segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A lenda da Serra dos Martírios

É difícil determinar com exatidão quando nasceu a lenda relativa à "Serra dos Martírios", mas há quem defenda a ideia de que Bartolomeu Bueno da Silva, o famoso bandeirante conhecido como Anhanguera, afirmava tê-la avistado quando, ainda na infância, fizera parte de uma bandeira comandada por seu pai. Durante uma tempestade horrenda, os homens, apavorados, teriam encontrado abrigo em um lugar de onde se descortinava uma serra, no topo da qual, resplandecendo ao fulgor dos relâmpagos, podiam ser vistos, moldados no mais fino ouro, os instrumentos da crucifixão de Jesus: a coroa de espinhos, os pregos e, naturalmente, a própria cruz. Portanto, sob a perspectiva dessa lenda, as expedições que levaram Bartolomeu Bueno, já homem feito, a descobrir o ouro de Goiás, seriam apenas o resultado de sua obsessão por rever os Martírios e a serra riquíssima em metais preciosos que julgava estar em sua base. 
Ora, meus leitores, podemos já fazer algumas considerações. Primeiro, não é inconcebível que a gente religiosa (à própria moda, é certo) dos Séculos XVII e XVIII desse asas à imaginação, interpretando à luz de suas fantasias qualquer simulacro que avistasse à distância, mesmo que embaçado por uma chuva intensa. Quem conhece o relevo do Centro-Oeste brasileiro sabe muito bem da existência de formações que, à semelhança das figuras que supomos ver nas nuvens, podem ser comparadas àquilo que se quiser. Aqueles eram tempos de misticismo, e mesmo indivíduos com um currículo de maldades notável, como tinham quase todos os bandeirantes, achavam-se algo predestinados à descoberta de riquezas incalculáveis para si mesmos e para as cabeças coroadas do Reino. Fama, glória, honra, ouro, ouro, ouro... 
Demais disto, é inegável que na lenda dos Martírios há uns resquícios das lendas medievais relacionadas à procura do Santo Graal. Velhas tradições amalgamavam-se ao desejo irreprimível de encontrar metais preciosos.
O que teria feito Bartolomeu Bueno, ou qualquer outro bandeirante, com coroa de espinhos, pregos e cruz em ouro maciço se os houvessem encontrado? Bem, jamais saberemos a resposta, porque, como é óbvio, a lendária Serra dos Martírios nunca foi localizada. Curioso é que, mesmo no Século XIX, ainda houvesse gente à sua procura. Hércules Florence, desenhista francês que participou da Expedição Langsdorff (¹), escreveu em seus registros de viagem:
"Uns seis anos atrás subira um padre chamado Lopes esse rio (²) à procura de uma pretensa serra denominada Os Martírios, vista, por antigos sertanistas que a proclamavam a mais rica em ouro de todo o Brasil. Ora, se serra existe, de longe há de ser avistada e nessa ninguém pôs os olhos: o padre Lopes, intrépido explorador, debalde a procurou. [...] Depois de sofrer fome, perder gente em combate, de febres e por deserção de vários [...], teve que retrogradar." (³)
Com o tempo, até os mais crédulos entenderam que a existência da Serra dos Martírios não passava de uma lenda, que nem poderia ser rotulada de piedosa. Sim, na aparência tinha uns traços de religiosidade, mas quem arriscava a própria carcaça indo à sua procura, tinha, quase sempre, interesses bem pouco devotos.

(1) A viagem completa da Expedição ocorreu entre 1825 e 1829.
(2) Rio dos Peixes.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 221.


