segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Jangadas

Jangada ao mar... (¹)

Já faz bastante tempo, leitores, mas quando estava com uns sete anos, eu tinha de praticar uma lição de piano cuja letra dizia: "Minha jangada de vela, que vento, queres levar..."  Lembrando a cançãozinha irritante, trato hoje justamente das jangadas e, como não poderia deixar de ser, da importância histórica dos jangadeiros.

Jangadas indígenas

Dentre as embarcações usadas por indígenas do Brasil, as jangadas despertaram a curiosidade dos colonizadores europeus devido à simplicidade com que eram feitas, aliada à eficiência quando era preciso vencer as ondas na navegação costeira do Atlântico. Escrevendo no Século XVI sobre o fato de que os ameríndios eram hábeis na pesca, Pero de Magalhães Gândavo explicou, em sua História da Província de Santa Cruz:
"Também se sustentam de muito marisco e peixes que vão pescar pela costa em jangada, que são uns três ou quatro paus pregados nos outros e juntos de modo que ficam à maneira dos dedos da mão estendida, sobre os quais podem ir duas ou três pessoas ou mais se mais forem os paus, porque são muito leves e sofrem muito peso em cima d'água." (²) 
Quase um século mais tarde o jesuíta Simão de Vasconcelos descreveria a jangada dos indígenas de modo semelhante: 
"No mar usam por embarcação de jangada, que vem a ser três até quatro paus boiantes ligados entre si, onde levam linhas e anzóis, e pescam peixe grosso." (³)

A jangada indígena ganhou uma vela

Os leitores que conhecem as jangadas que ainda hoje andam em uso devem ter notado que nas descrições dos primeiros tempos coloniais falta alguma coisa - a vela. Vê-se, portanto, que houve, neste caso, uma fusão de elementos da cultura indígena e do conhecimento náutico que sobrava aos portugueses. Assim, a pequena embarcação usada pelos nativos ganhou um modo de tirar partido dos ventos. A nova versão foi muito bem descrita por François Biard, pintor francês que esteve no Brasil entre 1858 e 1859:
"Uma velazinha parece surgir de dentro do mar; caminha na nossa direção com vento a favor. Vemos apenas uma vela, sem sabermos qual o seu ponto de apoio. [...]. "São jangadas, diz-me ao ouvido um marselhês que vivia há anos em Buenos Aires. O senhor vai ver daqui a pouco como são embarcações seguras, embora não o pareçam." Efetivamente, era segura. Meia dúzia de paus amarrados entre si, um banco e, ao centro, um furo onde se fixava o mastro. Nada mais. Nessa espécie de embarcações não se vai ao fundo, é verdade, porém tem-se os pés sempre dentro d'água, e, às vezes, um pouco mais do que os pés." (⁴)

Jangadas e jangadeiros cearenses na luta abolicionista

Ocorre que as jangadas do Ceará e, naturalmente, os respectivos jangadeiros, tiveram participação importantíssima à época em que fervia a campanha abolicionista. Foi entre 1880 e 1881, e, para bom entendimento da questão, será preciso dizer que, nesse tempo, eram os jangadeiros que transportavam, desde os navios, aqueles passageiros que queriam ir à cidade de Fortaleza. Isto posto, vamos ao que explicou Osório Duque-Estrada, relativamente à ação antiescravista dos jangadeiros cearenses:
"Desde 1867, constituíra-se o Ceará em centro do comércio exportador de escravos para as províncias do Sul para onde seguiam constantemente, separados para sempre de filhos, esposas e mães, levas e levas de míseros escravizados. 
Francisco do Nascimento, que gozava de grande influência na sua classe, reuniu logo todos os jangadeiros e obteve deles o juramento de que nenhum escravo seria mais embarcado, para entrar ou para sair, no porto de Fortaleza." (⁵)
Com grande probabilidade, a maioria dos jangadeiros devia ser composta por gente de pouca instrução formal, o que torna ainda mais surpreendente o nível de consciência cívico-política de sua decisão. Ora, não satisfeitos com esse notável serviço que já prestavam ao Brasil, os jangadeiros foram além, e decidiram não desembarcar os deputados que haviam participado da articulação com vistas a impedir o que viria a ser a Lei dos Sexagenários (aprovada em 1885):
"Um telegrama de Fortaleza, publicado na Gazeta da Tarde, anunciava que os jangadeiros reunidos no dia 6 de agosto, haviam resolvido impedir o desembarque dos representantes do Ceará que votaram a moção contra o gabinete Dantas.
Esse fato deu lugar a sátiras e humorismo de quase todos os jornais ilustrados da época." (⁶)
Convenhamos: não era para menos!

