clã) era regido pelo homem mais idoso, ou seja, pelo patriarca;
  • Ao casar-se, a moça é que ia viver com a família de seu marido, jamais o contrário, mais ou menos como acontecia na Grécia e Roma antigas;
  • Era permitido que os maridos castigassem as respectivas mulheres e que os pais castigassem os filhos;
  • Durante as refeições, as mulheres deviam servir a seus maridos, assim como os filhos estavam obrigados a servir a seus pais;
  • Trabalhos pesados na cozinha eram feitos por escravos, mas cozinhar e servir às mesas eram tarefas para as mulheres;
  • O casamento era, como regra geral, considerado indissolúvel, embora em casos graves de incompatibilidade o senado pudesse autorizar uma separação;
  • Na Utopia, a escravidão era admitida: os escravos eram, entre outros, prisioneiros de guerra, pessoas que haviam cometido adultério e criminosos sentenciados (como nas antigas penas de galés);
  • Condenados à escravidão eram, em caso de revolta, punidos com a morte;
  • Com o objetivo de encontrar uma solução para o excedente populacional que a ilha não poderia comportar, os utopianos, de modo análogo aos antigos gregos, fundavam colônias;
  • Ao fundar uma nova colônia em um lugar qualquer, os utopianos, se encontrassem ali habitantes, usavam a força para expulsá-los, e a isso consideravam uma guerra justa;
  • Em caso de guerra, os habitantes da Utopia costumavam contratar mercenários estrangeiros que fossem ao combate, de preferência a arriscar a pele dos cidadãos durante a luta;
  • Utopianos tinham inquietações filosóficas muito semelhantes àquelas que povoavam a mente de estudiosos europeus, quer do Medievo, quer do Renascimento.
Creio que, para nosso propósito, esta lista já é suficiente.
A que conclusão chegamos, leitores? Mesmo a Utopia utopicamente original não conseguiu fugir às amarras de sua época. Seu autor, um crítico mordaz das injustiças sociais que permeavam a Inglaterra de seu tempo, não teve destino muito feliz: Thomas Morus, no contexto do terremoto político-religioso que sacudiu a Europa e, em seu caso particular, a Inglaterra do Século XVI, acabou condenado à morte e foi decapitado em 1535. Sua Utopia, porém, se não foi a primeira fantasia de uma sociedade ideal a ser composta, veio a ser a mais popular, pelo menos no nome. 
Popularidade, porém, não é tudo. A despeito de sua sincera preocupação com questões relacionadas à justiça social, a Utopia (a obra, não a ilha) fazia a defesa de um controle tão estrito dos indivíduos que, sob a capa da igualdade, raiava à opressão. Que dizer de um país, ainda que hipotético, no qual toda a vida do cidadão era regulada por leis, desde a hora em que acordava até o momento em que ia dormir, assim como quando e quantas eram as refeições diárias que podiam ser feitas, qual era o tempo de trabalho, qual o tempo de lazer e como podia ser gasto, que atividade profissional devia ser exercida, quando e com quem se casaria e que posição ocuparia dentro de seu grupo familiar? Havia mais: Se o cidadão quisesse fazer uma viagem, somente poderia empreendê-la com o consentimento dos governantes, que predeterminavam a data de regresso e estipulavam que, na localidade a ser visitada, devia, enquanto lá estivesse, trabalhar com os que fossem da mesma profissão. 
Parece asfixiante, leitores? Nesse sentido, a Utopia imaginada e descrita por Thomas Morus estava mais para arcabouço de um Estado totalitário do que para fundamento de uma sociedade livre.


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