domingo, 29 de abril de 2012

Trabalhadores livres nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial

Trata-se de um conceito popularmente difundido: o trabalho nos engenhos de açúcar do Brasil colonial era feito por escravos, o que, bem entendido, significa cativos do sexo masculino. Ora, como já se demonstrou anteriormente neste blog, muito do trabalho de um engenho era feito por escravas, tanto na lavoura de cana como nas demais instalações de fabricação do açúcar, de modo que, por nenhuma maneira, deve-se pensar que eram as mulheres cativas restritas aos trabalhos domésticos na casa-grande (¹).
Além disso, é preciso dizer que, mesmo sendo cativa a maior parte da mão de obra empregada nos engenhos, havia determinadas funções que eram, habitualmente, exercidas por trabalhadores livres, contratados por um salário fixo. Pelo menos é o que se depreende do que escreveu o Padre Antonil (²), em Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas:
"Servem ao senhor do engenho em vários ofícios, além dos escravos de enxada e de foice, que têm nas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e mulatas, negros e negras de casa ou ocupados em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores. Tem mais cada senhor destes necessariamente um mestre de açúcar, um banqueiro e um contrabanqueiro, um purgador, um caixeiro no engenho e outro na cidade, feitores nos partidos e roças, um feitor-mor do Engenho, e para o espiritual, um sacerdote seu capelão, e cada qual destes oficiais tem soldada." (³)
Vale explicar que a expressão "tem soldada" significa: recebe salário.
Alguns dos ofícios mencionados podiam, eventualmente, ser exercidos por um escravo, mas, para tanto, era preciso dispor de algum que fosse devidamente capacitado para a função. Vê-se, pois, o quanto era complexo, para a época, o empreendimento de um engenho açucareiro, não só pela necessidade de amplas terras cultiváveis, instalações e maquinário, como também pelo número de trabalhadores, quer escravos, quer livres, com os quais era preciso contar.

(1) Veja, sobre o trabalho feminino nos engenhos coloniais de cana-de-açúcar, a série "O trabalho das escravas nos engenhos de açúcar".
(2) Sobre André João Antonil, veja a postagem "Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar no Brasil Colonial".
(3) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 2.


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

A fuga de cativos como forma de resistência à escravidão

Que fazia um escravo no Brasil ao sentir-se demasiadamente oprimido? A lista de reações possíveis era grande, e quem estiver interessado no assunto pode, com bastante proveito, consultar a série "Escravos que resistiam à escravidão",  neste blog. Entretanto, uma possibilidade era tentar a fuga.
Como se sabe, muitos escravos que conseguiam escapulir ao férreo controle de seus senhores acabavam por reunir-se em comunidades, os quilombos, em que a possibilidade de lutar contra uma captura era maior. Os quilombos foram muitos numerosos, e Palmares é apenas, dentre eles, o mais popularmente conhecido.
Acontece que há relatos de escravos que, fugindo, refugiaram-se nas matas,  sozinhos ou em pequenos grupos - três, quatro ou cinco pessoas, por vezes um casal isolado - e aí permaneceram por muito tempo, acobertados pelo gigantismo do território que, aliás, era parcamente conhecido, até mesmo dos senhores. Eu arriscaria dizer que, em se tratando do conhecimento do território do Brasil Colonial, por muito tempo os escravos souberam muito mais que os senhores, e isso se considerarmos apenas os cativos oriundos da África, já que os indígenas eram os verdadeiros mestres do saber em relação ao terreno, às florestas e, portanto, também no que tocava à sobrevivência longe das povoações de colonizadores.
O outro lado dessa história é que muitos escravos fugitivos eram capturados e reconduzidos aos seus senhores. As autoridades policiais que agiam nas matas, os capitães de mato, não hesitavam em cumprir seus deveres de ofício e os fujões eram, via de regra, submetidos aos mais desumanos castigos pela audácia que tiveram de negar-se ao trabalho, ao qual eram necessariamente reconduzidos, isso quando sobreviviam às torturas dos açoites, aprisionamento no tronco e muito mais, não desprezando o fato de que, de novo na labuta, eram obrigados a portar horrendos colares de metal que identificavam sua condição de recapturados.

