quarta-feira, 16 de março de 2016

Escravizados, mesmo após a Abolição

Assinada a Lei Áurea, no domingo, 13 de maio de 1888, a notícia correu com rapidez, primeiro na capital do Império, onde houve grandes festejos populares, e, depois, através de telégrafo, correio, jornais, dos trens que seguiam pelas ferrovias, alcançou pontos mais distantes - alguns no mesmo dia, outros, nos dias seguintes. 
A edição de 15 de maio de 1888 do jornal Correio Paulistano, após a publicação oficial da Lei, comentava: 
"Anteontem foi sancionada a lei que decreta a extinção da escravidão no Brasil.
O projeto, consignado na Fala do Trono, passou em ambas as casas do Parlamento, em menos de uma semana, no meio de ovações e debaixo de uma chuva de flores.
Acaba o País de presenciar a maior revolução social e econômica de que dão notícia os anais da História Pátria.
E essa revolução, ao invés do que se deu na antiguidade e nos tempos modernos, consumou-se sem derramar uma gota de sangue, sem arrancar uma lágrima de dor! (¹)
As lágrimas que correram foram lágrimas de bênçãos e redenção, a orvalharem a mão augusta que acaba de abrir de par em par as portas da posteridade, ao lavrar o decreto que declara que no Brasil só há homens livres e iguais."
Não estranhem os leitores o estilo empolado que era corrente no jornalismo da época, ainda que algo possa ser creditado ao entusiasmo do momento. O que por agora nos interessa é o fato de que a notícia da abolição correu o Brasil, e qualquer pequena localidade que quisesse estar à altura da ocasião organizava seus próprios festejos, com direito a discursos, bailes e outras manifestações. Curiosamente, em meio ao regozijo nacional, os recém-libertados acabaram, em alguns casos, quase esquecidos, de modo análogo ao que ocorrera na lei emancipadora, na qual sequer foram mencionados.
No entanto, anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, ainda havia gente escravizada. Pode soar incrível, mas foi exatamente o que aconteceu. De vez em quando a imprensa noticiava que, aqui ou ali, uma pessoa fora encontrada vivendo como se a abolição nunca houvesse acontecido. Dois trechos da obra jornalística de Machado de Assis servirão de exemplo, ambos publicados na Gazeta de Notícias, que circulava no Rio de Janeiro. Vamos ao primeiro deles, datado de 15 de maio de 1892:
Escrava, desenho
de Thomas Ender (²)
"A festa de Treze de Maio comemorava uma página da história, uma grande, nobre e pacífica revolução, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma casa de São Paulo. Após quatro anos de liberdade, é de se lhe tirar o chapéu. Epimênides também dormiu por longuíssimos anos, e quando acordou já corria outra moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravidão, não sabendo até ontem que estava livre; mas como o sono da escravidão só se prolonga com a dormideira do chicote, a preta Ana para não acordar e saber casualmente que a liberdade começara, bebia de quando em quando a miraculosa poção. O caso produziu imenso abalo; o telégrafo transmitiu a notícia e todos os nomes."
O segundo caso foi publicado menos de um ano mais tarde, em 1º de janeiro de 1893:
"Há o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho adágio inglês: "Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei". O rei não entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena, é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos."
Como explicar tal absurdo? 
É preciso admitir que, para as condições de comunicação existentes no Brasil da época, é perfeitamente possível que a notícia da abolição, malgrado toda a notoriedade, tenha demorado a alcançar pontos mais remotos do território (o que, por suposto, não incluiria nem São Paulo e nem Uberaba - MG). O mais provável é que um ou outro proprietário tenha, deliberadamente, agido de má-fé, mantendo o trabalhador na escravidão pela astúcia, escondendo a informação, sem excluir o uso da coerção física, método que, aliás, fora empregado com eficácia durante séculos. De que outro modo, afinal, a escravidão se sustentaria?

