quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Jean de Léry, a França Antártica e as galinhas brancas criadas pelos tupinambás

Jean de Léry era francês. Protestante calvinista. Pelo primeiro motivo, indesejado no Brasil, ao menos sob o ponto de vista das autoridades portuguesas. Pelo segundo motivo, era visto com horror pelos missionários jesuítas, que o tinham na conta de uma praga ou doença contagiosa. Uma espécie de varíola ideológica, digamos.
A despeito de tudo isso, Léry chegou ao Brasil em 10 de março de 1557. Tendo participado da fracassada tentativa de estabelecimento de uma colônia francesa no Rio de Janeiro - a França Antártica - fez, do que viu em quase um ano na América do Sul, um relato inteligente e cuidadoso, pelo qual lhe somos, ainda hoje, muito agradecidos. Publicou-se esse relato na forma de livro com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil, e é através dele que sabemos de muita coisa interessante sobre os índios tupinambás. Detalhe: como os tupinambás tinham os franceses como seus aliados, permitiam que circulassem livremente por suas aldeias, sem que corressem o risco de virar petisco em algum festim antropofágico. Foi em virtude dessa convivência pacífica que Léry, um jovem artesão quando chegou ao Brasil, pode aprender alguma coisa do vocabulário dos indígenas, de suas cantigas (que teve o cuidado de registrar) e dos hábitos que pautavam sua vida diária. 
Lembram-se os leitores do que aconteceu aos primeiros indígenas que foram à embarcação que trouxe Cabral ao Brasil? Sim, falo do episódio relatado por Pero Vaz de Caminha, de acordo com o qual os jovens índios ficaram apavorados quando viram uma galinha... É que essas aves eram ainda desconhecidas na América, mas não para sempre. Segundo Léry, os tupinambás que viviam nas redondezas da França Antártica, tendo obtido dos europeus algumas galinhas brancas, passaram a criá-las, não pela carne (que detestavam), e nem pelos ovos (achavam que eram venenosos), e sim pelas penas. Tingidas de vermelho com a tinta extraída do pau-brasil, as penas eram usadas não somente para enfeitar tacapes, arcos e flechas, mas também para adornar o corpo dos nativos. Léry assegurou ter visto um tupinambá, no maior garbo, completamente coberto por penas vermelhas. 
Que dizer? Tanto melhor para as araras-vermelhas que voejavam na Mata Atlântica!
A permanência de Léry no Brasil não chegou a durar um ano. Como se sabe, Villegagnon, o francês que comandava a França Antártica, decidiu "mudar de lado" quanto à religião, e a ideia de uma colônia calvinista de povoamento foi por água abaixo. Algum tempo depois, os franceses seriam expulsos pelos portugueses, que passaram a ver o Rio de Janeiro com outros olhos: não apenas um belo lugar, mas também um porto muito conveniente, em se tratando de conservar a posse das preciosas terras na América.
Quando isso aconteceu, porém, Jean de Léry já estava longe do Brasil. Depois de uma viagem trabalhosíssima, retornou à França, viveu mais aventuras e, indo a Genebra, onde estudou Teologia, veio a ser um pastor protestante. Morreu em Berna no começo do Século XVII.

Combate entre indígenas, de acordo com a edição de Histoire d'un Voyage Faict
en la Terre du Brésil
publicada em Genebra no ano de 1580


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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Como morreu o primeiro bispo do Brasil

Intrigas administrativas, antropofagia e escravização de indígenas no palco da colonização no Século XVI


