sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Para garantir que Nero tivesse ouvintes

Nero, imperador romano, gostava de cantar em público


Nero (¹) 
Nero, o imperador romano, achava que era um grande cantor. E, como tal, supunha, também, que qualquer pessoa ficaria encantada por ouvi-lo, horas a fio, sem mesmo se dar conta da passagem do tempo. Na prática, contudo, era preciso forçar a permanência do público que ia ao teatro para ouvir as canções, não do imperador, mas daqueles que eram cantores de verdade. Direto ao assunto: as portas eram trancadas e muito bem vigiadas, para que ninguém ousasse sair por elas, afoitamente, tão logo os verdadeiros profissionais terminavam o canto, para não ter de suportar a tortura auditiva proveniente da voz imperial. Valiam, de acordo com Suetônio, até algumas estratégias pouco dignas para escapar:
"[...] Há quem afirme que durante o espetáculo, houve mulheres que deram à luz (²); alguns, já cansados de ter de ouvir e aplaudir, pularam o muro, enquanto outros fingiram que haviam morrido, para que fossem levados dali para o enterro." (³)
Enquanto isso, quase sempre com acompanhamento de um instrumento de cordas, Nero cantava, cantava, e era aplaudido. Ai se não fosse!

(1) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 183. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Porque não tinham permissão para sair, em busca de lugar mais adequado e com a devida assistência de uma parteira.
(3) SUETÔNIO, De vita Caesarum, Livro VI. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Sobre mamões e mamoeiros

Mamão papaia

Mamoeiro, conforme
ilustração do Século XVII (¹) 
Quando alguém quer dizer que uma coisa é fácil de ser feita, afirma que é "como mamão com açúcar". Pois bem, nem mamão, nem açúcar, faltavam no Brasil Colonial.
Não é tarefa simples descrever uma fruta para alguém que não a viu ou provou. Comparações são inevitáveis, e podem ser mais ou menos felizes. Já tratei disso aqui no blog quando escrevi sobre o modo como europeus e americanos descreveram as jabuticabas. Mas, e quanto ao mamão papaia?
Há uma descrição muito interessante feita por Nieuhof, que esteve no chamado "Brasil holandês" entre 1640 e 1649 - Século XVII, portanto:
"Entre os vegetais que proliferam tanto nas Índias Ocidentais como nas Orientais, acha-se o que os japoneses e holandeses chamam papaia e os americanos apelidam mamoeiro e pinoguaçu; os nossos às vezes chamam árvore de melão dada a semelhança de seu fruto com o nosso melão. Há duas qualidades dessa árvore: macho e fêmea. Cresce e morre em curto espaço de tempo. Seu tronco é de tal forma esponjoso que se pode cortá-lo com a mesma facilidade com que se corta um talo de couve. [...]." (²) 
Mamoeiro
É preciso perdoar a Nieuhof certa confusão entre as várias espécies de mamão. O papaia (Carica papaya) é que é nativo do Continente Americano, mas há variedades de mamão originárias de outras regiões. Para dizer a verdade, não acho o sabor do mamão papaia nada semelhante ao de qualquer variedade de melão que eu conheça. Mas essa era a opinião de Nieuhof, e é necessário respeitá-la. 
Em seguida, Nieuhof passa a descrever as folhas do mamoeiro e mais algumas características dos frutos:
"[...] As folhas são grandes e largas e assemelham-se às da videira, desenvolvendo-se na ponta de longas hastes em torno do topo, onde protegem os frutos, que nascem agrupados. Estes, verdes, quando novos, tornam-se finalmente amarelos e têm o formato de uma pera; seu porte, entretanto, é o de um melão pequeno cuja polpa também lembra, tanto em cor como em paladar, quando maduros. Quando verde, coze-se com a carne a fim de dar-lhe certo gosto picante." (³) 
Não tenho muito a opinar sobre o uso de mamão verde com carne porque sou vegetariana, mas amigos me asseguraram que o "leite" de papaia ainda verde pode mesmo ser útil no preparo de carnes para churrasco. Estou certa, contudo, de que se pode fazer excelente doce com a polpa de mamões verdes, que ganharão um sabor maravilhoso se, além do açúcar de alta qualidade, receberem, durante o preparo, algumas folhas de figueira, exatamente do mesmo modo como os doces que se faziam em fogões a lenha em fazendas do Século XIX. O que me dizem, leitores?