(1) O jornalista provavelmente tinha a intenção de  alfinetar a maneira pela qual se fizera a abolição nos Estados Unidos, desconsiderando o fato de que, a despeito de não ter demandado uma guerra civil, a luta contra o escravismo exigira, sim, sacrifício, dor e lágrimas também no Brasil, tanto dos envolvidos no movimento abolicionista como dos próprios escravos.
(2) Desenho de Thomas Ender, Século XIX. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 14 de março de 2016

Casamentos no Brasil Colonial

Muitos dentre os primeiros colonizadores que se estabeleceram no Brasil acabaram casados com mulheres indígenas - uns poucos, "na lei da graça", como dizia a Igreja, mas a maioria sem maiores formalidades que a decisão de viver sob o mesmo teto. Não tardou, porém, que sacerdotes (jesuítas, principalmente), protestassem contra aquilo que entendiam ser um desregramento dos colonos. Não só prescindiam da chancela da Igreja para suas uniões, mas havia quem se atrevesse a ter não apenas uma, mas várias mulheres... Ninguém se esqueça de que a poligamia era um enorme escândalo, e severamente proibida pelas leis portuguesas. A questão é que, nas terras da América, dificilmente haveria quem se desse ao trabalho de, em nome do Rei, fiscalizar tamanha desobediência.
Por conta disso tudo, não era incomum que os padres solicitassem que do Reino fossem trazidas órfãs portuguesas, para futuras esposas dos colonos. Fosse, porém, porque não havia tantas órfãs para tantos colonos, fosse por outras razões que nem vale a pena mencionar (a imaginação dos leitores suprirá esta aparente lacuna), o caso é que os padres nunca conseguiam domar a má conduta dos reinóis, não faltando, dentre os jesuítas, quem afirmasse que era justamente o péssimo exemplo dos colonizadores a maior dificuldade que havia à catequese dos indígenas.
O desenvolvimento das povoações coloniais com base em atividades econômicas ligadas à agricultura e, mais tarde, à mineração, possibilitou o aparecimento de uma elite para a qual o casamento dos filhos vinha a ser um importante negócio, um assunto que envolvia o reforço de vínculos de interesse político e econômico. Nesse contexto, eram os chefes das famílias que entabulavam as negociações, combinavam o valor do dote a ser pago pela família da moça e acertavam os mais detalhes que fossem porventura convenientes. Esperava-se, como regra, que a negociação fosse tacitamente aceita pelo noivo e pela noiva. A negativa, por parte de uma menina, era, com frequência, punida com a condenação à vida de religiosa, com vocação ou sem ela, em algum convento ou "recolhimento", quer no Brasil, quer no Reino.
Não era nada extraordinário que meninas de quatorze ou quinze anos fossem negociadas em casamento com homens de muito mais idade, já várias vezes viúvos. Afinal, esses eram tempos em que a morte de mulheres durante um parto não era nenhuma raridade. Igualmente comum é que noivo e noiva só se conhecessem às vésperas da cerimônia religiosa de casamento, quando não ocorria se verem, pela primeira vez, à porta da igreja. Casamentos por procuração eram parte do mesmo cardápio, e havia até casos em que o noivo ou a noiva precisava empreender uma longa viagem, eventualmente transoceânica, para que o casamento se realizasse.
Acontece que, apesar de tantas negociações, às vezes as coisas davam errado. A Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, registra vários casos, dos quais selecionei três, para recreação dos leitores.
Primeiro caso: 
"D. Maria Teresa Isabel Paes foi contratada para casar com o capitão-mor Fernando Dias Paes, filho primogênito do capitão-mor e guarda-mor-geral das minas de ouro Garcia Rodrigues Paes [...]; e não teve efeito a consumação do matrimônio porque mandando a sua procuração contraente, por ela foi recebido, e vindo em marcha para São Paulo faleceu antes de ver sua esposa."
Outro caso, semelhante ao primeiro, mas de consequência um tanto inusitada:
"D. Inês Pedroso de Barros faleceu solteira a tempo que seus pais a tinham contratado para casar com Estanislau de Campos, excelente estudante de gramática latina, o qual vendo morta sua futura esposa, tomou a roupeta da Companhia, onde foi o maior barrete da Província."
Uma breve explicação, talvez necessária, é que Pedro Taques, ao dizer que o noivo-viúvo "tomou a roupeta da Companhia", em lugar de buscar novo casamento, estava informando que o estudante de gramática latina decidiu ser jesuíta.
O terceiro caso foi um pouco diferente, senão algo curioso. Lê-se na Nobiliarchia:
"Dona Ana de Castro e Quevedo foi casada com Salvador Bicudo de Mendonça, natural de São Paulo, onde faleceu a 15 de junho de 1697, e foi sepultado na igreja dos reverendos e religiosos carmelitas no jazigo de seus avós, não consumou o matrimônio por achaques que tinha, como declarou no seu testamento."