(1) KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London: Longman, Hurst, Rees, Orme, and Brown, 1816. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 138.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 126.
(4) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 25.
(5) DUQUE-ESTRADA, Osório. A Abolição. Brasília: Ed. Senado Federal, 2005, pp. 97 e 98.
(6) Ibid., p. 122.


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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A influência do despotismo de Estado no âmbito das relações familiares

Qualquer jovem estudante sabe: no Brasil dos tempos coloniais, e mesmo mais tarde, os senhores de engenho, fazendeiros, bandeirantes, etc., comandavam as respectivas famílias com autoridade inconteste. Para eles, pouco valiam as leis escritas. A justiça, eles a faziam aplicar como bem entendiam, o que significava que, à menor suspeita de alguma falta, mandavam matar mesmo a mulher ou algum dos filhos. Há, por exemplo, um caso célebre de um sujeito que mandou que um de seus filhos matasse um seu outro filho (irmão, portanto, daquele a quem se encomendou o assassinato), em virtude de desconfiar de que o rapaz andava de caso com uma de suas amantes (dele, pai). A ordem foi cumprida e o patriarca ainda teve o desplante de ordenar que o padre das redondezas comparecesse para o ofício fúnebre de missa por intenção da alma do assassinado.
Terrível? Essa é apenas uma dentre muitas histórias mais ou menos parecidas. 
Joaquim Manuel de Macedo, médico por formação, porém mais conhecido como romancista (foi também professor de História no Imperial Colégio de Pedro II), tinha uma ideia interessante sobre as atitudes brutais que, em certo tempo, imperaram nas famílias brasileiras - elas seriam apenas a aplicação, em família, do mesmo princípio que regulava o despotismo no âmbito do Estado, ainda que admitindo haver, apesar de tudo, casais que viviam bem e pais que, de fato, tinham grande amor pelos filhos. Ressalvava, no entanto, que "estas exceções não destruíam a regra que proviera daquela rudeza de costumes e da educação mais que austera, quase bárbara, da sociedade daqueles tempos de despotismo do governo do Estado, e despotismo do governo das famílias." (¹)
Um desdobramento do tal despotismo patriarcal, que hoje salta aos olhos de quem se dá ao trabalho de estudar a sociedade dos tempos coloniais, está relacionado à maneira como eram contratados os casamentos, em particular nos casos de famílias dotadas de algum patrimônio. Sigamos apreciando o humor no estilo de Macedo:
"Naquele tempo (no bom tempo), em grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras da aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais." (²)
Ah, leitores, acho que tudo isso põe de sobreaviso quem quer que tenha a veleidade (ou, talvez, a ingenuidade) de achar que tempos antigos eram, necessariamente, tempos melhores. Joaquim Manuel de Macedo por certo não concordaria. Se vivesse em um universo patriarcal, a sua Moreninha estaria em muito má situação. Não era, porém, descabida entre a elite educada da capital do Império.

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, pp. 378 e 379.
(2) Ibid., pp. 377 e 378.