Uma carta escrita pelo jesuíta Manuel da Nóbrega em 1549, cujo destinatário era o padre-mestre Simão Rodrigues, trazia a seguinte observação, com respeito àquele que viesse a ser indicado para o cargo de primeiro bispo do Brasil: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (¹) Alguns anos depois, o mesmo Nóbrega, em carta ao cardeal infante Dom Henrique, ainda diria: "Certifico a Vossa Alteza que nesta terra, mais que em nenhuma outra, não poderá um governador e um bispo, e outras pessoas públicas, contentar a Deus Nosso Senhor e aos homens, e o mais certo sinal de não contentar a Nosso Senhor é contentar a todos, por estar o mal mui introduzido na terra por costume." (²)
D. Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi o escolhido para primeiro bispo do Brasil. Autores de seu tempo descreveram-no como homem virtuoso e atento às questões pertinentes à Igreja no território colonial, o que não impediu (ou até favoreceu) que entrasse em atrito com o governador-geral Duarte da Costa, cujo filho era tido pelo bispo como um péssimo exemplo para os habitantes da Bahia. O resultado da contenda foi que D. Pedro Fernandes Sardinha deixou a função que ocupava e se preparou para voltar ao Reino, a fim de prestar contas dos entreveros com o governador. O que aconteceu em seguida contribuiu para tornar este bispo tristemente famoso. Gabriel Soares, autor do Século XVI, escreveu:
"Aqui se perdeu o bispo do Brasil Dom Pedro Fernandes Sardinha com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor, que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste rio de São Francisco até o da Paraíba. Depois que estes caetés roubaram este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição." (³)
Mais conciso e mais virulento, o jesuíta Simão de Vasconcelos assim registrou o caso um século mais tarde, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Em uma enseada, junto a este rio [São Francisco], alguns anos depois sucedeu o triste desastre do naufrágio do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, primeiro do Brasil, que dando nela à costa, foi cativo dos índios caetés, cruéis e desumanos, que conforme o rito de sua gentilidade, sacrificaram à gula e fizeram pasto de seus ventres, não somente aquele santo varão, mas também a cento e tantas pessoas, gente de conta, a mais dela nobre, que lhe faziam companhia voltando ao Reino de Portugal." (⁴)
É verdade, leitores. Dom Pedro Fernandes Sardinha e seu ilustre séquito foram vítimas de antropofagia em julho de 1556. É difícil saber o quanto andavam más as relações entre colonizadores e caetés anteriormente ao naufrágio, já que os registros da época, à exceção dos feitos por missionários, tendem a generalizar as características dos povos indígenas, atribuindo a eles toda a responsabilidade quando se declarava uma situação de confronto. Sabemos, porém, que, alguns anos mais tarde, sendo Mem de Sá o governador-geral, determinou-se que todos os "gentios do Caeté" deviam, como castigo, ser escravizados, independente de quem estivesse ou não envolvido na morte do bispo e de seus companheiros de viagem. Uma informação atribuída a José de Anchieta mostra que, afinal, a ordem do governador foi vista como uma licença para matar e escravizar todos os indígenas que fossem encontrados, de tal maneira que um massacre (o de Dom Pedro Fernandes Sardinha) foi seguido de outro ainda maior:
"Neste [...] ano de 1562, estando todos os índios com muita paz e quietação em suas igrejas, e fazendo-se muito fruto nas almas, quis o governador Mem de Sá castigar os índios do Caeté [...], por terem morto o bispo Dom Pedro Fernandes, e outra muita gente que desta Bahia partiu para o Reino em uma nau [...], pronunciou o dito governador sentença contra o dito gentio do Caeté, que fossem escravos onde quer que fossem achados sem fazer exceção nenhuma, nem advertir no mal que podia vir à terra.
[...] Nas igrejas dos padres (⁵) havia muito gentio que procedia daquele, mas criados e nascidos nesta parte da Bahia, que não viram e nem foram em tais mortes, mas como o demônio sabia que era esta a melhor invenção que podia haver para destruir o que estava feito e impedir que não fosse por diante a conversão do gentio, ajudou-se do desejo que os portugueses tinham de haver escravos, tanto que em breves dias se despovoou toda a terra [...]." (⁶)
Abreviando a história: quando os indígenas compreenderam o que estava acontecendo, trataram de fugir com suas famílias para o sertão. Quem esperaria outra coisa?
O governador ainda tentou consertar o erro, mas sem muito resultado: 
"Vendo o governador quão mal isto saíra, e quantos males e pecados daqui resultaram, que pagavam os inocentes pelos culpados, e que a terra se destruíra em tão pouco espaço de tempo, revogou a sentença dos caetés, mas a tempo que já não havia remédio, porque como os homens andavam já tão metidos no saltear dos índios, como ainda agora hoje em dia se vê [...], usavam outra manha não menos perigosa, onde os índios se iam esconder para fugir deles, e faziam com eles que se vendessem uns aos outros, dizendo que eram caetés [...]." (⁷)
Vejam, leitores, que a morte do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha ocorreu em 1556, e foi somente uns seis anos mais tarde que o novo governador-geral resolveu punir os responsáveis. Não se trata, aqui, de defender a antropofagia - isto está fora de questão - mas, como duvidar de que, tanto tempo depois, o suposto castigo aos caetés não passasse de um reles subterfúgio, de uma tentativa de aplicar um verniz de legalidade para o apresamento e escravização de indígenas? 

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 296.
(2) Ibid., p. 313.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 37 e 38.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 52 e 53.
(5) Referência aos missionários da Companhia de Jesus.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 355.
(7) Ibid., p. 356.