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sexta-feira, 11 de março de 2016

César e a duração da noite na Grã-Bretanha

Como os romanos descobriram que a duração da noite não era a mesma em lugares diferentes


A ciência, na Antiguidade, avançava com a ajuda de acontecimentos não exatamente científicos - ou seja, com um empurrãozinho do acaso, uma vez que a ideia de planejar experimentos sob estrito controle, com uma  observação cuidadosa dos resultados, não era ainda praticada como regra. No entanto, em todos os tempos, cérebros inteligentes foram capazes de observar coisas que pareciam não funcionar como esperado, tirando, daí, conclusões interessantes (ainda que nem sempre exatas).
Um caso desses ocorreu quando César e suas tropas chegaram à Britânia (*) em meados do primeiro século antes de Cristo. Ocorre que os romanos daquele tempo marcavam as horas com o emprego de relógios de água, e, com o uso deles, foi possível constatar que, àquela época do ano, as noites na ilha eram mais curtas que no Continente. Desse fato podemos extrair ao menos duas conclusões:
  • Os romanos, até esse tempo, ainda não sabiam que a latitude era um fator importante para determinar a duração do dia e da noite;
  • A guerra, que levava devastação a tantos territórios, acabou contribuindo para fazer avançar o conhecimento científico. 
Comete erro grave, porém, aquele que acha que há aqui uma boa justificativa para investidas bélicas. Pacíficas expedições comerciais, por exemplo, não seriam capazes de proporcionar o mesmo efeito?

(*) Ou Grã-Bretanha, se assim preferirem os leitores, em lugar do nome que era usual entre os antigos romanos.


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quarta-feira, 9 de março de 2016

Zona Tórrida

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI provaram que as classificações climáticas adotadas pelos sábios da Antiguidade continham ideias absurdas


"É sempre um prazer ver as velhas e respeitáveis verdades 'respeitadas pelo tempo' de nossa infância esfrangalhadas e atiradas ao vento."
Richard Burton (1)

A ideia de classificar o mundo em três zonas climáticas surgiu, ao que parece, na cabeça de Eratóstenes (cerca de 276 a.C. a 195 a.C.), um sábio helenista que viveu em Alexandria (a do Egito). Foi ele mesmo quem colocou em prática um experimento que permitiu, naqueles tempos remotos, medir com razoável precisão a circunferência da Terra. Mas não foi só. Para chegar à noção de que a Terra tinha três zonas climáticas (frígida, temperada e tórrida), Eratóstenes precisava ter já algum conhecimento das condições do planeta em áreas que nunca havia visitado, além de supor, naturalmente, uma correspondência de climas ao longo da esfera terrestre.
Antes dele, porém, outros já haviam considerado a existência de uma misteriosa região, que, segundo conjecturavam, era tão quente que de modo algum poderia ser habitada. E, como Aristóteles (c. 384 a.C. - 322 a.C.) estava entre os defensores dessa ideia, a dita opinião foi, por muito tempo, considerada por muitos uma verdade incontestável, levando-se em consideração o prestígio atribuído ao pensamento do Estagirita entre a intelectualidade medieval.

