sexta-feira, 30 de maio de 2014

A rotina dos escravos em uma fazenda produtora de café

Ao tempo em que, no Brasil, havia trabalho escravo, a manutenção da rotina diária era muito importante nas propriedades agrícolas, como forma de evitar rebeliões entre os trabalhadores submetidos a tão duras condições de vida. "Nada de novidades", parecia ser a regra fundamental.
O escravo recém-chegado era logo inteirado das obrigações que, quotidianamente, deveria executar, sempre sob os olhares atentos (e muitas vezes cruéis) dos feitores.
Isso não significa que todas as fazendas obedecessem à mesma rotina, mas havia uma certa semelhança, resguardadas diferenças decorrentes do tamanho da propriedade agrícola e do tipo de cultivo predominante.
Em visita ao Brasil (chegou em setembro de 1842), o Príncipe Adalberto da Prússia teve ocasião de ir até uma fazenda de café, não muito longe do Rio de Janeiro, a Capital do Brasil na época. Ali, fez um registro cuidadoso quanto à rotina dos escravos, observando horários que eram cumpridos, bem como a alimentação que recebiam:
"O trabalho na fazenda começa às quatro e meia da madrugada, depois de todos os escravos terem tomado café com açúcar. Às dez horas almoçam, constando o almoço de farinha de mandioca, arroz cozido ou milho. Às duas horas jantam e comem carne-seca (cuja maior parte vem de Buenos Aires) com arroz e farinha, se bem que na região costumam receber só carne e gordura de porco como alimentação animal comum, porquanto o transporte da carne-seca do Rio até aqui é muito caro." (¹)
Faço uma breve pausa para recordar a meus leitores o problema que, naqueles tempos, suscitavam os altos impostos com que era taxado o charque do Rio Grande do Sul que - tremendo absurdo - chegava a tornar mais vantajosa a importação de carne-seca da Argentina, como bem refere o autor de Brasil: Amazônia - Xingu. Mas é hora de prosseguir, já que, às duas da tarde, a jornada de um escravo estava longe de acabar. Continua o Príncipe Adalberto:
"Depois toca a trabalhar novamente até às sete horas da noite. Das sete às nove ceiam novamente arroz ou farinha de mandioca ou de milho, e de nove horas em diante é tempo de dormir; contudo em vez disto vêm as conversas em comum, quase sempre até depois da meia-noite." (²)

Colheita do Café (³)

O trabalho escorchante e a péssima alimentação resultavam em uma expectativa de vida quase sempre muito baixa para os escravos obrigados a ocupar-se das tarefas de cultivo. Agregue-se a isso o tempo insuficiente de repouso e ter-se-á uma visão aterradora do que era ser escravo, a despeito do lampejo de sociabilidade insinuado pelas conversas que seguiam noite adentro. Alguns anos mais tarde, com a proibição do tráfico de africanos no Brasil, os senhores teriam de preocupar-se um pouco mais com a sobrevivência de seus escravos. O preço das "peças" sofreria considerável elevação, dependendo apenas do mercado interno.
Melhorou assim a vida dos escravos? Pouco ou quase nada. Escravos eram sempre escravos, e na privação da liberdade pessoal estava centralizada a desgraça desses trabalhadores. O mais era apenas consequência.

(1) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 130.
(2) Ibid.
(3) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 177.


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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Como as índias faziam cerâmica

De acordo com Hans Staden (¹), alemão que esteve no Brasil no Século XVI, a técnica empregada por mulheres indígenas para a confecção das vasilhas de barro de que precisavam era a seguinte: primeiro o barro era bem amassado e, em seguida, moldado segundo a forma desejada e o uso a que se destinava; postas a secar, essas peças eram depois pintadas, isso segundo a tradição da tribo.
Devem perguntar, no entanto, os leitores que sabem algo da fabricação de vasos de argila: como eram queimadas as vasilhas? Sim, porque é a queima que dá a elas a durabilidade necessária!
Correto, em seguida vinha a queima. As peças, uma vez secas, eram colocadas sobre pedras, tendo-se o cuidado de, ao redor delas, fazer um monte de cascas de árvores. Punha-se então fogo nas cascas, deixando que se convertessem em brasas, para concluir a queima desejada.
Desse modo, terminava o engenhoso processo, que, com limitados recursos, permitia que se fizessem objetos de barro cuja finalidade, entre outras, podia ser para cozinhar, guardar ou ainda transportar alimentos.
É bom notar, porém, que esse processo se empregava, no Século XVI, entre indígenas do litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a diversidade de povos indígenas da América era, na época, considerável e, por consequência, era muito grande também a variação de técnicas empregadas por eles nas diversas tarefas diárias.