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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Como era a vida dentro de uma cidade cercada por inimigos

Cidades antigas tinham muralhas. Quando havia guerra, quem morava em povoações menores ou em áreas agrícolas menos protegidas, buscava refúgio dentro dos muros da fortaleza mais próxima. Os portões - quase sempre enormes e, por isso, muito pesados - eram fechados, de modo que, por um lado, inimigos não conseguiriam entrar facilmente, mas, por outro, quem estava do lado de dentro também não podia sair. 
Começava então o cerco. Fora, o objetivo maior do exército atacante era, se possível, danificar o muro em algum ponto, de modo que soldados pudessem entrar na cidade. Com o tempo, surgiram máquinas de guerra para esse propósito - os aríetes, por exemplo. Ainda que sempre acarretasse um número elevado de baixas, outra prática era a construção de uma rampa que atingisse o alto do muro. Torres rodantes também faziam parte do cardápio. Às vezes, a captura de algum fugitivo podia resultar na revelação de segredos militares da cidade atacada. Não é preciso lembrar que, na intenção de descobrir os pontos fracos de uma localidade, a tortura era uma útil ferramenta para fazer falar quem, de outra maneira, não abriria a boca de jeito nenhum.
Enquanto isso, o exército defensor procurava manter os inimigos à distância. Chuvas de flechas caíam sobre a cabeça dos soldados que vinham lutar junto ao muro e enormes pedras eram roladas, matando vários combatentes de uma só vez. Na Idade Média, tachos de óleo fervente eram entornados do alto das torres. Ninguém, fosse homem ou mulher, jovem ou idoso, ficava isento de alguma responsabilidade na defesa, a menos que estivesse completamente incapacitado.
Uso de torre sobre rodas para ataque a
uma cidade sitiada (³)
Entretanto, a defesa era difícil. Com os alimentos racionados, não tardava a declinar a saúde geral da população. Mais ainda, as condições de higiene, nem sempre boas em uma cidade, ficavam muito piores com a chegada de mais gente. Doenças encontravam assim terreno fértil para propagação (¹), de modo que, não poucas vezes, eram mais os que morriam por causa de uma epidemia do que os que caíam em combate. Todas essas calamidades, atingindo a população civil, faziam também muitas baixas entre os soldados, enquanto os sobreviventes, pela parca alimentação, ficavam cada vez mais fracos para lutar.
Até quando resistir? Houve guerras em que cidades sitiadas resistiram por anos (²). Tudo dependia, basicamente, do estoque de alimentos disponível (⁴) e de um bom suprimento de água. A menos que o inimigo levantasse o cerco, a derrota dos defensores, com seu cortejo de desgraças, era apenas uma questão de tempo (⁵), tanto que, em alguns casos, houve populações inteiras que cometeram suicídio, considerando esta uma solução melhor e mais honrosa que a rendição.
Eventualmente, porém, os invasores também sofriam com epidemias e decidiam ir embora; podia ser que os suprimentos que traziam chegassem ao fim, ou que não achassem água potável; outras vezes, era algum exército estrangeiro que vinha em socorro dos sitiados. Havia, ainda, a possibilidade de discórdia entre comandantes, e mesmo a morte de um monarca, abrindo questões sucessórias, podia significar uma retirada, ao menos temporária. Quando alguma dessas coisas acontecia, não era hora para festas, ainda que celebrações religiosas, em honra dos deuses, pudessem acontecer. Era tempo, sim, para muito trabalho, reparando os muros, reforçando as torres e as portas, protegendo as fontes e poços que estavam dentro e inutilizando os que estivessem do lado de fora da cidade. A experiência ensinava que era grande a possibilidade de que, algum dia, os inimigos voltassem. 

(1) Como aconteceu em Atenas, durante a Guerra do Peloponeso.
(2) Sabe-se que Siracusa, por exemplo, cercada por terra e mar pelas forças romanas durante as Guerras Púnicas, manteve a defesa por aproximadamente de dois anos.
(3) DODGE, Theodore Ayrault. A History of the Art of War Among the Romans. Boston, New York: Houghton, Mifflin & Company, 1900, p. 394.
(4) Heródoto, em Histórias, afirmou que os moradores de Babilônia não tiveram receio dos persas, quando estes cercaram a cidade, porque havia, dentro dela, um estoque considerável de alimentos. Ainda assim, a cidade foi tomada. 
(5) De acordo com Políbio de Megalópolis, os antigos romanos, quando conquistavam uma cidade que resistira a seus ataques, tinham por hábito matar a todos os que encontravam, fossem homens ou animais.