Escravos usando o colar de ferro, castigo para os fugitivos, de acordo com Debret (*)

A questão é que os capitães de mato agiam fora das vilas e cidades. O que acontecia quando um escravo fugitivo era capturado em área urbana, sendo desconhecido o proprietário? Tem-se uma ideia do procedimento habitual, ao menos quando os jornais já circulavam com certa popularidade durante o Império, por este anúncio que apareceu no jornal Aurora Paulistana, em edição de 31 de julho de 1852:
"DECLARAÇÃO - Por esta repartição se faz público que foi recolhido à Casa de Correção um preto que declarou chamar-se Mateus, e ser escravo de Antônio de tal, morador na Venda Grande, do Rio de Janeiro. Quem tiver direito ao dito escravo compareça munido de documentos legais que provem o seu domínio, aliás se procederá na conformidade da lei. Secretaria da polícia de S. Paulo, 24 de julho de 1852. O amanuense, Antônio Louzada Antenes."
Portanto, a polícia encarregava-se do escravo fugitivo, recolhendo-o à prisão até que o proprietário, informado pela imprensa que sua "propriedade" fora localizada, comparecesse, em pessoa ou por representante legal, para reavê-lo. Toda a estrutura repressora de que dispunha o Estado estava, pois, inequivocamente, a serviço da manutenção da ordem escravocrata firmemente estabelecida. Chega a ser quase um prodígio que alguns conseguissem escapar aos seus tentáculos.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 24 de abril de 2012

