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terça-feira, 26 de maio de 2020

A velocidade das locomotivas a vapor no Século XIX

O que é velocidade estonteante? A resposta dependerá não só da velocidade em si, levando em conta fatores fisiológicos, mas da época em que se vive, com suas percepções de rápido e lento peculiares. 
Tomemos como exemplo as locomotivas que percorriam ferrovias no Brasil na segunda metade do Século XIX. Muita gente tinha medo delas. Mas a quanto, afinal, ousavam correr? Uma publicação datada de 1875 oferece a seguinte resposta:
"As locomotivas empregadas pela Companhia Paulista são inglesas, [...] fabricadas por J. Fowler: têm dois eixos conjugados [...] e vencem, ordinariamente, trinta quilômetros por hora." (¹)
Locomotiva a vapor na Estrada de Ferro
D. Pedro II, 1881 (²)
Já as Baldwin, utilizadas pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, ofereciam uma experiência algo mais emocionante, em termos de velocidade:
"As locomotivas da Companhia Mogiana são americanas, da acreditada fábrica Baldwin, e de dois tipos diversos, para carga e passageiros.
[...]
Em 27 de agosto [de 1875] a máquina do trem inaugural venceu a distância entre Campinas e Mogi à razão de trinta e cinco quilômetros por hora, termo médio.
No dia seguinte, das cinco às seis horas da manhã, a velocidade média foi de quarenta a quarenta e três quilômetros por hora, verificada a relógio por profissionais, que fizeram a viagem de ida e volta na frente da máquina." (³)
Não seria, mesmo, para arrepiar os cabelos de ninguém. Mas, em 1875, era surpreendente.

(1) CÂMARA, J. Ewbank da. Caminhos de Ferro de S. Paulo e a Fábrica de Ipanema em Agosto de 1875. Rio de Janeiro: G. Leuzinger & Filhos, 1875, p. 5.
(2) A imagem original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) CÂMARA, J. Ewbank da. Op. cit., pp. 14 e 15.


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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Duas pontes do Século XIX

1. Ponte articulada na Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (Iperó - SP)


Com partes metálicas e partes em madeira, esta ponte articulada foi feita na Inglaterra, de onde veio para ser instalada na Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema. Afirma-se que, como ela, só existe mais uma. 

Ponte articulada - Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema
Detalhe da ponte articulada, com partes metálicas e partes de madeira

2. Pontilhão da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (Monte Alegre do Sul - SP)


Fabricada nos Estados Unidos pela Keystone Bridge Company (Pittsburgh - Pa), esta ponte data de 1887 e era parte da malha ferroviária da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Vê-se, pela foto, que trilhos e dormentes foram retirados, já que Companhia Mogiana deixou de existir.

Pontilhão da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Ferrovias perigosas

Vistas como um símbolo de progresso, as primeiras ferrovias também despertavam medo


A implantação de ferrovias introduziu um novo pavor entre a população das áreas cortadas pelos trilhos: era a possibilidade de que alguém, ao atravessá-los, não tivesse a rapidez suficiente, ou mesmo que ficasse com os pés presos entre os dormentes e, não conseguindo sair a tempo, acabasse estraçalhado por uma locomotiva. E olhem, leitores, que aqueles eram tempos em que as pequenas composições circulavam a alucinantes trinta ou quarenta quilômetros por hora!
Vou compartilhar com vocês uma história - real, ao que parece - que teria acontecido na primeira década do Século XX, ou talvez no começo da segunda. Eu a ouvi, há bastante tempo, de uma velhinha, que me falava de suas memórias de infância.
Foi em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Havia lá um professor que dava aulas aos meninos que frequentavam a escola primária, e que era verdadeiramente odiado. Entende-se, porque aqueles eram tempos em que bolos de palmatória ou uns bons cascudos eram vistos como excelente recurso pedagógico, e nem mesmo os pais se importavam muito se os filhos voltavam para casa choramingando por algum castigo excessivo. Era até provável que uma reclamação resultasse em mais alguns tabefes. 
Pois bem, o tal professor (Borges era seu nome), quando ia para a escola, precisava atravessar os trilhos da ferrovia, daí resultando que, entre os meninos, não era raro ouvir algum dizendo: "Lá vem o Borges, mas um dia desses o trem ainda pega esse maldito professor, e aí é que nós vamos ver!"
Leitores, sem mais delongas e cerimônias, registro aqui o que me dizia a velhinha contadora de histórias - não é que certo dia o desejo dos alunos acabou por virar realidade? 
É óbvio que havia risco, e ainda há, em atravessar os trilhos de uma ferrovia, e atender às leis de trânsito é vital para a segurança. Os administradores das antigas ferrovias sabiam disso, e recorriam a um instrumento que costuma ser bastante eficaz para garantir boa conduta, ou seja, estipulavam uma multa para os desobedientes. Vejam só esta placa, que pertenceu à Companhia Mogiana de Estradas de Ferro:


