segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Esqueletos de baleia no caminho do padre Anchieta

Relatos dos primeiros tempos coloniais dão conta de que as baleias eram, então, muito numerosas no litoral brasileiro, a tal ponto que a Coroa concedia o monopólio de sua captura àquele que fizesse a proposta mais vantajosa. Ao traçar a biografia do padre José de Anchieta, Simão de Vasconcelos, jesuíta que escreveu no Século XVII, observou que, ao caminhar pelas areias de Itanhaém, seu biografado achava, pelo caminho, restos de baleias que por ali haviam encalhado:
"É a praia desta costa, por onde caminhava, tão áspera e dura, que um carro bem carregado não deixa sinal nela, e comumente embaraçada com armações desfeitas de corpos de baleias, que ali se dão à costa, cujos ossos perturbam, impedem a praia e fazem o caminho mais áspero; contudo esse mesmo caminho era a recreação de José, a pé, comumente descalço, costume seu em todas as mais peregrinações." (*)
Se vivesse no Século XXI, e supondo que caminhasse descalço pelas praias do Brasil, Anchieta não teria, por certo, que topar a cada passo com vestígios de baleias. Elas são, hoje, muito menos numerosas (por que seria?!!), embora vez ou outra, alguma ainda encalhe num ponto qualquer do litoral, dependendo então da boa vontade de ambientalistas dedicados para voltar a nadar, feliz da vida, pelas águas do Atlântico.

Esqueleto de baleia exposto em Ubatuba - SP

(*) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 169.


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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Escorbuto

A alimentação pobre em vitamina C provocou muitas mortes entre marinheiros na era das grandes navegações


O escorbuto, como se sabe, é causado pela carência de vitamina C (¹). Embora já conhecido muito antes, foi ao tempo das grandes navegações que sua ocorrência veio a ser mais notada, porque os marujos ficavam longo tempo no mar, submetidos a uma alimentação péssima, e, como não poderia deixar de ser, quase sem ingredientes frescos. O problema era então gravíssimo, e muitos acabavam morrendo. 
Que tal um limão?
Todas as providências adotadas na época eram falhas, uma vez que a causa da doença era desconhecida. Ninguém sequer sabia da existência de vitaminas, e só muito tempo depois é que se verificou que um suprimento de limões e outras frutas cítricas podia ser muito útil para debelar os casos de escorbuto. 
Por séculos, no entanto, as gengivas inchadas e sangrando, que  aterrorizavam os valentes exploradores do oceano como sinal fatídico da doença, foram atribuídas a causas que não estavam de modo algum associadas a ela. Nieuhof, que esteve no "Brasil Holandês" entre 1640 e 1649, escreveu, logo depois de cruzar a Linha do Equador:
"O calor, aí, é terrível e a grande escassez de água potável - pois que se não pode contar com a das chuvas, alterada pelo ardor dos raios solares - constitui a causa principal do escorbuto." (²)
Como os leitores pode ver, Nieuhof estava completamente errado. No entanto, até que a verdadeira causa fosse descoberta, muita gente perdeu a vida, submetida, talvez, a tratamentos que nada tinham de eficazes (³).

(1) Ácido ascórbico.
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, s.d., p. 7.
(3) O que surpreende é saber que ainda hoje há casos de escorbuto, e não simplesmente entre pessoas que não têm acesso a uma alimentação saudável. Ocorrem em gente que, por negligência ou desconhecimento, adota uma dieta equivocada.


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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As fazendas de café do Vale do Paraíba e os feudos medievais