A companhia de soldados descalços de Martim de Sá

Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, conta um fato bastante interessante, relacionado aos tempos coloniais, fato esse de que alegou ser testemunha ocular. Tendo como cenário o Rio de Janeiro e como contexto a tentativa holandesa de ocupação da Bahia, faz um relato que nos permite constatar como viviam muitos colonos no Brasil da primeira metade do século XVII. Para que se compreenda bem o ocorrido, vamos primeiro à leitura do que o próprio Frei Vicente escreveu:
"A vinte e um de dezembro de 1623 partiu de Holanda uma armada de vinte e seis naus grandes, treze do Estado e treze fretadas de mercadores, da qual avisou Sua Majestade ao Governador Diogo de Mendonça que se apercebesse na Bahia e avisasse os capitães das outras Capitanias fizessem o mesmo, porque se dizia virem sobre o Brasil. O Governador avisou logo a Martim de Sá, capitão-mor do Rio de Janeiro, o qual entrincheirou toda a cidade, consertou a fortaleza da barra e fez ir os homens do recôncavo para os repartir por suas estâncias, companhias e bandeiras; e porque muitos não apareciam, por andarem descalços e não terem com que lançar librés, ordenou uma companhia de descalços, de que ele quis ser o capitão, e assim ia diante deles nos alardos descalço e com umas ceroulas de linho, e o seguiam com tanta confiança e presunção de suas pessoas, que não davam vantagem aos que nas outras companhias militavam ricamente vestidos e calçados.
Sem esta, foram muitas as preparações de guerra que fez Martim de Sá nesta ocasião. As mesmas fariam nas outras Capitanias, que a todas se deu aviso até o Rio da Prata, mas faço menção do Rio de Janeiro como testemunha de vista, porque ainda então lá estava."
Vê-se que, em se tratando de comandar na guerra, o senhor Martim de Sá sabia o que era liderar. À parte disso, podemos fazer, a partir do que lemos, algumas observações, a começar pelo fato de que, estando a Corte ciente de que uma armada desse porte vinha ao Brasil, limitou-se, inicialmente, a deixar a defesa da terra, sabidamente bem pouco guarnecida, em mãos dos que já nela estavam. É que, nesse tempo, vigorava a chamada União Ibérica (1580 - 1640), e não se pode negar que a Coroa Espanhola, que estava em pé de guerra contra as chamadas Províncias Unidas (a que hoje chamamos Holanda),  que se haviam há pouco declarado independentes, não dava ao Brasil o mesmo cuidado que dispensava aos demais domínios na América, como México e Peru, por exemplo, que já lhe rendiam muitíssimo metal precioso. As terras brasileiras, ao contrário, iam sendo lentamente povoadas, e embora as capitanias do Nordeste e do Rio de Janeiro já produzissem um volume considerável de açúcar para exportação, não era algo que se comparasse a ouro e prata.
Nota-se também que o "serviço de inteligência", a bisbilhotice e espionagem nas Cortes alheias - sim, isso existia! - não foi capaz de informar para onde exatamente a armada era dirigida, de modo que todas as Capitanias fizeram aprontos para um eventual ataque. Ora, meus leitores, se algum dos senhores fosse, na época, conselheiro da Companhia das Índias Ocidentais, para onde recomendaria que se enviassem as forças de ataque? Para a região mais rica e promissora daqueles dias, certamente... No entanto, há que se considerar que, como governante, Diogo de Mendonça foi prudente em avisar da possível chegada de "visitantes", até por uma razão que hoje não passaria pela cabeça de nenhum navegante, mas que era, antigamente, um problema bem sério: uma armada sabia perfeitamente de onde partia (supõe-se!), mas nunca se tinha uma ideia exata de onde ia chegar, isso porque, mesmo conhecendo aproximadamente o rumo que se pretendia tomar, os ventos e correntes marítimas podiam desviar uma frota de sua rota, de modo que, não raro, acontecia de embarcações destinadas à Bahia, Pernambuco ou Rio de Janeiro irem parar nas Antilhas. Assim, era admissível que a Armada holandesa acabasse por aportar em qualquer ponto da costa brasileira, o que obrigava os defensores portugueses a uma contínua vigilância.
Há quem queira atribuir aos que defendiam a terra contra tentativas de ocupação (vindas principalmente de franceses, ingleses e holandeses) algum tipo de sentimento nativista, mas a mim me parece que a questão é bem mais simples. Os líderes da defesa eram portugueses natos ou seus descendentes, que também se consideravam portugueses, de modo que a noção de "brasilidade" que já se supôs, nesses casos fica bastante enfraquecida. Lutava-se antes de mais nada pela própria vida, pelas respectivas famílias e, como não podia deixar de ser, pelo direito à terra que se estava ocupando e da qual se retirava o sustento quotidiano. O brio militar, o sentimento de honra muito em vigor na época, podiam até dar uma impressão de patriotismo, mas, em última análise, não era algo muito além da luta pela sobrevivência em um lugar distante da Metrópole, com escassos recursos defensivos e do qual, se necessário, ficava quase impossível uma retirada em massa para o Reino.
Finalmente, sobre os soldados descalços: Ser colono no Brasil, para os pobres, não era nada fácil. Andavam descalços a vida toda e, por isso, não causa espanto que não tivessem sapatos para se apresentarem às suas obrigações militares. Mas pode ser mais do que isto. Os bandeirantes de São Paulo aprenderam, com seus cativos indígenas, uma técnica incrivelmente eficaz para se caminhar descalço nas matas. Talvez os colonos do Rio de Janeiro estivessem habituados a essa mesma técnica. Talvez também houvessem aprendido com os índios. Talvez isso seja indício de um processo recíproco de aculturação. Talvez fossem alguns desses colonos descalços, eles próprios, índios ou seus descendentes. Frei Vicente do Salvador não o declara, não temos nesse texto nenhum outro indício, mas o andar da colonização, na primeira metade do século XVII, torna essa uma possibilidade bem real.


