sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Férias escolares no Século XVI

Nos próximos dias, quase todos os estudantes brasileiros estarão deixando os estabelecimentos de ensino para as férias de verão. Dificilmente haverá tempo mais aguardado no ano, é não é de hoje que é assim. Em um documento datado de 31 de dezembro de 1585 e que é atribuído ao padre José de Anchieta, ficamos sabendo que nos colégios que os jesuítas tinham no Brasil, as férias escolares aconteciam nos meses de dezembro e janeiro:
"Das férias gozam os estudantes em dezembro e janeiro. Os estudos começam em 4 de fevereiro." (¹)
Entre as razões para as férias nessa época estavam os festejos associados ao Natal e ao Ano-Novo e as altas temperaturas de dezembro e janeiro, consideradas desfavoráveis aos estudos (²).
Há mais de quatrocentos anos, portanto, as férias escolares acontecem na mesma época, e é pouco provável que alguém esteja seriamente interessado em introduzir alguma mudança. Quem foi que disse que coisas antigas sempre devem dar lugar a inovações? 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 425.
(2) Alguém discorda?


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Portugal e Holanda na luta pelo Nordeste açucareiro

Robert Southey, historiador britânico que escreveu longamente sobre o Brasil, observou, em relação à tentativa holandesa de ocupação do Nordeste açucareiro e correspondente luta da população de origem portuguesa para manter o controle do território, que "duas nações se disputavam um império não menor em extensão do que a Europa civilizada, e nunca de ambos os lados chegaram as forças a quinze mil homens." (¹)
É difícil determinar com exatidão o número de homens mobilizados pela Insurreição Pernambucana; empregava-se a tática de guerrilhas, eram numerosos os chefes locais, além dos "grandes nomes", é claro, e havia gente que ia e vinha do "exército", sempre que a conveniência e/ou a necessidade requeria sua presença nos engenhos. Não obstante, pode-se considerar que, em linhas gerais, a ideia de Southey está correta, se entendermos que esse autor queria simplesmente dizer que, nem entre holandeses, nem entre portugueses, as tropas eram muito numerosas.
Por quê?
A lista de razões pode incluir vários motivos, dentre os quais:
  • A população de origem europeia era ainda reduzida no Brasil;
  • As viagens da Europa à América eram difíceis e o custo para aparelhar uma frota era muito elevado;
  • Sendo Portugal e Holanda países territorialmente pequenos, não dispunham de um enorme excedente populacional que pudessem remeter para a luta no Brasil;
  • Para suprir a falta de um exército essencialmente holandês, a Companhia das Índias Ocidentais tinha por costume contratar mercenários de diversas nacionalidades, gente que em várias ocasiões se dispôs a "trocar de lado", sempre que o inimigo insinuasse pagar um soldo mais interessante ou oferecesse alguma outra vantagem;
  • Para formar os corpos de combatentes que lutaram para expulsar os holandeses de Pernambuco eram recrutados quaisquer homens que pudessem pegar em armas, o que significa que a maioria não tinha formação militar e teve de aprender o ofício no próprio calor da luta;
  • Para suprir a falta de soldados, os comandantes de ambos os lados incluíam indígenas e escravos africanos em suas forças, mas, em caso de derrota, eram eles, geralmente, os que mais sofriam, já que africanos eram sempre reconduzidos à escravidão e indígenas, como regra, eram sumariamente degolados.
A dúvida que talvez esteja em mais de uma cabeça é: Por que, afinal, portugueses e holandeses estavam dispostos a vir de tão longe para disputar essa região da América? Vejamos, então, que a causa do confronto, em seu nível primário, estava relacionada a uma questão puramente comercial. Vender açúcar na Europa era muito lucrativo, e, se fosse possível controlar diretamente a produção açucareira, os lucros seriam ainda maiores. Sim, havia outros fatores, mas eram secundários, e, portanto, subordinados a este aspecto mercantil. 
É verdade que a Companhia das Índias Ocidentais iniciou a ocupação de Pernambuco em 1630 (²), tendo tardado uma reação no Reino porque, nesse tempo, ainda vigorava a chamada União Ibérica, e há que se reconhecer que a Coroa Espanhola, envolvida em outras questões, não deu ao assunto a importância que talvez merecesse; mais tarde, após a Restauração da independência lusitana (³), a situação política de D. João IV na Europa era por demais frágil, impossibilitando uma reação vigorosa da diplomacia portuguesa ao tratar da questão do Brasil diante de representantes da Holanda. Entende-se, pois, ao menos em parte, por que é que a guerra para expulsar as forças holandesas foi travada quase que inteiramente por "brasileiros" - sim, "brasileiros" que, nesse tempo, ainda viam a si mesmos como sendo estritamente portugueses. Tinham razões pessoais e econômicas para querer a Companhia das Índias Ocidentais bem longe do Brasil e, diante das oscilações do jogo político europeu, assumiram a iniciativa da luta, mesmo contra instruções expressas da Coroa, crendo que, com isso, prestavam um serviço a seu rei (⁴), o qual supunham não estar devidamente inteirado da situação da guerra no Brasil. 
Vejam, leitores, que é muito pouco razoável tentar forçar a existência, nessa ocasião, de algum sentimento "nativista" ou "independentista". Eram outros os interesses que moviam a gente que foi à luta na chamada Insurreição Pernambucana. 