(1) Cf. PISO (PIES), Willen et MARKGRAF Georg. Historia naturalis BrasiliaeAmsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. São Paulo: Livraria Martins, s.d.,  p. 292.
(3) Ibid. 


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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Por que Jano tinha duas faces

Jano era um deus romano que conhecia o passado e o futuro


Contavam os antigos romanos que o deus Saturno fora expulso do céu por ninguém menos que Júpiter. Procurando um lugar em que pudesse se estabelecer, Saturno teria sido recebido com cordialidade na Itália, cujo rei, na ocasião, chamava-se Jano. 
Lendas são lendas! Mas era assim que os romanos explicavam a origem de muitos de seus conhecimentos agrícolas e de algumas leis que os regiam - teriam sido um presente de Saturno. A recompensa do deus peregrino, contudo, não ficou só nisso. O próprio rei Jano foi agraciado com um poder notável - ou seria um superpoder? - de conhecer o passado e prever o futuro. Essa era, portanto, a razão que fazia a gente romana da Antiguidade representar esse deus menor com duas faces, voltadas para direções opostas. 
Numa Pompílio, segundo dentre os reis lendários de Roma, teria, ao reformar o calendário, dado ao décimo primeiro mês o nome de janeiro, em honra do deus de duas faces. No nosso calendário a sequência dos meses é outra e, assim, o mês de Jano, janeiro, passou a ser o primeiro do ano. Em memória dessa lenda romana, recordemos que não é preciso um superpoder para conhecer o passado. Com estudo e pesquisa, é possível desvendar os mistérios de outros tempos. Já quanto ao futuro...


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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Em 2024

No último dia 25 este blog completou quatorze anos. É muito tempo, se pensarmos que a maioria dos blogs não chega nem perto disso. 
Estamos entrando, portanto, no décimo quinto ano de História & Outras Histórias, e, para comemorar, teremos algumas novidades, ou, pelo menos, faremos o possível para que elas aconteçam. Haverá um número maior de postagens a cada semana, e, quase sempre, os textos serão um pouco menores do que têm sido até aqui. Quem tiver pouco tempo para leitura, não terá pretexto para deixar de ler. Novos textos estarão disponíveis às segundas, quartas e sextas-feiras, a partir das dez horas. Como sempre, comentários serão bem-vindos. 
Talvez essas mudanças sejam uma maneira gentil de começar a dizer adeus - se eu efetivamente mantiver o blog ativo até seu décimo quinto aniversário. Não é assunto completamente decidido, mas algo em que tenho pensado bastante. Talvez seja hora de partir para novos projetos. 
Mas, deixando esse assunto de lado agora, quero desejar a todos os que leem este blog um ano-novo maravilhoso, em que os desafios sejam oportunidades para grandes realizações. Que venha 2024!


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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Feliz Natal!

"Não é hoje Natal? Quero hoje viver no pleno repouso do espírito.
Demais, esta janela põe-me em comunicação com a natureza. Como está bonito o dia! É em honra do nascimento do Salvador, não? E virá o desejado de todas as gentes. É do profeta."
Machado de Assis, O Último Dia de um Poeta.

A maioria das culturas, tanto do passado quanto da atualidade, teve ou tem um conjunto de celebrações, algumas alegres (talvez até demais), outras tristes. Todas servem, entre várias razões, para afirmar valores e assinalar a passagem do tempo.
O Natal está chegando. Para nós, ocidentais, tem (ainda) um significado religioso, que parece estar perdendo sentido, não só pelo aspecto comercial que cada vez mais se atribui à data (e não é de hoje...), mas pela própria perda da religiosidade, seja no âmbito pessoal ou social. São mudanças, é fato. Inevitáveis? Não sei. 
Então, a vocês que leem este blog, quaisquer que sejam seus motivos para festejar, desejo um feliz Natal, com familiares, amigos queridos. Com presentes - por que não? - e, em meio a tudo isso, um pouco de reflexão quanto ao sentido da data, que possa resultar em mais solidariedade, respeito e compaixão, coisas de que o mundo necessita com urgência. 


