sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Copistas de música

Já pensaram, leitores, em quantos anos da vida dos grandes compositores foram gastos em escrever música à mão sobre papel pautado? Gostassem os mestres ou não, era parte de seu ofício, ainda que alguns tivessem uma caligrafia horrorosa. Outros eram exemplos de perfeição (¹). 
Assim que uma nova peça musical era concluída, o compositor, como regra, entregava a partitura aos copistas, que se encarregavam de fazer tantas cópias quantas fossem necessárias aos músicos encarregados da execução. Essas cópias, naturalmente, eram também feitas à mão. Que trabalho!
É verdade que alguns copistas eram estudantes de música que tinham, assim, a oportunidade de ganhar algum dinheiro, mas havia copistas profissionais. E, para quem tem a curiosidade de saber se tudo isso valia também para o Brasil, basta ver este anúncio que apareceu na página 521 da edição de 1854 do Almanaque Laemmert (²):


Quem encomendava cópias? Compositores, executantes profissionais, estudantes e, por suposto, músicos amadores, que precisavam de partituras para os saraus domésticos, tão comuns como prática de sociabilidade entre a elite da capital do Império do Brasil. É óbvio que há séculos havia música impressa, mas, no caso do Brasil, nem sempre era fácil obter a peça desejada, pela dependência de importações. Mais trabalho para os copistas, portanto. Hoje isso seria qualificado como pirataria.
A era digital mudou tudo. Ficou mais fácil escrever música e copiar partituras, que são agora perfeitamente legíveis, podem ser prontamente impressas e estão menos sujeitas a imperfeições, já que pequenos erros de quem digita são logo "denunciados" pelo software em uso. É pouco provável que alguém ainda lamente a desaparição do ofício de copista de música.

(1) Basta, quanto a esse aspecto, comparar partituras autógrafas de Mozart e de Beethoven.
(2) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854, p. 521.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mosquitos

Durante muito tempo, ninguém associou mosquitos à transmissão de doenças


Mosquitos são detestáveis. Alguém discorda? São incômodos. Mas não é só. Podem transmitir uma quantidade enorme de doenças e, várias delas, letais. Povos antigos sofriam com a presença deles - Heródoto relatou que os antigos egípcios usavam redes para combater as hordas invasoras de mosquitos, que teimavam em adentrar casas e templos. Nós, do Século XXI, estamos longe de domar esses monstrinhos minúsculos.
Os colonizadores que, no Século XVI, ousaram encarar o desafio de descobrir o que havia para além do litoral brasileiro, logo toparam com nuvens de mosquitos, embora eles não estivessem ausentes nas regiões costeiras. É interessante que, não muito depois, pessoas adoeciam, tinham febres terríveis, não poucas morriam, mas essa gente era incapaz de fazer alguma associação entre picadas de mosquitos e doenças. A ignorância persistiu por muito tempo, e vou provar que isso é verdade. 
Em uma carta escrita por Anchieta em maio de 1560, quando esse missionário jesuíta estava em São Vicente, encontramos:
"Há pelo mato uma grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem [sic] cruelmente [...], quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e sutilíssimas (¹); furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça, com a qual se dispersam." (²)
Se a descrição de Anchieta é suficiente para provocar calafrios, mais será a que vem agora: o caso de um jesuíta do Século XVII que usava as picadas de mosquitos para autoflagelação. É isso mesmo! Contou Manoel da Fonseca, em Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes:
"Despia-se, e posto na margem do Tamanduateí, para aquela parte onde têm os religiosos de Nossa Senhora do Carmo o seu convento, se expunha à fúria dos mosquitos, os quais, ainda que pequenos animalejos, parece que malsatisfeitos com as águas do rio, em que viviam, pretendiam saciar-se com o seu sangue. [...] Neste estado se conservava largo tempo, e se algum dos que se lavavam, vendo-o maltratado das molestas picaduras daqueles animalejos, lhos queria afugentar, o impedia, dizendo que os deixasse, porque buscavam sua vida. Assim disfarçava a sua mortificação [...]." (³)
Melhor ir adiante, e bem depressa. Passemos ao Século XIX, um pouco depois da Independência. O Brigadeiro Cunha Matos, percorrendo a Província de Goiás, constatou que, em certos lugares, as "febres" eram frequentes entre a população. Queria saber a causa, e fez algumas conjecturas:
"As febres intermitentes atacam a maior parte das pessoas que transitam pelas terras ao norte de Goiás; [...] As chuvas copiosas e o conservar a roupa molhada durante e depois das marchas, são provavelmente as causas das sezões que padecem os viandantes." (⁴)
Já veem os leitores que Cunha Matos não atinava com o fato de que as ferinhas de asas, habitando profusamente as áreas alagadas na estação das chuvas, tinham um papel preponderante em propagar doenças. Mas continuava ele suas inspeções, construindo hipóteses a partir do que ouvia o povo dizer, em relação a um lugar considerado como "dos mais doentios do universo":
"O nome do rio Bezerra amedronta a todas as pessoas, e eu fui obrigado a ordenar que os soldados dessem um grande rodeio para não passarem no porto desta estrada de Arraias, a fim de obstar ao ataque de febres intermitentes que, segundo dizem, procedem dos eflúvios de uma lagoa existente na margem esquerda do rio [...]." (⁵)
"Procedem dos eflúvios de uma lagoa" - parece que Cunha Matos fazia suas pesquisas no sistema daquela brincadeira infantil do tipo "está quente" ou "está frio"... 
Digamos que estava morno. Em outro lugar (ainda na Província de Goiás), emitiu juízo semelhante, culpando os "miasmas pútridos":
"O rio de Manoel Alves passa distante do arraial duas léguas, e como o terreno é baixo, e no começo das chuvas fica coberto de águas, que durante a estação seca se corrompem, resultam febres inflamatórias que atacam a muitas pessoas que se acham ao alcance dos miasmas pútridos espalhados na atmosfera." (⁶)
Foi somente em fins do Século XIX que pesquisadores conseguiram efetivamente associar os mosquitos ao ciclo de transmissão de vários tipos de febres intermitentes. Deveríamos esperar, portanto, que, combatendo mosquitos e eliminando locais onde se reproduzem, as doenças que transmitem viessem a desaparecer. Estranhamente, tem acontecido o inverso, uma vez que áreas supostamente livres de febre amarela, malária, etc. têm apresentado ocorrências, em paralelo ao aparecimento de doenças até aqui desconhecidas e/ou com uma capacidade de causar dano muito maior do que se supunha. Há mesmo quem diga que o ciclo reprodutivo das várias espécies de mosquitos está mais curto, em decorrência da elevação da temperatura média na Terra. Será que teremos que fugir para os polos?