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Modo indígena de evitar uma luta contra inimigos mais poderosos

O problema, desde a Antiguidade, tem inquietado comandantes militares e estrategistas das mais variadas civilizações: como proceder para uma retirada segura, sempre que se verifica que o inimigo tem forças muito superiores? Sim, porque, afinal, retirada não é derrota, e pode ser um recurso eficiente para preservar as tropas, adiando o confronto até uma ocasião mais favorável.
Indígena brasileiro com armas (²)
Os indígenas do Brasil, se podemos confiar no relato feito pelo Padre Simão de Vasconcelos no Século XVII, tinham uma tática bem definida para essas situações:
"Em suas guerras contam alguns destes um modo gracioso de que usavam os menos poderosos, quando queriam evitar o encontro; que como ordinariamente vivem em ilhas ou ribeiras do rio, e usam de canoas mui leves, no tempo em que hão de ser acometidos, passam à outra parte do rio, e logo tomando as canoas às costas, as vão esconder em algum dos muitos lagos que há entre as matas, e fogem, deixando os contrários frustrados; e idos eles, tornam a restituir-se às suas terras com as mesmas canoas." (¹)
Fica apenas uma dúvida: o que acontecia ao vinho de caju que as tribos contendoras deviam ter preparado para comemorar a vitória?

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Calendário Republicano da Revolução Francesa

Como era estruturado o Calendário Republicano

Na febre de remover tudo o que recordava o Antigo Regime, as lideranças revolucionárias na França da Convenção Nacional decidiram criar um novo calendário, que nem de leve remetesse os usuários às crenças judaico-cristãs. Foi assim que nasceu o Calendário Republicano, que vigorou de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805. Napoleão Bonaparte encarregou-se de colocar-lhe um termo, ainda que durante a chamada Comuna de Paris (1871) tenha passado por uma brevíssima ressurreição, para, em seguida, ser definitivamente sepultado.
Para quem ficou curioso por saber como era estruturado o novo calendário, vamos à explicação. Era mantido o mesmo número de meses do calendário juliano/gregoriano - doze, portanto - sendo trinta os dias de cada mês, com um acréscimo de cinco dias a cada ano, para totalizar 365. Os anos bissextos tinham, por suposto, um acréscimo de seis dias.
Os meses tinham, pela ordem, os seguintes nomes: Vindemiário, Brumário, Frimário, Nivoso, Pluvioso, Ventoso, Germinal, Floreal, Pradial, Messidor, Termidor e Frutidor. Ufa!...
Cada mês era dividido em três "semanas" de dez dias (que tal, leitores?), que eram denominadas décadas. Tentou-se criar também um sistema de horas com base decimal, mas sem sucesso na prática.

Datas famosas no Calendário Republicano

Um exemplo de data importante que ficou conhecida por sua designação no Calendário Republicano é 9 Termidor do Ano II, que corresponde a 27 de julho de 1794, ou seja, o ponto final ao "Reinado do Terror". Robespierre e outras figuras adoráveis foram aprisionados e executados. Na guilhotina, evidentemente.
Uma outra data acabou por ser ainda mais notável: 18 Brumário, ou 9 de novembro. Nesse dia, em 1799, um golpe de Estado pôs fim ao Diretório, de modo que o governo passou a ser exercido pelo Consulado, tendo à frente o general Napoleão Bonaparte, no cargo de primeiro-cônsul. Era o fim da Revolução Francesa. 
Mais de meio século mais tarde, Luís Napoleão (sobrinho de Napoleão Bonaparte), também através de um golpe, viria a ser imperador da França, com o título de Napoleão III. Esse acontecimento propiciou a Karl Marx a oportunidade de resgatar uma ideia de tremendas implicações históricas, segundo a qual os grandes acontecimentos sucedem duas vezes. Escreveu ele em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte:
"Hegel afirmou em algum lugar que todos os grandes eventos, bem como personagens da História mundial, ocorrem duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira como Tragédia, a segunda como Farsa." (¹)
Neste ponto talvez seja útil lembrar que a ideia da dupla ocorrência de grandes eventos e personagens não foi invenção de Hegel - ela é muitíssimo mais antiga. Mas prossigamos, considerando o elemento original proposto por Marx, ou seja, o par tragédia / farsa.
Os leitores entendem, naturalmente, que Marx estava a referir-se à tragédia e à farsa no sentido que lhes atribui a arte dramática, o que até dispensaria maiores comentários. Não sem sarcasmo, sugeria que a investida política de Luís Napoleão não passava de uma comediazinha burlesca, quando comparada às ações lideradas por seu famoso tio. É óbvio, no entanto, que Marx não estava propondo que todo e qualquer acontecimento, por trivial que fosse, teria, em outra circunstância, uma repetição.