Ao descrever as fazendas de café que visitou entre 1860 e 1861, Augusto-Emílio Zaluar fez uma observação muito interessante, que sugere algumas considerações:
"Os grandes proprietários de terrenos, deixando de frequentar os povoados, e reconcentrando-se em suas fazendas, que são os verdadeiros castelos feudais do nosso tempo, fazem convergir aí toda a vida, que reflui das povoações para essas moradas ostentosas onde muitas vezes o luxo e a riqueza disputam a primazia à magnificência dos palácios da capital." (¹)
Zaluar não estava propondo nenhuma interpretação político-econômica das fazendas de café do Vale do Paraíba como um tipo de feudalismo no Brasil. O feudalismo, antes de mais nada, caracterizou-se pela descentralização política, coisa que de modo algum ocorria no Brasil - a centralização era até exagerada e havia um governo constitucional em que a figura do imperador não era irrelevante. O que Augusto-Emílio Zaluar notou em suas viagens é que, em alguns aspectos, o estilo de vida nas fazendas é que recordava um pouco o feudalismo. 
Sim, leitores, pode até ser redundância, mas não custa lembrar que a vida dos fazendeiros e suas famílias era essencialmente rural, exceto por alguma rara viagem à Corte ou pelas idas à povoação mais próxima para festas religiosas importantes. As escassas visitas entre fazendeiros e suas famílias, em ocasiões especiais, davam motivo a grandes celebrações. Além disso, dentro da fazenda a autoridade era, salvo alguma exceção, concentrada na figura do fazendeiro cafeicultor, que, em muitos casos, era detentor de um título nobiliárquico do Império (era o "barão fulano", "visconde sicrano", etc.). A vida diária era pautada por um conservadorismo extremo e o próprio Zaluar notou que, em algumas fazendas, as mulheres ainda viviam reclusas e só apareciam em público cobertas por mantilhas. Observem os leitores que isso sucedia quando o Século XIX já passara da metade. 
É também verdade que muitas fazendas produziam quase tudo o que nelas se consumia, com exclusão de sal ou de algum artigo de luxo. O desenvolvimento das técnicas agrícolas não era prioridade, o que se constituiu, aliás, em um dos fatores para o declínio da agricultura cafeeira no Vale do Paraíba. 
Por outro lado, nenhum fazendeiro tinha exército próprio, não estava autorizado a cobrar pedágio e não doava terras para estabelecer uma relação de suserania e vassalagem (²). Acrescente-se ainda que a maior parte do trabalho nas fazendas do Império do Brasil, no Vale do Paraíba ou fora dede, era feito por mão de obra escrava, enquanto que no feudalismo vigorava a servidão, o que significava, na prática, que os trabalhadores, cuja condição era compulsória e hereditária, não podiam, apesar disso, ser comprados e/ou vendidos. Servos não eram mercadoria. Escravos, sim. 
Muito diferente foi a situação nascida a partir da expansão da lavoura cafeeira no Oeste Paulista: houve desenvolvimento da urbanização e dos transportes (³), fazendeiros tinham belas casas nas cidades, viajavam com certa frequência à Europa, adotavam um estilo de vida compatível com seu status social e faziam questão de que os filhos, ao menos os do sexo masculino, estudassem. 
Haveria alguma semelhança entre a lavoura cafeeira do Vale do Paraíba e a do Oeste Paulista? Sim, leitores havia: em ambos os casos a produção era voltada aos interesses do mercado externo (muito diferente, portanto, do que acontecia nos feudos medievais). A cotação internacional do café era determinante para a prosperidade ou a bancarrota dos fazendeiros. Interessava também a quem administrava a economia do País, que mantinha a tradição de dependência das exportações de um só produto. Na segunda metade do Século XIX a pauta de exportações do Brasil era bastante diversificada, mas, em termos de quantidade, o café era mais importante que todos os demais itens, daí resultando um elevado grau de dependência, cuja ruptura, vista por muitos como necessária, parecia, no entanto, quase impossível. 

(1) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 55.
(2) Mais tarde, nos primeiros tempos da República, com a suposta universalidade do voto para indivíduos do sexo masculino, muitos fazendeiros que admitiam trabalhadores livres vivendo como agregados em suas terras não hesitavam em fazê-los votar nos candidatos de sua preferência, mas seria pouco razoável comparar práticas de manipulação eleitoral com as relações de suserania e vassalagem que estabeleciam a obrigação de assistência recíproca em caso de guerra.
(3) Para as condições da época, a expansão da malha ferroviária foi notável. 


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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Tupinambás seriam bons franciscanos?