(1) Não se deve esperar que Anchieta tivesse conhecimentos de entomologista. Suas descrições usam a linguagem corrente na época, sem pretensões a rigor científico. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 123.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 14 e 15. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 196.
(5) Ibid., p. 218.
(6) Ibid., p. 255.


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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Estados totalitários e suas características

Uma das mais perfeitas definições de Estado Totalitário vem de um de seus maiores defensores: "Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato". Era essa, em síntese, a ideologia do fascismo italiano e de seu líder máximo, o duce Benito Mussolini.
Em um Estado totalitário a meta não é o maior bem para o maior número possível de cidadãos - o objetivo máximo é a grandeza do Estado, sua supremacia interna e sua força diante de outros Estados, sejam eles também totalitários ou não. Assim, uma lista considerável de regimes existentes em vários países, em algum momento do Século XX, poderia ser citada: fascismo, nazismo, stalinismo, franquismo, salazarismo, e assim por diante. Chega de "ismos", e vejam, leitores, que nem cabe aqui uma distinção estrita entre regimes de direita e de esquerda. Não é a retórica de um regime que está em questão, mas a estrutura que garantia e/ou garante seu funcionamento e apropriação do poder.
Algumas características, em maior ou menor grau, assinalaram grande parte dos regimes totalitários. Vejamos, então, algumas delas:
  • Culto à personalidade do líder, não importando se ele era chamado de duce, Führer ou de qualquer outro título grandiloquente - o fato é que esse líder devia ser visto como alguém que pairava acima das massas, funcionando como um modelo a ser seguido;
  • Militarização da sociedade, ou, pelo menos, valorização ao exagero dos homens em uniforme (até as crianças, na escola, eram incentivadas a atividades que favoreciam a formação de soldados);
  • Valorização da disciplina em todos os níveis da sociedade;
  • Uso da propaganda em larga escala e com uma competência surpreendente, para convencer e domesticar as massas;
  • Nacionalismo exacerbado (melhor seria dizer nacionalismo cego);
  • Controle da imprensa e restrições à liberdade de expressão, quer por meio de leis, quer pela intimidação, mediante emprego da violência;
  • Política externa agressiva;
  • Sistema de partido único;
  • Em alguns casos, uso da religião para convencer a população das supostas boas intenções de quem detinha o poder (¹);
  • Quer de direita, quer de esquerda, regimes totalitários sempre posaram como protetores das classes trabalhadoras, embora, como regra, ou as atividades sindicais fossem proibidas, ou, então, somente praticadas sob a tutela do Estado (²).
Que lhes parece, leitores? Pois saibam que ideólogos do totalitarismo, como regra, se diziam grandes estudiosos da História. Pelo visto, não devem ter aprendido grande coisa.
Por sua aparência de organização, disciplina e desenvolvimento econômico, em uma época de turbulência no cenário internacional, a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, alguns regimes totalitários do Século XX, ao menos até que tivessem tempo suficiente para uma exibição completa de suas garras, chegaram a conquistar a simpatia de algumas das maiores democracias ocidentais. Parecia que, a seu modo, regimes "fortes" ajudariam a colocar um pouco de ordem no caos instaurado pelo conflito. Portanto, leitores, foi preciso ainda algum tempo para que as consequências do totalitarismo ficassem perfeitamente claras. O veneno da serpente não tardaria, porém, a manifestar seus efeitos...
Enquanto isso, fascistas faziam sucesso mundo afora, até mesmo no Brasil. Vejam, abaixo, fotos que apareceram na revista paulistana A Cigarra em maio de 1923 (³), mostrando aviadores do Partido Fascista Italiano que vieram participar  de uma festa de aviação em São Paulo:


