Anda na moda incluir insetos nas refeições. Há quem veja neles a solução dos problemas alimentares da humanidade. De minha parte, passo longe: todo esse exército de criaturas com seis patas, um ou dois pares de asas e duas antenas me parece muito mais tolerável andando, voando ou saltando do que assado, frito, ensopado, grelhado ou mergulhado em algum molho.
Entretanto, a presença de insetos como parte da alimentação humana não é exatamente uma novidade. Em diversas culturas foi e é uma prática habitual. Indígenas do Brasil, por exemplo, foram descritos por Anchieta (¹) como grandes apreciadores de formigas tanajuras - assadas, é claro. Antes, porém, de entrar na questão do preparo dos insetos, o missionário jesuíta teve o cuidado de, a seu modo, explicar como eram esses acepipes em potencial:
"Das formigas só parecem dignas de comemoração as que destroem as árvores; estas são chamadas içás: são um tanto ruivas, trituradas cheiram a limão; cavam para si grandes casas debaixo da terra. Na primavera, isto é, em setembro, e daí em diante, fazem sair o enxame dos filhos, quase sempre no dia seguinte ao de chuva e trovoada, se o sol estiver ardente [...]." (²)
Agora, captura e modo de preparo:
"Para ver quando elas saem de suas cavernas [sic] [...] ajuntam-se os índios, que ansiosamente esperam este tempo, tanto homens, como mulheres; deixam as suas casas, apressam-se, correm com grande alegria e saltos de prazer para colher os frutos novos, aproximam-se das entradas dos formigueiros e enchem de água os pequenos buracos que elas fazem [...], e enchem os seus vasos, isto é, certas cabaças grandes, voltam para casa, assam-nas em vasilhas de barro e comem-nas; assim torradas, conservam-se por muitos dias, sem se corromperem." (³)
Para mostrar que entendia mesmo do assunto, Anchieta fez uma revelação:
"Quão deleitável é esta comida e como é saudável, sabemo-lo nós, que a provamos." (⁴)
Satisfeitos, leitores? Vem mais. Vamos à Antiguidade, à Mesopotâmia, à Assíria. Observem este interessante relevo (⁵), descoberto como resultado de escavações arqueológicas do Século XIX, no que se revelou um complexo de construções destinadas à habitação real e administração dos negócios públicos:
Trata-se de uma equipe de serviçais, conduzindo ingredientes para o que seria, com enorme probabilidade, a preparação de um régio banquete. De um grupo maior, destacamos quatro. A semelhança dos trajes faz supor que usavam uma espécie de uniforme. Da esquerda para a direita, o primeiro leva romãs (muito apreciadas por povos da Mesopotâmia na Antiguidade), o terceiro carrega aves e o quarto, coelhos. E quanto ao segundo? Vejam, leitores, no detalhe:
Sim, vocês estão certos! São... Gafanhotos! Enormes, aliás, se o artista que representou essa procissão gastronômica foi fiel às proporções. Ao monarca assírio, só restaria dizer: Bom apetite, majestade!
(1) Em uma carta escrita em São Vicente no ano de 1560, cujo destinatário era o Geral da Companhia de Jesus, padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 122.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
(5) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
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