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domingo, 22 de abril de 2012

Coisas infinitas que se dizia haver no Brasil após o Descobrimento

Quase não há quem desconheça a declaração de Pero Vaz de Caminha em sua célebre Carta: "As águas são muitas, infindas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem". Que exagero! Sim, exagero até compreensível diante da exuberância natural da terra à qual a esquadra de Cabral acabava de chegar. A despeito disso, em se tratando de exageros sobre as terras coloniais portuguesas na América, Pero Vaz de Caminha está longe de ser o recordista absoluto. Em minha opinião, o troféu dessa modalidade de megalomania deve pertencer a Pero de Magalhães Gândavo, e meus leitores já verão o porquê.
Fiz uma lista dos "infinitos" que esse autor menciona, tanto em seu Tratado da Terra do Brasil como em História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. É verdade que o mesmo autor por vezes trata das inconveniências da terra - animais selvagens, doenças tropicais, ataques indígenas - mas isso parece pouco diante de seu entusiasmo. Entretanto, já é tempo de ver a lista.

1. Infinito pau-brasil, referindo-se à Capitania do Rio de Janeiro:
"Há nela muito infinito pau do Brasil, de que os moradores da terra fazem muito proveito." (¹)

2. Infinita caça, desta vez junto ao rio Camamu, Bahia de Todos os Santos:
"Nesse mesmo rio há muito peixe em extremo, e junto dele muita infinita caça de porcos e veados". (²)

3. Infinito algodão, ainda na Bahia:
"Esta capitania tem uma baía muito grande e formosa, há três léguas de largura, e navega-se quinze por ela dentro, tem muitas ilhas de terras muito viçosas que dão infinito algodão [...]." (³)
Reafirma isto em História da Província de Santa Cruz:
"... e na Bahia de Salvador quase outros tantos, donde se tira cada ano grande quantidade de açúcares e se dá infinito algodão [...]." (⁴)

4. Infinito peixe no rio "de Paraíba", Capitania do Espírito Santo:
"Avante desta capitania em altura de vinte e um graus está o rio de Paraíba, este é mui grande e formoso e tem infinito peixe." (⁵)

5. Fontes infinitas, justificando a existência de tantos rios no Brasil:
"As fontes que há na terra são infinitas, cujas águas fazem crescer a muitos e mui grandes rios que por esta costa, assim da banda do Norte, como do Oriente, entram no mar Oceano." (⁶)

6. E, concluindo a História da Província de Santa Cruz, obra publicada em 1576, conclui também que a terra descoberta é dotada de infinita riqueza, graças a suas pedras preciosas (que, aliás, ninguém ainda havia efetivamente descoberto):
"Do preço delas não trato aqui, porque ao presente o não pude saber, mas sei que assim destas como doutras há nesta província muitas e mui finas, e muitos metais, donde se pode conseguir infinita riqueza." (⁷)
Paremos por aqui, meus leitores, antes que esta postagem venha a ter infinitas notas de rodapé... 

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p.48.
(2) Ibid., p. 39.
(3) Ibid., pp. 38 e 39.
(4) Idem. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil, edição de 1576.
(5)Idem. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 46.
(6) Idem. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil, edição de 1576.
(7) Ibid.

Estariam Caminha e Pero de Magalhães Gândavo realmente exagerando?

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

A repressão à Inconfidência Mineira no contexto político do Século XVIII

Joaquim José da Silva Xavier,
o Tiradentes, de acordo com um selo
dos Correios do Brasil
A Inconfidência Mineira é tida, ainda, como um movimento precursor da independência do Brasil, a despeito do que alguns têm escrito e debatido contrariamente. Contribui para isso o fato de que foi duramente reprimida, inclusive com a execução por enforcamento de um de seus integrantes. Ora, dirão alguns, por que é que gente que nunca chegou a pegar em armas por uma suposta independência, que, ao que se sabe, não andou publicando manifestos, que apenas discutiu eventualmente o mau futuro que, segundo todas as aparências, parecia aguardar as Minas, a manter-se o governo tal qual andava, por que é que gente até bastante importante foi ostensivamente presa, conduzida em ferros ao Rio de Janeiro, mantida em prisão por bastante tempo para, finalmente, receber pesadas sentenças? Sim, porque embora apenas Joaquim José da Silva Xavier tenha sido executado, vale lembrar que, na época, uma sentença de degredo na África, ainda que temporário, era encarada como uma condenação à morte, ainda que não imediata, já que era comum que degredados morressem em razão de doenças tropicais. Cabem, pois, nesse caso, algumas considerações importantes.
As vilas e cidades do Brasil Colonial respiravam frequentes sedições, revoltas, rebeliões, motins, insurreições, protestos, levantes, conspirações, revoluções - e São Paulo talvez tenha sido o mais acabado exemplo disso tudo. A falta de uma presença efetiva de representantes do governo português pela enorme distância entre Reino e Colônia, a frouxa autoridade de alguns governadores, a audácia dos governados, tudo contribuía para que as ordens reais fossem respeitadas quando se queria, sendo cabalmente ignoradas quando se discordava delas. Que se considere, sobre isso, a questão da escravidão de índios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Embora, de acordo com as leis, o enforcamento de rebeldes devesse ser coisa usual (vejam-se as famosas Ordenações, livro V), tendo efetivamente ocorrido em alguns casos, sabe-se de rebeliões, até de alguma importância, que não tiveram as consequências da Inconfidência Mineira. Essa, no entanto, foi duramente reprimida. Por quê?