Já a revista carioca O Malho trazia, também em um número de 1923 (⁴), um cartoon bastante curioso, relacionado a Mussolini e ao fascismo:


Os textos dizem:
"A proposta do governo forte de Mussolini:
- Vocês são uns almofadinhas! Dilapidadores! Ociosos! Vejam Mussolini! Admirem sua obra!
- Nós somos os camisas brancas..." (⁵)

(1) Mussolini, por exemplo, mediante a assinatura do Tratado de Latrão em 1929, procurou resolver pendências que o governo da Itália tinha com o Vaticano desde a unificação italiana no Século XIX. Em um país de maioria católica, essa atitude foi muito bem-recebida, e, na ocasião, interpretada favoravelmente.
(2) O corporativismo típico do Estado fascista italiano mostrou-se muito eficiente como instrumento de controle das reivindicações trabalhistas, favorecendo, ao mesmo tempo, os interesses do grande capital.
(3) A CIGARRA, Ano X, nº 207, 1º de maio de 1923.
(4) O MALHO, 17 de março de 1923.
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) A graça do cartoon se deve ao fato de que "Camisas negras" eram os membros de um grupo paramilitar fascista, devido à cor do uniforme que usavam.


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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nem ouro e nem prata: a expedição de Dom Rodrigo de Castel Blanco