Zonas climáticas da Terra, de acordo com a Cosmographia de Petrus Apianus,
publicada em Paris em 1553

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI vieram provar que Aristóteles e companhia estavam simplesmente errados. Muito errados. Havia, é fato, uma região da Terra cujas temperaturas eram mais elevadas que as conhecidas na Europa da época. Não era, porém, em absoluto, impossível a existência de vida, inclusive humana, nesse lugar. E, já que na Antiguidade houve, também, quem achasse que a suposta zona tórrida devia ser um ótimo lugar, a coisa assumiu proporções de uma batalha ideológica, ainda que muitos séculos depois que os pensadores gregos e helenistas tinham andado por este pequeno planeta. Um melhor conhecimento da Terra, em decorrência das viagens marítimas, acabou, finalmente, com as dúvidas.
O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta que viveu no Brasil durante o Século XVII, escreveu bastante sobre o "desmentido" em relação às teorias relacionadas à zona tórrida, desde que se descobrira a América e, mais especificamente, desde que se passara a explorar o Hemisfério Sul:
"Confesso que andando correndo esta terra", observou ele, "e considerando a perfeição de sua formosura, me ria comigo algumas vezes, lembrando dos ditos dos antigos, e do engano em que viveram tantos séculos." (²)
Explicou, então, aos leitores das suas Notícias Curiosas e Necessárias:
"Aristóteles, o príncipe dos sábios, no segundo livro de seus Meteoros, capítulo V, com toda a escola de seus discípulos, foi o primeiro que infamou a América (³), apregoando dela e de toda a mais terra que corresponde à Zona a que chamava Tórrida, entre os dois círculos solstícios de Câncer e Capricórnio, ser terra inútil, seca, requeimada e incapaz de fontes, rios, pastos e arvoredos, e, por conseguinte deserta para sempre, e inabitável aos homens, pelos excessivos ardores causados da proximidade do Sol, que anda sempre sobre ela." (⁴)
Dando asas à imaginação, Simão de Vasconcelos pôs-se a pensar sobre qual seria a reação dos sábios da Antiguidade se pudessem ver o que era, de fato, a região do mundo à qual chamavam Zona Tórrida:
"Que diriam, se ressuscitassem hoje conosco, e vissem o que vemos? Sem dúvida que arrependidos diriam que a terra do Brasil, toda a América e toda a meia Zona, a que chamavam Tórrida, não só não é terra inútil, seca, requeimada, deserta, inabitável para gente humana, mas pelo contrário, que é uma região temperada, amena, abundante de chuvas, orvalhos, fontes, rios, pastos, verdura, arvoredos e frutos para perfeita habitação de viventes." (⁵)
Apresentou, por fim, em contraste, a opinião dos que, segundo ele, entendiam que a Zona Tórrida era não somente uma região perfeitamente ecúmena, mas ainda um verdadeiro paraíso terrestre:
"Não só os homens de nossos séculos, houve também muitos dos antigos que acertaram no conhecimento desta verdade. Assim o afirmavam Eratóstenes, Políbio, Ptolomeu, Avicena e não poucos dos nossos teólogos, de que faz menção São Tomás [...], que chegam a defender que nesta parte debaixo da linha equinocial criara Deus o paraíso terrestre, por ser esta a parte do mundo mais temperada, deleitosa e amena para a vida humana. Isto clamavam já tanto dantes estes autores, porém não eram cridos." (⁶)
Paraíso terrestre? Bem, aí já há certo exagero...

(1) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 306.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 236.
(3) Sem jamais tê-la visto e, provavelmente, sem ter certeza de sua existência.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Op. cit., p. 220.
(5) Ibid., pp. 228 e 229.
(6) Ibid., pp. 229 e 230.


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segunda-feira, 7 de março de 2016