a) Primeiro, porque aconteceu na área que, naquele momento, era tida como a mais preciosa da Colônia, do ponto de vista de Portugal, ou seja, a região mineradora de ouro, em tempos nos quais o Reino precisava desesperadamente das riquezas vindas do Brasil;

b) Além disso, ocorreu quando a independência das colônias inglesas na América do Norte já era um fato, de modo que a Metrópole lusitana tinha boas razões para crer na possibilidade de que, mais cedo ou mais tarde, a fome por liberdade política acabaria por alastrar-se pelo Continente Americano;

c) As casas reinantes na Europa tremiam diante do fato de que o ideário iluminista andava a espalhar-se como um verdadeiro incêndio que cativava as mentes mais esclarecidas e fazia supor que, também nesse caso, num tempo não muito distante, as velhas tradições ligadas ao absolutismo monárquico seriam varridas do mundo ocidental;

d) Finalmente, resta dizer que, enquanto na Europa acontecia a Revolução Francesa, no Rio de Janeiro era tirada a Devassa da Inconfidência. Era, pois, um tempo de pânico para as monarquias absolutas, daí a severidade da repressão e enorme encenação pública no ato da execução de Joaquim José.

O nome dado ao movimento, "Inconfidência", significa deslealdade, traição, um verdadeiro crime de lesa-majestade. Desde a independência do Brasil, ao longo dos anos do Império, houve uma atitude algo ambígua em relação ao movimento e à figura de Tiradentes, que mais tarde seria guindado à condição de herói da República. Todavia, o nome "Inconfidência Mineira" ficou, embora alguns prefiram chamá-la "Conjuração Mineira". De qualquer modo, temos um exemplo claro de como uma expressão pejorativa e condenatória em suas origens, acabou por ganhar outro sentido, à medida que o correr das décadas levou a uma reviravolta na avaliação que se fez e faz do movimento ocorrido nas Gerais em fins da penúltima década do século XVIII.


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terça-feira, 17 de abril de 2012

Quer um cafezinho, senhor? O princípio da agricultura cafeeira no Brasil

Cafezal na região de Serra Negra - SP
Na segunda metade do século XIX o café tornou-se o principal artigo de exportação do Império do Brasil, um fato que acarretaria consequências relevantes por muitas décadas, como resultado da dependência quase exclusiva desse produto como sustentáculo da economia do País.
Entretanto, o cultivo de café começou modesto e, embora poucos saibam, foi inicialmente mais importante na pauta de produção das capitanias/províncias do Nordeste que no Sudeste, como as estatísticas da época bem assinalam. No Rio de Janeiro era plantado em chácaras e quintais, quase sempre para consumo local, até que o crescimento da demanda internacional, com consequente elevação nos preços, tornou seu cultivo em larga escala mais interessante. Daí por diante, latifúndios cafeeiros, com mão de obra escrava, seguiram um caminho bem conhecido, espalhando-se pelo Vale do Paraíba em território do Rio de Janeiro, daí para o Vale do Paraíba na Província de São Paulo e então, no auge de sua importância, alcançou o chamado "Oeste Paulista", o que não exclui o fato de também ser cultivado no sul de Minas Gerais e, mais tarde, no Paraná.
O café era, inicialmente, plantado em meio às matas, embora isso possa nos parecer estranho, tão habituados estamos à ideia dos vastos cafezais, até onde a vista alcança, semelhantes a exércitos vegetais, com terreno dedicado exclusivamente à sua cultura. Há um trechinho anotado por Saint-Hilaire (no ano de 1822) que menciona esse fato:
"Rancho de Matias Ramos, 30 de abril, 4 léguas e três quartos - Sempre montanhas cobertas de matas virgens no meio das quais não é raro haver cafezais. Passamos por muitas fazendas importantes." (¹)
Há também um belo registro iconográfico, obra de Rugendas (²), no qual se vê a colheita do café. A paisagem facilmente denuncia o local: Bem próximo à cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. E, claro, no meio da mata.