Para os padrões da época, a quantia de cinco mil réis era um "dinheirão". Tenho, porém, curiosidade em saber como seria possível notificar eventuais infratores e fazer a cobrança...


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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Preservação do patrimônio histórico: exemplo ruim, exemplo bom

Detesto quando alguém me diz: "Tenho duas notícias, uma boa e uma ruim. Qual você quer ouvir primeiro?"
Entretanto, leitor, vou fazer algo parecido. Tenho dois exemplos de preservação do patrimônio histórico para mostrar, um ruim e um bom, e vou contar a você nessa ordem porque, afinal, em uma perspectiva otimista, espero que o bom, vindo por último, tenha mais chance de perdurar.
Águas da Prata é uma adorável cidadezinha no interior de São Paulo, próxima à divisa com Minas Gerais. Como quase todo mundo sabe, é famosa pelas fontes de água mineral, pelo clima, pelas trilhas na mata, pelo bolo de milho...
Pois bem, como centro turístico que é, seria muito importante que seu patrimônio histórico merecesse toda a atenção. Seria. Placas por toda a cidade dizem que "preservar seus pontos turísticos é a medida da civilidade de um povo". Mas o caso é que, pelo menos no que se refere à estação ferroviária local, não é o que acontece.
Vamos começar pela placa de identificação do prédio. Veja você mesmo, leitor, e tire suas conclusões.


Antes de alguma outra coisa, o texto é de causar alergia instantânea em qualquer professor de português, por mais modesto que seja. Além disso, nele não consta a data de inauguração do trecho correspondente pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro - presumo que seja 1886, porque foi nesse ano que o ramal ligando Aguaí (então chamada Cascavel) a Poços de Caldas, em Minas Gerais, foi inaugurado, o que, incluiria, necessariamente, a passagem por Águas da Prata.


Tratemos agora do estado de conservação do prédio. Não preciso de muitas palavras, as fotos falam por si mesmas. E, para meu espanto, há no local uma outra placa, datada de dezembro de 2008, identificando-o como "Espaço Cultural de Águas da Prata". O mínimo que posso dizer é que já passou da hora de haver uma restauração decente, comandada por profissionais especializados, que deem à antiga Estação Ferroviária um aspecto capaz de orgulhar a população pratense, além de encantar os turistas.


Agora, leitor, o exemplo positivo de preservação do patrimônio histórico. Veja só a foto. Se você for um pouco mais velho, talvez isso lembre algo bom de sua infância, dos tempos da televisão em preto e branco.


A viatura, lindamente restaurada, está estacionada ao lado do posto da polícia rodoviária estadual, na saída de Águas da Prata em direção a São Paulo. Só por isso, já é uma tentação parar para fazer uma foto, mas vale acrescentar ainda o excelente atendimento do policial rodoviário de plantão. É bonito de se ver, para crianças e adultos, e obviamente contribui para fazer brilhar a imagem da polícia rodoviária junto à população.
Como eu disse, um exemplo ruim e um bom. Que o bom prevaleça.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Primeira ponte de concreto armado do Estado de São Paulo completa 100 anos

Inaugurada em 3 de maio de 1910, a primeira ponte de concreto armado construída no Estado de São Paulo está prestes a completar cem anos. E, é bom acrescentar, em pleno uso, como as fotos demonstram.



