domingo, 3 de junho de 2012

O Caminho Novo das Minas

Devido às dificuldades do Caminho Velho das Minas, principalmente no que se refere à segurança para o transporte dos "Reais Quintos", o governo português tinha grande interesse em que se abrisse uma nova rota, que fosse sair diretamente no Rio de Janeiro. De grande parte disso encarregou-se Garcia Rodrigues Pais que, como se sabe, era filho do famoso "caçador de esmeraldas", o bandeirante Fernão Dias Pais. Garcia Rodrigues conhecia bem a área, pois a percorrera em companhia do pai. Queria, é claro, obter vantagem com o trabalho, mediante a cobrança de pedágio na passagem pela nova trilha.
Trilha? Sim, no início era apenas uma trilha, a muito custo aberta em meio à vegetação. Nesse tempo não havia máquinas que pudessem auxiliar na pesada tarefa, de modo que uma multidão de escravos, tanto indígenas quanto de origem africana, deve ter despendido muito suor em cortar árvores, roçar o mato, cavar o terreno, nivelar obstáculos.
Dessa trilha por terra deixou-nos Antonil um importante relato, que dará aos meus leitores a oportunidade de observarem o quanto era complicada a situação de quem viajava pelo interior do Brasil no início do século XVIII: há, no roteiro, poucos nomes de vilas ou cidades, ao contrário do que acontecia no Caminho Velho, que passava por localidades já bem conhecidas. Sendo uma nova rota, é compreensível que, ao longo do trajeto, ainda não existisse muita comodidade para quem viajava, apenas alguns pousos de tropeiros, precários ao extremo, que pouco a pouco iam surgindo. Entretanto, é escusado dizer que muitos desses modestos pousos e mesmo fazendas onde se podia fazer algum abastecimento vieram a ser, mais tarde, localidades de importância.
Pelo que diz Antonil, havia duas possibilidades de saída:
a) "Partindo da cidade do Rio de Janeiro por terra com gente carregada e marchando à paulista, a primeira jornada se vai a Irajá, a segunda ao Engenho do Alcaide-Mor Tomé Corrêa, a terceira ao Porto do Nóbrega no rio Iguaçu, onde há passagem de canoas e saveiros, a quarta ao sítio que chamam de Manuel do Couto." (¹)
b) "E quem vai por mar em embarcação ligeira, em um dia se põe no porto da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar, e outro, em canoa, subindo pelo rio Morobaí acima, ou indo por terra, chega pelo meio-dia ao referido Sítio do Couto." (²)
Como se vê, as duas possibilidades iam sair no Sítio do Pouso. A partir daí, o caminho era um só. Prossegue Antonil:
"Deste se vai à Cachoeira do Pé da Serra, e se pousa em ranchos. E daqui se sobe à Serra, que são duas boas léguas, e descendo o cume, se arrancha nos Pousos que chamam Frios.
(...)
Travessia do rio Paraíba do Sul com auxílio de canoa,
de acordo com M. Rugendas (⁶)
Dos Pousos Frios se vai à primeira roça do Capitão Marcos da Costa, e dela, em duas jornadas, à segunda roça, que chamam do Alferes.
Da Roça do Alferes em uma jornada se vai ao Pau Grande, roça que agora principia e daí se vai pousar no mato ao pé de um morro, que chamam o Cabaru.
Deste morro se vai ao famoso Rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. (...)
Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas (...). É este rio pouco menos caudaloso que o Paraíba, passa-se em canoa.
Do rio Paraibuna fazem duas jornadas à Roça do Contraste Simão Pereira (...). Da roça do dito Simão Pereira se vai à de Matias Barbosa e daí à roça de Antônio de Araújo, e desta à roça do Capitão José de Sousa, donde se passa à roça do Alcaide-Mor Tomé Corrêa. Da roça do dito Alcaide-Mor se vai a uma roça nova do Azevedo, e daí à roça do Juiz da Alfândega Manuel Corrêa, e desta à de Manuel de Araújo. E em todas estas jornadas se vai sempre pela vizinhança do Paraibuna.
Da roça do dito Manuel de Araújo se vai à outra rocinha do mesmo.
Desta rocinha se passa à primeira roça do Senhor Bispo, e daí à segunda do dito.
Da segunda roça do Senhor Bispo fazem uma jornada pequena à Borda do Campo à roça do Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca." (³)
A partir daí novamente havia duas opções de caminho, de acordo com o destino do viajante. Uma delas era o caminho do rio das Mortes:
"Quem vai para o Rio das Mortes passa desta roça à de Alberto Dias, daí à de Manuel de Araújo, que chamam da Ressaca, e desta à Ponta do Morro (...). Deste lugar se vai jantar ao Arraial do Rio das Mortes." (⁴)
Outra opção era a estrada das Gerais:
"E quem segue a estrada das Minas Gerais, da roça sobredita de Manuel de Araújo da Ressaca do Campo vai à roça que chamam de João Batista, daí à de João da Silva Costa e desta à roça dos Congonhas, junto ao Rodeio da Itatiaia, da qual se passa ao Campo do Ouro Preto, onde há várias roças e de qualquer delas é uma jornada pequena ao Arraial do Ouro Preto, que fica mato dentro, onde estão as lavras do ouro." (⁵)
É quase desnecessário afirmar que era perfeitamente possível que viajantes acabassem por perder-se em meio à mataria. Por isso, as caravanas costumavam ter guias experientes, habituados às dificuldades do caminho e capacitados a conduzir homens e animais sertão adentro.
Vários autores da época asseveravam ser muito maior a produção de ouro do Brasil do que aquela que oficialmente se contava, a partir da cobrança dos Reais Quintos. Malgrado o trocadilho, fica, porém, a questão: se tal era o caminho, como impedir os descaminhos?

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio) Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas
Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p 164
(2) Ibid.
(3) Ibid., pp. 164 e 165
(4) Ibid., pp. 165 e 166
(5) Ibid. p. 166
(6) RUGENDAS, Moritz Malerische Reise in Brasilien
Paris: Engelmann, 1835
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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