Quem veio com a ideia foi Gabriel Soares, autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Observando que os indígenas e, especificamente, os tupinambás, pareciam não ter um senso de propriedade privada muito apurado, já que estavam dispostos a compartilhar tudo o que tinham com seus companheiros, chegou a sugerir que esses nativos seriam ótimos franciscanos:
"Têm estes tupinambás uma condição muito boa para frades franciscanos, porque o seu fato e quanto têm, é comum a todos os da sua casa que querem usar dele, assim das ferramentas, que é o que mais estimam, como das suas roupas, se as têm, e do seu mantimento; [...] quando estão comendo, pode comer com eles quem quiser, ainda que seja contrário (¹), sem lhe impedirem nem fazerem por isso carranca." (²)
Percebam, leitores, que temos aqui um caso muito interessante do que chamaríamos "choque cultural": por um lado, Gabriel Soares espantava-se com a postura dos indígenas quanto à posse de coisas que, na lógica do colonizador, deveriam ser de uso individual; de outra parte, já que os nativos eram tão desapegados em relação aos bens materiais (assim é que seu comportamento estava sendo interpretado), talvez dessem bons franciscanos... 
Apenas como conjectura, devemos considerar a possibilidade de que Gabriel Soares quisesse, discretamente, sugerir que franciscanos, e não jesuítas, é que deveriam trabalhar na catequese dos tupinambás. Independente disso, o conceito de que os indígenas tinham um estilo de vida próprio, que devia ser respeitado, e que só a eles competia decidir sobre eventuais mudanças não fazia parte do panteão de ideias de um colonizador típico do Século XVI. Fica só uma dúvida: estará isso devidamente claro nesta segunda década do Século XXI?

Indígenas do Brasil com seus pertences (³)

(1) Isto é, inimigo.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 322.
(3) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 218.


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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pedro Vaz de Barros e a fartura de sua mesa

Hospedagem principesca nos tempos coloniais


Pedro Vaz de Barros, fundador da capela de São Roque, que deu origem à cidade de mesmo nome no Estado de São Paulo,  foi um dos homens mais ricos de seu tempo (segunda metade do Século XVII) - pelo menos é o que assegura a Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de A. Paes Leme. 
De acordo com o mesmo autor, a casa de Pedro Vaz de Barros vivia cheia de visitas. Como verão os leitores, não era para menos. A fim de manter satisfeitos os hóspedes que iam e vinham, era preciso uma cozinha eficiente, e que eficiência era essa! Conta a Nobiliarchia:
"Todos eram agasalhados com grandeza daquela mesa, na qual com muita profusão havia pão e vinho da própria lavoura, e as iguarias eram vitelas, carneiros e porcos, além das caças terrestres e voláteis, das quais os seus caçadores [...] conduziam com fartura, e por isso de tudo havia com abundância, e com tanta prevenção que, a qualquer hora da tarde que chegavam novos hóspedes, estava a mesa pronta, como se para estes fora conservada."
Pedro Taques escreveu a Nobiliarchia quando Pedro Vaz de Barros e seus contemporâneos já eram há muito falecidos, de modo que uma dose de exagero não pode ser descartada nessa história (*), mas os senhores leitores sabem muito bem que, naqueles tempos, não havia hotéis em terras do Brasil, e, por essa razão, era esperado que as pessoas que dispunham de recursos recebessem em casa os viajantes. Não ficava tal prática restrita à Capitania de São Vicente. Podia ser encontrada, por exemplo, nos engenhos de cana do Nordeste. Mas a fartura oferecida à mesa de Pedro Vaz de Barros devia ser pouco usual, ou Pedro Taques não iria falar dela com tanta admiração.
Menciona-se ainda, a respeito de Pedro Vaz de Barros, um detalhe curioso, que remete aos tempos em que, de portas adentro, era a língua indígena que predominava em São Paulo:
"Foi cognominado Grande, chamando-se-lhe assim pelo idioma brasílico: Pedro Vaz Guaçu, que quer dizer grande."
Ah, um outro detalhe, também da Nobiliarchia. Pedro Vaz de Barros, ou Vaz Guaçu, como queiram os leitores, ao contrário da regra geral de seu tempo, nunca se casou. Porém... Porém "teve vários filhos bastardos, havidos em diversas mulheres, que por todos foram nove". Para sua época, até que não foram muitos.