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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Ferrovias perigosas

Vistas como um símbolo de progresso, as primeiras ferrovias também despertavam medo


A implantação de ferrovias introduziu um novo pavor entre a população das áreas cortadas pelos trilhos: era a possibilidade de que alguém, ao atravessá-los, não tivesse a rapidez suficiente, ou mesmo que ficasse com os pés presos entre os dormentes e, não conseguindo sair a tempo, acabasse estraçalhado por uma locomotiva. E olhem, leitores, que aqueles eram tempos em que as pequenas composições circulavam a alucinantes trinta ou quarenta quilômetros por hora!
Vou compartilhar com vocês uma história - real, ao que parece - que teria acontecido na primeira década do Século XX, ou talvez no começo da segunda. Eu a ouvi, há bastante tempo, de uma velhinha, que me falava de suas memórias de infância.
Foi em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Havia lá um professor que dava aulas aos meninos que frequentavam a escola primária, e que era verdadeiramente odiado. Entende-se, porque aqueles eram tempos em que bolos de palmatória ou uns bons cascudos eram vistos como excelente recurso pedagógico, e nem mesmo os pais se importavam muito se os filhos voltavam para casa choramingando por algum castigo excessivo. Era até provável que uma reclamação resultasse em mais alguns tabefes. 
Pois bem, o tal professor (Borges era seu nome), quando ia para a escola, precisava atravessar os trilhos da ferrovia, daí resultando que, entre os meninos, não era raro ouvir algum dizendo: "Lá vem o Borges, mas um dia desses o trem ainda pega esse maldito professor, e aí é que nós vamos ver!"
Leitores, sem mais delongas e cerimônias, registro aqui o que me dizia a velhinha contadora de histórias - não é que certo dia o desejo dos alunos acabou por virar realidade? 
É óbvio que havia risco, e ainda há, em atravessar os trilhos de uma ferrovia, e atender às leis de trânsito é vital para a segurança. Os administradores das antigas ferrovias sabiam disso, e recorriam a um instrumento que costuma ser bastante eficaz para garantir boa conduta, ou seja, estipulavam uma multa para os desobedientes. Vejam só esta placa, que pertenceu à Companhia Mogiana de Estradas de Ferro:


Para os padrões da época, a quantia de cinco mil réis era um "dinheirão". Tenho, porém, curiosidade em saber como seria possível notificar eventuais infratores e fazer a cobrança...


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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Poder absoluto, crueldade sem limite

Muitos monarcas da Antiguidade governavam com autoridade ilimitada, mesmo quando havia algum tipo de conselho de anciãos ou senado que podia ser ouvido. Isso acontecia por várias razões, dentre as quais:

  • a) A maioria das monarquias estava associada às crenças religiosas do respectivo povo, de modo que o rei era visto como um representante dos deuses, às vezes como o mais importante dos sacerdotes, ou, eventualmente, como uma autêntica divindade em figura humana;
  • b) Politicamente, os reis podiam ser representantes de um determinado grupo da sociedade, que lhe garantia apoio e sustentava as decisões em troca de vantagens econômicas significativas (como ocorria, por exemplo, em relação à camada sacerdotal no Egito Antigo);
  • c) O exército de um determinado povo era, frequentemente, um sustentáculo importante para os monarcas, mantendo, pela força, a autoridade do governante, embora, em alguns casos, pudesse significar também a ruína de um rei ou imperador desagradável aos homens de armas (aconteceu uma porção de vezes no Império Romano);
  • d) Apesar de absolutos, os monarcas também se mantinham no poder quando adotavam medidas favoráveis aos interesses de uma parte considerável da população, e não apenas de uma determinada camada da sociedade - poucos iriam gastar o cérebro em questionar a falta de participação política se, economicamente, as coisas andassem muito bem.