"18 Brumários" fora da França

Resta lembrar que muitos outros "18 Brumários" ainda aconteceram nos novembros que a humanidade tem presenciado. A história da Alemanha registra, curiosamente, uma série de eventos a 9 de novembro, alguns de feliz memória, e outros, lamentáveis: em 1918, foi o fim do Império, seguido da proclamação da República; em 1923, o Putsch de Munique (²); em 1938 a Kristallnacht; em 1989, a queda do muro de Berlin, só para citar alguns.

(1) MARX, Karl. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte 2ª ed. Hamburg: Otto Meissner, 1869, p. 1. O trecho citado é tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Tentativa fracassada de golpe por parte de nazistas; também conhecido como Putsch da Cervejaria.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O que se ensinava aos meninos e às meninas nas escolas do Império do Brasil

A maioria das escolas públicas que havia no Império do Brasil estava limitada a ensinar leitura, escrita e as quatro operações fundamentais da aritmética. Algumas, para dar um verniz de moralidade ao currículo, acrescentavam uma disciplina chamada "doutrina cristã" - católica, entenda-se, em conformidade com a religião oficial estipulada na Constituição de 1824. Não era muita coisa, mas era o que estava disponível para a maioria das crianças. O avanço, em relação ao que se encontrava no século precedente, ficava por conta da existência, em vários lugares, de escolas, ou pelo menos, classes, destinadas às meninas, regidas em geral por uma professora. Coeducação dos sexos? Nem pensar! Era fenômeno cuja aparição ainda provocava algum escândalo e não seria facilmente aceito por famílias conservadoras.
Gente mais endinheirada podia, no entanto, encaminhar os filhos para estudos nos colégios das capitais das províncias ou mesmo no Imperial Colégio de Pedro II, uma aspiração de todo menino que sonhava em progredir até à conclusão de um dos (pouquíssimos) cursos superiores então existentes no País (era por esse motivo que o luxo supremo ainda consistia em ir estudar na Europa). Mas como o Pedro II não tinha vaga para todos os potenciais estudantes, havia na Corte um número considerável de colégios particulares. Quase todos ofereciam regime de internato, para acomodar adolescentes que vinham de longe, já que naqueles tempos a maior parte da população vivia em áreas rurais, onde não havia escolas. Por suposto havia, também, colégios para meninas de famílias abastadas. Além dos costumes severos que vigoravam, uma outra razão para a resistência ao estabelecimento de escolas mistas é que os programas de estudos usuais para meninos e para meninas eram muito diferentes entre si. 
Não existindo um currículo nacional obrigatório (o problema é antigo), o que acontecia, na prática, é que cada colégio acabava por ensinar aquilo que seus proprietários julgavam mais conveniente, levando em conta o interesse do público pagante. Havia quem tratasse logo de ministrar instrução prática em um ofício, ou de treinar para habilidades comerciais, ou ainda, não raro, de capacitar para o exercício de alguma função burocrática subalterna em um órgão público (aqui também é preciso notar que a aspiração é antiga). O currículo do Pedro II servia de modelo para instituições particulares que preparavam futuros acadêmicos, ainda que prevalecesse uma geral anarquia quanto aos programas das séries anuais. Era possível, em muitos colégios, que os alunos escolhessem quais matérias queriam cursar, com a "ajuda" dos palpites paternos, é claro. Como regra, uma formação supostamente humanística estava na moda, exceto para aqueles estudantes destinados às escolas militares.
Para dar uma ideia aos leitores do que é que se ensinava aos meninos e meninas que frequentavam colégios de elite na Corte, selecionei dois anúncios que apareceram no Almanaque Laemmert de 1852. O primeiro deles, de um colégio para meninos, especificava:
"Neste colégio, estabelecido em uma excelente, espaçosíssima e mui bem arejada casa, e em uma das melhores ruas desta Corte, ensinam-se todos os preparatórios para as academias do Império, e bem assim diversas outras línguas, ciências, belas-artes e exercícios." (¹)
Vinha, a seguir, a lista de disciplinas oferecidas: Leitura, Ortografia, Doutrina Cristã, Gramática, Caligrafia, Aritmética, Álgebra, Geometria, Geografia, História Universal, História do Brasil, Cosmografia, Cronologia, Leitura e Explicação da Constituição do Império, Noções de Ideologia, Retórica e Poética, Latim, Francês, Inglês, Alemão, Grego, História da Filosofia, Lógica, Psicologia, Moral, História Sagrada, Leitura do Saltério, Leitura das Odes Sacras do Padre Caldas, Desenho Linear, Desenho Elementar em Paisagens e Contornos, Desenho de Paisagem e de Sombreado, Cópias de Gesso, As Cinco Posições Naturais e Curvadas, Valsa, Solo Inglês, Quadrilhas, Piano, Flauta, Esgrima e Ginástica. 