Colheita de café no Rio de Janeiro, segundo M. Rugendas (²)

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 124.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 15 de abril de 2012

A visão da costa do Brasil, por viajantes de antigamente

"Neste dia", escreveu Pero Vaz de Caminha, referindo-se à data de 22 de abril do ano de 1500, "a horas de véspera, houvemos vista de terra. Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à Terra, a Terra de Vera Cruz". Embora seja perfeitamente possível que Cabral e seus companheiros de expedição não tenham sido os primeiros europeus, talvez sequer os primeiros portugueses que puseram os pés em terras brasileiras, é esse, no entanto, o primeiro relato formal que temos, ao que até agora se conhece, descrevendo o avistar do litoral brasileiro.
Da segunda metade do século XVII temos o registro feito pelo missionário Padre Simão de Vasconcelos, segundo o qual a impressão de navegadores e cosmógrafos a respeito do aspecto da costa do Brasil era esta:
"Quanto à vista exterior aos que vêm de mar em fora, depuseram aqueles capitães e cosmógrafos que não viram coisa igual no universo todo à perspectiva desta nova terra, porque ao longo parece uma glória o avultar dos montes e serranias, com tal compostura e altura que representam formar muito para ver, e sobem, parece, à região segunda do ar, levando consigo os olhos e os corações ao céu. À meia vista começa a aparecer o alegre dos bosques, campos e arvoredos, verdes sempre, e sempre aprazíveis. Mais ao perto, alvejam as praias formosas, e vão logo aparecendo nelas uma imensidade de portos, barras, enseadas, rios e ribeiras despenhadas, e com tão grande variedade, que é um espanto da natureza. De tudo disseram alguma coisa, que tudo não lhes era possível." (¹)
Infelizmente, há pouquíssimas imagens dos primeiros tempos coloniais, e o pouco que existe é grandemente devido aos artistas holandeses que andaram pelo Brasil à época do governo de Nassau. Somente no século XIX, quando a paisagem, ao menos na faixa litorânea, já havia sofrido importantes modificações, é que houve maior preocupação em fixar, através de desenhos, aquarelas ou gravuras, por exemplo, o que se via em terras do Brasil. Embora tardias, essas imagens são significativas por nos permitirem um estudo, por comparação, de transformações posteriores resultantes do processo de ocupação do território. Nas últimas décadas do século XIX os meios informativos tornaram-se mais abundantes, à medida que a fotografia passou a integrar o arsenal de  recursos disponíveis  para o registro de acontecimentos e lugares. Assim justapostos, desenhos, aquarelas e fotografias nos permitem analisar as graduais alterações na paisagem brasileira, principalmente em áreas de grande urbanização.
Para que se tenha ideia do que isso significa, estão a seguir três imagens, todas da primeira metade do século XIX (editadas para melhor visualização), conforme o registro por três diferentes artistas.

Vista do litoral da Bahia, por Rugendas (²)

Vista do alto do Corcovado, Rio de Janeiro, por Thomas Ender (³)

Vista da entrada da baía do Rio de Janeiro, por Debret (⁴)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 28 e 29.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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