Acontece que, não raro, os monarcas-quase-deuses eram (ou, se não eram, vinham a ser, com o passar do tempo), pessoas muito cruéis, até como resultado do poder ilimitado de que dispunham. Veremos apenas um exemplo, bastante útil para elucidar esse ponto. Veremos? Leitores, só prossigam se tiverem estômago. Mas, já que chegaram até aqui, é melhor seguir em frente.
Dario I, rei dos persas, estava, segundo conta Heródoto, ultimando os preparativos para uma guerra, quando foi procurado por um amigo, cujos três filhos estavam no exército. Pedia ao rei que ao menos um dos rapazes fosse dispensado, para que ele não ficasse sozinho em casa, ou para que não acontecesse, na eventualidade de que os três viessem a morrer em combate, ficasse ele sem sucessor. Dario, com mostras de compreensão, disse ao pai aflito que isso não seria problema, já que daria ordens imediatamente para que nenhum dos rapazes fosse à guerra. Aliviado, o amigo aparentava satisfação, quando veio a perceber que o rei cumpriu mesmo a promessa: os três jovens foram degolados, e, por consequência, nenhum deles teve de ir ao campo de batalha. 
Não podemos ter certeza de que as coisas de fato aconteceram assim, mas não há dúvida de que a naturalidade com que historiadores e/ou cronistas da Antiguidade relatavam cada ação cruel atesta que, afinal, decisões brutais por parte de monarcas eram coisa mais ou menos corriqueira, embora houvesse gente de "segundo escalão" que, para provar que também tinha poder, perpetrava, quando podia, grandes maldades. Sêneca, o filósofo e professor de Nero (que discípulo, não?), contava de um procônsul que, parecendo ter grande ideia de si mesmo, dizia que, em um só dia, teria feito executar nada menos que trezentas pessoas. 
O que acontecia quando um rei era modelo acabado de perversidade? O povo suspirava pelo dia de sua morte, intrigas palacianas às vezes redundavam em assassinato (perpetrado até por membros da própria família real) e, menos comum, o monstrinho em forma humana acabava deposto, aprisionado e/ou executado. Tudo isso apenas para ser, talvez, substituído por alguém ainda pior. É só lembrar de algumas sucessões na Roma Antiga.
O problema, já se vê, era a concentração de autoridade decisória nas mãos de uma só pessoa. Para sorte da maioria, um rei podia ser justo, generoso, preocupado com o bem-estar dos súditos, magnânimo na guerra e na paz. No pior dos cenários, podia ser um crápula ensandecido. Os leitores que conhecem um pouco de História não terão qualquer dificuldade em determinar de que lado pendia balança. O mundo teria que esperar até o Século XVIII para ver, nas ideias de Montesquieu, a estrutura formal de pensamento segundo a qual uma divisão de poderes era imprescindível para limitar a autoridade de quem exerce o mando e (se possível) evitar desmandos.


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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Missionários jesuítas como pesquisadores do território brasileiro no Século XVI

