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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Eclipse solar durante a Guerra do Peloponeso

Ocorre eclipse solar, todo mundo sabe, quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol. Todo mundo sabe hoje, mas não era assim na Antiguidade. 
Foi Cícero (¹), romano, quem contou: durante a Guerra do Peloponeso (²), atenienses, horrorizados pela ocorrência de um eclipse, não queriam ir ao combate. Intervém então ninguém menos que Péricles, e, com algumas palavras, move o ânimo de sua gente, fazendo-a deixar de lado a superstição paralisante:
"[...] disse aos concidadãos que aprendera na escola de Anaxágoras (³), em que fora ouvinte, que eclipses eram fenômenos periódicos, que aconteciam quando a Lua estava diante do Sol [...]. Argumentando racionalmente, fez desaparecer o medo entre o povo. Parece que Tales de Mileto (⁴) foi o primeiro a compreender que eclipses aconteciam pela sobreposição da Lua ao Sol, coisa que antes era desconhecida. [...]" (⁵) 
O pânico gerado pelo eclipse, mesmo entre os instruídos atenienses, pode ser compreendido porque se supunha que a escuridão fora de hora era resultado da irritação dos deuses, e quem é que ousaria entrar em combate, se o Olimpo estava de mau humor? Umas poucas palavras sensatas de conhecimento científico à moda (e com as limitações) do Século V a.C. foram, porém, suficientes para esclarecer os fatos e varrer o medo, ainda que continuasse escuro por mais algum tempo. Lamentável é dizer, contudo, que a guerra em andamento nos dias de Péricles iria, essa sim, eclipsar, para sempre, a glória de Atenas. Aviso sábio para os que manejam os rumos das nações.

(1) Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C.). Político, escritor, orador e jurista romano. 
(2) 431 - 404 a.C.
(3) Anaxágoras foi um filósofo do Século V a.C.
(4) Filósofo, Tales de Mileto viveu entre os Séculos VII e VI a.C.
(5) CÍCERO, Marco Túlio. De re publica, c. 51 a.C. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Eclipses

Historinha que vovó contava: Ia haver um eclipse solar, mas ela, menina pequena, não sabia disso. Brincava alegremente com o irmãozinho quando, por um motivo qualquer, começou um desentendimento, desses que ocorrem entre crianças a toda hora. A mãe (minha bisa) resolve, então, dar uma lição nos dois, e anuncia: Olhem só, o sol está se apagando, o mundo vai acabar; como é que vocês vão dar conta dessa briga no juízo final?!!
Eclipse lunar
Não é nenhuma surpresa, meus leitores, que povos antigos, desconhecendo explicações cientificamente válidas para os eclipses do Sol e da Lua, observassem esses fenômenos com pavor. Afinal, o que seria da vida na Terra se o Sol desaparecesse para sempre? Alguns, tendo por fundamento certos aspectos mitológicos, propunham explicações satisfatórias para a mentalidade da época e ajudavam a manejar o medo do desconhecido.
No Livro I de suas Histórias, Heródoto (¹) conta que, certa vez, durante uma batalha entre lídios e medos, ocorreu um eclipse solar, que fez o dia tão escuro quanto a noite. Assombrados, os dois exércitos teriam abandonado as armas para estabelecer um tratado de paz. O mais interessante é que Heródoto também assevera que o mesmo eclipse pacifista teria sido predito por Tales de Mileto (²), uma prova de que esse notável matemático dos tempos antigos foi capaz de fazer mais do que descobrir modos de atormentar jovens estudantes de geometria da atualidade.
Ainda de acordo com Heródoto (Livro VII das Histórias), um eclipse solar teria ocorrido durante as Guerras Médicas (entre gregos e persas). A súbita ocultação do sol deixou Xerxes, o soberano persa, bastante perplexo, a ponto de chamar seus magos para uma consulta - lembrem-se, leitores, de que, nesse tempo, não havia ainda uma distinção muito clara entre ciência e crenças mitológicas. Os tais magos, em defesa de seus próprios interesses, não tardaram em dar a seu temperamental monarca a informação de que os acontecimentos relativos aos gregos eram "profetizados" pelo Sol, sendo a Lua a responsável pelo que sucedia aos persas. Portanto, a ocultação do Sol significava que os gregos seriam eclipsados, isto é, derrotados. Como se sabe, o suposto vaticínio estava completamente errado, mas o registro de Heródoto, se correto, nos faz ver que, ao contrário de outros povos contemporâneos, os persas não eram ainda capazes de prever eclipses.
Entre os romanos, Tácito (³), ao tratar de uma rebelião de soldados (⁴), mencionou a ocorrência de um eclipse lunar, interpretado pelos revoltosos como um presságio favorável. Logo, porém, a Lua foi ocultada por nuvens, fato entendido como presságio desfavorável. Melhor para os comandantes, que se valeram do pavor entre a soldadesca para retomar o controle da situação.
Agora, leitores, saindo da Antiguidade para o Século XVII, termino com uma visão algo poética dos eclipses, que, segundo o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya, era disseminada entre indígenas da América do Sul:
"Tinham como correta a doutrina de que há no céu um tigre (⁵) ou cão enorme, que em momentos de raiva comia a lua e o sol, a que nós chamamos eclipses, e quando isso acontecia mostravam tristeza e admiração." (⁶)
Montoya apenas não explicou como é que, depois de devorados, Sol e Lua voltavam a aparecer no céu...

(1) Século V a.C.
(2) Considera-se que Tales de Mileto provavelmente viveu entre os Séculos VII e VI a.C.
(3) c. 47 d.C. - 120 d.C.
(4) Annales, Livro I.
(5) Colonizadores tinham por costume fazer referência às onças-pintadas como "tigres".
(6) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. A citação foi traduzida por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Fofocas de Heródoto

Embora chamado por muita gente de “Pai da História”, Heródoto de Halicarnasso (*) não foi um historiador como hoje em geral se entende. Mas foi, no Século V a.C., um ótimo contador de histórias. Vão aqui algumas das “novidades” com que deliciava seus ouvintes, ao redor da fogueira, nas longas e escuras noites das Olimpíadas gregas.

1. De acordo com Heródoto, a família do famoso Tales de Mileto era, na verdade, originária da Fenícia.

2. Esta é sobre Ciro, que governou medos e persas: Ciro bebia apenas a água do rio que atravessava a fortaleza de Susa. Por esse motivo, cada vez que saía em campanha militar, era seguido por uma verdadeira procissão de carros de quatro rodas cuja finalidade era transportar água, aliás acondicionada em vasilhas de prata.

3. Heródoto relatava que, em seus dias, era esta a ração fornecida a cada um dos soldados que compunha a guarda pessoal do faraó:
Pão - pouco mais de três quilogramas;
Carne - pouco mais de 1 quilograma;
Vinho - pouco mais de dois litros.
Para os padrões da época, eram muito bem alimentados. Compreende-se: eram responsáveis pela segurança do monarca, e isso com todas as implicações daí decorrentes.

4. Afirmava Heródoto que os espartanos somente executavam condenados à morte durante as horas da noite, jamais sob a luz do dia.

5. Finalmente, ainda de acordo com Heródoto, os atenienses foram os primeiros dentre os gregos a ir ao combate correndo. Isso teria ocorrido contra medos e persas, na Batalha de Maratona (490 a.C.). A Batalha de Maratona é parte do que se usa chamar de Primeira Guerra Médica (contra os medos).

(*) Halicarnasso pertence hoje à Turquia. Na Antiguidade, era parte da Magna Grécia.


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