Esperavam mais alguma coisa, leitores? É fácil notar que o currículo era deficiente quanto ao que nós, hoje, chamaríamos de Ciências da Natureza.
Vejamos, agora, um anúncio de colégio para meninas. Dizia:
"Neste colégio se ensina a ler e escrever gramaticalmente, a contar e a executar todas as qualidades de bordados, branco, matizes, estofo de sombra de ouro, enfim todas as habilidades de agulha." (²)
Acrescentava, ainda, que, mediante pagamento adicional, as alunas podiam ter aulas de desenho, dança, piano e canto. E concluía:
"Os professores são da mais reconhecida habilidade para o bom desempenho da sua arte, e as alunas são tratadas com toda a limpeza e asseio, e com o maior carinho possível." (³)


(1) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano Bissexto de 1852. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1852, p. 337.
(2) Ibid, p. 342.
(3) Ibid.


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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Uma festa para o governador-geral que foi ao Rio de Janeiro

As povoações fundadas no Brasil ao longo do primeiro século de colonização viviam, quase todas, em grande isolamento. As leis do Reino eram obedecidas quando se bem entendia, mesmo que houvesse algum tipo de autoridade nomeada e reconhecida. Como regra, fazia-se justiça com as próprias mãos.
Tanta liberdade tinha lá seus inconvenientes. O isolamento era um mau negócio quando era preciso defender uma localidade contra ataques externos (de piratas e corsários) ou internos (de povos indígenas, que, tendo sofrido injúrias, revidavam).
A lógica inicial da colonização, através de Capitanias Hereditárias, favorecia a descentralização. Esperava-se, é claro, que os donatários oferecessem ajuda uns aos outros sempre que necessário, mas até que um pedido de socorro chegasse aos vizinhos, é bem provável que uma catástrofe já houvesse acontecido. Além disso, o sistema de Capitanias fracassou, em grande parte porque donatários não se interessaram por elas, nem chegando a vir conhecê-las, ou porque não tinham recursos para investir na colonização.
O Governo-Geral, criado em 1548, restringiu a autoridade dos donatários, é verdade, em busca de uma centralização administrativa, mas não foi capaz de dar solução aos problemas gerados pelo isolamento dos núcleos de colonizadores. O que poderia fazer um governo com sede na Cidade da Bahia (Salvador), no caso de um ataque fulminante a uma vila nas Capitanias de Santo Amaro ou São Vicente? O próprio governador-geral evitava longas ausências de sua capital, segundo relatos da época, com receio de que a população aprontasse alguma sedição. É por isso que Frei Vicente do Salvador (¹) relata que, no final do Século XVI, quando o governador-geral Dom Francisco de Sousa foi ao Rio de Janeiro (²), houve por lá grandes festividades: "...se partiu para o Rio de Janeiro, donde foi recebido do capitão-mor, que então era Francisco de Mendonça, e do povo todo com muito aplauso, por ser parte onde nunca vão os governadores-gerais."
As festas, todavia, não foram capazes de camuflar as formidáveis encrencas que campeavam por terras fluminenses, de modo que ao governador coube mandar vir o ouvidor-geral, a fim de pôr fim às desordens. Continua Frei Vicente do Salvador:
"Achou tantos pleitos cíveis e crimes indícios, que para os haver de julgar lhe fora necessário deter-se ali muito tempo, pelo que mandou chamar o ouvidor-geral Gaspar de Figueiredo Homem, que se havia casado em Pernambuco, para o deixar ali."
Entrego aos leitores o imaginar qual seria a situação das pequeninas povoações no interior, se assim andavam as coisas no Rio de Janeiro, que, bem ou mal, ainda recebia alguma atenção dos funcionários coloniais, diante da evidente cobiça que despertava em monarcas europeus que sonhavam em conquistar para si mesmos uma fatia das promissoras terras do Continente Americano.