Quem vem primeiro à sua mente, leitor, quando se fala em exploradores e descobridores de riquezas no Brasil Colonial? 
Navegadores? Condenados a degredo? Náufragos? Bandeirantes?
Inclua em sua lista os missionários jesuítas, porque também eles andaram a investigar territórios nos quais, segundo se presume, jamais europeus haviam pisado, como foi o caso do interior da Capitania de São Vicente. Tinham suas expedições facilitadas porque contavam com o auxílio de indígenas, detentores de certo conhecimento da região. Como quase não havia caminhos terrestres, era frequentemente através de rios que viajavam e, nesse sentido, a existência do Tietê, um rio que corre rumo ao interior e não para o oceano, foi de grande valia.
Suas viagens eram empreendidas, primariamente, com o objetivo de fazer contato com grupos indígenas isolados que pretendiam catequizar. Na explicação de Anchieta, em carta escrita em São Vicente a 12 de junho de 1561, e tendo por destinatário o Geral dos jesuítas Diego Lainez, os missionários viajavam e visitavam os índios "por suas aldeias, parte pelos rios, parte por terra, com não pequeno trabalho [...]". (¹)
É certo que havia perigo nessas viagens. Na mesma carta dizia Anchieta que os caminhos para quem ia de São Vicente a Piratininga (²) eram "mui ásperos e despovoados, onde não há conversação senão dos tigres (³), cujas pisadas achamos muitas vezes frescas, por onde passamos" (⁴). 
Mas não era só. Sendo a neblina, às vezes, tão intensa, era possível que alguém se perdesse em meio ao arvoredo. Seguimos ainda com a carta de Anchieta:
"Uma vez, depois de termos corrido todas as igrejas, partimos delas por terra mui de manhã, por poder vir à missa, que era domingo, e um irmão saiu adiante, o qual assim por saber mal o caminho, como pela grande escuridade das nuvens, que muito tempo do ano duram quase até dez horas e são frigidíssimas, pensando caminhar para casa, tomou o caminho em contrário e perdeu-se, sem achar caminho até quase meio-dia, que se desfez de todo a névoa [...]." (⁵)
Eventualmente jesuítas, na condição de capelães, acompanhavam expedições que iam ao interior. O padre Aspilcueta Navarro, segundo menção do também padre Simão de Vasconcelos, integrou, no Século XVI, uma entrada ao sertão, cuja meta era descobrir jazidas de metais preciosos. O próprio missionário é que pediu ao superior que entrasse em ação para que a ele, Aspilcueta Navarro, fosse dado lugar entre os expedicionários: 
"[...] Pede ao padre Nóbrega se aproveite da ocasião e o mande a ele com título de capelão daquela gente em busca de almas (pois outra semelhante não se acharia facilmente) e a explorar aqueles sertões e denunciar por eles a fé de Cristo, e que por esta via se faziam dois serviços, juntamente a Deus e ao rei, que não tinha capelão que mandar." (⁶) 
Procurariam ouro também os jesuítas? Muita especulação já se construiu a respeito, majoritariamente após a expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e de seus domínios em 1759, quando se pretendia justificar a medida com base em um suposto interesse dos missionários em construir um império na América. Entretanto, em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga em 1554, Anchieta dizia:
"[...] Agora finalmente se descobriu uma grande cópia de ouro, prata, ferro e outros metais, até aqui inteiramente desconhecida (como afirmam todos), a qual julgamos ótima e facílima razão, de que já por experiência estamos instruídos." (⁷)
Quem descobriu? Onde? Anchieta não diz, e há quem afirme que as tais minas teriam sido encontradas pela expedição chefiada por certo Francisco Bruza de Espiñosa. Se for esse o caso, as descobertas não valiam grande coisa, mas nessa expedição é que esteve o padre Aspilcueta Navarro como capelão. Já se vê, portanto, que, de um ou outro modo, os jesuítas podem ser contados entre os que exploraram o território brasileiro, ainda que, quase sempre, tivessem por objetivo principal a catequese, ao contrário de outros expedicionários, que assumiam declaradamente o propósito de descobrir riquezas minerais em razão do lucro que trariam.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 166.
(2) Caminho do Mar.
(3) Onças.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 165.
(5) Ibid., p. 167.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 72.
(7) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 49.


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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Como eram despachados os diamantes que iam para Portugal

Comboio de diamantes passando por Caeté, de acordo com M. Rugendas (¹)

Desde a descoberta de jazidas de diamantes no Brasil (no atual Estado de Minas Gerais), o Distrito Diamantino foi administrado com grande severidade. Durante algum tempo o governo português fez concessão do direito de exploração a particulares, porém mais tarde passou a administrar a área diretamente. O sistema de controle estrito durou décadas, cabendo ao Intendente, governante máximo naquele território, uma autoridade absoluta, desde que enquadrada nos regulamentos estipulados no famoso "Livro da Capa Verde", nome algo folclórico dado pelo povo ao Regimento Diamantino.
Em linhas gerais, pode-se dizer que a administração direita pela Coroa foi um grande fracasso. Os métodos empregados na extração de diamantes eram arcaicos e, malgrado a vigilância que se alardeava onipresente, o contrabando atingia níveis altíssimos. Quem saberá dizer quanto diamante do Brasil terá chegado às casas especializadas na Europa, sem que deles a Coroa tivesse qualquer conhecimento?
No entanto, a burocracia campeava. Os diamantes oficialmente extraídos, quando de seu envio ao Reino, passavam por registro escrupuloso, conforme explicou Joaquim Felício dos Santos em suas Memórias do Distrito Diamantino:
"As partidas de diamantes extraídos eram remetidas para Lisboa pelo Rio de Janeiro em cofres fechados e lacrados na presença do intendente; de cada remessa se lavrava um termo no livro competente, destinado para esse fim. Deste termo se tiravam três cópias: uma que se remetia aos diretores, outra ao inspetor-geral do erário e outra que ficava em poder dos caixas para sua descarga." (²)
Devidamente escoltados por guarda numerosa, os diamantes saíam das Minas e eram levados ao Rio de Janeiro, de onde davam adeus à terra de origem. Pela administração equivocada, tamanha riqueza não fazia a prosperidade nem do Reino e nem do Brasil Colonial.