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A atuação dos missionários jesuítas durante uma epidemia de varíola no Século XVI

A varíola foi um dos maiores terrores dos tempos coloniais. Matava, muitas vezes, mas a sobrevivência a ela era igualmente temida - não raro, desfigurava e/ou resultava em cegueira. Sendo desconhecida na América antes da chegada de europeus em fins do Século XV, mostrou-se particularmente letal entre a população indígena, havendo mesmo quem tenha acusado os conquistadores espanhóis de tê-la deliberadamente "apresentado" à população asteca. A vacinação foi introduzida no Brasil em fins do Século XVIII, mas, até lá, muita gente, de todas as idades, perderia a vida por causa da terrível doença. 
Se levarmos em conta o terror que a varíola inspirava, torna-se ainda mais surpreendente o comportamento dos missionários jesuítas quando uma epidemia de varíola irrompeu no Brasil, fazendo mortes numerosas entre indígenas. No primeiro século da colonização, a assistência médica aos colonizadores era praticamente nula - que se poderia supor, então, que ocorresse relativamente à população nativa? Vejamos o que diz um documento atribuído a Anchieta (¹):
"Em tempo das bexigas [varíola] [...], os padres andavam com alguns moços pelas casas dos índios, lavando-os e limpando-os; era tal a doença das bexigas que, curando-os desta maneira, muitas vezes lhes ficava a pele e a carne dos doentes pegada nas mãos, e o cheiro era tal que se não podia sofrer; os padres lhes acudiam com lenha e água, e andavam com os índios sãos buscando e repartindo isto, e em casa dos que tinham mandavam fazer de comer para os mais necessitados, e em alguma parte se fazia de comer cada dia para sessenta a setenta pessoas, e se os padres lhes faltavam com isto, faltava-lhes o remédio." (²)
Por suposto, ao lidar com os enfermos, os missionários tinham em vista a catequese. Prossegue o mesmo documento:
"De noite e de dia andavam os padres ministrando-lhes os sacramentos da confissão e unção sem descansar, nem terem tempo para rezar suas horas, enterrando cada dia dez e doze, ajudando-lhes a fazer as covas e trazê-los à igreja para os encomendar e enterrá-los [...]." (³)
Ao que se supõe, os padres não tinham qualquer ideia quanto ao modo como a doença se propagava, ou, se tinham, parece que enfrentavam corajosamente a possibilidade de contágio. No entanto, devido às condições de higiene em que atuavam, é razoável perguntar se, no empenho por atender às necessidades básicas dos enfermos, não acabavam, eles mesmos, quando iam de casa em casa, contribuindo para que mais gente adoecesse. Vários dentre os jesuítas estiveram doentes, embora não fique claro, pela maneira como se expressa o autor do documento (quem quer que seja ele), se tiveram varíola ou outra moléstia qualquer:
"[...] Dos grandes trabalhos que nestas doenças os padres tiveram com eles, vieram a adoecer, de que estiveram muito mal [...]." (⁴)

(1) Embora haja alguma dúvida quanto ao verdadeiro autor, esse documento é autenticamente do Século XVI. É provável que a epidemia de varíola referida seja a de 1563.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 380.
(3) Ibid.
(4) Ibid., pp. 380 e 381.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Esmolas para as almas do purgatório

François Biard, pintor francês que esteve no Brasil entre 1858 e 1859, fez registros interessantes que resultaram na publicação de um livro, Dois Anos no Brasil. A obra apresenta, às vezes, um tom sarcástico, mas tem lá sua importância por documentar aspectos do dia a dia da capital do Império e de outras localidades, que, parecendo "comuns" ou "normais" aos habitantes do Brasil, talvez não fossem preservados, a não ser pelo olhar de curiosidade desse visitante estrangeiro. Assim é que encontramos este relato:
"Entre as notas e esboços apanhados nessa época pelas ruas do Rio, encontro um gordo burguês que usa sobre sua impecável roupa preta uma opa de seda verde, e estende numa das mãos aos transeuntes uma bolsa encarnada. Que faria esse homem, assim encostado à esquina da casa que ficava fronteira ao meu hotel? Soube-o de sua própria boca: tirava esmolas e dizia invariavelmente aos que por perto passavam:
"Para as almas do purgatório, por amor de Deus!"" (¹)
No Século XIX havia muita gente que acreditava que, quando alguém morria, não sendo santo o bastante para que sua alma fosse para o céu e nem perverso ao extremo, a ponto de ir diretamente ao inferno, tinha de comparecer ao purgatório, de onde, depois de algum tempo, havendo se purificado de seus pecados, podia ir ao céu. Para quem adotava esse ponto de vista, era importante a celebração de missas por intenção das "almas do purgatório", na convicção de que isso ajudaria a libertá-las de seu inferno temporário. Portanto, as esmolas, que o burguês visto por Biard pedia, eram destinadas a custear a celebração de missas.