Cerâmica indígena, de acordo com Debret (²)

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os engenhos de açúcar foram responsáveis por grandes desmatamentos

Um engenho, para funcionar, precisava ter excelente maquinário, muitos escravos e grande quantidade de cana-de-açúcar para moer, certo?
Sim, mas era preciso muito mais. É o que diz André João Antonil (ou Giovanni Antonio Andreoni), o grande autor do Período Colonial, em se tratando da economia açucareira. Uma das maiores necessidades de um verdadeiro engenho era dispor de quantidades enormes de lenha para queimar:
"Querem as fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha, e para isso há mister dois barcos velejados, para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para a comprar; ou grandes matos, com muitos carros e muitas juntas de bois para se trazer." (*)
O que nos explica o excelente Antonil é que, antes de mais nada, um engenho não podia funcionar se não houvesse lenha suficiente para manter as fornalhas trabalhando. Assim sendo, um senhor de engenho tinha duas opções, devendo eleger aquela que, para si, fosse mais conveniente:
a) Não havendo matas por perto, era preciso comprar lenha que vinha de longe, sendo necessário ter dois barcos que a trouxessem dos portos. O detalhe interessante é que Antonil assevera que o revezamento desses barcos precisava ser contínuo, para garantir o suprimento indispensável. Havia ainda o inconveniente de que lenha custava caro e o senhor teria que gastar bastante com ela.
b) Uma outra possibilidade, acessível quando havia matas por perto, era ter os próprios escravos trabalhando no corte das árvores. Essa, no entanto, não seria a única despesa, já que a madeira cortada deveria ser transportada até o engenho, o que requeria carros e bois para a tarefa.
Em síntese, com matas por perto, a lenha viria em carros de bois; com matas distantes, a lenha viria em barcos. Teria de vir, de qualquer maneira, para manter o incessante labor das fornalhas. Os engenhos eram, de uma ou de outra forma, responsáveis por grandes desmatamentos.

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 2.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um copinho de vinho de Portugal

O Padre Fernão Cardim, em carta ao Provincial dos jesuítas, escreveu, a respeito do Colégio da Bahia:
"O Colégio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nele de ordinário sessenta; sustentam-se bem dos mantimentos, carnes e pescados da terra." (¹)
Quem quer que leia essa carta, relatando a situação dos jesuítas no Brasil na década de oitenta do Século XVI, terá a ideia de que, pelo menos na Bahia, nada faltava para conforto dos religiosos, mesmo porque em outros trechos da mesma correspondência, dava o padre mais detalhes sobre os numerosos alimentos então disponíveis.
Curiosamente, no entanto, acrescentaria, depois:
"Nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza, por a terra ser desleixada e os mantimentos, fracos [sic!!!]." (²)
Velhos hábitos, velhos hábitos...

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 13.
(2) Ibid.


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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre a comida que era servida nas hospedarias ao final da Estrada de Ferro D. Pedro II


Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II (¹)

Suponha, leitor, que estejamos no Século XIX; suponha, ainda, que tenha nos passado pela ideia percorrer a Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao fim dos (poucos) quilômetros que compõem o trajeto, estão os viajantes famintos. Eis a ocasião de um grande problema.
No Século XIX as hospedarias ou estalagens - chame como quiser - eram os locais em que se podia fazer uma refeição. Como não havia controle de preços e muito menos de qualidade, a higiene quase sempre passava longe das mesas e a conta, ao final, era absurda. Quanto à comida...
Só se achava o mais trivial, e isso com boa sorte. Há um depoimento da época, escrito por Augusto-Emílio Zaluar, que nos informa adequadamente:
"Um almoço de estalagem compõe-se ordinariamente do seguinte: arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho; e, quando o viajante se trata, acrescenta-se a esta lista uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. O jantar e a ceia são moldados pelo mesmo teor." (²)
Quem viaja atualmente pelo Brasil sabe que pode, na maioria dos aeroportos, achar refeições pelo menos razoáveis. Os preços, no entanto, não sei se por paixão pela História, têm o hábito de recordar os costumes dos Século XIX. Eis aí um tipo de "patrimônio histórico" que eu não acharia nada mau que viesse abaixo!