(1) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, p. 173.


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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Guido d'Arezzo, as notas musicais e uma lição de piano nada agradável

Não longe daqui uma menininha de sete anos martela, pela milésima vez, sua lição de piano. Bate as teclas com entusiasmo (ai!), e cantarola as notas, dizendo seus nomes com a duração correspondente. Ela não tem a menor ideia de que a nomenclatura das notas musicais nasceu na Idade Média, mais precisamente na virada do primeiro para o segundo milênio, quando um monge italiano, Guido d'Arezzo, quis tornar menos penosa a vida dos aprendizes e, para facilitar a memorização, usou um canto sacro antigo e muito conhecido, cuja composição é atribuída a Paulo Diácono (¹), o Hino a São João Batista, no qual os cantores pediam que o dito santo purificasse seus lábios para que pudessem cantar melhor:

Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Iohannes

Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... Com a pequena modificação de Ut para Dó, feita séculos mais tarde por uma questão de eufonia (²), tem-se a nomenclatura adotada até hoje em boa parte deste planeta, embora não seja a única. 
Guido d'Arezzo foi um teórico muito influente, não só em seus dias, mas também nos séculos posteriores. Já mereceria aplausos, no entanto, ainda que só tivesse inventado os nomes das notas musicais.
A menina continua a torturar o piano. Miserere nobis...

(1) Paulo Diácono viveu no Século VIII; existe alguma controvérsia quanto à autoria do Hino a São João Batista que, convencionalmente, lhe é atribuída.
(2) Quem acha que isso não tem importância deve tentar solfejar usando Ut em lugar de Dó.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tarefas diárias impostas aos escravos