A ponte, com 28 metros de comprimento, está localizada na cidade de Socorro, possibilitando a passagem sobre o Ribeirão dos Machados. Foi construída pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro para facilitar o acesso à estação ferroviária de Socorro que, ao contrário do costume da época, estava algo distante do centro da cidade. Longa vida à ponte!

terça-feira, 16 de março de 2010

Pichadores não deixam em paz nem a locomotiva de Jaguariúna


Novamente, leitor, o assunto é a preservação da memória ferroviária.
Já visitou o Museu Ferroviário em Jaguariúna? É passeio para um fim de semana, pois a viagem completa da "Maria-Fumaça" leva cerca de três horas e meia. Mas, se não dispuser de tanto tempo, só a visita ao museu e à locomotiva e carro de passageiros estacionados defronte a ele já valem a pena. Estão muito bem restaurados e o atendimento no museu é ótimo. Tudo muito educativo para as crianças e interessante para os adultos.
Mas, oh! Que descubro eu? Ao fazer umas fotos do interior da mencionada locomotiva, percebo que nem mesmo aqui os engraçadinhos que amam aparecer tiveram respeito. Veja a foto pequena aí ao lado e conclua se tenho ou não razão.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Esqueceram-se da placa!



Ainda em  minha ida a Monte Alegre do Sul (veja a postagem anterior), visitei uma ponte da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, datada de 1887, que se encontra em excelente estado, depois de passar por restauração mais ou menos recente. Entretanto, leitor, eis que observo um fato insólito: esqueceram-se da conservação da placa de identificação existente no local.
Paciência! Ao menos Dona  Aranha, que lá reside, cuida dela. Zelosamente.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O conjunto arquitetônico em taipa e a Ferrovia Mogiana em Monte Alegre do Sul


Igreja do Senhor Bom Jesus
Casario em taipa
Estive visitando no domingo, dia 14, a pequena cidade de Monte Alegre do Sul. Meu interesse era ver o casario de taipa, datado de fins do Século XIX e início do Século XX. Como esperava, o estado de conservação, no geral,  não é dos melhores, mas foi divertido percorrer as ruas estreitas que nos trazem lembranças de outros tempos. Monte Alegre do Sul tem clima muito agradável e está situada no vale do rio Camanducaia, rodeada pelas elevações da Serra da Mantiqueira. A Igreja do Senhor Bom Jesus, ponto central do conjunto arquitetônico, está bem cuidada e, pelo que pude ver, não apresenta, ao menos externamente, nenhuma descaracterização significativa.
Fui depois ver a antiga estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, desativada, pelo que soube, em 1966. Lá funciona agora a Biblioteca Municipal e, defronte dela, há uma máquina a vapor (fabricada em 1910) e um carro de passageiros, excepcionalmente bem restaurados e conservados. Uma beleza!
Locomotiva da Cia. Mogiana
Tudo quase perfeito? Infelizmente não.
Às vezes me pergunto: quando será que as autoridades competentes vão barrar os pichadores irresponsáveis, que detratam o já combalido patrimônio histórico?
Em uma cidade cuja população residente é de mais ou menos seis mil habitantes, não deveria ser difícil, a despeito do grande movimento de turistas, controlar eventuais engraçadinhos (que, aliás, não têm graça nenhuma), que se acham no direito de arruinar a pintura de casas particulares e edifícios públicos. E, como se não bastasse, há ainda a mão, seguramente bem intencionada, de alguém que, tentando preservar, acabou descaracterizando o belo conjunto de locomotiva e carro de passageiros da extinta Mogiana ao colocar, coladas com durex, advertências para impedir o acesso indevido.
Gostaria de acreditar que medidas educativas poderiam convencer os pichadores a irem em busca de alguma forma legítima de expressão, mas não consigo ter essa inocência. É preciso que medidas punitivas sejam devidamente aplicadas.

Imagens do descuido com o patrimônio histórico

Por outro lado, não há dúvidas de que o poder público tem condições de adotar providências adequadas para promover a conservação e divulgação da memória ferroviária, sem a necessidade de recorrer a soluções prosaicas como as tais advertências coladas com durex ou a estranha amarração com arame das entradas da máquina e do carro de passageiros. Cuidando disso, a pequena e agradável Monte Alegre do Sul só terá a ganhar.


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