(*) Dizem que "quem conta um conto, acrescenta um ponto"...


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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Os feitores dos engenhos coloniais

A maioria dos dicionários define feitor como sendo o indivíduo que administra bens ou negócios em lugar do proprietário. Andei fazendo uma investigação informal, com gente de vários níveis de escolaridade, e constatei que, no imaginário popular do Brasil, a palavra está revestida de outro significado: para a maioria, é alguém que manda ou tem poder para impor a própria vontade, enquanto que alguns foram explícitos em fazer a ligação com o indivíduo que comandava o trabalho dos escravos. Embora a minha pesquisa, até pelo caráter de informalidade, não tenha nenhuma pretensão a rigor científico, é fácil verificar que o papel do feitor, como elemento responsável pela subordinação dos cativos nos locais de trabalho, acabou impregnando o vocábulo com um aspecto altamente pejorativo, que contraria a aparente neutralidade que os dicionários tendem a apresentar.
O padre André João Antonil, escrevendo no começo do Século XVIII, foi autor da famosíssima definição, segundo a qual os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho"; foi ele, também, quem comparou os feitores aos braços do senhor:
"Os braços de que se vale o senhor de engenho, para o bom governo da gente e da fazenda, são os feitores. Porém, se cada um deles quiser ser cabeça, será o governo monstruoso, e um verdadeiro retrato do cão Cérbero, a quem os poetas fabulosamente dão três cabeças." (¹)
Que comparação essa de Antonil! Cérbero era o cão mitológico que, para os gregos, guardava a entrada do mundo dos mortos - ou inferno, se quiserem...
A questão, aqui, é que Antonil era enfático em recomendar aos senhores que cuidassem em explicitar aos feitores os limites à autoridade, para que excessos não fossem cometidos (²):
"Eu não digo que se não dê autoridade aos feitores; digo que esta autoridade há de ser bem ordenada e dependente, não absoluta, de sorte que os menores se hajam com subordinação ao maior, e todos ao senhor, a quem servem. Convém que os escravos se persuadam que o feitor-mor tem muito poder para lhes mandar e para os repreender e castigar, quando for necessário, porém de tal sorte que também saibam que podem recorrer ao senhor e que hão de ser ouvidos, como pede a justiça." (³)
É difícil saber se, de fato, senhores tinham alguma preocupação com as arbitrariedades dos feitores. Como regra geral, o que importava era que, ao fim de cada safra, os lucros que o açúcar proporcionava fossem elevados. Porém, eventualmente, algum feitor podia "sair dos trilhos", suplantando a própria autoridade do senhor ou, pior ainda, dando motivo para uma revolta de escravos. Antonil sugeria, portanto, um expediente para acalmar o cativo injustiçado e dar a entender que o senhor não fechava os olhos para os erros dos feitores, sem, no entanto, reduzir a autoridade que lhes conferia: 