Como podia ser que houvesse ouro e prata em terras de Espanha na América, enquanto que no Brasil quase nada se encontrava? A questão intrigava a Coroa portuguesa. Mandou-se, então ao Brasil, no ano de 1673, um indivíduo supostamente capaz de realizar os tão esperados descobrimentos: era ele Dom Rodrigo de Castel Blanco (¹), espanhol de nascimento. Vinha com o pomposo título de "Governador e Administrador-Geral das Minas" (que ninguém sabia, ainda, onde é que estavam). Por tão notável cargo, além da ótima remuneração, seria acompanhado por um ajudante, Jorge Soares de Macedo.
De acordo com o que registrou Pedro Taques de Almeida Paes Leme na Nobiliarchia Paulistana, as buscas começaram pela Bahia. Castel Blanco e Soares de Macedo andaram por vários lugares entre 1674 e 1678. Resultado? Nadinha, só despesas ao erário público.
Mas era preciso continuar. Passaram pelo Rio de Janeiro no segundo semestre de 1678, em companhia de funcionários administrativos e soldados. Nada, de novo. Foram a Santos, ainda em 1678, porque a ideia era seguir para o sul, na suposição de que lá seriam achadas minas de prata. Em abril de 1680 voltava D. Rodrigo de Castel Blanco a Santos, depois de haver estado em Paranaguá. Outra vez, sem resultados favoráveis. As parcas jazidas da localidade já eram conhecidas dos paulistas. Restava tentar a busca na região denominada Sabarabuçu.
Em São Paulo, os rústicos bandeirantes, acostumados às manhas do sertão, sugeriram que, antes da partida da expedição, fossem mandados homens que estabelecessem roças, evitando que a falta de alimentos constituísse empecilho às descobertas. Diz a Nobiliarchia:
"[...] Matias Cardoso de Almeida, Jerônimo de Camargo, Antônio de Siqueira de Mendonça, Pedro da Rocha Pimentel e outros paulistas mais, todos foram de voto que se devia mandar plantar os sítios que nomeados e assinalados fossem, para quando chegasse a tropa terem mantimentos prontos para o necessário sustento no sertão [...]."
Aceito o conselho, e ciente de que seu famoso ajudante Jorge Soares de Macedo fora aprisionado em Buenos Aires, Rodrigo de Castel Blanco decidiu levar consigo um dos paulistas que fosse experiente em tratar com os indígenas, sendo escolhido Matias Cardoso de Almeida.
No entanto, a expedição não saía. Sendo já março de 1681, o "especialista" em minas João Alves Coutinho, que viera com Castel Blanco, tudo fazia para retardar a partida, alegando velhice (teria sessenta e oito anos) e doença. Foi chamado a dar explicações à Câmara de São Paulo, diante da qual, segundo a Nobiliarchia, "disse que já não tinha dentes, e se achava muito impossibilitado para andar pelo sertão, porém que assim mesmo se sacrificaria a ir"
Talvez restasse dúvida quanto à seriedade do que dizia Coutinho, porquanto, nessa mesma ocasião, Matias Cardoso de Almeida fez registrar nas Atas da Câmara "que se obrigava a conduzir o mineiro João Alves Coutinho em rede, nos ombros de sessenta índios seus administrados que para isso oferecia, e de lhe assistir com todo o necessário sustento no sertão [...]."
Diante de tamanha comodidade, a expedição deixou São Paulo, rumo a Sabarabuçu, em maio de 1681. Iam nela os sessenta índios prometidos para carregar João Alves Coutinho, outros sessenta que levavam os pertences de Dom Rodrigo de Castel Blanco e ainda outros cento e vinte indígenas, mandados ao sertão "para o trabalho das minas". Iam, também, alguns paulistas experimentados como bandeirantes. 
Porém, havia mais.
Entre os suprimentos para toda essa gente, iam, segundo a Nobiliarchia, "de farinha de trigo três mil alqueires; de carne de porco, três mil arrobas; de feijão, cem alqueires; de pano de algodão, oito mil varas; fio de algodão torcido de três, trinta e oito arrobas; de fio de algodão singelo, duas arrobas." 
Quem carregava tudo isso? Duzentos índios. Não havia caminhos que possibilitassem o uso de animais de carga.
Tentem imaginar, leitores, essa multidão, movendo-se lentamente pelas matas, à medida que os que iam à frente, com facões e outras ferramentas, abriam passagem...
Chegaram, por fim, ao Arraial do Sumidouro, por onde andava a gente de Garcia Rodrigues Paes (²). Se pudermos crer no que diz a Nobiliarchia, Castel Blanco não mostrava o mínimo empenho para novas descobertas, fato que levou Matias Cardoso de Almeida a informar, em correspondência enviada ao Reino, que nada se esperasse de tal explorador. Veio ordem para que o Governador e Administrador-Geral das Minas retornasse de imediato a Portugal. Mas, à chegada do documento, Castel Blanco já não podia ser contado entre os viventes. Pedro Taques, por suposto tomando o partido do bandeirante Manuel de Borba Gato, contou:
"Com alguma liberdade lhe estranhou o dito Borba o amortecimento em que se conservava desde que chegara àquele sertão, aplicando-se só a mandar fazer caçadas de aves e animais terrestres para o regalo e grandeza da sua mesa, e travando-se de razões menos comedidas, o sobredito Borba se precipitou tão arrebatado de furor, que dando em D. Rodrigo um violento empurrão o deitou ao fundo de uma alta cata, na qual caiu morto."
Não é tudo, leitores. Talvez porque quisesse valorizar paulistas como os verdadeiros descobridores de minas, Pedro Taques faria ainda um rude balanço das pesquisas de Castel Blanco, entendendo que "o efeito dessas grandes esperanças só ficou infalível no consumo das grossas despesas da Real Fazenda, porque o tal D. Rodrigo foi um patarata que só entreteve o tempo aproveitando-se das honras que desfrutou e dos dinheiros que com liberalidade consumiu". Inequívoco contraste, portanto, em relação a Matias Cardoso de Almeida, o paulista que, nomeado tenente-general para a última parte da expedição (³), não recebeu qualquer subvenção oficial por seus serviços.