Mapa do Recife ao tempo da presença holandesa em Pernambuco (⁵)

(1) SOUTHEY, Robert. História do Brasil vol. 2. Rio de Janeiro: Garnier, 1862, p. 365.
(2) Durou até 1654.
(3) 1640.
(4) Argumentos religiosos eram também parte do discurso com que se procurava compelir a população de origem portuguesa a entrar na luta.
(5) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 16.


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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Alfabetização de adultos no Brasil do Século XIX

O anúncio em si, que apareceu na edição de 1871 do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro (¹), já seria interessante pelo que oferecia - em um país cuja população de analfabetos era algo entre 80 e 90%, um professor se dispunha a dar aulas noturnas para adultos que quisessem aprender a ler e escrever. Mais ainda, as aulas eram gratuitas. Não era só: segundo o mesmo anúncio, o professor fornecia todo o material necessário. Era isso na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Passa Três (²). O nome do anunciante era Francisco Melchior Gonçalves, professor público. 


Observem, leitores, que as aulas, uma iniciativa do professor e não do Estado, eram ministradas três vezes por semana, entre as 18 e as 20 horas. 
Sabe-se que esse dedicado alfabetizador não era o único a empreender a dificílima tarefa de ensinar adultos (há registros, em alguns lugares, de professores que admitiam até escravos nas aulas noturnas). Digo dificílima tarefa, sim, porque a maioria das pessoas que vivia em localidades rurais ou pequenas povoações achava que podia passar a vida comodamente, ainda que não tivesse nenhuma instrução. Como convencer gente assim a gastar as horas de descanso em estudos?
O fato é que, nas cidades, as coisas, de boa ou má vontade, logo iriam mudar. De trabalhadores urbanos seria gradualmente requerida alguma instrução, ainda que seja fato reconhecido que, nesse tempo, havia pessoas até nos altos cargos do Império (³) - grandes senhores rurais, em particular - em tão crasso analfabetismo quanto haviam chegado ao mundo. Percebe-se, então, que, como em muitos outros aspectos, a melhoria na instrução pública viria mais por pressão do desenvolvimento urbano e, com ele, da industrialização, com sua exigência por mão de obra capacitada, que propriamente por alguma brilhante iniciativa governamental. Surpreendente? Nem um pouco. A escolarização de crianças até avançou bastante no Século XIX, se comparada à existente nos tempos coloniais, mas estava ainda longe de alcançar um patamar aceitável. Como esperar, então, um panorama muito diferente quanto à educação de adultos?

(1) HARING, Carlos Guilherme. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1871. Rio de Janeiro: E & H Laemmert, 1871.
(2) Hoje, a localidade é distrito do município de Rio Claro, Estado do Rio de Janeiro.
(3) No Senado, por exemplo, que, diga-se de passagem, era vitalício. 


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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Por que alguns povos da Antiguidade gostavam de repolho

Repolho-roxo é roxo devido à presença de antocianinas. Exatamente por isso, a criançada das escolas costuma usá-lo para fazer um indicador ácido-base caseiro. Bem, a coisa parece mais obra de cozinha que de laboratório de química (embora esses dois lugares tenham muito em comum), mas é necessário preparar uma espécie de suco de repolho (essa ideia não soa bem...), que pode ser usado para testar uma série de substâncias. Ordenadas de acordo com o pH, as várias amostras obtidas apresentam um resultado colorido, e os jovens estudantes entendem que estão fazendo descobertas notáveis. Em seu crescimento intelectual, estão mesmo.
Pois bem, meus leitores, os povos da Antiguidade não sabiam nada sobre indicadores ácido-base, pH, antocianinas, mas tinham suas razões, culinárias ou não, para cultivar repolho. Os egípcios, gregos e romanos gostavam muito dessa crucífera: os primeiros, pelo sabor, os dois últimos, por um motivo supostamente medicinal. É que se dizia que o repolho, e em particular o de folhas roxas, era um recurso eficiente para impedir os malefícios que se seguiam à ingestão de bebidas alcoólicas. Tolice, é evidente. Apenas mais uma superstição, dentro do rico arsenal de bobagens que o combate à embriaguez tem suscitado ao longo dos séculos. 