Uso de conchas marinhas por colonizadores na Capitania de São Vicente

Hoje a prática está fora de moda, mas antigamente, quando alguém se propunha a escrever a história do Brasil, tão logo dava sua versão do Descobrimento, passava a gabar as riquezas naturais da terra, suas espécies vegetais muitíssimo curiosas, seus frutos saborosíssimos, e, para coroar tantos elogios, sua fauna variadíssima. Foi assim com Pero de Magalhães Gândavo, com Gabriel Soares, com Frei Vicente do Salvador. Anchieta, em várias de suas cartas, foi pelo mesmo caminho. Já dentro do Século XIX, alguns nomes destacados da historiografia brasileira evitaram romper com essa espécie de tradição multissecular. Não sei, leitores, se é questão para riso ou para choro, mas quem hoje lê suas obras não consegue fugir à incômoda pergunta: se tudo era tão perfeito, como é que as coisas saíram do jeito que são? Porém, a título de consolo, será útil considerar que indagação semelhante poderia ser feita em praticamente qualquer lugar deste planeta.
Mas voltemos ao assunto das glórias naturais do Brasil. Sebastião da Rocha Pita, cuja História da América Portuguesa foi publicada pela primeira vez em 1730, observou que no litoral brasileiro podiam ser encontradas "algumas ostras de tanta grandeza que as conchas delas (como de madrepérola por dentro) servem de pratos de mesa; outras se acharam tão portentosas que serviram de ministrar águas às mãos; e há tradição que indo visitar esta província [Capitania de S. Vicente] o bispo da Bahia D. Pedro Leitão, em uma concha destas lhe lavaram os pés como em bacia." (¹)
Pois bem, como notam os leitores, no trecho citado Rocha Pita estava exaltando as maravilhas da Capitania de São Vicente, e isso a despeito de, segundo as aparências, não demonstrar apreço descomunal por ela e por seus moradores; em boa verdade, porém, é preciso assumir que a ojeriza era recíproca. Autores paulistas não tardaram a apontar defeitos na História da América Portuguesa, até porque nem era preciso observação demasiado apurada para encontrá-los.
Neste caso, entretanto, devemos fazer justiça ao historiador natural da Bahia. Ele não estava mentindo quanto às tais conchas de tamanho avantajado. Elas existiam, mesmo, e ainda existem, embora, como se sabe, só possam ser encontradas em quantidade reduzida, e não com a abundância dos primeiros tempos coloniais. Sua observação quanto ao uso que delas faziam os paulistas é relevante para mostrar que, se faltavam aos colonizadores muitos dos objetos a cujo uso, como europeus, estavam acostumados (²), sobrava em tal gente a perseverança para sobreviver na América, fazendo uso dos recursos que se apresentavam disponíveis.

(1) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 65.
(2) Pratos e bacias, neste caso.


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sexta-feira, 4 de março de 2016

Licurgo e as leis de Esparta

Os antigos espartanos diziam que Licurgo era seu legislador, ou seja, o homem que havia criado as severas leis sob as quais Esparta era governada. Militarismo, domínio absoluto por parte da elite que detinha a propriedade da terra, educação rígida da juventude e repressão aos hilotas - com alguma licença, poderíamos dizer que lá vigorava um regime totalitário à moda da Antiguidade. E, se acreditássemos pura e simplesmente na tradição, tudo isso era responsabilidade de Licurgo.
O problema é que não se conhece grande coisa sobre essa ilustre personagem, e há até quem duvide de sua existência (o que não deveria surpreender, já que mesmo Homero é, nesse sentido, questionado por não poucos especialistas). Não se conhecem documentos escritos pelo próprio Licurgo, e toda a informação de que se dispõe é fruto da tradição registrada por autores que viveram muito depois da época em que se supõe que ele possa ter existido.
Entre os historiadores antigos que falaram sobre o legislador espartano está Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos no segundo século antes de Cristo. Pois bem, de acordo com Políbio, Licurgo era um hábil usuário das crenças religiosas populares, já que buscava sempre referendar suas decisões e ideias como sendo originárias do oráculo de Delfos. Esperto, ele, não?
Deixando de lado as questões - quando, onde e se - sobre Licurgo, e assumindo que os espartanos eram muito obedientes (por bem ou por mal) às suas leis, devemos entender que o uso político das ideias religiosas em voga só era possível porque as pessoas de fato acreditavam nelas, e isso não se restringia aos pouco refinados membros da elite de Esparta. Foi também Políbio quem registrou a informação de que Cipião (conhecido como "Africano", militar romano, cuja existência está muito bem documentada), exatamente antes de atacar Cartagena, durante as Guerras Púnicas, serviu-se da religiosidade de seus comandados para incitá-los a atos de bravura. Em discurso a eles dirigido, prometeu que daria coroas de ouro àqueles que fossem os primeiros a escalar a muralha da cidade, além de outros prêmios que os generais costumavam oferecer; mas, para garantir a coragem das tropas, afirmou que, em sonhos, o deus Netuno lhe aparecera, assegurando seu favor aos romanos durante o combate. Coisas da Antiguidade, logo se vê.


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quarta-feira, 2 de março de 2016

Daguerreótipos

"O procurador vivera até ali na ignorância do que podia valer a pintura, salvo para fazer alguns retratos, e isto mesmo nem era já aplicação sensata depois do daguerreótipo, então em plena posse de ambos os mundos."
Machado de Assis, Silvestre

Nos anos trinta do Século XIX havia uma porção de gente fazendo experimentos cujo objetivo era a criação de técnicas que permitissem o registro de imagens - aquilo a que hoje, genericamente, chamamos fotografia. Sim, tratava-se de capturar a luz que entrava em uma caixa através um pequenino orifício (câmara escura), mas o grande problema da época era achar um modo de gravar a imagem produzida, tornando-a permanente. 
Um desses pesquisadores foi Louis-Jacques-Mandé Daguerre, que, entre 1837 e 1838, desenvolveu o método de revelação com mercúrio de placas de prata iodadas, conhecido como daguerreotipia. As imagens assim obtidas foram, por consequência, chamadas "daguerreótipos". O processo de Daguerre, mediante longa exposição (às vezes, até quinze minutos) produzia uma imagem "em positivo", mas avanços posteriores permitiram uma redução significativa no tempo de exposição e a reprodução das imagens sobre papel. Para os padrões da época, o resultado era considerado muito bom.
O fato é que, com este ou com outros métodos, a nascente fotografia despertava grande interesse; virou moda, e até símbolo de distinção social, fazer-se retratar mediante um daguerreótipo. 
O Almanaque Laemmert de 1854 trazia o seguinte anúncio, relativo a uma "Oficina de Daguerreótipo" existente no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil:
"Este estabelecimento, dirigido pelo distinto artista A. Verre, é o único nesta Corte, para dar aos retratos sobre papel e marfim, esse brilho no colorido, esse bem acabado no trabalho que mostra à primeira vista o talento do retratista e a obra tocada por mãos de mestre: a oficina está aberta todos os dias das 10 horas da manhã às 3 da tarde." (¹)


Após essa generosa exibição de modéstia, será útil recordar que a mesma edição do Almanaque trazia ainda como anunciantes outros três estabelecimentos dedicados à fotografia, sendo um deles também na rua do Ouvidor (como o do Sr. A. Verre), outro na rua dos Latoeiros e o último na rua dos Ourives.
Muitos profissionais que trabalhavam em estúdios fotográficos no Brasil do Século XIX eram estrangeiros. O pintor François Biard, que esteve no Brasil entre 1858 e 1859, considerou que aprender fotografia seria útil para ajudá-lo a registrar imagens do País, sempre que não pudesse fazê-lo com pincéis e tintas. Assim, arranjou um equipamento e tratou de começar seus experimentos, que se revelaram um tanto desastrados, a princípio, mas que, afinal, acabaram sendo bastante produtivos. (²). Enquanto viajava, andava à procura de fotógrafos, para, através deles, travar contato com novas técnicas ou adquirir material fotográfico (o que, naquele tempo, significava mais ou menos o mesmo que dispor de um laboratório de química). Numa dessas ocasiões, anotou em seu registro de viagem (³):
"Vim a conhecer, por intermédio do Sr. Costa, um francês que chegara de Lima; era relojoeiro e tirava daguerreótipos." (⁴) 

François Biard fotografando (⁵)
O que há de muito interessante sobre este relato é que o encontro ocorreu em Manaus, que era, então, uma pequenina povoação, antes que o surto de exportação de borracha fizesse dela um centro importante às margens do rio Negro. Ou seja, era uma prova acabada de que a fotografia gerava interesse, fazia muitos adeptos, dava lucro e suscitava um novo ramo artístico, mesmo em pequenas localidades. 

O pintor François Biard tendo, à esquerda, seu equipamento de fotografia (⁶)

(1) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854, p. 522.
(2) Biard conjecturava que, em alguns pontos da floresta amazônica, o seu equipamento de fotografia provavelmente era o primeiro que chegava.
(3) Os desenhos em (5) e (6) são de E. Riou, a partir de esboços do próprio Biard.
(4) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 164.
(5) BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 569.
(6) Ibid., p. 333.


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