(1) É usual a grafia "Castelblanco", mas adotei a de "Castel Blanco" por ser a que aparece na Nobiliarchia Paulistana.
(2) Filho do chamado "caçador de esmeraldas", Fernão Dias Paes.
(3) De São Paulo ao Arraial do Sumidouro.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Como indígenas penteavam os cabelos (antes da chegada dos portugueses)

Uma indígena do Brasil,
de acordo com Debret (¹)
Pero Vaz de Caminha descreveu como "corrediosos cabelos dos primeiros indígenas que viu; depois, quando viu algumas moças, observou que tinham os "cabelos muito pretos e compridos pelas costas". Não é surpreendente, portanto, que, dentre os objetos que portugueses traziam para trocar por artigos da terra, os ameríndios - e, em particular, as ameríndias - apreciassem bastante os pentes, ainda que machados, facas e tesouras fossem, talvez, mais úteis.
Reflitamos, meus leitores: se pentes eram alvo de escambo, é porque não havia similares à altura. Sendo assim, de que modo os cabelos que prenderam a atenção de Caminha eram penteados?
No Tratado Descritivo do Brasil em 1587, escrito por Gabriel Soares, um português que, com viva curiosidade, investigou tudo o que podia a respeito do Brasil, disso fazendo um registro meticuloso, encontramos esta explicação:
"Anhangaquiabo quer dizer pente do diabo; é árvore de bom tamanho, cujo fruto são umas bainhas grandes; têm dentro em si uma coisa branca e dura, afeiçoada como pente, de que os gentios se aproveitavam antes de comunicarem com os portugueses e se valerem dos seus pentes." (²)
É provável que usar o anhangaquiabo não fosse muito confortável, ou os indígenas não teriam mostrado interesse pelos pentes trazidos pelos colonizadores. Mas devia funcionar. Como os leitores já devem ter observado, em nome da valorização da aparência, ou vaidade, se preferirem, que não era e nem é exclusividade de indígenas, a humanidade tem suportado muito desconforto pelos séculos afora, independente da cultura de origem. Lembrem-se dos espartilhos, das perucas do Século XVIII, dos pés enfaixados...

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 220.


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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Cambises - O que acontece quando um governante imagina que seu poder é ilimitado

Ciro, rei dos persas, é famoso por ter liderado a conquista da riquíssima Babilônia em 539 a.C., mas é também conhecido por ter adotado uma política mais suave, em relação aos povos dominados, do que a praticada habitualmente em seus dias. O sucessor de Ciro foi seu filho Cambises, e, se devemos dar crédito ao que disse Heródoto, não poderíamos, em relação a ele, usar o dito de que "tal pai, tal filho".
Na corte persa o cargo de copeiro era de alta responsabilidade - afinal, era esse funcionário que devia provar a bebida servida ao rei, assegurando, portanto, que não estava envenenada. Pois bem, segundo Heródoto, Cambises estava em um dia qualquer a conversar com seu copeiro, a quem, supostamente, muito estimava, quando teve a ideia de lhe perguntar qual era, no seu entender, a opinião que dele tinha o povo persa. Muito honestamente, o copeiro respondeu que o rei era bastante estimado pelo povo, a não ser por um pequeno detalhe, o de ser muito afeiçoado às bebidas alcoólicas.
Imaginem, leitores, qual foi a reação de Cambises. Agradeceu a observação e tratou de ser mais comedido? Nem pensem em tal coisa. Enfurecido com a resposta de seu oficial, resolveu provar que não estava de modo algum alcoolizado, fazendo uma demonstração convincente da mais perfeita sobriedade. Pegou seu arco e avisou que, se cravasse uma flecha no coração do jovem filho do copeiro que não estava longe dali, ficaria claro que a fama que dele circulava entre o povo persa era um equívoco. Se, no entanto, falhasse, seria a prova do acerto de seus críticos.
Não houve quem ousasse detê-lo. O rapaz, atingido, caiu ali mesmo. Para que ficasse fora de dúvida a precisão do tiro, Cambises ordenou que se abrisse o peito do cadáver, a fim de mostrar que a seta atravessara o coração, tudo isso diante do estarrecido pai-copeiro. Tamanho desatino (ainda de acordo com Heródoto) foi acompanhado de uma gargalhada e da observação de que, afinal, os persas jamais deveriam ter seu rei na conta de um bêbado. 
É óbvio, leitores, que não podemos ter certeza absoluta de que as coisas aconteceram assim mesmo, embora vários autores da Antiguidade refiram o episódio com pequenas variações. É possível, no entanto, que tenham se inspirado em Heródoto. Sabemos, porém, que atos de crueldade extrema não eram raros em monarcas da Antiguidade - não eram eles considerados deuses ou seus representantes? Não podiam, por consequência, fazer o que bem entendessem? 
Por outro lado, jamais deveríamos supor que atos de brutalidade por parte de detentores do poder eram fenômenos restritos à Antiguidade. Excessos estarão sempre à mão, onde quer que haja governantes reconhecidos como vitalícios (ou que assim se imaginam), munidos de poderes quase ilimitados, contando com o apoio de uma horda de bajuladores, cuja moralidade demasiado elástica é sempre pautada pela conveniência. 
Era assim no passado. Quem ousaria dizer que, nesse sentido, os tempos mudaram?


