Mostrando postagens com marcador Casa de Correção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Casa de Correção. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Em que trabalhavam os presos no Império do Brasil

O Código Criminal do Império do Brasil estipulava duas situações possíveis para os condenados à pena de prisão, desde que fossem de condição livre: a "prisão simples" e a "prisão com trabalhos" (¹). No segundo caso, o Artigo 46 estabelecia:
"A pena de prisão com trabalhos obrigará aos réus a ocuparem-se diariamente no trabalho que lhes for destinado dentro do recinto das prisões, na conformidade das sentenças e dos regulamentos policiais das mesmas prisões." (²)
Era passível de prisão com trabalhos quem, por exemplo, danificasse "monumentos, edifícios, bens públicos ou quaisquer outros objetos destinados à utilidade, decoração ou recreio público" (Artigo 178), a mãe que matasse "o filho recém-nascido para ocultar a sua desonra" (Artigo 198), ou ainda quem contraísse "matrimônio segunda ou mais vezes, sem se ter dissolvido o primeiro" (Artigo 249), o que se reputava como poligamia (³).
Não se pode saber, com exatidão, em que é que trabalhavam os apenados que havia em todo o País, mas podemos ter uma ideia a partir do que acontecia na Casa de Correção do Rio de Janeiro (⁴). O Almanaque Laemmert de 1852 trazia, relativamente à Casa de Correção da capital do Império: "...tem noventa e tantos sentenciados que trabalham pelos ofícios de carpinteiro, sapateiro, alfaiate, tanoeiro e encadernador, e alguns são ocupados no serviço do estabelecimento e em fazer chapéus de palha grosseiros." (⁵)
É provável que alguns dos leitores estejam quase em estado de choque diante do número irrisório de presos daqueles tempos - como é que as coisas podem ter mudado tanto? 
Recuperem o fôlego, pois, e vejam que os ofícios citados refletem ocupações comuns no Século XIX. Quem já tinha uma dessas profissões tinha de exercê-la, ainda que na cadeia; quem não tinha, por suposto acabaria ocupando o tempo em aprender alguma coisa. A prática, afinal, não era má em si mesma, e até podia ser muito útil para aqueles que, tendo cumprido a pena, saíssem da prisão e fossem procurar emprego. Fica apenas a ressalva de que as prisões existentes no interior do Brasil estavam, em sua maioria, bem longe dessa realidade.

(1) Não é a mesma coisa que condenação à pena de galés - esta era aplicada em crimes considerados muito graves e/ou em caso de reincidência, situação em que os presos eram empregados em trabalhos públicos e estavam sempre acorrentados. 
(2) ____________ Código Criminal do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Quirino e Irmão, 1861, p. 22.
(3) Ibid., respectivamente pp. 128, 147 e 179.
(4) O Rio de Janeiro era a capital do Império do Brasil.
(5) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano Bissexto de 1852. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1852, p. 105.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Senhores podiam mandar seus escravos para a Casa de Correção e para o Calabouço

Escravo sendo conduzido à Casa de Correção (³)

Um escravo desobediente podia ser mandado, por seu próprio senhor, para a prisão - a famosa "Casa de Correção", lugar para o qual eram também enviados os escravos que cometessem delitos em áreas públicas. Daniel P. Kidder, missionário e pastor metodista que viveu na capital do Brasil nos últimos anos do Período Regencial, observou, a respeito das Casas de Correção:
"É para aí que se mandam os escravos desobedientes ou insubordinados. Os negros são recebidos a qualquer hora do dia ou da noite e aí ficam até que os seus senhores os venham reclamar. Seria realmente de admirar se de vez em quando não se dessem aí cenas de requintada crueldade." (¹)
Já o calabouço era reservado para fugitivos, ainda que os senhores eventualmente também mandassem escravos para lá. Tem-se também descrição de Daniel P. Kidder:
"Trata-se de masmorra construída numa ponta de terra que se projeta para a baía, mesmo em frente à cidade [Rio de Janeiro], onde os escravos fugitivos são encarcerados até que sejam procurados pelos respectivos donos." (²)
Pode parecer estranho que proprietários de escravos, interessados antes no trabalho dos cativos que em mantê-los presos, decidissem mandá-los ao calabouço. No entanto, devemos ter em conta que a horrível prisão servia para aterrorizar, desencorajando atos de desobediência ou fugas. Entrava em ação, também, quando um escravo recém-chegado ao mercado parecia rebelde à sua "nova condição". Tanto é verdade que, uma das personagens do universo machadiano, Cotrim, um comerciante (entenda-se: contrabandista) de escravos, que aparece em Memórias Póstumas de Brás Cubas (cunhado da personagem principal), é descrito como alguém que tinha inimigos, em decorrência das maneiras pouco suaves, atribuindo o autor, porém, esses traços à natureza de sua "ocupação":
"Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais."
Teria Machado escrito essas linhas com uma ponta de cinismo? Não podemos ter certeza em grau absoluto, é claro, mas a ironia da crítica social transparece, a meu ver, até pelo teor sarcástico que, finamente, predomina nas Memórias Póstumas.

Escravos aprisionados no tronco, de acordo com Debret (⁴)

(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 91.
(2) Ibid., p. 94. 
(3) O original pertence ao acervo da BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também: