domingo, 17 de junho de 2012

Dias de gala e feriados no Império do Brasil

"Oh! Grandes e soberbos coches! Como ele gostava de ir esperar o Imperador, nos dias de grande gala, à porta do paço da cidade, para ver chegar o préstito imperial, especialmente o coche de Sua Majestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos."
                                                                                                     Machado de Assis, Quincas Borba

Houve quem lamentasse, após a proclamação da República, o fim de todas aquelas celebrações com longos cortejos no Paço Imperial, cheios de pompa, que a gente da Corte corria a ver e que enchiam os olhos dos visitantes que, pela primeira vez, assistiam a tal espetáculo. Eram os dias de Grande Gala que, no Segundo Reinado, estavam assim distribuídos, ao longo do ano, pela ordem (¹):

1º de janeiro - Cumprimentos ao Imperador pelo Ano Novo.
9 de janeiro - Dia do Fico.
14 de março - Aniversário da Imperatriz D. Teresa Cristina.
25 de março - Data do juramento da Constituição imperial.
7 de abril - Abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II.
5 de maio (²) - Abertura dos trabalhos anuais da Assembleia Geral Legislativa.
23 de julho - Aniversário da aclamação do Imperador.
29 de julho - Aniversário da Princesa Isabel, filha do Imperador D. Pedro II.
4 de setembro - Aniversário de casamento do Imperador D. Pedro II.
7 de setembro - Independência do Brasil.
15 de outubro - Dia do nome (³) da Imperatriz.
19 de outubro - Dia do nome (³) do Imperador.
2 de dezembro - Aniversário do Imperador D. Pedro II.

Havia também, no calendário, os dias de Pequena Gala, datas consideradas menores que eram celebradas com cortejo na sala do Paço de São Cristóvão. Ocorriam nos seguintes dias:

11 de março - Aniversário da Princesa Januária, irmã do Imperador D. Pedro II.
13 de julho - Aniversário da princesa Leopoldina, filha do Imperador D. Pedro II.
18 de julho - Aniversário da sagração e coroação do Imperador D. Pedro II.
19 de julho - Aniversário de D. Luís, Conde d'Áquila, marido da princesa Januária.
31 de julho - Aniversário de D. Amélia, Duquesa de Bragança, segunda esposa de D. Pedro I.
2 de agosto - Aniversário de D. Francisca, princesa de Joinville, irmã do Imperador D. Pedro II.

Vale lembrar que essas datas não eram feriados nacionais; eram, sim, dias de celebração na Corte do Rio de Janeiro. Os feriados, nos quais não funcionavam repartições públicas, eram 25 de março, 7 de setembro e 2 de dezembro. As províncias costumavam ter também suas festividades nas datas respectivas em que haviam aderido à independência do Brasil. Isso tudo, é claro, além dos domingos e "dias santos de guarda", aliás bastante numerosos.

(1) Para as datas comemoradas, veja-se: Folhinha de Modinhas Para o Anno Bissexto de 1868. Rio de Janeiro: Antônio Gonçalves Guimarães & Cia, pp. 95, 96 e 97.
(2) Única data de Grande Gala em que não havia cortejo no Paço.
(3) Além da data de nascimento, era uso comemorar a data do santo do calendário católico cujo nome fora dado à pessoa no batismo. No caso da Imperatriz, a data era 15 de outubro, por ser dia de Santa Teresa de Jesus. Para o Imperador, o Dia do Nome era 19 de outubro, dia de São Pedro de Alcântara.


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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Superlotação hospitalar, um problema muito antigo

Basta correr os olhos pelos jornais, é quase todo dia a mesma coisa: um bebê que morre por não haver UTI neonatal disponível, um idoso que acaba morrendo na entrada do hospital, sem receber qualquer atendimento, gente espalhada em macas nos corredores das unidades hospitalares por falta de leitos, médicos e outros profissionais da saúde sobrecarregados com longas jornadas de trabalho e um número de pacientes a atender muito acima do razoável.
Novidade? Nenhuma. Exclusividade dos nossos dias? Não! A foto abaixo (*) é de 1914. Diz a legenda original: "Santa Casa - Interior de uma das enfermarias do importante estabelecimento de caridade, onde existe tal acumulação de doentes, que estes são estendidos pelo chão, nos intervalos dos leitos."


Sem muitas palavras mais, uma observação importante: Os grandes problemas cuja solução é de interesse público, se não resolvidos, ficam sempre maiores à medida que a população aumenta. E como poderia ser diferente?

(*) A CIGARRA, 6 de maio de 1914.


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terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma comparação entre os jogos olímpicos da Grécia e os espetáculos de gladiadores em Roma

Não há dúvida de que tanto os Jogos Olímpicos celebrados pelos gregos da Antiguidade quanto os espetáculos circenses em Roma envolviam habilidades atléticas. Mas as semelhanças não vão além disso.
Os atletas gregos eram, necessariamente, jovens de condição livre, quase sempre integrantes da elite de suas respectivas cidades-Estados. Já os gladiadores romanos eram, em sua imensa maioria, escravos, que lutavam não porque queriam, mas porque eram obrigados a isso, e o fato de que a insanidade de alguns imperadores tenha levado à exigência de que membros de famílias senatoriais eventualmente também lutassem, não muda, em absoluto, a regra geral. Dessa cruel e fundamental diferença decorrem muitas outras. Veremos algumas.
Se é verdade que em Olímpia as celebrações ocorriam em honra de Zeus, em Roma, ainda que divindades fossem invocadas, os espetáculos realizavam-se para fortalecer a imagem pública de líderes políticos, sendo apreciados, mesmo antes do Império, sempre que se queria entreter e agradar a população. Júlio César foi um mestre em gastar rios de dinheiro para divertir as massas que o apoiavam. Lutas e outras competições também ocorriam para comemorar algum acontecimento importante (a morte de alguém famoso, por exemplo) e, principalmente, para fazer com que as multidões sem trabalho, atentas a espetáculos violentos mas controlados, "esquecessem" a ideia de insurgir-se contra as autoridades.
Não se deve imaginar que as Olimpíadas eram competições cavalheirescas, com algum lema que sugerisse que, em última instância, o importante mesmo era estar lá para honra dos deuses, independente do resultado das provas. Nada disso. As modalidades incluíam lutas violentíssimas, como era o caso do pancrácio (quebra-ossos!) e, não raro, atletas morriam durante as provas. Mas aqui aparece outra distinção fundamental entre o que acontecia em Olímpia e os jogos de Roma: se um competidor morria nos Jogos Olímpicos, sua memória era honrada como sendo ele um herói, pois preferira perder a vida a ser derrotado; nos circos romanos, os gladiadores se engalfinhavam tentando matar o oponente porque esse era o único modo de vencer e, assim, obtendo uma boa sequência de vitórias, recuperar, talvez, a liberdade. Nesse caso, o que morria era um fracassado.
Finalmente, a despeito das lutas sangrentas, os Jogos Olímpicos incluíam diversas modalidades nas quais buscava-se, sob a severa vigilância dos juízes, determinar quem era o verdadeiro campeão, aquele que melhor retratava os ideais de perfeição tão valorizados pelos gregos, ideais esses que incluíam a capacidade atlética e a força mental. Por isso, pode-se dizer que no herói olímpico, ao menos em teoria, sintetizava-se toda a proposta de formação de verdadeiros cidadãos. O circo romano, por sua vez, era o lugar em que a população em geral era sutilmente afastada de questões políticas nas quais os poderosos não queriam que se intrometesse. Era o palco da alienação, onde o sangue dos competidores mortos por seus oponentes substituía, de algum modo, o de governantes corruptos e incapazes, que divertiam as multidões para evitar uma revolta em larga escala, num momento em que um lampejo de lucidez viesse a esclarecer as verdadeiras causas das desgraças do Império.


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domingo, 10 de junho de 2012

Colonos, funcionários públicos coloniais, baiacus

Que juízo fazia Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América (¹), a respeito de colonos que, vindo ao Brasil, alcançavam alguma posição, principalmente por ocupar cargo público?
Resposta simples: comparava-os a baiacus. O quê? Sim, a mesma irritação que demonstrava com padres que pouco caso faziam do sacerdócio (veja a postagem anterior) era também direcionada a tais colonos, embora dessa vez expressa com algum humor. Que, levado a sério, não tinha graça nenhuma.
O padre Nuno Marques Pereira começa por uma descrição dos baiacus, feita à moda da época e, por isso mesmo, com as limitações dos conhecimentos científicos que lhe eram disponíveis. Vejamos:
"São estes tais como uma casta de peixes que há neste Brasil, e lhes chamam baiacus, entre os quais há uns que têm espinhos. São estes peixes peçonhentíssimos, por terem no fel o mais refinado veneno que há no mundo, e que ainda que algumas pessoas os comem, é com muita cautela. Mas vamos à comparação. Costumam estes peixes, assim como os pescam e tiram da água, começarem a inchar, e fazem-se como bolas. Os de espinhos, não há quem pegue neles, pelo risco das agudas pontas. Incham de sorte que assim morrem às vezes dando um grande estouro. Ocupam-se estes peixes em mariscar pelas margens dos rios e mangais, e só quando se veem em terra é que incham."
Ora, dirão os leitores, e que é que isso tem a ver com os senhores colonos e funcionários públicos? A explicação não tarda:
"Assim são os baiacus humanos, ou desumanos: tanto que se veem nas praias e terra do Brasil, logo começam a inchar, e se lhes dão algum ofício ou posto, fazem-se baiacus de espinhos, não há quem se chegue junto deles. E se dizem a um destes: "Basta, Baiacu, porque podes rebentar", ou se lhes tocam, cada vez incha mais."
E o padre-escritor conclui:
"Bem sei que este exemplo ou moralidade é mui humilde, porém como é tão vulgar, cada qual o tome no sentido mais acomodativo." (²)
Em linguagem de hoje, talvez escrevesse: Que vista a carapuça aquele que a achar de bom tamanho.

O Autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América comparou colonos e
funcionários coloniais a baiacus... (³)

(1) Essa obra teve, ao longo do século XVIII, várias edições, sendo das mais lidas e admiradas no Brasil da época, conforme se explica na postagem "Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um best-seller do Brasil Colonial".
(2) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 20 e 21.
(3) Os baiacus desta postagem pertencem ao Museu do Mar, no Aquário Marinho de Ubatuba, SP. Se passar pelo Litoral Norte, não deixe de visitar.


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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um best-seller do Brasil Colonial

Dá para imaginar um best-seller no Brasil de população quase toda analfabeta do século XVIII? Pois houve, desde que respeitadas as proporções. O título era Compêndio Narrativo do Peregrino da América; seu autor, o padre Nuno Marques Pereira. Sobre esse padre-escritor, pouco se sabe. Pairam dúvidas até sobre sua origem, se de Portugal, se do Brasil. Já quanto ao conteúdo do livro, propunha-se, ao narrar o trajeto de um peregrino desde a Bahia até as minas de ouro, ir apresentando lições de caráter moral e religioso, na intenção de corrigir os péssimos costumes que, segundo o autor, eram amplamente seguidos no Brasil.
Para que os leitores deste blog possam fazer uma ideia da natureza do livro, selecionei alguns trechos (*) sobre três tópicos, que podem ser lidos logo abaixo.

Árvores frutíferas da América

"Comecei a seguir minha jornada por entre amenos campos e copados arvoredos, que com o brando terral faziam agitação às flores, que exalando fragrantes aromas me suavizavam o sentido do olfato; e para recreação da vista me lisonjeavam o sentido do ver tantas árvores floridas, sem mais cultura que a fábrica da natureza que as havia aperfeiçoado, e muitas com vistosos pomos, de que participei [...]."

Castigo de um avarento

"Sabei que o mísero não só nega a seu próximo o que lhe pede, mas também a si mesmo o de que necessita, porque em lhe faltando o que tem, não há quem dele se compadeça. Digo isto pelo que vi acontecer a um homem, que navegava em um seu barco das Vilas do Sul para a Cidade da Bahia. Costumava este entrar primeiro pela barra de Jaguaripe, quando levava na sua embarcação farinhas para vender na cidade, e por mais que lhe pedissem os moradores pobres daquele rio que lhes vendesse algumas para seu sustento, representando-lhe suas necessidades, nunca lhas queria vender. Sucedeu que vindo em certa ocasião entrando pela mesma barra, como esta é arriscada e de perigo, pelos bancos de areia que tem, deu o barco em cima de uma coroa. E como se visse naquele perigo, começou a bradar, e ainda que os que estavam em terra o ouviram, lhe não quiseram acudir, por saberem que era a embarcação daquele miserável, e ali se desfez e perdeu toda a carga que trazia."

Sobre o relaxamento na espiritualidade por parte do clero no Brasil

"Porque está hoje o mundo (e principalmente este Estado do Brasil) em tais termos, que mais parecem alguns sacerdotes mercadores-negociantes que Ministros de Deus e Curas de almas. E se não, vede o que está sucedendo nos tempos presentes. Propõe-se um clérigo a qualquer igreja, e a primeira coisa que procura é saber o quanto rende cada ano e o que tem de benesses, se são ricos os fregueses e se dão boas ofertas. Sendo que só deviam procurar se havia bons paramentos na igreja e se eram devotos e zelosos os fregueses de obrar bem no culto divino, e quando muito, saber se era sítio sadio e se havia bom passadio do sustento corporal."

É obra, vê-se, de religiosidade intensa mas algo ingênua; na linguagem, resvala com frequência nos exageros típicos do Barroco; o estilo é, muitas vezes, prolixo. Que haveria, pois, nesse livro, para alcançar sucessivas edições? Diante do número reduzido de leitores potenciais entre a população alfabetizada, presume-se que fosse lido em voz alta, para entretenimento também dos que ouviam, em muitas casas, à luz de velas ou de candeias a óleo de baleia, nas longas noites coloniais. Que fazia sua popularidade?
À parte o fato de que, por sua temática, devia eventualmente ser recomendado tanto do púlpito quanto do confessionário, tenho um palpite de que interessava aos leitores e ouvintes porque tratava de coisas do Brasil, não da Europa. Era a descrição da natureza exuberante, que conheciam muito bem, as questões políticas e sociais que pontuavam o quotidiano na Colônia, o relacionamento entre as várias camadas sociais, as questões ligadas aos direitos e obrigações de senhores e escravos, a vida na cidade da Bahia, com seus usos, costumes, (i)moralidade, burocracia, criminalidade, ao lado de vistosas festas religiosas, não exatamente favoráveis à introspecção que nosso padre-escritor propunha, mas que caíam facilmente no gosto da população, a exaltação à coragem e virtude de quem deixava Portugal para vir colonizar o Brasil. Contraditório? Talvez, mas quanto mais de contraditório não houve nos tempos da colonização?

(*) Seguiu-se a edição de 1731. Conforme é pratica neste blog, os trechos citados foram transcritos na ortografia atual.


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terça-feira, 5 de junho de 2012

A expansão da malha ferroviária e os confrontos com a população indígena

A "marcha do café", nome que se deu à expansão da área em que esse produto era cultivado, indo do Vale do Paraíba à região central do Estado de São Paulo e, depois, a pontos ainda mais distantes, somente foi possível porque a expansão da malha ferroviária permitia que as safras fossem escoadas em direção ao porto de Santos, de onde eram enviadas para diversos países. Se não fosse assim, o limite para a área cultivável não seria muito elástico, porque, na época, antes que as ferrovias se implantassem, tudo o que se produzia para exportação conduzia-se aos portos nas costas de muares, em tropas, por isso, geralmente numerosas. Ora, quão longe se poderia ir nessas condições? Muito provavelmente, não muito além do que a região onde estava situada a fazenda Ibicaba, grande centro produtor de café (¹).
As ferrovias, a partir das últimas décadas do século XIX, mudaram tudo. Se a terra e o clima fossem favoráveis, podia-se ir cada vez mais longe, produzindo muito, muito café - o que, aliás, contribuiu para a desvalorização do produto, mas isso já é outra questão. Que outro impedimento poderia haver?
Havia. É que as terras mais a oeste eram habitadas. Habitadas por povos indígenas, que iam, obviamente contra sua vontade, sendo empurrados rumo ao interior, ao mesmo tempo em que, por várias razões, sua população decrescia. A revista carioca O Malho referiu-se, com sarcasmo, a esse "fenômeno" em uma edição datada de 22 de setembro de 1906 (²), conforme se pode ver abaixo:


Jorge Tibiriçá,
Presidente estadual entre
1904 e 1908. (⁴)
Cabem, por suposto, algumas explicações. Houve confrontos entre os índios e os  que trabalhavam para expandir a área cultivada, na tentativa de expulsar os primeiros (um mapa da Império chegara a  referir-se ao Oeste geográfico da então Província de São Paulo como sendo habitada por "indígenas ferozes"). O "chefe Tibiriçá" do texto de O Malho é uma referência ao Presidente estadual (³) Jorge Tibiriçá que comandava o Estado de São Paulo nesta fase de expansão tanto das ferrovias quanto da lavoura cafeeira e de outros cultivos agrícolas. Expansão feita, muitas vezes literalmente, a ferro e fogo. Custou também a vida de uma multidão de indígenas, dizimados não apenas pelas balas das armas dos colonos, mas também por enfermidades que lhes eram fatais, como a varíola, por exemplo, em epidemias que não eram meros acidentes. Um autêntico genocídio.

(1) Na época, nos limites de Limeira e Rio Claro, atual município de Cordeirópolis, SP.
(2) O MALHO, Ano V, nº 210, 22 de setembro de 1906.
(3) Os governadores de Estado eram então chamados de presidentes estaduais.
(4) VIDA MODERNA, Ano II, números 29 e 30, 25 de dezembro de 1907.


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domingo, 3 de junho de 2012

O Caminho Novo das Minas

Devido às dificuldades do Caminho Velho das Minas, principalmente no que se refere à segurança para o transporte dos "Reais Quintos", o governo português tinha grande interesse em que se abrisse uma nova rota, que fosse sair diretamente no Rio de Janeiro. De grande parte disso encarregou-se Garcia Rodrigues Pais que, como se sabe, era filho do famoso "caçador de esmeraldas", o bandeirante Fernão Dias Pais. Garcia Rodrigues conhecia bem a área, pois a percorrera em companhia do pai. Queria, é claro, obter vantagem com o trabalho, mediante a cobrança de pedágio na passagem pela nova trilha.
Trilha? Sim, no início era apenas uma trilha, a muito custo aberta em meio à vegetação. Nesse tempo não havia máquinas que pudessem auxiliar na pesada tarefa, de modo que uma multidão de escravos, tanto indígenas quanto de origem africana, deve ter despendido muito suor em cortar árvores, roçar o mato, cavar o terreno, nivelar obstáculos.
Dessa trilha por terra deixou-nos Antonil um importante relato, que dará aos meus leitores a oportunidade de observarem o quanto era complicada a situação de quem viajava pelo interior do Brasil no início do século XVIII: há, no roteiro, poucos nomes de vilas ou cidades, ao contrário do que acontecia no Caminho Velho, que passava por localidades já bem conhecidas. Sendo uma nova rota, é compreensível que, ao longo do trajeto, ainda não existisse muita comodidade para quem viajava, apenas alguns pousos de tropeiros, precários ao extremo, que pouco a pouco iam surgindo. Entretanto, é escusado dizer que muitos desses modestos pousos e mesmo fazendas onde se podia fazer algum abastecimento vieram a ser, mais tarde, localidades de importância.
Pelo que diz Antonil, havia duas possibilidades de saída:
a) "Partindo da cidade do Rio de Janeiro por terra com gente carregada e marchando à paulista, a primeira jornada se vai a Irajá, a segunda ao Engenho do Alcaide-Mor Tomé Corrêa, a terceira ao Porto do Nóbrega no rio Iguaçu, onde há passagem de canoas e saveiros, a quarta ao sítio que chamam de Manuel do Couto." (¹)
b) "E quem vai por mar em embarcação ligeira, em um dia se põe no porto da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar, e outro, em canoa, subindo pelo rio Morobaí acima, ou indo por terra, chega pelo meio-dia ao referido Sítio do Couto." (²)
Como se vê, as duas possibilidades iam sair no Sítio do Pouso. A partir daí, o caminho era um só. Prossegue Antonil:
"Deste se vai à Cachoeira do Pé da Serra, e se pousa em ranchos. E daqui se sobe à Serra, que são duas boas léguas, e descendo o cume, se arrancha nos Pousos que chamam Frios.
[...].
Travessia do rio Paraíba do Sul com auxílio de canoa,
de acordo com M. Rugendas (⁶)
Dos Pousos Frios se vai à primeira roça do Capitão Marcos da Costa, e dela, em duas jornadas, à segunda roça, que chamam do Alferes.
Da Roça do Alferes em uma jornada se vai ao Pau Grande, roça que agora principia e daí se vai pousar no mato ao pé de um morro, que chamam o Cabaru.
Deste morro se vai ao famoso Rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. [...].
Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas [...]. É este rio pouco menos caudaloso que o Paraíba, passa-se em canoa.
Do rio Paraibuna fazem duas jornadas à Roça do Contraste Simão Pereira [...]. Da roça do dito Simão Pereira se vai à de Matias Barbosa e daí à roça de Antônio de Araújo, e desta à roça do Capitão José de Sousa, donde se passa à roça do Alcaide-Mor Tomé Corrêa. Da roça do dito Alcaide-Mor se vai a uma roça nova do Azevedo, e daí à roça do Juiz da Alfândega Manuel Corrêa, e desta à de Manuel de Araújo. E em todas estas jornadas se vai sempre pela vizinhança do Paraibuna.
Da roça do dito Manuel de Araújo se vai à outra rocinha do mesmo.
Desta rocinha se passa à primeira roça do Senhor Bispo, e daí à segunda do dito.
Da segunda roça do Senhor Bispo fazem uma jornada pequena à Borda do Campo à roça do Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca." (³)
A partir daí novamente havia duas opções de caminho, de acordo com o destino do viajante. Uma delas era o caminho do rio das Mortes:
"Quem vai para o Rio das Mortes passa desta roça à de Alberto Dias, daí à de Manuel de Araújo, que chamam da Ressaca, e desta à Ponta do Morro [...]. Deste lugar se vai jantar ao Arraial do Rio das Mortes." (⁴)
Outra opção era a estrada das Gerais:
"E quem segue a estrada das Minas Gerais, da roça sobredita de Manuel de Araújo da Ressaca do Campo vai à roça que chamam de João Batista, daí à de João da Silva Costa e desta à roça dos Congonhas, junto ao Rodeio da Itatiaia, da qual se passa ao Campo do Ouro Preto, onde há várias roças e de qualquer delas é uma jornada pequena ao Arraial do Ouro Preto, que fica mato dentro, onde estão as lavras do ouro." (⁵)
É quase desnecessário afirmar que era perfeitamente possível que viajantes acabassem por perder-se em meio à mataria. Por isso, as caravanas costumavam ter guias experientes, habituados às dificuldades do caminho e capacitados a conduzir homens e animais sertão adentro.
Vários autores da época asseveravam ser muito maior a produção de ouro do Brasil do que aquela que oficialmente se contava, a partir da cobrança dos Reais Quintos. Malgrado o trocadilho, fica, porém, a questão: se tal era o caminho, como impedir os descaminhos?

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p 164.
(2) Ibid.
(3) Ibid., pp. 164 e 165.
(4) Ibid., pp. 165 e 166.
(5) Ibid. p. 166.
(6) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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