(1) História do Brasil; o manuscrito data de  c. 1627.
(2) Frei Vicente do Salvador diz que D. Francisco de Sousa saiu da Bahia em outubro de 1598, mas não declara a data de sua chegada ao Rio de Janeiro.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Em que trabalhavam os presos no Império do Brasil

O Código Criminal do Império do Brasil estipulava duas situações possíveis para os condenados à pena de prisão, desde que fossem de condição livre: a "prisão simples" e a "prisão com trabalhos" (¹). No segundo caso, o Artigo 46 estabelecia:
"A pena de prisão com trabalhos obrigará aos réus a ocuparem-se diariamente no trabalho que lhes for destinado dentro do recinto das prisões, na conformidade das sentenças e dos regulamentos policiais das mesmas prisões." (²)
Era passível de prisão com trabalhos quem, por exemplo, danificasse "monumentos, edifícios, bens públicos ou quaisquer outros objetos destinados à utilidade, decoração ou recreio público" (Artigo 178), a mãe que matasse "o filho recém-nascido para ocultar a sua desonra" (Artigo 198), ou ainda quem contraísse "matrimônio segunda ou mais vezes, sem se ter dissolvido o primeiro" (Artigo 249), o que se reputava como poligamia (³).
Não se pode saber, com exatidão, em que é que trabalhavam os apenados que havia em todo o País, mas podemos ter uma ideia a partir do que acontecia na Casa de Correção do Rio de Janeiro (⁴). O Almanaque Laemmert de 1852 trazia, relativamente à Casa de Correção da capital do Império: "...tem noventa e tantos sentenciados que trabalham pelos ofícios de carpinteiro, sapateiro, alfaiate, tanoeiro e encadernador, e alguns são ocupados no serviço do estabelecimento e em fazer chapéus de palha grosseiros." (⁵)
É provável que alguns dos leitores estejam quase em estado de choque diante do número irrisório de presos daqueles tempos - como é que as coisas podem ter mudado tanto? 
Recuperem o fôlego, pois, e vejam que os ofícios citados refletem ocupações comuns no Século XIX. Quem já tinha uma dessas profissões tinha de exercê-la, ainda que na cadeia; quem não tinha, por suposto acabaria ocupando o tempo em aprender alguma coisa. A prática, afinal, não era má em si mesma, e até podia ser muito útil para aqueles que, tendo cumprido a pena, saíssem da prisão e fossem procurar emprego. Fica apenas a ressalva de que as prisões existentes no interior do Brasil estavam, em sua maioria, bem longe dessa realidade.

(1) Não é a mesma coisa que condenação à pena de galés - esta era aplicada em crimes considerados muito graves e/ou em caso de reincidência, situação em que os presos eram empregados em trabalhos públicos e estavam sempre acorrentados. 
(2) ____________ Código Criminal do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Quirino e Irmão, 1861, p. 22.
(3) Ibid., respectivamente pp. 128, 147 e 179.
(4) O Rio de Janeiro era a capital do Império do Brasil.
(5) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano Bissexto de 1852. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1852, p. 105.