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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Fogo sagrado

O fogo sagrado foi elemento importante na religião de diversos povos da Antiguidade


Inúmeros povos da Antiguidade tiveram, entre suas práticas religiosas, a conservação do fogo sagrado, cuja origem era atribuída aos deuses ou a algum fenômeno natural, também de origem divina. Segundo palavras de Plutarco, ao traçar a biografia de Numa Pompílio (¹), "entre os povos de várias nações, existiu o costume de conservar, religiosamente, o fogo perpétuo que, em alguns lugares, foi até considerado de origem divina, para ser adorado." (²)
Apesar disso, às vezes o fogo supostamente eterno se apagava. Plutarco apontou, em Vitae parallelae, ter sido o caso em Delfos, durante as guerras contra os persas, porque o templo foi queimado - "o fogo profano extinguiu o sagrado" -, e em Roma, por ocasião da guerra contra Mitridates e também durante as guerras civis. A ira popular não poupou nem mesmo o altar em que ardia o fogo sagrado. 

No Egito

Nos templos dos antigos egípcios, como também nos de muitos outros povos, competia aos sacerdotes a conservação do fogo sagrado. Do templo mais próximo é que as famílias de cada localidade obtinham a chama para o fogo sagrado doméstico. Contudo, o fogo familiar não era, entre os egípcios, algo que se deveria manter aceso a qualquer custo. Era intencionalmente apagado quando alguém da casa morria, e depois aceso novamente, uma prática facilmente explicável pelas crenças dos egípcios quanto à vida após a morte. Procedimento semelhante ocorria a cada ano, quando se fazia a celebração geral em memória dos mortos.

Na Grécia

Os antigos gregos, ao menos em algumas localidades, além do fogo sagrado nos templos, tinham, por tradição, uma festa em que se acendiam fogueiras em algum lugar especial consagrado aos deuses. Nessas fogueiras eram oferecidos sacrifícios de animais, além de simulacros de pessoas - uma lembrança, talvez, dos sacrifícios humanos, felizmente assim substituídos por bonecos. 
No processo de expansão territorial que levou à formação da Magna Grécia, grupos de gregos deixavam uma localidade já insuficiente para a população e iam formar uma colônia. Na partida, levavam consigo o fogo que haviam acendido no templo da cidade de origem, e que deveria, na nova povoação, ser aceso no templo que se construísse, como um símbolo do vínculo perpétuo entre as cidades. 

Em Roma

As famílias patrícias de Roma conservavam, não só por religião, mas como fator de distinção social, um altar doméstico em cujo fogo eram oferecidos alimentos, supostamente para os ancestrais mortos, e diante do qual também se realizavam outras cerimônias. Na religião do Estado, porém, competia às vestais a conservação do fogo sagrado. No dizer de Plutarco, foi Rômulo, o lendário fundador da cidade, quem ordenou que "às virgens vestais competisse a manutenção permanente do fogo sagrado, embora muitos autores [romanos] tenham atribuído a consagração do fogo a Numa Pompílio." (³) 

(1) O segundo rei lendário de Roma, de quem se dizia ser um homem extremamente sábio e religioso.
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Cigarros antigos

"Achar um sistema que habilite a gente a compor uma sinfonia enquanto fuma um cigarro de Sorocaba, é realmente descobrir a pedra filosofal."
Machado de Assis, DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 26 de setembro de 1864

Propaganda de cigarros publicada
em 1926 (*)
No Brasil Colonial havia quem chamasse o tabaco de "erva santa". 
Tendo aprendido o uso das folhas da planta da qual se faz o tabaco a partir do contato com indígenas, colonizadores perceberam que era possível extrair disso uma fonte de lucro, e foi assim que, com o correr do tempo, o tabaco se tornou um produto importante de exportação do Brasil, e não só durante os séculos coloniais. Quem duvidar disso deve dar uma olhadinha no brasão do Império. 
É compreensível que, durante algum tempo, poucos notassem que o consumo de tabaco podia causar danos, embora não tardasse a haver quem denunciasse o aspecto ruim dos dentes dos que o mascavam, além do cheiro desagradável nas roupas e até na moradia dos usuários. O desenvolvimento da ciência demonstrou que fumar traz danos inquestionáveis à saúde, e os fumantes, hoje, têm plena consciência dos resultados que poderão colher no futuro. Mas já houve até quem defendesse o contrário, alegando vender cigarros que, supostamente, seriam úteis em caso de moléstias respiratórias, como se vê no anúncio ao lado, que apareceu na revista carioca O MALHO, edição de 25 de dezembro de 1926. Fake News não são coisa apenas do nosso século.

(*) O MALHO, Ano XXV, nº 1267, 25 de dezembro de 1926. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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