(1) Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II, de acordo com Sebastien Auguste Sisson. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 3.


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segunda-feira, 19 de maio de 2014

As comunidades nômades e o pastoreio

O nomadismo, nos tempos antigos, não era, para os que se dedicavam ao pastoreio, uma opção. Era, antes, uma necessidade. Quando ovelhas e/ou cabras consumiam todas as pastagens de um lugar, era preciso, a bem da conservação dos rebanhos, procurar outro espaço para viver.
Além disso, dependendo das condições climáticas, podia ser necessário mover os rebanhos de acordo com as estações do ano. As montanhas podiam ter bons locais de pastagem desde fins da primavera, por todo o verão e até começar o outono; porém, em se aproximando o inverno, era preciso conduzir os animais para as planícies, cujas temperaturas, em geral mais amenas, bem como os ventos menos intensos, faziam as nevascas mais toleráveis, em termos de sobrevivência, tanto para os pastores como para seus rebanhos. É importante lembrar que, em algumas regiões do mundo, essa prática de migração sazonal de pastores e rebanhos ainda persiste, e é denominada transumância.
Quer-se dizer, então, que povos dedicados ao pastoreio tinham, obrigatoriamente, que ser nômades?
Certamente não. A sedentarização era possível em áreas de pastagens mais férteis, com variações climáticas menos intensas ao longo do ano, nas quais a ocorrência de chuvas regulares possibilitava mais célere recuperação da cobertura vegetal, de modo que, nessas condições, bastava fazer, com os rebanhos, um rodízio nas proximidades de uma dada povoação, combinando o pastoreio com a agricultura, da qual, inclusive, podia vir um suprimento de forragem para o gado nos meses mais frios.
No entanto, em áreas menos férteis, a atividade pastoril precisava ser nômade. Esgotada uma pastagem, era indispensável desmontar as tendas e partir. Lá iam homens e rebanhos em busca de um novo local para viver, que tivesse grama verde e água - local que acabaria também abandonado quando, de novo, os pastos fossem totalmente consumidos.
E o que é que acontecia se diferentes grupos de pastores nômades se encontrassem e resolvessem disputar uma mesma área? Os senhores leitores têm bastante experiência quanto ao que é a natureza humana. Não é difícil imaginar. Negociações pacíficas seriam improváveis. O que variava, naqueles tempos, em relação aos nossos dias, era apenas a capacidade destrutiva, com as armas mais que rudimentares então disponíveis. O resto é muito parecido ao que vemos até hoje, embora as brigas da atualidade não sejam, usualmente, por bons pastos. A disputa pela água, no entanto, anda a frequentar a ordem do dia.


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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tucanos


Gosto dos tucanos. Têm um jeito alegre e xereta. Pelo menos é o que parece. Não sei se eles realmente são assim, ou se somos nós, humanos, que queremos ver nossas características nos outros seres vivos. Os nativos da América, bem como os europeus que, no Século XVI, colonizaram o Brasil, também achavam os tucanos muito interessantes, mas por outros motivos. Escreveu Gabriel Soares:
"Tucanos são [...] aves do tamanho de um corvo; têm as pernas curtas e pretas, a pena das costas azulada, a das asas e do rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo..." (¹)
Descrição rebuscada, essa, que, no entanto, não contempla o fato de serem muitas as espécies de tucanos. Retomando o "frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo", Gabriel Soares acrescentou: "...o qual os índios esfolam para forro de carapuças." (²)
Dizia mais:
Tucano, de acordo com ilustração do
Século XVII (⁴)
"Têm a cabeça pequena, o bico branco e amarelo, muito grosso, e alguns são tão compridos como um palmo [...]. Criam estes pássaros em árvores altas, e tomam-nos novos para se criarem em casa; os bravos matam os índios à flecha, para lhes esfolarem o peito, cuja carne é muito dura e magra." (³)
A circunstância de saber como era a carne de um tucano faz supor que Gabriel Soares a havia experimentado, embora possa ter escrito apenas por ouvir falar. Não chega isso a ser surpresa, já que em tempos coloniais, e mesmo adiante, papagaios eram apreciados para uso culinário. Por que não tentariam o mesmo com tucanos?

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 226.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.