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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A guerra dos colonizadores contra as formigas e seus formigueiros

Formiga-cortadeira em ação

Combatentes fortes, coesos, dispostos ao sacrifício quando necessário. Um dos mais poderosos exércitos da Terra. Sobre-humanos? Não, formigas!
Dizia-se, nos tempos coloniais, que a formiga era "o rei do Brasil". Tinham os colonizadores de tratar com esse terrível inseto, se quisessem roças produtivas, ainda que fossem de mandioca, uma planta nativa do Continente Americano, que muitos povos indígenas do Brasil conheciam e cultivavam com sucesso.
A questão que se colocava, ainda no Século XVI, era a do combate eficaz aos formigueiros e, em particular, às chamadas "formigas-cortadeiras", capazes de, em uma só noite, transformar uma plantação verdejante em um amontoado de caules em plena orfandade de folhas. 
Como quase tudo na época, os métodos de combate usados pelos agricultores eram em extremo rudimentares. Segundo Gabriel Soares, que foi senhor de engenho na Bahia, eram estes os procedimentos:
"[...] Para se defenderem as roças desta praga da formiga, buscam-lhe os formigueiros donde se arrancam com enxadas e as queimam; outros costumam às tardes, antes que se recolham, pisarem a terra dos olhos dos formigueiros com pisões muito bem, para que de noite, em que elas dão os seus assaltos, se detenham em tornar a furar a terra para saírem fora, e lançam-lhes de redor folhas de árvores, que elas comem, e das da mandioca velha, com o que, quando saem acima se embaraçam até pela manhã, que se recolhem aos formigueiros." (¹)
Dá vontade de rir, embora não tenha graça nenhuma. É que as palavras do quinhentista Gabriel Soares parecem mostrar que os lavradores da Bahia tratavam com as formigas em uma espécie de lógica humana... Porém, havia ainda mais uma opção, se é que se pode falar assim, na tentativa de impedir danos à lavoura:
"[...] Se as formigas vêm de fora das roças a comer a elas, lançam-lhes desta folha [de mandioca] no caminho, antes que entrem na roça, o qual caminho fazem muito limpo, por onde vão e vêm à vontade, e cortam-lhe a erva com o dente [sic], e desviam-na do caminho." (²)
Então, didaticamente, podemos resumir os procedimentos usuais da seguinte maneira:

I - Quando os formigueiros estavam dentro da roça,
a) podiam ser arrancados e queimados;
b) como alternativa, eram pisados todas as tardes;
c) folhas eram espalhadas ao redor, supostamente para atrapalhar o caminho das formigas.

II - Quando os formigueiros estavam fora da roça, folhas de mandioca eram presenteadas às formigas, na esperança de que, assim satisfeitas, deixassem em paz a plantação.


À entrada de um formigueiro

O resultado prático dessas medidas é discutível, mas os colonizadores achavam que tinham alguma utilidade, ou não perderiam tempo com elas. Sucede que as espécies de formigas existentes no Brasil são quase inumeráveis. Dentre elas, algumas são diurnas, outras têm hábitos noturnos, algumas gostam de atormentar agricultores, enquanto outras, sem convite e sem a menor compostura, invadem as casas, à procura de qualquer coisa que lhes pareça interessante. Os dias da colonização terminaram, mas a guerra contra as formigas está longe de acabar. Alguém ousaria fazer uma aposta quanto ao vencedor?


Não é um bolo fofinho!

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 163.
(2) Ibid.


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