Escravo descansando,
de acordo com Thomas Ender (²)
Escravos, como se sabe, não recebiam salários (¹) pelo trabalho que faziam e, como é óbvio, nunca seriam demitidos se não fossem eficientes. Portanto, proprietários de escravos adotavam algumas estratégias para extrair de seus cativos a maior quantidade de trabalho possível, evitando que a falta de estímulo pecuniário tornasse indolentes os trabalhadores. 
Tarefas mínimas que deviam ser cumpridas a cada dia, ou, em alguns casos, semanalmente, eram estipuladas, e os leitores não terão dificuldade em imaginar o que sucedia ao escravo que não realizasse o trabalho requerido - disso falaremos mais adiante. Nos engenhos açucareiros do Brasil Colonial, por exemplo, as tarefas eram impostas durante o corte da cana, e, segundo Antonil, os senhores acenavam aos escravos com a possibilidade de algum tempo livre, tão logo realizassem a quota diária:
"Consta o feixe de doze canas, e tem por obrigação cada escravo cortar em um dia sete mãos de dez feixes por cada dedo, que são trezentos e cinquenta feixes, e a escrava há de amarrar outros tantos com os olhos da mesma cana, e se lhes sobejar tempo, será para o gastarem livremente no que quiserem, o que não se concede na limpa da cana, cujo trabalho começa desde o sol nascido até o sol posto, como também em qualquer outra ocupação que se não dá por tarefa." (³)
Também nos engenhos havia tarefa para os escravos encarregados de cortar a lenha que mantinha em funcionamento as caldeiras e outros equipamentos:
"Tem obrigação cada escavo de cortar e arrumar cada dia uma medida de lenha alta sete palmos e larga oito, e esta é também a medida de um carro, e de oito carros consta a tarefa." (⁴)
O procedimento de impor a cada escravo uma quota a ser extraída vigorou, como regra, nas minas, tanto de ouro como de diamantes. O problema é que em jazidas muito ricas era facílimo obter o "jornal", ou seja, a tarefa diária, enquanto que em outros lugares, com baixo rendimento, os cativos tinham grande dificuldade em dar conta daquilo que se considerava sua "obrigação". Embora venha de pouco depois da independência, uma explicação de Hércules Florence, relativa ao Diamantino, pode perfeitamente ser estendida à maior parte das regiões mineradoras no Período Colonial:
"Ora, como em parte alguma pode-se furtar tão facilmente como em minas, ainda debaixo dos olhos do próprio dono, podem os pretos sonegar diamantes, donde resulta que os mineiros se veem forçados ou a empregarem um feitor que os engana ou fixarem aos escravos um tanto por dia que obrigatoriamente eles têm que dar. Quase sempre segue-se o segundo alvitre, isto é, impor ao negro a obrigação de dar por semana um diamante de 4$800, devendo ele sustentar-se e vestir-se com o excedente que achar. Se encontrar uma pedra de grande valor, tanto melhor para ele, coisa rara contudo hoje, acontecendo muito pelo contrário não conseguir no trabalho, nem sequer com o que pagar o tributo ao senhor." (⁵)
Já na cafeicultura praticada desde as primeiras décadas do Século XIX, o trabalho era dividido em duas partes, sendo a primeira relacionada à manutenção ordinária do cafezal e a segunda relativa aos dias de colheita.
Em geral os grandes cafeicultores entendiam que cada escravo devia ser plenamente capaz de cuidar de pelo menos mil cafeeiros, limpando o mato, removendo galhos secos, etc. Foi o que observou Saint-Hilaire, ao viajar, pouco antes da Independência, pelo Vale do Paraíba: 
"Calcula-se que um negro possa cuidar de mil cafeeiros [...]." (⁶)
Mas esses eram tempos em que, por assim dizer, a cafeicultura brasileira ainda engatinhava. O aumento das áreas cultivadas levaria os proprietários a exigir mais de seus escravos, que deviam cuidar dos cafezais e também de outros cultivos que a fazenda porventura tivesse, de acordo com a Arte da Cultura e Preparação do Café:
"Importa muito que os cafeeiros sejam divididos em quadrados de mil pés, número que um trabalhador pode tratar facilmente, e um bom trabalhador pode mesmo cultivar dois mil pés de café, sem lhe ser penoso à cultura da demais lavoura." (⁷)
Vinha, então, a época de safra, e era aí que a tarefa diária era imposta também nos cafezais, conforme explicação do segundo Barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck:
"A colheita varia conforme a abundância da fruta; se esta for rara ou desigual, um apanhador não pode às vezes dar mais do que um a três alqueires (⁸); porém se for abundante ou tornar-se toda madura, então deve a tarefa passar a cinco, seis e sete alqueires." (⁹)
Para o mesmo autor, era importantíssimo que, a cada dia, fosse verificado o cumprimento da "obrigação" de cada escravo, daí ter concluído:
"Às horas de medir, que deve ser ao entrar do sol, o administrador deve estar presente a fim de fazer castigar aqueles que não deram a tarefa, que se deve graduar conforme o estado do café e as forças do indivíduo." (¹⁰)

(1) O fato de que alguns proprietários de escravos, para estimular o trabalho, ofereciam eventualmente pequenos prêmios em dinheiro, não caracteriza, em hipótese alguma, trabalho assalariado.
(2) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 44.
(4) Ibid., p. 60.
(5) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 200 e 201.
(6) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 119.
(7) CUNHA, Augustinho Rodrigues. Arte da Cultura e Preparação do Café. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1844, p. 33.
(8) O alqueire era uma medida antiga de capacidade (havia alqueire também para a medida de áreas), com valor variável de um lugar para outro. O chamado alqueire paulista equivalia a 40 litros. 
(9) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 52 e 53.
(10) Ibid., p. 53.


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