"Nem os outros feitores, por terem mando, hão de crer que o seu poder não é coartado, nem limitado, principalmente ao que é castigar e prender. Portanto o senhor há de declarar muito bem a autoridade que dá a cada um deles, e mais ao maior, e se excederem, há de puxar pelas rédeas com a repreensão que os excessos merecem, mas não diante dos escravos, para que outra vez se não levantem contra o feitor, e este leve a mal de ser repreendido diante deles, e se não atreva a governá-los. Só bastará que por terceira pessoa se faça entender ao escravo que padeceu, e a alguns outros dos mais antigos da fazenda, que o senhor estranhou muito ao feitor o excesso que cometeu, e que quando se não emende, o há de despedir certamente." (⁴)
Um feitor-mor, que na prática quotidiana era quem administrava um engenho, tinha uma série de encargos suficiente para mantê-lo muito ocupado. Sua lista de tarefas em nada ficaria devendo, em termos quantitativos, à do administrador de uma grande empresa na atualidade:
"Obrigação do feitor-mor do engenho é governar a gente e reparti-la a seu tempo, como é bem, para o serviço. A ele pertence saber do senhor a quem se há de avisar para que corte a cana, e mandar-lhe logo recado. Tratar de aviar os barcos e os carros para buscar a cana, formas e lenha. Dar conta ao senhor de tudo o que é necessário para o aparelho do engenho, antes de começar a moer, e logo acabada a safra, arrumar tudo em seu lugar. Vigiar que ninguém falte à sua obrigação, e acudir depressa a qualquer desastre que suceda, para lhe dar, quanto puder ser, o remédio. Adoecendo qualquer escravo, deve livrá-lo do trabalho e pôr outro em seu lugar, e dar parte ao senhor, para que trate de o mandar curar, e ao capelão, para que o ouça de confissão e o disponha, crescendo a doença, com os mais sacramentos para morrer. Advirta que se não metam no carro os bois que trabalharam muito nos dias antecedentes, e que em todo o serviço, assim como se dá algum descanso aos bois e aos cavalos, assim se dê, e com maior razão, por suas equipações, aos escravos." (⁵)
O trabalho do feitor-mor era complementado, na maioria dos engenhos, pelo de um feitor encarregado exclusivamente da moenda, havendo, também, feitores "dos partidos", ou seja, feitores encarregados de administrar as plantações de cana-de-açúcar.
O minucioso Antonil (⁶) ainda tratou de explicar qual deveria ser o salário anual dos feitores:
"Ao feitor-mor dão, nos engenhos reais, sessenta mil réis. Ao feitor da moenda, aonde se mói por sete e oito meses, quarenta ou cinquenta mil réis, particularmente se se lhe encomenda algum outro serviço, mas aonde há menos que fazer, e não se ocupa em outra coisa, dão trinta mil réis. Aos que assistem nos partidos e fazendas, também hoje, aonde a lida é grande, dão quarenta ou quarenta e cinco mil réis." (⁷)
É difícil determinar, com exatidão, qual era o poder de compra dos salários referidos, mas sabe-se que antes que o preço dos cativos chegasse às nuvens em decorrência da descoberta do ouro das Gerais, sessenta mil réis era o preço usual de um escravo forte e saudável. A conclusão óbvia é que, malgrado a autoridade de que era investido, da brutalidade no trato com os escravos que o caracterizava, do verdadeiro terror que impunha aos subordinados, um feitor era, afinal, também um indivíduo de baixa posição social. Trabalhava muito, tinha enormes responsabilidades, mas não via qualquer perspectiva de enriquecer com a renda que lhe cabia (⁸). Os verdadeiros lucros do açúcar iam para outros bolsos.