Coletores de esmolas para fins religiosos (²)

Se você, leitor, tem curiosidade em saber se muita gente contribuía, considere: quem de fato acreditava na existência do purgatório, tinha boas razões para doar, não fosse o caso de parentes e amigos terem de sofrer por longo tempo em virtude da negligência dos vivos; além disso, a ideia de que, ao morrer, o avarento que não fizera doações em favor dos mortos podia muito bem pagar por isso no purgatório ou até, de uma vez por todas, no inferno, devia funcionar como um estímulo poderoso para induzir à generosidade. Na dúvida, era melhor não arriscar...  

(1) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 121.
(2) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada digitalmente para facilitar a visualização neste blog. 


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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre a esperteza de homens e animais

Documentários de televisão e revistas de curiosidades abordam, de vez em quando, a questão da inteligência dos animais. Chegam a apresentar listas, algumas mostrando uma hierarquia de inteligência entre as raças de cães, outras com um índice de esperteza entre os primatas, e por aí adiante. Sim, leitor, eu sei que o mais inteligente entre os cães é aquele que você tem em casa (todo mundo acha a mesma coisa de seus animais de estimação), mas não é preciso ser um grande observador para constatar que, na natureza, há mesmo alguma variação quanto à habilidade, astúcia, inteligência, afinal.
E os humanos, onde ficam nessa escala? 
Nada de sorrisos. Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas, escreveu (e já posso ouvir latidos, miados e outros ruídos em comemoração):
"O homem parece o mais esperto dentre os animais, porém há razão de sobra para crer que é o mais miserável. Todos os outros animais estão submetidos apenas às paixões do corpo, e só por elas é que erram, enquanto o homem, além de servir às paixões do corpo, é também escravo de suas próprias opiniões e, portanto, erra contra a natureza e contra a razão." (*)
É direito seu, leitor, concordar ou não com Políbio. Devo lembrar, no entanto, que, de brigas de torcedores de futebol a guerras e massacres por divergências religiosas, passando por uma quantidade inumerável de outras ausências de bom senso, há provas incontestes de que a escravidão às opiniões, sejam elas próprias ou alheias, não é exatamente um fato que contribua para honrar a espécie humana.

(*) O trecho citado da História de Políbio é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Colombo não encontrou monstros na América

Ilustração de um exemplar manuscrito (c. 1475 - 1525) de As Viagens de Marco Polo

Em uma carta datada de 18 de fevereiro de 1493, cujo destinatário era Dom Gabriel Sanchez, escrivão dos "Reis Católicos", Fernando de Aragão e Isabel de Castela, Cristóvão Colombo, que há pouco havia chegado à América Central Insular com sua pequenina frota, composta por apenas três embarcações, fez a seguinte observação:"Ao contrário do que se imaginava, não encontrei aqui monstros, mas homens de grande respeito e bondosos." Mais adiante, na mesma carta, reiterou: "Não vi monstros, nem há quem deles tenha conhecimento [...]."
Parece evidente que, se foi necessário a Colombo dizer duas vezes que não havia monstros nas terras a que acabara de chegar é porque, em seu tempo, muitos criam piamente que, para além das terras já conhecidas dos europeus, quer em seu próprio continente, ou em lugares da Ásia e da África, haveria, sim, criaturas disformes, estranhas, brutalmente agressivas, monstruosas, enfim. Não que haja alguma prova de que Colombo, homem de certa instrução que era, fosse um adepto dessas tolices, mas seu relato trabalhava com a expectativa dos europeus de seu tempo. Além disso, mesmo autores eruditos do século seguinte ao da chegada de europeus à América costumavam incluir em suas obras alguma menção a seres mitológicos como se, de fato, existissem, talvez porque dessem sua existência como certa, ou, ainda, para não decepcionar os leitores.
É fato que Colombo, a essa altura dos acontecimentos, ainda pensava que havia circunavegado o globo terrestre e chegado às "Índias", Catai e Cipango (os dois últimos, China e Japão, respectivamente), terras orientais referidas por Marco Polo e que ele, Colombo, supunha ser possível alcançar e agregar às possessões da Espanha, navegando para o Ocidente. Portanto, devia esperar que, a qualquer momento, pudesse avistar as maravilhas de que falara o mercador veneziano mais de dois séculos antes. Nesse sentido, a espetacular viagem de Colombo seria uma enorme frustração. É que no caminho para Cipango e Catai havia todo um continente - a América - mas ele ainda não sabia disso. 


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