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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Macacos das florestas brasileiras

Cairara da Amazônia

Descrevendo as florestas brasileiras, Alphonse de Beauchamp observou, em obra publicada na segunda década do Século XIX:
"Os macacos viajam por meio destes labirintos selvagens, e neles se balançam pela cauda." (¹)
De fato, no imaginário popular, as florestas brasileiras estavam cheias de macacos, de modo que quem ousava enfrentar as dificuldades inerentes às viagens no Século XIX tinha a ideia de que logo iria topar, aqui e ali, com bandos de primatas irrequietos e barulhentos. No entanto, dependendo da região que alguém visitasse, a expectativa podia ser frustrada. Os macacos estariam lá - como não? - mas sem o estardalhaço imaginado. Um relato feito por Elizabeth Cary Agassiz (²) é bom exemplo:
"Nós nos deixamos ir por um igarapé abaixo, encantador, e pela primeira vez pude ver macacos trepados nas árvores, à beira d'água. Quando se chega ao Amazonas, imagina-se que se vão ver tais animais tão frequentemente como entre nós os esquilos; mas, embora sejam numerosíssimos, é bem raro que os consigamos ver de perto, tão grande é o medo que eles têm." (³)
Macaco-prego
A pesquisadora americana não estava errada. Ainda hoje, os macacos da Amazônia parecem menos ruidosos que os de outras áreas do Brasil, como eu mesma já constatei. Duvido, no entanto, que o silêncio seja resultante do medo da aproximação de humanos. É mais aceitável que seja precaução, para evitar uma exposição indevida a predadores. A Floresta Amazônica, como muitos têm notado, parece, às vezes, demasiado silenciosa, a despeito da vibrante explosão de vida que lá se encontra.
Por outro lado, há lugares em que os macacos não só fazem uma algazarra incrível, como são até muito amistosos. Um dia desses fui a um lugar, no Brasil Central, no qual sabia haver boa chance de encontrar uma porção de primatinhas. Estava preparando meu equipamento de fotografia quando um deles, comendo alguma coisa, veio em minha direção. Acreditem, leitores: a criaturinha gentilmente estendeu a mão, mostrando uma lagarta, como que perguntando se eu queria participar do lanche. Respondi: Obrigada, acabei de almoçar. Bom apetite!...
Não iria perder a oportunidade de registrar o momento. Meu simpático amiguinho está aí, na foto acima à esquerda, para que vocês possam conhecê-lo.

(1) BEAUCHAMP, Affonso de. História do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Régia, 1818, p. 85.
(2) Participou da Expedição Thayer, nos anos 1865 e 1866.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 227.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Como os tupinambás festejavam a volta de alguém que fizera uma viagem

Culturas diferentes têm diferentes respostas a situações semelhantes. Verdade, leitores? 
Vejamos. Vários autores dos dois primeiros séculos de colonização do Brasil referiram que indígenas, em particular os tupinambás, tinham um modo muito estranho de recepcionar uma pessoa que, em razão de uma viagem, estivera ausente por longo tempo. Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, foi um dos que descreveram o tal hábito:
"Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora, em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócoras diante dele a chorá-lo em altas vozes, em o qual pranto lhe dizem as saudades que dele tinham com sua ausência, os trabalhos que uns e outros passaram, a que os machos lhes respondem chorando em altas vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam às velhas que se calem, ao que estas obedecem." (¹)
Ora, leitores, para a mentalidade ocidental do Século XXI essa recepção que faziam os tupinambás parece um absurdo - se estavam felizes pelo regresso do amigo, por que é que choravam? É bastante provável que quisessem reforçar a coesão de seu grupo, mostrando quanto era preferível estar em casa, entre parentes e amigos, a viver longe, em outras terras.
Mas não era só. A choradeira era ainda maior, no caso de um recém-chegado que percorrera grande distância:
"Se o chorado vem de longe, o vêm chorar desta maneira todas as fêmeas mulheres daquela casa, e as parentes, que vivem nas outras, e como acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas, e trazem-lhe de comer, em um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o que ele assim deitado come; e como acaba de comer lhe vêm dar as boas-vindas todos os da aldeia um a um, e lhe perguntam como lhe foi pelas partes por onde andou [...]." (²)
Podemos considerar que, quanto ao hábito de oferecer alimento para quem retornava de uma viagem, talvez houvesse uma intersecção cultural entre colonizadores europeus e tupinambás. Mas parava aí. O pranto dos índios parecia estranhíssimo aos portugueses, para quem o choro incontido quase sempre expressava tristeza, e não alegria. Engraçado, mesmo, é que nem colonizadores escapavam, eventualmente, de tão ruidosa celebração. Quando europeus e ameríndios andavam em bom relacionamento e o escambo prosperava, não era raro que a chegada dos "comerciantes", com seus espelhos, pentes, ferramentas e adornos baratos, fosse também homenageada com muitas lágrimas, para dizer o quanto a vida era ruim antes que eles viessem. Pensem nisso, leitores, da próxima vez que encontrarem amigos ou parentes que não veem há muito tempo...

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 323.
(2) Ibid., pp. 323 e 324.


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