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 14.
(2) Vê-se, portanto, de onde é que vem o conceito popular da palavra feitor, a que me referi; o conselho dado por Antonil deixa entrever o fato de que os homens encarregados de comandar os escravos eram dados a cometer arbitrariedades.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 14.
(4) Ibid., pp. 14 e 15.
(5) Ibid., pp. 15 e 16.
(6) A obra de Antonil é valiosa, entre outros aspectos, porque preservou detalhes da vida nos engenhos que, de outro modo, talvez fossem perdidos para sempre.
(7) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 17.
(8) Antonil explicava, na mesma obra, que os capelães de engenho recebiam, anualmente, quarenta ou cinquenta mil réis, mais alimentação à mesa do senhor. Havia, em cada engenho, muitos outros trabalhadores livres.


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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Jangadas

Jangada ao mar... (¹)

Já faz bastante tempo, leitores, mas quando estava com uns sete anos, eu tinha de praticar uma lição de piano cuja letra dizia: "Minha jangada de vela, que vento, queres levar..."  Lembrando a cançãozinha irritante, trato hoje justamente das jangadas e, como não poderia deixar de ser, da importância histórica dos jangadeiros.

Jangadas indígenas

Dentre as embarcações usadas por indígenas do Brasil, as jangadas despertaram a curiosidade dos colonizadores europeus devido à simplicidade com que eram feitas, aliada à eficiência quando era preciso vencer as ondas na navegação costeira do Atlântico. Escrevendo no Século XVI sobre o fato de que os ameríndios eram hábeis na pesca, Pero de Magalhães Gândavo explicou, em sua História da Província de Santa Cruz:
"Também se sustentam de muito marisco e peixes que vão pescar pela costa em jangada, que são uns três ou quatro paus pregados nos outros e juntos de modo que ficam à maneira dos dedos da mão estendida, sobre os quais podem ir duas ou três pessoas ou mais se mais forem os paus, porque são muito leves e sofrem muito peso em cima d'água." (²) 
Quase um século mais tarde o jesuíta Simão de Vasconcelos descreveria a jangada dos indígenas de modo semelhante: 
"No mar usam por embarcação de jangada, que vem a ser três até quatro paus boiantes ligados entre si, onde levam linhas e anzóis, e pescam peixe grosso." (³)

A jangada indígena ganhou uma vela

Os leitores que conhecem as jangadas que ainda hoje andam em uso devem ter notado que nas descrições dos primeiros tempos coloniais falta alguma coisa - a vela. Vê-se, portanto, que houve, neste caso, uma fusão de elementos da cultura indígena e do conhecimento náutico que sobrava aos portugueses. Assim, a pequena embarcação usada pelos nativos ganhou um modo de tirar partido dos ventos. A nova versão foi muito bem descrita por François Biard, pintor francês que esteve no Brasil entre 1858 e 1859:
"Uma velazinha parece surgir de dentro do mar; caminha na nossa direção com vento a favor. Vemos apenas uma vela, sem sabermos qual o seu ponto de apoio. [...]. "São jangadas, diz-me ao ouvido um marselhês que vivia há anos em Buenos Aires. O senhor vai ver daqui a pouco como são embarcações seguras, embora não o pareçam." Efetivamente, era segura. Meia dúzia de paus amarrados entre si, um banco e, ao centro, um furo onde se fixava o mastro. Nada mais. Nessa espécie de embarcações não se vai ao fundo, é verdade, porém tem-se os pés sempre dentro d'água, e, às vezes, um pouco mais do que os pés." (⁴)

Jangadas e jangadeiros cearenses na luta abolicionista

Ocorre que as jangadas do Ceará e, naturalmente, os respectivos jangadeiros, tiveram participação importantíssima à época em que fervia a campanha abolicionista. Foi entre 1880 e 1881, e, para bom entendimento da questão, será preciso dizer que, nesse tempo, eram os jangadeiros que transportavam, desde os navios, aqueles passageiros que queriam ir à cidade de Fortaleza. Isto posto, vamos ao que explicou Osório Duque-Estrada, relativamente à ação antiescravista dos jangadeiros cearenses:
"Desde 1867, constituíra-se o Ceará em centro do comércio exportador de escravos para as províncias do Sul para onde seguiam constantemente, separados para sempre de filhos, esposas e mães, levas e levas de míseros escravizados. 
Francisco do Nascimento, que gozava de grande influência na sua classe, reuniu logo todos os jangadeiros e obteve deles o juramento de que nenhum escravo seria mais embarcado, para entrar ou para sair, no porto de Fortaleza." (⁵)
Com grande probabilidade, a maioria dos jangadeiros devia ser composta por gente de pouca instrução formal, o que torna ainda mais surpreendente o nível de consciência cívico-política de sua decisão. Ora, não satisfeitos com esse notável serviço que já prestavam ao Brasil, os jangadeiros foram além, e decidiram não desembarcar os deputados que haviam participado da articulação com vistas a impedir o que viria a ser a Lei dos Sexagenários (aprovada em 1885):
"Um telegrama de Fortaleza, publicado na Gazeta da Tarde, anunciava que os jangadeiros reunidos no dia 6 de agosto, haviam resolvido impedir o desembarque dos representantes do Ceará que votaram a moção contra o gabinete Dantas.
Esse fato deu lugar a sátiras e humorismo de quase todos os jornais ilustrados da época." (⁶)
Convenhamos: não era para menos!

(1) KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London: Longman, Hurst, Rees, Orme, and Brown, 1816. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 138.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 126.
(4) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 25.
(5) DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição. Brasília: Ed. Senado Federal, 2005, pp. 97 e 98.
(6) Ibid., p. 122.


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